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Há tanto barulho por aí! Motores por todos os lados e direções, buzinas, apitos, ranger de freios. Há sempre gente falando sozinha pelas ruas, agarradas nesses aparelhinhos enlouquecedores, ou falando entre si, discutindo, gritando, brincando ou brigando, mas sempre fazendo algum ruído, menor ou maior, sempre fazendo barulho.

Nessas horas sinto saudade de Uberaba, com suas tardes quentes, modorrentas, quando a população se aquieta e a cidade aparenta um imenso vazio povoado de pedras, asfalto e árvores.

Um silêncio beneditino, emanado do Mosteiro de N. Sra. da Glória

Tenho pensado no barulho enquanto incapacidade de muita gente em enfrentar o silêncio, confundindo-o com solidão. O que faço comigo mesmo? Susanita, personagem de Quino que é contraponto para a Mafalda, pergunta para esta em uma célebre tirinha: “- Diga-me, Mafalda, o que devo fazer com uma pessoa tão interessante quanto eu?” Mas, sabemos que não somos absolutamente interessantes. Há momentos de puro e singelo vazio. E aí, o que fazer? Face a face comigo, o que devo fazer; barulho?

Deveríamos aprender a meditar e, como alguns orientais, entrar em silenciosa sintonia com o universo. Nas escolas não nos ensinam reflexão, meditação; tanto na sala de aula, quanto em casa, fomos adestrados para calar, fundamentalmente nos “momentos impróprios”. Devemos nos calar quando alguém está triste, ou doente, ou com outro problema qualquer. Talvez seja por isso que confundimos silêncio com coisa ruim, com solidão.

Houve um tempo em que mascarava minha solidão com som alto, conversa jogada fora, horas e horas de assunto qualquer coisa em mesa de bar. Descobri que, na verdade, não sabia calar, viver no silêncio. Não sabia conviver comigo mesmo.

Um silêncio dominicano que vem da capela do colégio de N. Sra. das Dores

Quando faço cara feia diante do barulho sou chamado ranzinza; se reclamo, sou chamado rabugento. Só porque fico de saco cheio com tanto – desnecessário! – barulho. Muita gente coloca música não para ouvir, mas como cenário de fundo para conversas. Barulho em dobro. Muitas pessoas perderam a noção do que é estar em um local com mais gente e falam tão alto como se para todo o planeta. Triplica o barulho. E porque não conseguimos ficar em casa, convivendo com nossos silêncios, saímos por aí, roncando motores, tocando buzinas e, os mais surdos, ouvindo música altíssima; aqueles mais delirantes, dando cavalo de pau.

Tenho saudade dos silêncios de meu pai; sinto falta das horas de silêncio ao lado de meu irmão. Prefiro todas as pessoas que me entendem principalmente pelo olhar, pelos gestos, pela postura. Fico matutando se essas pessoas que falam sem parar são capazes de perceber a fala que há no olhar, nos gestos e na postura das pessoas.

É contraditório redigir tantas palavras para refletir sobre silêncio, sobre vazio. Escrevo, lembrando Clarice Lispector, em Água Viva: escrevo “como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra”, o seu silêncio.

Quando digo casa, penso nesta e em meus pais.

Termino voltando às tardes quentes e silenciosas de Uberaba. Absolutamente preguiçosas, pedindo horas de deliciosa sesta e, nesta, sonhar tranqüilo, com aquele momento perdido no tempo.

Um dia a tarde foi interrompida por dois irmãos que não mais moravam em Uberaba,. Eles registraram a volta da vida à rua, através de uma janela aberta pelos próprios pais. Simples assim; simples demais; talvez por isso nem se deram conta do tamanho da felicidade que é, em uma tarde de absoluto silêncio, ter os pais emoldurados pela janela da casa que chamamos lar.

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Até mais!

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