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Gosto de inventar histórias. Esta, abaixo, foi escrita há bastante tempo, para homenagear a Bibi, aniversariante do dia. Tava esquecida em arquivos não disponíveis. Vale a pena resgatar para, sobretudo reafirmar meu afeto e o título da história:

UMA BRASILEIRA NÃO DESISTE NUNCA!

vodka

Essa história rolou na calada, pouca gente soube e por ser esta uma ocasião especial chegou o momento de contá-la.  Em Uberaba, lá em Minas, junto com o mês de fevereiro chega um monte de garotas novas. São jovens ocupando vagas nas Universidades da cidade. Abre-se a temporada de caça para as novatas e a remarcação de território das meninas da cidade.

Ano passado chegou uma moça, como se diz por lá, metida à besta, uma fubá! Era de Barretos, São Paulo, e gabava-sede ser tão boa quanto qualquer peão se o assunto fosse copo. Não havia cerveja que a derrubasse! Tinha vindo pra Uberaba junto com uma prima, de Catalão, em Goiás, que também se gabava de derrubar toda a cachaça de um bar. Parecia ser esse o “marketing” das novatas frente aos rapazes uberabenses. As duas só entoavam música da banda SAIA RODADA.

Vamos “simbora” pra um bar

Beber, cair, levantar

Vamos “simbora” pra um bar

Beber, cair e levantar

Beber, cair e levantar…

Começaram a reinar nas noites de domingo, em frequentado bar da Avenida Santos Dumont. Tudo caminharia bem senão fosse pelo ato de beber e falar demais. Beber não era problema, mas falar pelos cotovelos… Certo dia, de cara cheia e língua solta, começaram a menosprezar as filhas da terra, afirmando que não haveria em Uberaba ninguém capaz de derrubá-las na bebida.

Mineiros, em geral, são quietinhos e, é conhecimento de toda a nação, dão um boi pra não entrar em uma briga e uma boiada inteira pra não sair. Estava armada a contenda. Tudo bem beber, tudo bem namorar alguns rapazes, mas menosprezar uberabense era demais! Foi tudo muito rápido. Mal as duas disseram as bobagens para que uma uberabense prontamente aceitasse o desafio, desde que a bebida fosse vodka.

A paulista de Barretos não titubeou em aceitar o desafio, muito menos a prima de Catalão. Segundo elas, traziam bebida antes mesmo da concepção, posto que os pais de ambas haviam tido PEPINO DI CAPRI como ídolo.

Champagne per brindare um incontro

Con te Che già eri di un altro

Ricordi c’era stato um invito:

Stacera si va tutti a casa mia…

A Uberabense caiu na risada com a história do champagne. Só poderia ter dado naquelas duas. Onde já se viu tanto romantismo estrangeiro! Cheia de orgulho familiar, a mineirinha contou que, desde o bisavô, o lema da família já tinha sido imortalizado por INEZITA BARROSO:

Pego o garrafão e já “balanceio”

Que é pra mor de vê se tá mesmo cheio

Não bebo de vez porque acho feio

No primeiro gorpe chego inté no meio

No segundo trago é que eu desvazeio

Oi, lá!

Estava claro que a contenda seria boa! Grande! Os rapazes rodearam as meninas, armou-se uma banca de apostas e até um sujeito, galã por conta de uma mãe mentirosa (Ela falou e ele acredita que é!), resolveu premiar a vencedora com ROBERTO CARLOS.

Amanhã de manhã

Vou pedir um café pra nós dois

Te fazer um carinho e depois…

A indignação foi geral. Entrar com café antes do porre? Se houvesse tido um ensaio não teria saído tão perfeito. As três bebedoras responderam e mandaram às favas o galã em uníssono, com a força do velho e ótimo CHICO BUARQUE:

Pai! Afasta de mim esse cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice…

E a mineirinha emendou, colocando o chato pra escanteio, quebrando tudo com o BARÃOVERMELHO, banda do coração da moça:

Embriague-se, embriague-se

De noite ou ao meio dia

Embriague-se, embriague-se numa boa

De vinho, virtude ou poesia…

O barman resolveu incrementar a contenda, dando uma rodada de graça para todos os presentes. Interessado em ampliar vendas criou, de imediato, uma primeira regra para as três concorrentes: aquela que fosse ao banheiro estaria fora do jogo. As duas forasteiras gabaram-se do título de “bexiguinhas de ouro” conquistado numa noite como aquela, na Festa do Peão de Barretos.

A segunda regra criada pelo barman foi baseada em célebre sucesso de ELIZETH CARDOSO. O início da peleja seria com a banda residente tocando “Eu bebo Sim” três vezes e a concorrente que tomasse a maior quantidade de tragos durante a execução da música, corresponderia a pontos na disputa. Portanto, não bastaria manter-se de pé; a vitória seria dada a quem bebesse mais durante toda a noite. E a banda mandou ver:

Tem gente que já ta com o pé na cova

Não bebeu e isso prova

Que a bebida não faz mal

Uma pro santo, bota o choro, a saidera

Desce toda a prateleira

Diz que a vida ta legal

Eu bebo sim…

A moça de Barretos tomou 19 doses e a de Catalão, 18. A mineirinha… 22. As três, nessa altura, encostadas no balcão, já tinham os olhos vidrados, a boca pastosa, as pernas bambas, a cabeça pesada. Nenhuma dava sinais de um possível abandono da luta.

Uma hora depois, com outras três garrafas esvaziadas a coisa parecia chegar ao final, quando bateu a falta de elegância. A caloura de Catalão pediu um balde e, vomitando, foi desclassificada. A moça de Barretos tomou ares de vitoriosa e a mineirinha resolveu fazer serenata para o próprio copo, embalando este e lembrando CAZUZA:

Benzinho, eu ando pirado

Rodando de bar em bar

Jogando conversa fora

Só pra te ver passando, gingando…

A expectativa crescia e, como todo mineiro é precavido, a ambulância já havia chegado preparada para tratar comas alcoólicos. A banca de apostas crescia e o bolo chegava perto dos dez mil reais, dinheiro vivo, metade destinada à vencedora. Percebendo a proximidade do fim, o barman,resolveu abrir outras quatro garrafas de vodka, garantindo com isso, mais quatro vendas. As meninas encararam e um imbecil lembrou outro imbecil, famoso nas transmissões esportivas, onde, em qualquer jogo, solta a pérola: – Dramático! É um jogo de vida ou morte!

Antes de terminarem a segunda garrafa, das últimas disponíveis, a moça de Barretos caiu sobre o copo, escorregando feito lesma chão abaixo. O bar inteiro ovacionou a mineirinha que, com um grito de “chega!”, calou todo mundo, emendando para espanto geral: -Gente, eu estou só começando!

Sem dividir as garrafas restantes com ninguém, guardando o dinheiro obtido na disputa em uma bolsa a tiracolo,caiu ao começar a quarta garrafa. Quando correram pra socorrê-la, outro grito: “-Pode parar que eu ainda não acabei”. E ainda com cérebro para lembrar-se de uma conhecida lá de Belém do Pará, soltou a frase que ninguém, presente no bar naquela noite, jamais esquecerá: “- Eu bebo até cair e quando eu caio bebo deitada, porque sou brasileira e não desisto nunca!”

Essa mineirinha lembra outra que faz aniversário neste dia 6. Certamente  BIBI não beberá tanto quanto a dessa história, mas que  vai beber, isso vai!

bibi

Feliz aniversário, Adryana Gabriela!

 

Até!