Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , ,

Folia de Reis - Aquarela de Diógenes Paes

Folia de Reis – Aquarela de Diógenes Paes

Amanhã termina o ciclo natalino com a festa em homenagem aos reis magos Melchior, Gaspar e Baltazar. É mais um entre os vários aspectos poéticos que envolvem o nascimento do Menino Jesus. A sabedoria vem do oriente, diz um ditado. E é de lá que os Magos viajam até Belém para adorar o Salvador.

Na Argentina há um costume muito bonito em todo 6 de janeiro. Na véspera as crianças deixam alimentos ao lado de suas camas. É para que os Reis Magos tenham comida para a viagem rumo ao encontro com o Menino Jesus. Eles pegam os alimentos e deixam brinquedos; uma bela permuta. O Dia de Reis, lá, é um dia de troca de presentes. Gosto especialmente da simbologia, do aprendizado dentro da atitude. A criança deve pensar em oferecer algo, para merecer um presente dos Reis. As tirinhas da personagem MAFALDA, do cartunista QUINO, apresentam deliciosas cenas com as crianças em função desta data.

“Os devotos do Divino vão abrir sua morada

Pra bandeira do menino ser bem-vinda, ser louvada, ai, ai

Deus nos salve esse devoto pela esmola em vosso nome

Dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome, ai, ai”

(Bandeira do Divino – Ivan Lins / Vitor Martins)

Nesse período, no nosso país, recordamos o Evangelho de São Mateus que nos diz que os Magos do Oriente vieram seguindo a estrela. Saem na noite de Natal em peregrinação pelas ruas e bairros das nossas cidades. São as nossas Folias de Reis! Vão de casa em casa, anunciando a chegada do Filho de Deus. Sempre cantando pedem licença para entrar; fazem saudações aos donos da casa, contam a história dos Reis Magos e, antes do final, convidam para uma festa, em dia e hora estabelecidos, para a qual solicitam donativos.

“Os três Reis quando souberam

Viajaram sem parar

Com presentes do Oriente

Pro menino Deus saudar!”

(Hino de Reis – Baseado no folclore popular)

Em Uberaba, Celia Ferreira Peixoto recebe a Bandeira do Divino

Em Uberaba, Célia Ferreira Peixoto recebe a Bandeira do Divino

Guardo recordações de vários grupos de Foliões, tais como este na foto acima, gentilmente cedida pela querida Célia Ferreira Peixoto. Nas madrugadas de dezembro e no início de janeiro, em Uberaba, Minas Gerais, ouvíamos dois ou três grupos, cantando simultaneamente, nas residências vizinhas. Pela quantidade de grupos, e para que uns desfrutem da festa dos outros, as festas em louvor aos Santos Reis ocorrem em datas marcadas pelos patronos de cada folia; o dia de saída é rígido: 25 de dezembro.

Outro hábito praticado no Dia de Reis: Lembro-me de minha avó materna, costurando pequenos saquinhos com sementes de romã – Seis! – que deveriam ser guardadas durante todo o ano, dentro da carteira, para garantir fortuna. Sempre acreditei nas boas graças dos Santos e guardei fielmente cada “patuá” feito por vovó.

“Hoje é o dia de Santo Reis

Anda meio esquecido

Mas é o dia da festa do Santo Reis

Eles chegam tocando sanfona e violão

Os pandeiros de fita carregam sempre na mão

Eles vão levando, levando o que pode

Se deixar com eles, eles levam até os bodes…”

(A Festa de Santo Reis – Márcio Leonardo) 

As folias de Santos Reis têm suas leis, suas regras. Lá em Uberaba só vi homens cantando. O solista é sempre um barítono, com sua voz grave e marcante. No coro é peculiar estender a última nota, onde predomina a voz aguda, mas sempre de vozes masculinas. As mulheres acompanham o grupo carregando a bandeira, por exemplo; todavia, nunca presenciei nenhuma solista.

Nossa casa era visitada, sempre, pela Folia do “Seo Geraldo”. Papai recebia os foliões com respeito e devoção. Mamãe pegava a bandeira levando-a por todos os quartos e passando sobre nossas camas. Proteção e saúde! No final da apresentação faziam convite para a festa que seria feita com o dinheiro arrecadado nas visitas aos moradores do bairro. As festas de TONINHO E MARIETA ficaram famosas, fizeram lenda. Os familiares ainda preservam o costume. Nessas comemorações, um dos momentos mais significativos é a passagem da bandeira; a família que realiza a festa transmite a Bandeira do Divino para outra, que sediará a festa no próximo ano.

Gostaria de receber uma Folia de Reis aqui no meu apartamento, nessa São Paulo de todas as gentes. Acho que isso nunca vai acontecer; todavia, nada impede que eu guarde a lembrança e alimente a devoção. Acima de tudo aprendi com os Magos que a aparência esconde a real grandeza. Esta é a maior lição do dia: ver além das aparências. Em um estábulo, sobre uma simples manjedoura, nasceu aquele que veio para nos salvar.

Feliz dia de Reis para todos!

.