Aprendiz de narrador

Sempre sonhei escrever, tornar-me escritor. Guardo alguns textos que escrevi quando bem jovem. Resolvi compartilhar parte de um, abaixo, escrito em 02/07/1973 quando morava com meus avós, em Campinas, no interior de São Paulo. Os originais estão bem conservados e, assim mesmo, não resisti a pequenas alterações, um vício em tentar melhorar.

PARA COMPOSIÇÃO

O MORTO

Aqui em frente à casa dos meus avós, do outro lado da rua, existem duas linhas paralelas. Sobre elas passam diariamente vários trens; é a linha da Fepasa. São grandes composições de cargas ou passageiros. São mercadorias levadas para o interior, ou matéria-prima vindas para a industrialização. Às vezes, quando sentado sobre o gramado do pequeno jardim, ou da janela do meu quarto, observo as máquinas possantes, puxando enormes vagões. Fico imaginando o destino reservado a cada pessoa, a cada mercadoria.

Quando essa rotina do vai-e-vem é quebrada nunca é por coisa boa. Os trens não se atrasam por esperar pessoas; é sempre por ter havido algum desastre. Um descarrilhamento ou uma catástrofe maior ainda. Nunca havia pensado na possibilidade de acontecer algo aqui em frente, mas aconteceu.

Na última sexta-feira, de manhã, fui acordado por um estrondoso barulho provocado por uma enorme composição de carga, puxada por três locomotivas. Fiquei chateado com a perturbação feita pelo som estridente de freios e fui ver o que estava acontecendo. O maquinista e o foguista, assim chamado devido à antiga função de abastecer as antigas Marias-fumaça, haviam descido e olhavam tudo à procura de algo. Em poucos instantes surgiu um grupo de pessoas, tão curiosas quanto eu, desejosas de saber o que é que estava acontecendo.

“- Eu tenho certeza”, dizia o maquinista. “Havia um homem entre os trilhos. Foi atropelado”. Pelas laterais não havia sinais de nenhum corpo, mas logo foi dado o alarme: “- Está aqui! Sob as rodas do primeiro vagão”.

Senti náuseas ao constatar o estado em que um homem se encontrava, todo cortado e quebrado. Seus miolos estavam esparramados, suas pernas, cabeça, braços, todos cortados e encontrados ao longo das rodas do vagão. O tronco havia sido aberto, todo o aparelho digestivo à mostra. Os órgãos sexuais também estraçalhados, um espetáculo sinistro. As roupas rasgadas e tiradas do corpo, estavam presas nas ferragens e o infeliz permaneceu nu, exposto ao olhar de curiosos.  Foram longas três horas de um show triste.

Primeiro veio a polícia, depois a perícia; o corpo de bombeiros e em seguida, para encerrar o desfile das corporações municipais, a perua de uma empresa funerária. Os homens colocaram luvas para recolher o que restava de um corpo ainda jovem. Os restos mortais foram depositados em uma caixa ordinária, de madeira bem vagabunda, provisória, até que algum parente fosse notificado e tomasse as medidas necessárias.

Os funcionários e as autoridades retiraram-se tranquilamente. O trem saiu lentamente e sobrou especulações. Um acidente? Bem próximo havia uma trilha, conduzindo ao outro bairro, do outro lado. Foi suicídio? Uma senhora afirmava que sim…

rua ari barroso

(Na minha imaturidade prossegui, julgando o ato do infeliz, sem mesmo ter a certeza do que realmente causou o atropelamento. Conclui meu texto pensando em fé, caridade e dirigindo uma oração ao morto, o que repito hoje, 46 anos depois. Para registrar, a rua citada é a Ari Barroso, esquina com a Rua Antônio Bonavita, no bairro Taquaral. A imagem acima é do Google, de como a rua está hoje, sem as linhas da estrada de ferro).

Até mais!

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