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Bem criança, um local mágico era a estação de trens de Uberaba, minha cidade. Íamos até à estação da Mogiana quando viajávamos para Araguari, ou Ribeirão Preto, ou Campinas. Também íamos esperar os parentes vindos desses lugares, buscar coisas que minhas avós ou tias despachavam em cestas de vime. Os trens que saiam de Uberaba em direção a Campinas tinham Amoroso Costa como primeira parada, depois Ameno, Calafate, Tangará; em Coronel Quito estávamos  na divisa com o Estado de São Paulo bastando, para isso, atravessar o Rio Grande.

Chácara dos Eucaliptos, foto by Valdo Resende

Do lado direito de quem seguia para São Paulo, ficava a "chácara do Dr. Abel"

O páteo da estação de trens, imenso, tinha em uma das extremidades a casa das máquinas, um local fantástico aos meus olhos de  criança. Era o local de manutenção das “Marias-fumaça” e das máquinas a diesel. Terminando o páteo, do lado direito de quem seguia para São Paulo, ficava a “chácara do Dr. Abel”.  Acabo de descobrir que o nome do local é Chácara dos Eucalíptos e que o Dr. Abel era um dos quinze filhos de José Maria dos Reis. Lamento, mas em toda a minha infância e começo da adolescência,  o local foi conhecido como a “Chácara do Dr. Abel”.

Eu sonhei em ser como o Dr. Abel por um único fator. Ele era dono de um “carro”, um vagão especial, destinado aos engenheiros da Mogiana.  Nunca entrei nesse tal vagão que só era acoplado em composições quando o Dr. Abel viajava. Diziam que havia um escritório, uma saleta, e as acomodações normais de um vagão de trens. Quer sonho maior? Primeira classe era pouco diante de isso.

Museu de Arte Decorativa - Mada - Uberaba - MG

O cheiro e o gosto de jambo... de visitas furtivas... A pintura é de Hélio Ademir Siqueira

A Chácara do Dr. Abel era um local visitado pela molecada das redondezas. Fortemente vigiada, tinha um pomar imenso. O único lugar conhecido que tinha jambeiro. Íamos em bando. A cidade, então, ameaçava aproximar-se do local, pelos lados do bairro Estados Unidos. Do outro lado da linha do trem, o nosso lado, ainda era tudo um imenso descampado.

Hoje o local tornou-se o MADA – Museu de Arte Decorativa, Casa José Maria dos Reis. Para a personagem da minha infância a honra de ter dado nome ao loteamento que substituiu a chácara: Residencial Dr. Abel Reis. A sede e algumas árvores do antigo pomar estão lá. No interior do velho casarão a pintura da sala de jantar é parte original da residência. Os demais objetos são do acervo do museu. Na parede oposta encontra-se uma imagem da chácara, em quadro de Hélio Ademir Siqueira.

Detalhe da sala de jantar

Visitando o Museu fui muito bem recebido pelos funcionários, atenciosos, guiando-me pelas dependências e confirmando uma história que circulou pelo bairro sobre os motivos das mudanças. Consta que os impostos sobre o imóvel eram altíssimos. A cidade, no final dos anos de 1990 já ia muito além da chácara e sem condições para manter o imóvel os descendentes da tradicional família Reis transformaram em madeira quase todas as árvores do local. Em seguida fizeram o loteamento e a antiga casa foi doada à prefeitura em acordo que legalizou o Residencial Abel Reis.

Situação similar ocorreu em Araguari, em chácara que pertenceu a meu avô paterno. Lá, infelizmente, nada foi preservado. Por essa e outras que fiquei feliz em visitar a antiga residência uberabense, agora aberta aos meus conterrâneos e aos turistas que visitam nossa cidade. O MADA – Museu de Arte Decorativa fica na Rua Maria de Lourdes Melo Coli, 30,  no Residencial Abel Reis. Uberaba, Minas Gerais. A entrada é franca e o telefone para confirmação de datas e horários de visita é (34) 3338 9409.

Meu avô paterno foi colega de trabalho do Dr. Abel; certamente teria outras histórias para contar. Também é certo que muitos moradores dos bairros Boa Vista e Estados Unidos terão causos sobre a chácara. Quem sabe não aparece mais algum registro por aqui, nos comentários? Vamos aguardar.