Tags

, , , , , , , , , , , , , , , ,

A primeira estação que conheci

Das memórias de infância tenho como preciosas as viagens de trem, freqüentes, que fazíamos de Uberaba a Campinas, com eventuais paradas em Ribeirão Preto. Era mais confortável e – lembro-me bem – não foi difícil viajar com o tronco envolto em gesso por um problema de coluna na adolescência. Podia andar entre um vagão e outro, passando pela primeira classe, a segunda, o carro restaurante… As janelas eram disputadas – não, não havia ar condicionado – e além da ventilação havia a paisagem. Conheci cada cidade, cada posto em que os trens paravam.

Mal o trem saia, duas personagens apareciam. O chefe do trem, que vinha verificar as passagens, validando-as e o garçom. Esse era o que eu mais esperava. Vendia refrigerantes, sanduíches, geléias e… refeições. Podia-se ir ao carro restaurante ou comer um “PF” básico, por preços acessíveis.

Das lembranças da estrada e suas respectivas estações, algumas mereceram especial carinho do garoto que fui. Em Jaguariuna, um barzinho com balcão que dava para a plataforma, vendia mexericas em cestinhas de vime. Era quase um fetiche e aguardava a chegada da cidade, da estação, com grande ansiedade.

Atravessar o Rio Grande era ganhar o mundo

As pontes sobre os rios eram atração a parte. A do Rio Grande, que nos trazia para o Estado de São Paulo, a de Mogi-Guaçu, passando pelo rio cheio de pedras, a ponte sobre o Rio Pardo… Há sinais de tiros da Revolução de 32, na ponte do Rio Grande, e já não me recordo o nome da ponte que os revolucionários, com receio de alguma emboscada, fizeram com que meu avô atravessasse com eles, sob ameaça de morte caso algo não desse certo.

Meu avô trabalhou 45 anos na Companhia Mogiana e depois, aposentado, morou em uma casa no bairro Taquaral, em Campinas, em rua paralela à estrada de ferro. Tios, primos, trabalharam em diferentes cargos, em diferentes ramais e estações.

E tem a história do Gavião: Como começou? Não se sabe e não há registro. E todo aquele que trabalhou na Mogiana, como garçom, costuma assumir a autoria do fato. Entre as estações de Ituverava e Canindé, outras vezes, na região de Aguaí, um gavião acompanhava o trem. Um garçom ficava com um pedaço de carne espetado em um garfo, esticando o braço para fora do trem, até que o pássaro conseguisse pegar a refeição.

“Meninos, eu vi!”. E era mágico. O trem noturno saia de Campinas por volta das 22:00 e chegava em Uberaba dez, doze horas depois. Portanto, era de manhã, antes do almoço, quando o trem ia em direção a Minas Gerais que o fato ocorria. Não tenho certeza de quantas vezes presenciei o acontecimento. Chegava no trecho habitado pela ave, o trem diminuía a velocidade e todo mundo corria para as janelas. A linha tinha muitas curvas e corríamos de um lado para o outro do vagão para presenciar o acontecimento. Foram anos com isso ocorrendo e houve momentos em que dois pássaros – pai e filho? – acompanhavam o trem. Há registros desse fato até 1977 e, repito, perderam-se os fatos de como tudo começou.

Antiga foto da estação de Campinas, hoje transformada em Centro Cultural

Essa história toda vem a propósito de uma entrevista dada por MARIO BENEVIDES, quinta-feira, ao PROGRAMA DO JÔ. Um velho garçom da extinta Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. A produção do programa, precária, não soube levantar os dados corretos sobre o percurso Campinas-Brasília, o Trem Bandeirante, como era chamado. Assim, quem viu o programa ficou no dry-martini que o garçom preparou e nas brincadeiras sobre os nomes dos filhos do mesmo. O programa pecou em uma informação fundamental: a linha existe, funciona para trens de carga, o que não existe são trens que transportem passageiros.

Resolvi escrever sobre o assunto porque é fundamental que possamos – sempre – reivindicar de todos os governos a retomada dos trens de passageiros, sem que a gente precise de uma Copa do Mundo para que isso ocorra. São mais confortáveis, ecologicamente corretos… e por ai vai. Perdemos os trens para a indústria automobilística e presenciamos hoje o caos urbano, as estradas cheias e perigosas, só para citar dois problemas.

Aqui escrevo habitualmente sobre música. Como os trens ficam nisso? Simples, ouçam “O Trenzinho do Caipira” (Heitor Villa-lobos), “Ponta de Areia”  (MILTON NASCIMENTO / FERNANDO BRANT) e tantas outras canções sobre o tema. Eu, como bom mineiro, gosto demais disso, Sô!

Isso é "Trem bão!"

(Publicado originalmente no Papolog)