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José de Arimateia recolocou o Filho no colo da Mãe. (Pietá. Artesanato Mineiro)

Noite de lembranças sombrias. Véspera de uma sexta-feira fatal. Muitos, por aí, deverão recordar nem que seja por alguns minutos da aflição daquele alguém que, ante a eminência de uma prisão e uma provável condenação, passou a noite em oração. Passada a Última Ceia resta a longa tortura da espera pelo fato já sabido, prestes a ser consumado. Houve uma traição, uma troca por trinta moedas. Há o ser que tudo sabe e há o homem, pobre homem, prestes a experimentar dores terríveis.

Quando criança esta era uma noite silenciosa. Temerosa, pois afirmavam haver castigos horríveis caso não guardássemos devidamente a Quaresma. Nada de carne, nada de festas. O período de recolhimento atingia seu pico na semana santa. Não me recordo e não me fez falta a presença de chocolate nesse período. Havia cerimônias religiosas com textos profundos, tristes. A Via Sacra fazia lembrar e memorizar cada momento dessa última noite do Deus humano entre nós.

A tarde da sexta-feira, então, era a mais sagrada de todas. Nada de rádio, nada de TV, revista, gibi, nada! Às quinze horas estava tudo absolutamente parado, silencioso. A lembrança da profecia cumprida; nós, humanos, responsáveis por uma crucificação. Havia os teatros, o canto triste de Verônica, o desespero de Maria e um último pedido de Filho para Pai: Perdoai-os!

A Paixão de Cristo é algo tenebroso. A morte de um inocente, vítima dos interesses de muitos poderosos; resignado ante a falta de percepção da maioria da população. Fico pensando nas torturas de então – chicotadas, coroas, pregos – e penso que o sofrimento é o mesmo se há choques elétricos, paus-de-arara, solitárias escuras. Coroando tudo a execração pública. Consigo pensar, consigo imaginar, mas não consigo dimensionar exatamente o sofrimento em tal situação.

Foi lá, no passado, quando velávamos esta noite, que passamos noites inteiras em oração, reflexão, em nome da fé e da necessidade de estar ciente do que o Filho fez para nos salvar. Paróquia de Nossa Senhora das Graças. Uberaba. Onde aprendi a respeitar e reverenciar todos os personagens da Paixão e, desde então, sempre refletindo sobre dois deles.

Simão de Cirene, que ninguém sabe ao certo quem foi, teria ajudado de bom grado ou o fez por ter sido constrangido? Ali, pelas ruas da cidade segue um homem coroado de espinhos, sangrando e arrastando uma cruz. Cai. Parece que não conseguirá seguir. Os soldados obrigam um espectador a carregar a cruz com o Condenado. O que teria passado pela cabeça de tal espectador, momentaneamente encarando as feições do inocente? Entre tanta gente… O que teria acontecido ao ajudante inesperado depois de terminado aqueles momentos de horror?

Outro momento. Um corpo inerte. A mãe, o discípulo, algumas outras mulheres ao pé da cruz. O sangue demorou a estancar? E a dor da mãe, vendo o filho ali, dilacerado? E é aí que aparece José de Arimateia. O homem que tirou o Cristo da cruz. Onde estavam todos os outros discípulos? Quem irá julgá-los? O que importa é que alguém foi até Pilatos e obteve a autorização para descer o corpo da cruz, minimizar o sofrimento da mãe e, por fim, dar um túmulo digno para o Mestre.

São passagens pequenas, mas essenciais. Esses dois personagens nunca me saem da cabeça. Simão de Cirene, o inesperado ajudante e José de Arimateia, que desceu o Cristo da Cruz possibilitando à mãe um último abraço, um derradeiro acalanto. Mediante o inevitável, colaboraram para minimizar e dar um fim aos acontecimentos tenebrosos daquela sexta-feira.

A noite avança neste 2016. Neste momento, lá fora há os bares palpitantes, com sua gente sempre barulhenta.

Boa Páscoa!