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Vivemos um momento histórico fantástico, onde a Internet promove encontros, aproxima pessoas. Faz pouco tempo, publiquei aqui um texto que já havia postado em meu blog anterior. Com o título  “Um garçom, um trem, um gavião“, recordei as viagens de trem, quando criança, com minha família. O que levou-me a tais recordações foi uma entrevista no Programa do Jô, com um garçom que trabalhou na Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. O senhor entrevistado foi um dos possíveis autores da façanha; trechos do que escrevi:

“Entre as estações de Ituverava e Canindé, outras vezes, na região de Aguaí, um gavião acompanhava o trem. Um garçom ficava com um pedaço de carne espetado em um garfo, esticando o braço para fora do trem, até que o pássaro conseguisse pegar a refeição.

… Chegava no trecho habitado pela ave, o trem diminuía a velocidade e todo mundo corria para as janelas. A linha tinha muitas curvas e corríamos de um lado para o outro do vagão para presenciar o acontecimento. Foram anos com isso ocorrendo e houve momentos em que dois pássaros – pai e filho? – acompanhavam o trem. Há registros desse fato até 1977 e, repito, perderam-se os fatos de como tudo começou”.

Gilberto Mussio, que ainda não conheço pessoalmente, é de Jaú, no Estado de São Paulo e leu minha publicação e comentou ter comprado de um fotógrafo uma foto, feita para um documentário e, nas memórias de Gilberto, o fato ocorria em Ipeuna. Voltando ao local, ele não encontrou a estação e acredita que o fotógrafo tenha se equivocado com o nome do lugar.

Caro Gilberto, posso afirmar que ele errou. Ipeuna não consta entre as estações, ou postos, da tronco ferroviário que liga Ribeirão Preto a Uberaba. A história da Mogiana é parte da história de minha família. Meu avô paterno, José dos Santos Vinagreiro,  trabalhou na estrada de ferro durante quarenta e cinco anos. Outros tios, muito queridos, tiveram a Mogiana como único emprego e até hoje, tenho primos que trabalham por lá. Esse “por lá” implica em uma vasta gama de ramais que ligam Ribeirão Preto a Franca, no Estado de São Paulo e estas a minha Uberaba, e a Araguari, ambas em Minas Gerais.

Quem terá outras imagens desse momento?

Fiquei emocionado ao receber a foto enviada por Gilberto Mussio e pedi autorização para dividi-la com os que leem esse blog, com meus amigos e familiares que têm muito de suas vidas e lembranças ligadas à velha e querida Mogiana. Atualmente, nas linhas entre Ribeirão Preto e Uberaba só trafegam trens de carga. Recordo-me ainda de quando anunciaram o fim dos trens de passageiros. Foi lamentável pelo descaso com um meio de transporte eficaz, barato e seguro, presente no mundo inteiro, mas que no Brasil foi esmagado pelo interesse de montadoras e de políticos interessados em receber benefícios advindos da indústria automobilística.

Como relatei anteriormente, e tive o prazer de constatar, vi  (e sendo criança, não tenho a menor condição de precisar a data) um gavião acompanhado por um filhote buscando a carne oferecida pelo garçom. E agora, fiquei pensando no último trem, em todas as pessoas que deixaram de ter uma condução confortável para suas viagens, e em um gavião perdido no tempo, sobrevoando a linha, esperando um trem que não voltou a passar.

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Grato, Gilberto, pela foto. Bom final de semana para todos!

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