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O Tio Zezinho em dois momentos.

O Tio Zezinho em dois momentos.

Foi com meu Tio Zé que descobri a resposta para algumas adivinhas: “- O que é o que é: uma casa amarela, sem porta, sem janela, com uma porção de negrinhos (não se usava outra expressão na minha infância) dentro dela? ” Outra adivinha: “ – Tem bico e não belisca, asa e não voa…”. Passávamos horas juntos e ele, enxergando muito pouco, usava principalmente a fala para se comunicar com o mundo. Nessa época Tio Zé tinha sonhos e nesses, com certeza, o de ter seu trabalho, casar, ter filhos, constituir a própria família.

Nosso tio Zé (Jose dos Santos Vinagreiro Filho) não teve uma trajetória fácil neste planeta. Aos seis meses de idade perdeu quase toda a visão e, já homem feito, ficou totalmente cego. Viveu 78 anos e destes, 43, doente; mais recentemente praticamente imóvel sobre uma cama. Faleceu na quarta-feira e foi velado pela minha mãe e pelas minhas irmãs, cunhados, sobrinhos e amigos que o amaram sempre.

Foi em Uberaba que Tio Zé experimentou a liberdade de ir e vir, a autonomia em escolher amigos, a possibilidade de namorar, ter escolhas além do círculo familiar. Mamãe conseguiu colocá-lo no Instituto de Cegos do Brasil Central, que funcionava na Rua Marquês do Paraná. Na instituição ele fez muitos amigos e descobriu que a cegueira não o impediria de trabalhar e seguir em frente; aprendeu braile e trabalhou, no próprio Instituto, recolhendo de inúmeros associados, de toda a Uberaba, taxas que contribuíam para a manutenção do local. Tio Zé, que na época tinha cerca de vinte por cento da visão, aprendeu junto com um guia a conhecer quase todas as ruas de Uberaba.

Eram outros tempos… Tio Zé entrou no Instituto de cegos por insistência de minha mãe, já que meu avô não acreditava na possibilidade de autonomia do filho primogênito. Mamãe trouxe o irmão para Uberaba e em pouco tempo os resultados foram evidentes. O jovem aprendeu a ler rapidamente, dominou os rudimentos da matemática e, com certo orgulho, Tio Zé pedia o nome de uma rua qualquer e desfiava todas as travessas, do começo ao fim daquela. A convivência com os amigos trouxe também o cigarro, uma cachacinha de ocasião e possíveis namoradas. Aprendeu a amar Uberaba e, com certeza, foi uma das grandes tristezas de sua vida ter sido tirado do Instituto por meu avô, quando este já aposentado, após pouquíssimo tempo residindo em Uberaba, resolveu morar em outra cidade.

Campinas, grande demais se comparada com Uberaba, só fez aumentar em meu avô o receio de liberar o filho para o mundo. Um triste engano que resultou em frustração, revolta culminando na doença que não o deixou nesta vida. Meus avós voltaram para Uberaba, tarde demais para o tio Zé, que teve, todavia, a felicidade de voltar a viver na cidade amada.

O falante tio foi calando-se com o tempo. Deixou os casos, parou de cantar as músicas preferidas e ultimamente só trocava frases maiores com seus cuidadores. Entre esses, quero registrar a atenção carinhosa do Paulo Teixeira, o fisioterapeuta que batalhou para que o Zé mantivesse os movimentos mínimos; um sincero e especial agradecimento ao Sebastião Ferreira Filho, o nosso Tião, enfermeiro dedicado de todos os dias, anos inteiros, brincando enquanto realizava a delicada tarefa de assear um doente. Sobretudo quero manifestar minha eterna gratidão por todo o imenso trabalho de minha irmã, Walcenis, cuidadora de minha mãe e do meu tio, supervisionando o trabalho dos profissionais constantes e demais médicos e enfermeiros que mantiveram cuidados para com nosso tio. Minha irmã, por anos a fio, alimentou meu tio colocando em sua boca todas as refeições, chamando-o para a vida e tendo como resposta, em todos os dias, uma cantilena infinita, meu tio passando horas inteiras chamando-a sem cessar, pelo apelido doméstico: – Cidene, Cidene, Cidene, Cidene…

Noite triste e manhã silenciosa nesta sexta-feira. Um quarto vazio e, no outro, Walcenis cuidando de minha mãe, a vinda do enfermeiro, do fisioterapeuta e eu, aprontando-me para viajar de volta. A vida segue e nesse pequeno inventário de lembranças e carinhos reitero agradecimentos aos profissionais citados acima, que sempre tiveram atitudes carinhosas para com o Tio Zé. Também quero agradecer as orações de Eleusa Maria Borges, dos padres da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, Padre Benedito, Padre Américo Veccia, e, finalmente, aos amigos, vizinhos, parentes e familiares que comparecendo prestaram carinhoso gesto para com meu tio e de solidariedade para com minha mãe e minhas irmãs Waldênia e Walderez.

Dessa trajetória de 78 anos do Tio Zezinho quero finalizar lembrando a memória incrível que meu tio manteve, a despeito de todas as doenças. De manhã, quando perguntado sobre sonhos, indicava qual seria o bicho da sorte do dia; quando informado da data, lembrava o aniversário de todos os irmãos, todos os sobrinhos e ficava feliz esperando a comemoração, chegado que era em salgadinhos. Sim, meu tio gostava de festas, de salgadinhos, doces e, só pela saúde ficava distante de uma boa bebida. Fico pensando e rezando para que ele tenha uma festa maior, lá para onde foi e que possa seguir em frente, feliz, finalmente livre das mazelas deste nosso mundo.

Até mais.