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sal grosso 1

Você abre a porta da sua casa e atrás do seu vaso de flores encontra-se uma razoável porção de sal grosso. Vem junto a definição precisa: você sai do seu apartamento e atrás do vaso de plantas que você cultiva com carinho está o sal grosso que,após um olhar mais atento, estende-se sob a soleira da porta da vizinha, indo até o outro vaso, este sim de propriedade da dita cuja. Macumba? Feng Shui? Feitiço? Malefício? Benefício?

Do lado de fora da porta do seu apartamento está o espaço definido costumeiramente como área comum. O bom senso determinaria o estabelecimento de um acordo entre vizinhos antes de arrear um despacho ou similar. Antes deste raciocínio veio-me outra dúvida: Quem colocou a coisa e com qual intenção? E uma indignação: com que direito alguém transforma área comum em encruzilhada?

“- Calma, Sr. Valdo”, disse o porteiro, “sal grosso é para proteção contra inveja, olho gordo, mau olhado”. Inveja de quê? Quem lançaria um gordo e mau olhado sobre nosso singelo condomínio? O conflito foi inevitável. O mal tem que ser cortado pela raiz; o que viria depois do sal grosso? Galinha preta? Velas coloridas? Charutos ordinários (Alguém já viu charuto Havana em despacho?)… Sobrou para a senhora da faxina: – Quero tudo limpo! E ela: “- O ideal é que seja com água corrente!” E eu: “- Se a senhora conseguir desviar o córrego da esquina até aqui no segundo andar!”. Foi quando apareceu a vizinha.

Somos professores, o que já dificulta descobrir razões para inveja. Seria das salas lotadas? De centenas de provas e exercícios pra corrigir? Do famoso salário do professor brasileiro? Ou vai ver deixei de perceber alguma coisa, posto que moramos em apartamentos simples, daqueles que nem nos levantou dúvidas quanto a bater ou não bater panelas; esse hábito recente, é sabido, está restrito aos que usufruem de belas sacadas. Ainda mais, perdoem-me a indiscrição, mas a vizinha mora só. Será que há pessoas lançando olho gordo sobre gente solitária?

A senhora vizinha não gostou dos meus questionamentos e saiu pisando duro, quebrando a tênue linha formada pelas partículas de sal grosso. Eu entrei no apartamento, resignado com a obrigação de conviver com vizinhos acima e abaixo, a esquerda e à direita das “minhas” paredes. Da limpeza diante da minha porta não abri mão; primeiro porque a vizinha não justificou sua fé, segundo por acreditar que quando a intenção é duvidosa vale a premissa do inesquecível Nelson Rodrigues: “- Se macumba desse resultado  campeonato baiano terminaria empatado”.

Até mais!