Quintais! Imbatíveis entre os espaços criativos na infância

Ah, os quintais de Uberaba! Ainda hoje minha cidade é bastante arborizada e, me parece, há mais árvores em quintais que nas vias públicas. Mangueiras, jabuticabeiras, laranjeiras, mamoeiros, tamarineiros… A cidade é um imenso e variado pomar. Sem contar a grande quantidade de árvores ornamentais que perfumam, embelezam e dão sombras aos meus conterrâneos.

papai
Meu pai no quintal com os netos, Andreia, Thiago, Alessandra e Luis Alexandre.

Da casa onde cresci guardo lembrança de laranjeira carregada, goiaba caindo de madura e das primeiras experiências de cultivo de flores e hortaliças. Ao lado da casa de meus pais moravam meus avós maternos, onde havia, entre muitas outras plantas, uma horta, um pinheiro, uma parreira com saborosas uvas verdes e, no jardim, entre folhagens e flores, dois pés de café. Plantas chamam pássaros, larvas que se transformam em borboletas, tanto quanto terra é abrigo de formigas e outros bichos. Um exemplo concreto de meio ambiente bastando para vivenciá-lo sair da cozinha para o quintal.

Um quintal de terra batida – o que se consegue aproveitando a água com sabão com que a roupa era lavada – é um espaço de sonho e liberdade. Com Valdonei, meu irmão mais velho, criava imensos roteiros de uma ferrovia feita com latas retangulares. As maiores, embalagem de óleo, eram locomotivas que puxavam inúmeros vagões de carga, feitos com latas de sardinha ligadas por engates de arame. O pé de goiaba era sempre vigiado, esperando que seus galhos formassem uma forquilha, ideal para estilingue. Nada mais resistente que um galho de goiaba, daí também o imenso medo de levar uma surra materna com tal madeira.

Escalar qualquer árvore é tarefa para experts. Buscar um mamão é tão difícil quanto um coco; se tiver úmido, o galho da goiabeira é escorregadio. Melhor exercício para subir em árvores é quando se tem uma mangueira no quintal. Havia uma mangueira, imensa, na casa da minha tia Aurora. Com meu primo Beto passávamos horas lá em cima, conversando, vendo o tempo passar e, na época propícia, “chupando manga no pé”. Aliás, quando assunto é subir, quintais oferecem várias possibilidades para que se possa atingir o telhado.

Uma imensa caixa d´água, suspensa sobre colunas em forma de cruz, ficava próxima ao telhado e era por ali que eu alcançava o telhado da nossa casa. Levava brinquedos, gibis ou simplesmente ficava lá, vendo o tempo passar. No tempo de chuvas meu pai ficava doido, pois além do perigo da escalada há o problema das telhas molhadas se quebrarem com facilidade: – Desce daí, moleque!

Com chuva, a gente brincava primeiro nas poças d’água, depois no barro. Só depois, fase seguinte ao quintal, é que fomos para a rua, chapinhar em poças e caminhar nas enxurradas. Enquanto essa fase não chegou, restava ver o céu escurecer e a chuva cair, em suas várias intensidades, formando pequenos rios que cortavam o quintal, deixando aqui e ali pequenos lagos, onde os pingos vindos do céu formavam efêmeros pirulitos. Era momento de meditar via janela, observando o céu, aprendendo a conviver com o tempo e suas transições.

daniel
Wander, meu irmão caçula, aproveitando o mesmo espaço onde brinquei 20 e alguns anos antes.

Chego até aqui percebendo que ficaria horas escrevendo, preenchendo páginas e páginas de lembranças. Todavia, o objetivo deste texto é alertar para a necessidade de um espaço de liberdade para toda e qualquer criança, para que ela possa aprender a conviver com o ambiente, entre plantas, pássaros, insetos e animais domésticos. Poder construir seus brinquedos, adquirir habilidades para reconhecer o ciclo das plantas ou para escalar árvores, entre outras possibilidades.

