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D. Laura: pequenas ações que levaram outras mulheres para batalhas maiores

Sou parte de um grupo formado por homens que têm a própria mãe como parâmetro perante todas as outras mulheres. Em múltiplas situações penso quais seriam as consequências na vida de D. Laura, a minha mãe… Melhor que um perfil, há as histórias que nunca serão esquecidas.

Houve época em que era difícil viver no bairro Boa Vista, em Uberaba. A Avenida Elias Cruvinel, antigo corredor de boiadeiros, era também saída da cidade para Belo Horizonte.  Forasteiros, aventureiros e retirantes, além de mendigos e malfeitores estavam entre os que passavam por lá. A polícia aparecia em casos extremos.

Papai Bino ensinou mamãe a atirar. Simples assim. Uma lata plantada no meio do quintal e meus pais brincando de tiro ao alvo mandando que eu, bem criança, ficasse longe. Como desobedecer? Não vou saber a marca, o modelo; todavia, era uma arma capaz de dar dez tiros seguidos. Não demorou para que mamãe usasse tal aprendizado em defesa de nós, seus filhos.

Papai viajando. Durante o dia, brincando no quintal, quebramos o vidro da janela da copa e, até a volta de meu pai foi colocado um pedaço de folha de zinco, presa com um arame, fechando o buraco deixado pelo vidro quebrado. Não deu outra! Tarde da noite, mamãe e minhas irmãs foram acordadas por barulho de um possível assaltante tentando tirar a folha de zinco e, consequentemente, buscando invadir nossa casa.

Mamãe apontava a arma bem em frente à folha de zinco, ameaçando estourar a cara do intruso. Tensão total. Do outro lado, o sujeito mostrava dificuldade em tirar a proteção da janela. Para evitar um tiro no rosto do indivíduo mamãe foi até a janela da sala ao lado e, abrindo-a parcialmente atirou uma, duas, três vezes! Do outro lado ouviu-se a voz de um vizinho que, alcoólatra, devia pensar estar na própria casa. Saiu dizendo “-Não sou ladrão, não atirem!” e, resultado positivo, consta que o sujeito nunca mais bebeu.

Outra história. Volta das férias na casa dos avós, em Campinas. Mamãe com todos nós mais a irmã, nossa Tia Olinda, com os filhos. Duas mulheres e nove crianças viajando de trem, na extinta Companhia Mogiana. Em Ribeirão Preto, destino da tia e primos, despedida acalorada, foi o momento para que dois gatunos roubassem a carteira de minha mãe. Um passou e abriu a bolsa, o segundo tirou a carteira. Avisada a tempo, minha mãe partiu para cima dos dois assaltantes que, impedidos de sair por passageiros que entravam no vagão, foram retidos por mamãe exigindo e conseguindo a devolução do que nos pertencia.

Mamãe; uma mulher forte e corajosa.  Enfrentou batalhas maiores, cotidianas, para educar os filhos; trabalhou incessantemente para que os mesmos tivessem a possibilidade de frequentar boas escolas e fossem além da alfabetização, completando a formação escolar. Ela veio de um mundo onde às mulheres cabia obedecer, seguir o que era determinado por pais, maridos. Foi na contramão e impôs perante meu pai o desejo de que fossemos para o colégio. Mamãe batalhou bastante. Em alguns momentos a saúde faltou, mas logo depois ela já estava na labuta. O que somos hoje devemos à determinação de minha mãe.

Foram pequenas ações de mulheres lutando por sonhos e ideais que levaram outras mulheres a espaços mais amplos, para batalhas infinitamente maiores. Telma de Souza, Benedita da Silva, Luisa Erundina e, entre várias outras, Dilma Rousseff são exemplos de mulheres fortes e determinadas, lutando em arenas tradicionalmente masculinas. Além das lutas pelas propostas que as levaram à política percebe-se, frequentemente, a batalha maior perante uma sociedade machista. E elas seguem em frente.

Este texto não é político. É humano. Minha admiração por essas mulheres cresce a cada vez que as percebo enfrentando com dignidade e galhardia as atitudes machistas dentro e fora da arena política. Recordo as lutas cotidianas de minha mãe e de outras mulheres com as quais convivi. Lutas pequenas se comparadas às batalhas contra os desvarios interesseiros de políticos corruptos. Todavia, certamente como com minha mãe, as primeiras lutas dessas mulheres ocorreram dentro de casa, enfrentando pais, irmãos homens, maridos. Revejo o brilho do olhar de minha mãe no olhar dessas grandes mulheres; ouço palavras e constato a determinação de ferro.

Profundo respeito e gratidão eterna; o mínimo diante de gente assim. Para elas desejo momentos de puro carinho. Momentos, porque não terão trégua. Momentos, pois é certo que elas logo continuarão a lutar.

Feliz dia das mães!

Até mais.