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Outro dia, Marilene Justino postou uma foto no Facebook e ficou evidente a ação do tempo. Era uma foto, de uma peça, feita em um ano que ninguém mais sabia qual. A imagem trouxe lembranças, fez-nos contatar pessoas distantes… A história é algo que se perde se não há registro. É a história de como o teatro entrou em minha vida, quando estava em um grupo de jovens e sonhava mudar o mundo.

Auto da Esperança Valdo Resende

O “Auto da Esperança”, teatro para um grupo de jovens.

Houve um grupo de jovens na Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Bairro Boa Vista, em Uberaba, MG. Surgiu na esteira dos movimentos de liderança cristã, inspirados na Ação Operária Católica francesa, buscando aproximar Igreja e juventude. Era a década de 1970. Os Padres Somascos nos deram espaço e apoio intelectual. O grupo estudava diferentes temas e participava de várias ações dentro da paróquia. Entre essas ações, anualmente fazíamos um encontro de aprofundamento, exclusivo para os participantes do grupo de jovens.

O “Auto da Esperança”, nossa primeira investida em teatro, foi um presente para os participantes do encontro anual de jovens. Ronaldo Feliciano de Assis ficou responsável por criar um momento teatral, em segredo, para ser apresentado no início da tarde. Um mês antes ele veio até minha casa, pedindo ajuda, pois nada havia saído do papel. Eu também não sabia fazer teatro; mas éramos jovens…

Uma colagem com base em Godspell e Sinal Fechado

Uma colagem com base em Godspell e Sinal Fechado

Em dezembro de 1975 ocorreu o encontro. Após o almoço foi preparado uma série de atividades lúdicas para o pessoal do grupo. A equipe “sumiu” entre uma brincadeira e outra, dirigindo-se para o salão de palestras onde ocorreria a apresentação. No local havia um anfiteatro, mas não nos foi permitido usar o auditório, muito menos o palco. Descobrimos, logo na primeira tentativa de montagem, que o mundo não é nada fácil para quem faz teatro.  Mas éramos jovens e… Estreamos utilizando grandes mesas de reunião como palco.

Uma colagem foi o que apresentamos. O filme Godspell (1973, Direção de David Greene), um musical da Broadway, adaptação do Evangelho de São Mateus, e o disco Sinal Fechado (Chico Buarque, 1974) foram as duas bases para nossa montagem, por nós denominada Auto da Esperança. Todo o pessoal envolvido manteve segredo e nossos amigos e demais convidados para o encontro foram surpreendidos com nossa apresentação.

Estreamos sobre mesa, mais saltimbancos impossível.

Estreamos sobre mesa, mais saltimbancos impossível.

Gostaria muito de coletar as impressões daqueles que participaram daquele momento, fundamental para a minha vida. O início de uma paixão que dura até hoje e, mesmo não sendo minha principal atividade profissional, o teatro é o canal através do qual me manifesto artisticamente. Neste exato momento estou com um novo texto, lá no querido e distante Pará, com montagem já em fase de produção. Estou no Pará; essa expressão possível porque um dia estive em Uberaba, com a Equipe de Teatro Nossa Senhora das Graças, fazendo o Auto da Esperança.

O teatro surgiu em minha vida dando-me uma grande lição, naquela agora longínqua tarde em minha cidade. A estréia do nosso grupo foi recebida com uma ovação espetacular, sucesso absoluto. A vaidade bateu forte e eu estava pronto para colher os frutos do sucesso. Escrevera o texto, escolhera as músicas, definira figurino, cenário… Eu era “o máximo”! Os atores foram abraçados, beijados, saudados como grandes naquele dia. Eu fui ignorado. Ninguém sabia o que eu havia feito. Não devo ter conseguido esconder a cara de decepção. Foi o Pe. Américo Veccia o único a cumprimentar-me após a apresentação. E aproveitou para dizer-me que eu considerasse que as pessoas presentes não estavam habituadas com autores, diretores e outras funções teatrais invisíveis.

Guardei o manuscrito e a cópia que, certamente, foi utilizada por uma das atrizes, Maria Amélia.

Guardei o manuscrito e a cópia que, certamente, foi utilizada por uma das atrizes, Maria Amélia.

Naquele dia, como era costume, o encontro terminou com uma missa. Durante essa, fui carinhosamente abraçado por todos os atores, por todo o pessoal do teatro. O segundo presente que recebi naquele dia. O primeiro veio com o aprendizado do teatro enquanto forma de expressão artística, não local para alimentar vaidades. Foi muito bom!

A semente cresceu. Entre os palestrantes daquele dia estavam professores da Faculdade de Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino, que nos convidaram para uma apresentação para o pessoal do curso de letras. Fizemos muitas outras apresentações, em diferentes lugares, a equipe já aumentada, alterada com a presença de novos colaboradores, como prova a foto de 1976, feita em Goiânia, após uma apresentação na cidade.

Fizemos peças para apresentações durante as cerimônias litúrgicas e outras montagens que foram apresentadas no bairro, em toda Uberaba e em várias cidades da região. Uma história singela que envolveu muitas vidas, determinando caminhos para muita gente.

O Auto da Esperança, Valdo Resende, em Goiânia

Da esquerda para a direita: Luis Albino segura os ombros de Maria Catarina. Walter, Maria Amélia Cruz, “Eulindo”, Marisa Helena Alves, Célio Heli Batista, Rubens, Maria Judite da Silveira. Embaixo: José Humberto Silveira, Marilene Justino, Daniel, Marluce Justino e Ronaldo Feliciano de Assis.

Eu gostaria de pedir aos meus amigos que fizeram parte desse trabalho para que registrassem logo abaixo, nos comentários, suas impressões e recordações dessa fase de nossas vidas. Um jeito de lembrar, uma forma de preservar nossa memória através de lembranças fundamentais do que fomos um dia, base do que somos agora. Pode ser que meus amigos não concordem, ou que não tenham as mesmas lembranças. Fazer o que; como diz o velho ditado, minha memória…

Entrou por uma porta
Saiu pela outra, quase nua
Quem quiser que conte a sua!

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Boa semana para todos!

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