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Ele se achava todo pimpão, poderoso, traçando a mulherada do pedaço. Quando no espelho via-se como galã de cinema. Gostava de fazer pose de cantor de tango; às vezes de boxeador ou, ainda, de bom moço, romântico. Sobretudo via-se como um belo galo.

Morava na Lapa, o bairro boêmio do Rio de Janeiro, no andar de cima de um sobrado, bem ao lado de um boteco freqüentado por sambistas. “Essa gente de samba!”, dizia ele com desprezo. Principalmente por conta de um branco, sujeito elegante e refinado. O que faria naquele boteco de samba? O fato é que o tal sambista chamava-o de Pato. E ele odiava ser chamado de Pato, assim como detestava lembrar quando surgiu o apelido.

Aurora, mulata de quadril bamboleante, ignorou o galo da lapa e, depois de meses de aparente paixão, foi flagrada com um caixeiro viajante, trocando fidelidade por vidros de perfume. Ele sempre suspirava ao lembrar o triste fato. Ah, Aurora…

Se você fosse sincera

Oh,oh, oh, Aurora

Veja só que bom que era

Oh,oh, oh, Aurora…

O abandono de Aurora foi público. Ele chorando no portão, tentando reter a mulata; o sambista não perdoou, cantarolando que “poleiro de pato é no chão”. Uma navalha daqui, um golpe de capoeira dali. A situação foi amainada pela “turma do deixa disso” mas, inevitável, o apelido ficou. Vaidoso, como o galo que achava que era, aprumou-se para nova conquista. Tinha sorte com mulheres. A mulata foi substituída por uma ruiva novinha, moradora do Rio Comprido, que trabalhava como copeira em Copacabana.

A nova namorada fazia jus ao mito de que mulher ruiva tem um fogo só comparado à cor do cabelo. Não é por ser copeira que não filosofava. E namorando um rapaz em cada esquina, cantarolava para todos eles:

…Se o amor só nos causa sofrimento e dor

É melhor, bem melhor a ilusão do amor

Eu não quero e não peço para o meu coração

Nada além de uma linda ilusão.

Quando soube ser um entre vários, tomou um porre e… Deixou vazar a história justamente no boteco vizinho. A moça gostava tanto da coisa que o convidou para brincar com mais dois rapazes. Ele fugiu, escandalizado.  O sambista lembrou o que já era sabido: poleiro de pato é no chão. Nesse dia não houve briga; o abandonado estava muito bêbado, praticamente nadando na cachaça.

Destino triste esse que só colocava mulheres traiçoeiras na vida daquele cidadão. Será que era castigo por ele ter abandonado Amélia? Muito jovem, ele queria conhecer os prazeres da vida e Amélia facilitou a primeira experiência. Viveram juntos, mas ele, galo, queria mais. E foi embora, abandonando a primeira namorada para ser traído pela mulata, dividido pela ruiva…

…Ai, meu Deus, que saudade da Amélia

Aquilo sim é que era mulher…

Lamentações só quando bêbado. Sóbrio voltava ao espelho e, aprumado, saia pra vida, para buscar novos amores. Na vizinhança deu falatório. Tantas namoradas sem segurar nenhuma. Volta e meia corneado ou simplesmente abandonado, amigavelmente dispensado… O sambista sentenciava: – não é galo, é pato!

Amélia reapareceu radiante. Madura ganhou formas fartas, bem proporcionadas. Portava jóias, sapatos e bolsa do mais fino couro e a roupa era coisa fina. E o pior, estava de braço dado com um sujeito que só podia ser doutor. Ninguém entendeu o que fazia aquela distinta senhora passeando pela Lapa. Desconfiaram quando ela voltou seguidas vezes. Um decote aqui, a fenda de uma saia, calças apertadas evidenciando a generosidade da natureza para com a bela mulher.

Ela lançava olhares, esboçava sorrisos. Ele, certo de que tudo era pra si, pagou uma alcoviteira para levar bilhete, marcando encontro para o dia tal. Cansado de tantas aventuras mal sucedidas iria reconquistar Amélia. Gastou horas no espelho, vestiu o melhor terno e, perfumado, foi para o local onde encontrou a antiga namorada nos braços do sambista. Amélia disse apenas, “meu filho, que se há de fazer?” Madrugada daquela noite, o primeiro namorado da mulher de verdade enchia a cara encostado no balcão do boteco. O sambista voltou cantando, triunfante:

… ai, ai, ai, poleiro de pato é no chão

Mestre pato fez poleiro

No coqueiro do quintal

Mas o rei do galinheiro

Achou isso desigual

Pois diz ele que o terreiro

É pro galo vadiar

Pato se quiser poleiro

Peça à pata pra arranjar.

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Este post é uma homenagem para Mário Lago, o compositor e ator que encantou todos nós. Nascido em 26/11/1911 e falecido em 2002, foi autor das canções citadas acima, relacionadas a seguir:

Aurora (Mário Lago e Roberto Roberti)

Nada Além (Custódio Mesquita e Mário Lago)

Ai, que saudades da Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago

Poleiro de Pato é no chão (Mário Lago e Rubens Soares)

Detalhes sobre a vida e obra de Mario Lago no site http://www.mariolago.com.br/