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Avenida Paulista 2011

Natal da Paulista em 2011, já alimentando sonhos

Já são tempos distantes e há certa dificuldade em precisar detalhes, acertar datas, ordenar acontecimentos. São lembranças acumuladas na caixa dos “primeiros natais” que emergem quando chega dezembro. Não sinto nostalgia; guardo a impressão de não ter aproveitado o bastante por não ter tido, então, a possibilidade de perceber o quanto foi bom. Talvez, esse “bom” seja uma mera cilada do tempo…

Houve uma época em que a Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, lá em Uberaba, era só uma pequena capela sob os cuidados dos frades dominicanos. Não consigo recordar nome de nenhum padre de então… Após uma pequena pausa vem um nome, Frei Alberto Chambert, mas é só um nome do qual não me recordo o rosto. Tenho certeza é do estranhamento quanto à expressão “Missa do Galo” e de não ter a menor ideia do que seria um “presépio vivo”.

Era noite alta quando saímos para a capela e em um determinado momento da missa, onde não vi nenhum galo, apareceu um casal com roupa estranha, carregando uma criança. Um grupo de crianças aglomerou-se observando o casal. Minhas duas irmãs mais velhas estavam nesse grupo; com panos na cabeça, saias coloridas. Meu irmão e um vizinho estavam carregando pedaços de madeira e estavam com bonés. Pastoras, pastores, o menino Jesus, os Reis Magos…

Provavelmente foi Belinha a organizadora desse primeiro “presépio vivo” do qual me recordo vagamente. Ela foi desde sempre a responsável por momentos ternos, de suave lembrança, de tantos quantos tenham frequentado a capela, depois tornada paróquia sob o comando dos padres Somascos.

Não posso afirmar que tenha entendido toda a história narrada em meio a cantorias, sermões e preces na capela de Nossa Senhora das Graças. Sem ler a Bíblia, dominei detalhes da história do sagrado menino da mesma forma em que milhares de outros cristãos conheceram: através do artesanato popular.  “Seu Fumaça” era morador do bairro e trabalhava na cerâmica da cidade.Com imensa capacidade, o homem criava pequenas casas em argila, queimadas no forno da cerâmica. Essas casinhas viravam um vilarejo chamado Belém, montado dentro da sala de estar da família.

O presépio do “Seu Fumaça” e de D. Castorina eram grande atração natalina para todos os meus irmãos e primos. Era noite quando víamos a montagem que lembrava uma grande gruta, cheia de estrelas e luzes coloridas e, sob a gruta, a cidade com suas casinhas, sua gente, os animais e uma estrebaria onde ficava a sagrada família. Ficávamos horas observando um fio d’água que movimentava um monjolo. Quando cheio, este tombava a água e isto era algo como uma grande mágica.

Eram outros tempos e as Folias de Reis cantavam noite adentro, batendo nas portas das casas e, quando convidadas, entravam com suas músicas ternas, contando sob outra forma a mesma história ouvida na capela e vista no presépio. Batidas de tambor, a melodia acentuada no som da sanfona, cadenciada nas cordas de violas e cavaquinhos. Um solista, voz grave de barítono, contava uma história, repetida e acentuada pelo coro que alongava a última silaba, em agudo intenso, emocionado, cortado pelo som forte do tambor que marcava o retorno de outro momento da mesma melodia.

Depois, meus avós já não moravam em Uberaba, começamos a passar nossos natais em Ribeirão Preto, na casa da Tia Olinda, irmã mais velha de minha mãe.  Eu ainda acreditava em Papai Noel e achava fantástico acordar e ver alguns brinquedos ao lado da minha cama.

Nos natais de minha infância também havia brinquedos. Não sei quantas horas, meses ou anos divaguei brincando com minha carruagem puxada por quatro cavalos. Era um brinquedo de plástico que imitava as conduções dos colonizadores da América. Também viajei milhares de quilômetros imaginários com minha máquina “Maria Fumaça”, que apitava e tocava sino (Um prodígio!) assim como percorri outro tanto com meu carro amarelo ouro e lutei, ao lado de replicas de soldados da Segunda Guerra. Nesta, entravam carruagens, Marias Fumaças e todos os meus outros brinquedos.

É bom lembrar natais sem relação com consumo. Tive poucos brinquedos. É por isso que, com absoluta certeza, guardo a lembrança carinhosa de cada um. Guardei todos eles e só me desfiz dos mesmos já com 20 anos. Foi quando nasceu meu irmão caçula para quem, de bom grado, doei meus brinquedos de infância.

Natal de 2013! Se hoje eu fosse criança guardaria as lembranças das noites da Avenida Paulista, com seus prédios tornados locais mágicos. Também sonharia com as luzes que enfeitam ruas; com as projeções no Parque do Ibirapuera, a grande árvore, as águas dançantes. Ficaria na memória o motivo de tudo isso através de todos os presépios espalhados pela cidade. Esse é o maior encantamento; a história de dois jovens que sem conseguir hospedagem tiveram o filho em uma pequena manjedoura: Um deus menino que nasceu em uma noite, muito distante dessas em que vivemos.

Até mais!

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