Terra não é sujeira. Sabe-se lá quem colocou tal pensamento que levou muita gente a impermeabilizar todo o quintal. Coberto com cerâmica ou cimento, um quintal propicia outros brinquedos, é certo, mas não dá para fazer buraco e ficar matutando quanto tempo levaria para chegar ao Japão. Nem dá para plantar uma semente qualquer, vigiando ansiosamente o momento em que, milagre, da sementinha surja uma plantinha que cuidaremos com carinho e dedicação.

Na falta de terra, fazer o que… Descobrir as vantagens do cimento e da cerâmica. Pior ainda é quando não se tem o quintal. As limitações de espaços coletivos – chamam de playground o quintal dos edifícios – são reais e os tais “chiqueirinhos” de apartamentos são viáveis só para os bem pequeninos. Impossível cogitar de impedir casais em apartamentos de serem pais, mas é vital alertar do quanto é necessário destinar um espaço para as crianças. Aquele local que a criança chamará de seu.

Quartos com cabanas, barracas, também podem conter balanços, escorregadores e um cantinho de terra, tipo caixa de areia mesmo, para a criança experimentar, entrar em contato com barro, terra seca. E mais, uma amiga, Vania Maria Lourenço Sanches destinou uma parede de sua casa para os meninos. Pintaram, rabiscaram muito, coloriram, pregaram coisas… João Luiz e Antônio Gabriel picharam, grafitaram tudo a que tinham direito. Talvez por isso não tenham tido a necessidade de sair por aí, pichando a cidade.

Outra amiga, moradora de apartamentos, Márcia Gomes Lorenzoni defendeu o espaço do filho Jonas e levava consigo o “quintal” do garoto. Visitando minha casa – também a de outros amigos – Márcia trazia uma imensa toalha e uma sacola cheia dos brinquedos do menino, entrando em acordo com ele ao montar o “quintal” na minha sala: “- Você brinca aqui enquanto a mamãe conversa com nosso amigo”. Um quintal itinerante, enriquecido pelas diferenças cenográficas da decoração de cada pessoa visitada.

Quintais, playgrounds, quartos de apartamentos… O fundamental é haver um espaço onde a criança possa exercitar a imaginação, testar habilidades manuais, descobrir coisas, remexer trecos e cacarecos. Se possível, facilitar espaços diferenciados tipo uma semana de quintal para quem vive em apartamento, um sítio para quem vive na cidade, uma praia para quem é do interior. Os primeiros espaços nos dão visões de mundo e nos propiciam experiências inesquecíveis e válidas por toda a vida e é assim que devem ser considerados. Estimulam nossa imaginação, levam-nos à experimentos diversos, alimentam nossa curiosidade e dão-nos alegrias em realizações diversas; enfim, colaboram profundamente para que venhamos a nos tornar pessoas saudáveis e criativas.

Até mais!

A reprodução de partes ou de todo o texto deve obrigatoriamente mencionar a fonte e o autor.

ATENÇÃO: O texto acima permeia o conteúdo do curso CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO NO AMBIENTE CORPORATIVO que será realizado no dia 19 de outubro de 2019 no Hotel Matsubara, em São Paulo. As inscrições estão abertas e os detalhes sobre o curso estão no site www.competency.com.br

Siga este blog. Curta e compartilhe!

 

2 comentários sobre “Quintais! Imbatíveis entre os espaços criativos na infância

  1. Maria Valdete Leite

    Oi Valdo! Apareceu vc no Facebook com esse texto delicioso. Por coincidência vivi em Uberaba em 1970 , tinha 7 anos e esse ano escrevi um livro com histórias de família e receitas. Está na revisão. Várias das histórias tiveram a cidade de Uberaba como palco. Morei numa rua bem cumprida, se não me engano era Rua Dr. João Fernandes… a família de minha mãe é de Uberaba também…. abraço… nos falamos mais depois…. fiquei feliz de encontrar seu texto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s