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Esperei por ela durante longos três anos. Quando comecei a estudar, na Escola Estadual Dr. Fidélis Reis, em Uberaba, MG, minha primeira professora foi D. Zilda; tinha um jeitão de mãe, muito meiga e carinhosa. Não me recordo de ter tido problemas; a escola, com D. Zilda, foi um prolongamento da minha casa.

Encantei-me com uma garota, Eliana, e todo mundo dizia que namorávamos. Mas, eu sabia, minha paixão era outra. Havia uma professora morena, muito bonita e, sobretudo, charmosa (embora eu não soubesse, naquela época, o signifado dessa palavra). Vestia-se muito bem; no páteo, estava sempre com óculos escuros, o que lhe dava um ar misterioso e sedutor. Ela era linda e eu queria ser seu aluno.

Non ho l’età, non ho l’etá per amarti
Non ho l’età per uscire sola con te

No segundo ano primário, primeiro dia de aula, todos os alunos em formação, no páteo. Era o momento crucial; ali saberíamos quem seria nossa professora por um ano. Havia uma com fama de brava, outra muita feia, uma outra com ar de abandonada. Eu não comentava com ninguém; só ansiava por ela.

E non avrei, non avrei nulla da dirti
Perchè tu sai molte più cose di me

Não foi no segundo ano, nem no terceiro. Duas decepções que me dificultaram gostar das professoras de então. Não citarei nomes, ; não quero magoar ninguém pela paixão pueril que a moça morena, bonita, de voz cálida, sempre muito educada, despertara em mim. Até que chegou o quarto ano, o último naquela escola. Haviam duas turmas, logo, duas professoras. E, aleluia, foi ela a ficar de frente para nossa turma.

MARIA IGNEZ PRATA foi meu primeiro ideal de mulher e de professora. Exatamente nessa ordem. Não me esqueço de um perfume cálido e de uma voz suave, dizendo-nos que seríamos a melhor turma; os mais educados, os mais estudiosos, os mais tudo. Eu faria qualquer coisa para corresponder aos desejos dela.

Lascia ch’io viva um amoré romântico
Nell’attesa Che venga quel giorno, ma ora non

Creio ter sido só no quarto ano, já dentro de sala, que vi seus olhos, castanho escuros. Logo na primeira semana, veio o golpe fatal no meu pequeno coração. Ela entrou em sala de aula com um violão. Colocou a letra de Non ho l’etá na lousa e ensinou-nos a pronúncia. Disse que era uma música muito bonita e cantou, para que conhecessemos a melodia. Ensinou-nos a cantar. Me apaixonei de vez.

Gigliola, a jovem intérprete italiana

Pouco tempo depois assisti DIO COME TI AMO, o filme que a cantora italiana GIGLIOLA CINQUETTI fez, na esteira do imenso sucesso que começou quando venceu o Festival de San Remo, cantando Non ho l’etá;

É essa a primeira música que ela canta, no filme, após um mergulho na piscina. GIGLIOLA era quase uma adolescente. Minha professora, era muito melhor!

Non ho l’età, non ho l’etá
Non ho l’età per uscire sola con te

O ano transcorreu rápido, tranquilo. Fui o primeiro da sala; e não fui orador da turma pois, na outra sala, foi um garoto, e as professoras acharam melhor que, da minha turma, fosse uma menina.

Se tu vorrai, se tu vorrai aspettarmi
Quel giorno avrai tutto Il mio amore per te

Pouco me lembro do conteúdo que estudei, mas lembro-me de que minha mãe comentava que eu “estudava dormindo”. No meio do sono, contava ela, estava eu lá, dizendo: – “São Paulo, capital São Paulo; Pernambuco, capital Recife, Espirito Santo, capital…” O que nunca contei, era da minha preocupação em agradar D. MARIA IGNEZ.

Anos depois, minhas três irmãs tornaram-se professoras. Uma delas, WALCENIS, veio a trabalhar com MARIA IGNEZ, e, principalmente, com sua irmã, MARIA ABADIA PRATA. Nesses anos todos, nunca mais falei com minha professora. Dei notícias, por exemplo, fazendo questão de enviar a ela o meu primeiro disco.

Apesar das diferentes oportunidades, não me arrependo por não ter estreitado laços; instintivamente, acho que poderia quebrar-se algo. Prefiro guardá-la em meu coração, com a imagem que ela me propiciou: Minha professora ideal. Ela faleceu há poucos anos, mas nem por isso deixo de lembrar-me dela e creio sempre ser oportuno reverenciar sua memória.

Através dessa carinhosa mensagem, presto minhas sinceras homenagens a MARIA IGNEZ PRATA, aos meus mestres e aos mestres que hoje, na universidade, dividem comigo a responsabilidade da formação de centenas de alunos: REGINA, BRENGEL, CLAUDIA, ANDRÉ, VÂNIA, DEMA, LILIAN, ROGÉRIO, MÔNICA, ABUD, KARINA… e, antes que eu me esqueça de alguém, interrompo a lista.

Beijos a todos!

Em tempo: para quem não conhece italiano, a letra de Non ho l’etá, fala de um amor puro, que acontece cedo demais. “Não tenho idade para amar-te…”.

Até!

Nota Musical:

Non ho l’etá foi vencedora do festival de San Remo de 1964

(publicado originalmente no Papolog)