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Entendo o fascínio de milhões de brasileiros pelo nordeste, com suas praias inesquecíveis e suas cidades paradisíacas. Todavia, penso que o melhor dessa imensa região seja a permanência de um Brasil meio perdido por aqui. É lá, no nordeste, que o carnaval é do povo, diz CAETANO VELOSO: “como o céu é do avião” e os Santos de junho, Santo Antonio, São Pedro e São João, dominam a paisagem, soberanos, em suas bandeiras multicoloridas.

santo antonio

Antônio querido

Preciso do teu carinho

Se ando perdido

Mostre-me novo caminho

Nas tuas pegadas claras

Trilho o meu destino

Estou nos seus braços

Como se fosse deus menino.

Ah, se eu tivesse um quintal! Certamente, no dia de hoje, teria já tudo preparado, esperando o dia 24 de Junho para hastear a bandeira em louvor ao Santo. É com o olhar de criança que recordo as bandeiras que, por eu ser menino, eram altíssimas. Cheias de fitas coloridas, soltas ao vento, e todo o entorno do tecido, com a imagem do Santo, recoberto com flores de cores vibrantes. Em algumas situações, deixavam-se gravetos, pequenos brotos nos imensos bambus, nesses fincando-se laranjas que, com seu amarelo-ouro, tornavam o mastro mais festivo.

Capelinha de melão

É de São João

É de cravo, é de rosa, é de manjericão.

São João está dormindo

Não acorda não!

Acordai, acordai, acordai João!

Na minha infância era assim. Dia 24 era o aniversário de tio João Batista. Isso significava uma grande festa que começava com o terço, seguia com o hasteamento da bandeira e acendendo-se então, a fogueira. Nesta, aconteciam os batismos, tão sagrados quanto aquele primeiro, feito quando ainda somos bebê. Eula, uma grande amiga de minha família, foi madrinha de meu irmão, Valdonei. Seguiu, pelo resto da vida, abençoando meu irmão e tratando mamãe por comadre.

Tio João era uma grande figura da nossa família. Com meu irmão frequentava os jogos de futebol do Uberaba Sport Clube, indo com freqüência ao estádio do Independente, do Nacional. Iam pelo prazer que o futebol propicia, ou pra ver meu primo, Poy, que foi goleiro do glorioso Uberaba Sport. Meu irmão era companheiro de Tio João. Este, senhor do chope em festas, sempre beneficiava meu irmão com alguns copos a mais. Nas mesas de truco, aprendi a vê-lo com malícia, tentando adivinhar quando ele blefava e, às vezes, assustando-me com os grandes murros e gritos inerentes ao jogo: – Truco! Seguido sempre de grandes gargalhadas, vantagens alardeadas. Uma figura assim, alegre e festiva, tinha o respeito e o carinho de todos. Sempre associei São João ao meu Tio João.

São João

Ah! São João, Xangô Menino

Da fogueira de São João

Quero ser sempre o menino, Xangô

Da fogueira de São João…

Nosso bairro, o Boa Vista, era todo festivo no mês de junho. No clube dos Ferroviários dançavam-se quadrilhas no mais puro espírito das festas juninas. “Seu” Escoura era o marcador, aquele que conduz o grupo, e tornou-se célebre, marcador sem igual. A quadrilha era precedida pelo casamento caipira. Longos desfiles com charretes enfeitadas percorriam as ruas do bairro, chamando todo mundo para os folguedos. Lembro-me de um caminhão, cheio de moças com seus vestidos de chita, coloridos, os cabelos cobertos com chapéus floridos. Em meio a tudo isso, alegre e feliz, minha prima, Maria, filha do Tio João, cantando e acenando pra toda gente.

Com a filha de João

Antonio ia se casar

Mas Pedro fugiu com a noiva

Na hora de ir pro altar

A fogueira está queimando…

Com o tempo, essas festas familiares foram acabando. Ficou, ainda por um tempo, a festa de Santo Antônio, lá em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, feita pela minha tia Olinda. Hoje não tem mais fogueira e, nas casas de meus parentes, de certo, é só o terço, rezado em lembrança ao Tio e em devoção ao Santo. Meu povo, ou mora em apartamentos, como eu, ou têm seus quintais impermeabilizados, com cimento que “deixa limpo”, mas que acaba com metade da poesia da vida.

Por lá, no meu bairro, e por aqui, onde moro, festa junina virou atividade de escola, festa de igreja ou de associação de bairro para arrecadação de fundos. No Nordeste, a festa é do povo. E é por isso que é grandiosa. Toda Campina Grande, na Paraíba, vive a festa, o mês; assim, e com a mesma grandiosidade, a festa ocorre em Caruaru, no Pernambuco. Isso sem contar as grandes festas do Boi que, do Maranhão, chegaram ao Amazonas, fazendo a grande festa de Parintins.

são pedro

A cor do meu batuque

Tem o toque, tem o som

Da minha voz

Vermelho, vermelhaço

Vermelhusco, vermelhante

Vermelhão…

De Açailândia, no Maranhão, guardo um presente com muito carinho. Um vídeo com as apresentações do BUMBA BOI DA MAIOBA, uma das maiores manifestações da festa do Boi, que reúne milhares de pessoas só em ensaios e chega à casa do milhão, nos arraiais da ilha de São Luís.

Passando por Imperatriz, também no Maranhão, vi admirado que quase todas as lojas do centro da cidade oferecem trajes das festas juninas: Vestidos, chapéus, camisas, calças… E nunca tinha visto tanta chita, milhares de metros de chita com seu colorido pra lá de tropical, aguardando compradores.

O Nordeste está em festa. O Norte também. É tempo de MARINÊS, de DOMINGUINHOSALCEU VALENÇA, ELBA RAMALHO e muitos outros, todos reverenciando o sanfoneiro maior, o grande LUA, LUIZ GONZAGA. Milhões de pessoas festejando, homenageando com muita fé e alegria esses simpáticos santos de junho.

Fagulhas, pontas de agulhas

Brilham estrelas de São João

Babados, xotes e xaxados,

Segura as pontas, meu coração…

Da janela deste apartamento, na minha amada São Paulo, e por onde passo, na paisagem da grande cidade, não há bandeira de São Pedro, nem Santo Antônio ou São João. Fogueira, só a de mendigos que em noites tenebrosas tentam vencer o frio. Por aqui, permanece a mania de soltar balões. Um grande perigo! Seria melhor que as pessoas levantassem bandeiras, dançassem quadrilhas, soltassem fogos de artifício. Que o forró dominasse praças e ruas; essa nossa São Paulo seria mais alegre e feliz.

Se Deus quiser vou-me embora pro sertão

Pois a saudade me aconselha o coração

Manda que eu vá convidar Dona Chiquinha

Para ser minha madrinha na fogueira de São João…

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Até!

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Notas Musicais:

Santo Antônio – J. Velloso

Capelinha de Melão – folclore infantil

São João, Xangô Menino – Caetano Veloso e Gilberto Gil

Pedro, Antônio e João – Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago

Vermelho – Chico da Silva

Festa do Interior – Moraes Moreira e Abel Silva

Pedido a São João – Luiz Gonzaga

(Valdo Resende/Publicado originalmente no Papolog)