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O ciclo que permanecerá

Tenho sonhado muito com meus pais, meus avós, tios, meu irmão e outros parentes que já não estão neste plano. Também sonho com outros que continuam por aqui comigo, principalmente minhas irmãs. Sensação é a de que a família diminuiu, embora seja provável que tenha aumentado bastante. Na medida em que o tempo passa vou me sentindo mais isolado e, com isso, tenho percebido que as ondas familiares são formadas na relação de irmãos.

Minha avó, Maria, tinha como irmãs as queridas tias Aurora, Amélia, Palmira e os tios Antônio e Manuel. Todos casados e com filhos, os nossos primos. Bem verdade que vovó e seus irmãos tinham primos e tios, além dos nossos bisavós; mas, o ciclo do qual tenho maiores lembranças é desse, ligado diretamente à minha mãe. Eu, no meio desse povo todo, era o caçula da Laura. Entre os tios minha preferência era por Tia Aurora. Uma ligação filial, carinhosa, que permanece mesmo após o falecimento dela, já que ela aparece sempre em meus sonhos.

As irmãs de Laura, minha mãe, foram Olinda e Isaura. Albino e José os irmãos. Esses dois não tiveram filhos e tia Isaura teve uma filha já na maturidade. Tia Olinda teve cinco filhos, meus primo-irmãos. Os outros primos, aos montes, são frutos dos primos de minha mãe. Aqui entra a geografia, colaborando em proximidades e distanciamentos. Uberaba, São Joaquim da Barra, Ribeirão Preto, Orlândia, Campinas… lugares onde estavam todos os parentes. Para todos eles eu permaneci menino, o filho menor da Laura, que só reapareceu com o advento da internet, o Orkut, o Facebook.

Tanta gente querida! Tento resgatar as risadas gostosas das tias Amélia e Palmira, a delicadeza e o carinho da tia Aurora, o jeito brincalhão do tio Manoel contrapondo com a formalidade do Tio Antônio. Vejo-me criança observando a todos, ouvindo todo mundo. Raramente falando, pois naquela época criança entrava pouco em assunto de gente grande. Com os outros tios, irmãos de minha mãe, já foi diferente. Tia Olinda, por exemplo, tratava-nos, antes de qualquer laço, como amigos. Trocava impressões, confiava sentimentos. Tio Nino, o Albino, brincava feito moleque com meus irmãos. Minha primeira recordação dele é de estar em seu colo enquanto ele pulava corda.

O outro lado, da família de papai, ficou mais distante; lá pelos serrados de Minas e Goiás. Mesmo mantendo relações afetivas, nunca fomos próximos. A família, vejo agora, fechava-se nos laços estabelecidos pelas mulheres. Gravitávamos nas famílias das tias, muito mais do que nas famílias dos tios, maridos delas.

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Eu, a criança com cabelo claro entre meus avós.

Tempo, tempo, tempo… muita gente crescendo e tomando seu rumo. Os mais velhos indo embora de vez, permanecendo em fotos, em lembranças e sonhos. Cada ramo da nossa imensa família foi criando outros ramos, novos laços, outras famílias. Recentemente reencontrei Maria, a filha mais velha da Tia Amélia. A emoção maior foi rever nela o semblante de minha avó e, pelo que sei, ela viu em mim os traços de minha mãe. A afeição é imediatamente restabelecida. Somos família! E assim somos, mesmo que os encontros sejam raros e, mais frequentemente virtuais. – Modernidade! criticariam os mais velhos.

Com meus irmãos sinto o continuar desse eterno ciclo familiar. Vou chegando na outra ponta, a dos mais velhos, olhando para alguns sobrinhos-neto como um dia me olharam. São crianças, filhos dos meus sobrinhos, distanciando-se na ausência da convivência. Essa mesma convivência que, embora truncada, é o que faz com que a família formada por minha mãe permaneça como tal. Fico feliz vendo as relações entre meus sobrinhos, irmãos que prosseguem dando sentido a esse mundo.

Entre o eu que fui para todos os que já se foram, o eu que vive entre os vivos e o eu, quase desconhecido para os mais novos está um eu “universal”, aquele pelo qual me denomino, que pode ser o menino conduzido pelo avô no passeio vespertino, ou o filho caçula cuidado pelo pai, acariciado pela mãe. O mesmo eu que recebeu proteção da tia avó e dos irmãos mais velhos, que teve primos como companheiros e primeiros grandes amigos.

Gosto dos meus cabelos brancos, tão brancos quanto foram os cabelos de meu avô e da Tia Aurora. Gosto de sorrir com a mesma calma que a Tia Olinda e adoro contar histórias, herança de todos os tios que me antecederam. E no meio de tudo isso, entre todas as lembranças que emergem a cada palavra que escrevo, vejo-me menino, entre essa gente toda, tornando a ser criança agora, quando percebo nada saber e pouco entender dessa vida que, volta e meia, completa-se nos sonhos onde caminho novamente com todos aqueles que me auxiliaram nos primeiros passos.

Feliz dia das crianças para todos!

Até mais!