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Começar o ano falando em final do mundo… Tudo por conta de D. Jovelina, a simpática senhorinha do quarto andar. É a segunda vez que ela toca a campainha do meu apartamento. Como a vizinhança sabe que “trabalho com internet”, e que a “internet sabe tudo”, D. Jovelina queria saber quando seria o fim do mundo. “- Entra lá, querido! Veja a data, por favor!” D. Jovelina deixou a jovem lá pelos anos 70, ficou só a Jovelina… Esconde a idade e antes dizia sempre ter 55 anos. Um dia, no elevador, informei a ela que estava mais nova que eu. Semanas depois ela contou sua idade ao porteiro, em voz bem alterada; acho que queria que eu ouvisse. Aumentou para 58.

“- Para que saber o dia do fim do mundo, D. Jovelina?” A resposta foi rápida e óbvia:

– Quero fazer um monte de coisa antes de morrer!

– E se a senhora morrer antes do final do mundo?

– Que brincadeira sem graça, querido!

Resolvi continuar com a brincadeira “sem graça”:

– Uai, D. Jovelina, o negócio é para depois de amanhã!

– Valha-me, Deus! Só vou ter tempo mesmo é de ir para Aparecida do Norte. Tem certeza, querido? Meu coração está disparado, preciso de um copo com água. Você tem remédio para pressão? De repente, D. Jovelina aproximou-se dos 80, ou de algo que pareça com sua idade real. Uma velhinha com medo de morrer.

A primeira vez que D. Jovelina apertou a campainha queria saber de remédio para pressão. Percebi a idiotice da minha brincadeira, correndo o risco de ter uma defunta em casa por conta do final do mundo. Resolvi livrar minha barra da mentira boba.

– Espera, D. Jovelina, estou em site errado. Aqui estão falando de outra coisa, a data correta é 21.12.2012. Ainda tem muito tempo!

– O que diz ai, meu querido? Esqueci o óculos; você pode ler?

Pela primeira vez resolvi ler sobre o assunto. Nossa! Cada coisa! Tempestades cósmicas, asteroides e planetas, ETs, inversão dos pólos e uma infinidade de possibilidades que estariam na Bíblia, passam pelos Maias e vem até Chico Xavier.

Enquanto lia, D. Jovelina ia listando ações para antes do final do mundo: mandar rezar uma missa para a sogra, defunta antiga; ir em uma praia de nudismo; fazer uma grande comilança com todas as massas italianas; transar com o vigia do padaria da esquina, vender jóias e objetos de arte para levantar fundos – Para que, D. Jovelina?

– Nada pior que defunto pobre, querido! Tem que ter capital!

– Mas se o mundo acabar, quem vai usar essa grana?

– Alguém, ‘Seu Valdo”, sempre sobra alguém.

– E se esse alguém for a senhora?

– Veja aí a importância de garantir o dinheiro, querido!

Pensei em ponderar a realidade de tudo isso com a vizinha. Fazer o que? Ela acredita que os EUA mandaram fazer grandes caixões, que cabem quatro defuntos, para economizar espaço! De qualquer forma, para tranquilizar a consciência, insisti, lembrando uma antiga aula de teologia e tentando dar início a novo rumo na conversa: “- D. Jovelina, o mundo acaba quando cada ser humano morre.” Ela me olhou como se eu estivesse falando javanês. E fez um último pedido: “- Querido, não quero morrer sozinha; na véspera do dia 21, posso dormir na sua casa?”  Como um raio, caiu a ficha de um item da lista sendo dita: “na véspera, dormir de conchinha”. Minha paciência, normalmente curta, chegou ao limite: -“D. Jovelina, deixa de ser sacana e vá procurar sua turma!”

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A velhota saiu com uma cara amuada. E eu fiquei pensando em adiantar o final do mundo, antes de ter que “dormir de conchinha” com D. Jovelina. Ninguém merece!

Ninguém merece mesmo!!!