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Laura Vinagreiro Resende, nossa mãe.

Deus me deu a graça de conviver por mais de 61 anos com minha mãe, Laura. E penso que minhas irmãs escreveriam frase semelhante; e tenho certeza que meu irmão caçula gostaria de mais tempo, muito mais tempo ao lado dela; assim como todos nós. Mamãe faleceu no último dia 27 e a sensação é de estarmos à deriva, sem possibilidade de lastro.

Situações desse tipo vêm carregadas de frases feitas, de fórmulas consagradas pelo uso, pela crença de cada um. E é justamente por isso que nada satisfaz, nada é suficiente para descrever quem ela foi ou expressar o que estamos sentindo. O tempo vai sendo ocupado com ações sem importância, mas vitais para que o pensamento não volte para os momentos de dor, as imagens derradeiras que relutamos em lembrar, que gostaríamos de esquecer.

Meus irmãos e eu, olhando para o corpo inerte de minha mãe… O que estaria passando pela cabeça de cada um? Ali estava a concretude do que nos une, do que nos torna irmãos, o que não implica em deixar de escancarar uma absurda solidão, advinda também da relação com que cada um estabeleceu com nossa mãe. Havíamos acabado de perder um ser único em nossas vidas com quem mantivemos laços peculiares, similares e absolutamente distintos.

Não consigo reduzir minha mãe a um perfil, um relato. Tive tempo suficiente para perceber nela várias mulheres. No hospital, mais que um médico me perguntou se mamãe havia sido fumante, ou se havia tido contato com fumaça ao longo da vida. Na memória veio forno e fogão à lenha, assim como também outro tipo de fogão, meio improvisado, sobre o qual eram colocadas grandes latas de alumínio cheias de roupas que, fervidas, ficavam brancas e esterilizadas. Nesse tempo, mamãe era uma jovem forte que lavava toda a roupa da família.

Esse fato suscitou outras recordações. Da companheira de meu pai, trabalhando lado a lado com ele no parque de diversões e, em consequência, da esposa ciumenta disposta a brigar com todo “rabo de saia” que se aproximasse do marido. Aliás, a ciumenta sobreviveu por longos e longos anos. Já idosa mamãe odiava uma mocinha que, simpática, dava bom dia a meu pai antes de entrar para o trabalho. Havia a protetora, disposta a mover mundos e fundos para favorecer uma amiga, uma prima ou, outro exemplo, o irmão. Este permaneceu ao lado dela enquanto esteve vivo.

Dona Laura, que frequentou só a escola primária, foi tomada de profundo amor pelo conhecimento. E se este foi limitado pelo pai, meu avô, ela não titubeou em transferir para os filhos a necessidade de estudar; também para os parentes, para os amigos. Estudar, para ela, era o que a educação é: a possibilidade concreta de mudança de vida, de ir além daquilo que se é. Tinha lá seus métodos e certa ou errada facilitou a educação formal dos seis filhos.

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Em todo e qualquer tempo, nossa mãe!

Conservadora, libertária, teimosa, voluntariosa, vaidosa… Nossa mãe! Quando menino achava que ela preferia meu irmão mais velho. Acho que cada um pensava que ela preferia o outro. Ciumentos! Como ela! Houve uma época em que ela, claramente, transparecia certa preferência por mim ou, pelo menos, é o que meus irmãos diziam. No entanto, vejo aquilo como a forma manifesta da proteção que eu carecia, para seguir em frente e ser quem sou; também por isso serei eternamente grato a ela.

Mamãe apoiava-se como irmã ou velha amiga em Waldenia, a filha mais velha, e entrava em crise quando Walderez, a caçula, se ausentava, tal qual amiga que não vive sem a outra. Com Daniel, o filho mais novo, passava horas e horas em completo conluio, cochichos infindáveis, restritos. De Walcenis tornou-se totalmente dependente e, para nosso exasperado ciúme, ela ficava desnorteada, desesperada pela menor ausência da filha que dela cuidou nos últimos anos. De meu falecido irmão, Valdonei, mamãe pouco falava. Sofria e chorava ante a menor lembrança dele, de meus avós, tios… E de meu pai, afirmava sempre e com a maior convicção: “- Sou mulher de um homem só!”.

Dificilmente meus irmãos concordarão totalmente com este texto. Dirão que falta tal fato, que esqueci outro, que deveria escrever sabe-se lá o que, que deixei de citar alguém…  Falta, com certeza, o que passou em suas cabeças enquanto olhávamos derradeiramente o corpo de nossa mãe. Também foi ali, durante o velório, que nossa amiga Eleusa iniciou uma canção, logo entoada por todos os presentes que, com certeza, conduziu-nos aos nossos primeiros anos, quando ouvíamos mamãe cantando na igreja, durante as tarefas domésticas, ou enquanto nos acalentava até o sono chegar:

Com minha mãe estarei

Na santa glória um dia

Junto à Virgem Maria

No céu triunfarei…

Creio que, como eu, ouvindo a canção todos os meus irmãos tornaram-se as crianças que mamãe cuidou com carinho, com firmeza e determinação. Naquele momento desejei que ela encontrasse a própria mãe e que eu, e meus irmãos, possamos um dia estar com ela, tal qual expresso na canção.

Até mais.