Maria Dalmácia e Tueris Fustado, flores paulistanas

Morar na Avenida Paulista, no começo da década de 1980, tinha certo charme. Mesmo que este tal charme (segundo uma definição de quando eu era adolescente, charme é aquilo que tem as mulheres de seios grandes!) seja indefinível ou algo que esteja, ainda que tardiamente, no inconsciente coletivo.  Para quem era novo na cidade e não distinguia bairros, subúrbio, cidades satélites, a possibilidade de residir na Avenida Paulista era o máximo!

O Baronesa de Arari, as árvores do Trianon, em frente ao MASP

Pelas tramas do destino iríamos morar no Edifício Baronesa de Arari. Tudo de bom! O prédio fica na Avenida Paulista, esquina com a Rua Peixoto Gomide, com todo um lado voltado para o Parque Trianon e, de quebra, do outro lado da avenida está o MASP, o Museu de Arte de São Paulo. E isso é só um pequeno aspecto da geografia da região.

No Baronesa de Arari morou a lendária atriz Cacilda Becker com o marido, o também ator Walmor Chagas. Consta que lá foi o lar de Sérgio Cardoso, outro ator que entrou para a história do teatro nacional. Não bastasse essa trindade de semideuses do teatro, estão no histórico do edifício o pianista Pedrinho Mattar e Elke Maravilha; esta dando um toque pop ao ambiente.

Lógico que não tínhamos idéia dessas coisas. Assim como não sabíamos que o Baronesa de Arari foi o primeiro edifício residencial da avenida, e que herdou o nome de distinta nobre, D. Maria Dalmácia, da estirpe de indivíduos raros, os  ditos “paulistanos quatrocentões”. Pepê, minha amiga, conseguira alugar um apartamento com três quartos; com ela e outros dois amigos, dividiríamos a moradia na “ala nobre” do edifício, já que a outra, com quitinetes, era o “lado popular” do local.

Lados e cores distintas. Na parte clara, os apartamentos menores.

Quatro amigos somando forças; algo tipo “a força do proletariado” unida para morar bem na capital paulista. Nossa origem modesta ficou bem definida na chegada. Embora com destino à “ala nobre” subimos a Rua Augusta com um monte de cacarecos sobre um caminhão, onde Giba e eu ríamos muito, misturados a caixas, sacos e móveis. Na cabine, ao lado do motorista, as distintas damas. A Rua Augusta ainda era, para este que vos escreve, aquela das lojas para ricos e dos boys daquele rock tupiniquim de Hervé Cordovil:

Subi a Rua Augusta a 120 por hora

Botei a turma toda do passeio pra fora

Fiz curva em duas rodas sem usar a buzina

Parei a quatro dedos da vitrine

Hi, hi, Johnny…

Subimos lentamente com o velho caminhão. Mais pau de arara impossível! Não posso afirmar pelos outros, mas eu estava feliz. Já conhecia a avenida (quem passa por aqui sabe que a Paulista foi meu primeiro endereço na cidade) e voltar era muito bom. E não para uma pensão, mas para um apartamento enorme, espaçoso e, dito Baronesa, definitivamente um local nobre.

A decadência da aristocracia é uma coisa tão antiga que só eu não havia percebido que o fim já havia chegado inclusive naquele endereço da Avenida Paulista. Foi só descarregar a mobília, e levar para o elevador de serviço, para ouvir de uma moradora: – “Se eu fosse vocês não subiria por aí não; esse elevador caiu na semana passada!”.

Pronto. O edifício visto segundos antes como um castelo, virou cortiço. O grande cortiço, um “joga-chave”, pardieiro, uma favela vertical… Com muitos problemas exteriores e, interiormente, embora confortável, havia um problema tenebroso no apartamento. Um vazamento do banheiro do andar superior obrigava-nos a usar guarda-chuva em toda e qualquer utilização do vaso sanitário. Sem direito a reclamações, já que um processo em andamento ameaçava a interdição do prédio, o que ocorreu posteriormente.

Ficamos lá por um bom tempo, com várias configurações de moradores, permanecendo sempre juntos Beth, Pepe e Eu. No final do contrato já tínhamos a companhia de Claudio e fomos morar na Vila Mariana onde um monte de outras coisas foi acrescentado às nossas vidas.

Poderia contar outras histórias do Baronesa de Arari. Deixa para outra oportunidade. Há um livro sobre o edifício (José Venâncio de Resende, Baronesa de Arary: nobres, pobres, artistas e oportunistas) e, neste momento, outros amigos moram por lá. Por enquanto, termino com uma dúvida: teria D. Maria Dalmácia, a Baronesa de Arari, conhecido Tueris Fustado, a menina que “desabrochou como uma flor selvagem, deslumbrante e caprichosa”?

Tueris Fustado é personagem que dá titulo ao romance de Octavio Cariello, Tueris, que será lançado no próximo dia 11, sábado, das 17h30 às 21h30 no Espaço Terracota. Avenida Lins de Vasconcelos, 1886. Reitero convite para o lançamento. Como o Martinelli, o Sampaio Moreira ou o Baronesa de Arari, o Tueris também é local de grandes histórias.

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Até mais!

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Em tempo, o Baronesa de Arari está firme e forte, longe de ser o local ruim que um dia foi. Os nomes de amigos, aqui citados com certa sutileza só serão revelados pelos próprios, caso queiram, nos comentários (o que me deixaria muito feliz).

Marcelo Grassmann na Avenida Paulista

Aproveitem que está acabando. A exposição com as gravuras de Marcelo Grassmann no “Espaço Cultural Citi” termina no próximo dia 3 de fevereiro. Uma oportunidade para conhecer o universo em que o gravador transita.

Matéria dos Sonhos, é o nome da exposição.

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A curadoria é de Jacob Klintowitz. Este se baseou em texto de Shakespeare, na peça “A Tempestade”, para dar nome a exposição, “Matéria dos Sonhos”. O autor inglês escreveu: “O mundo é feito da mesma matéria de que se fabricam sonhos”. É fácil concordar com a proposição; Grassmann viaja em mundos imaginários e materializa suas personagens.

Detalhes de alguns dos trabalhos expostos.

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Lamento não fotografar melhor. Máquina e fotógrafo amadores, distanciando-se da qualidade do material apresentado. Insisti na feitura e publicação dessas fotos porque elas estimulam mais que meras palavras. Marcelo Grassmann é daqueles artistas que, uma vez que tomamos contato com a obra, jamais o esqueceremos.

Donzelas, cavalheiros, seres míticos... as personagens de Grassmann

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Natural de São Simão, no interior de São Paulo, Marcelo Grassmann percorreu o caminho natural dos artistas brasileiros. Estudou mecânica e entalhe, atuou como ilustrador em jornais paulistanos e também no antigo Jornal do Estado da Guanabara. Depois das xilogravuras iniciais, estudou gravura em metal e litografia. Premiado, viaja para Viena, estudando na Academia de Artes Aplicadas. A casa em que nasceu, em São Simão, foi tornada museu. O artista completa 87 anos em 2012.

Detalhes de obras e a foto do artista, no painel da exposição.

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Na exposição encontra-se uma edição com toda a obra do artista, luxuosamente encadernada. Vale mais como curiosidade, já que não podem ser manuseadas. O bom mesmo é soltar a imaginação ao observar aos animais míticos, as damas, cavalheiros; estes com suas armaduras, com seus animais. Sonhos tornado reais pelo desenho mágico de Marcelo Grassmann.

O Espaço Cultural Citi fica na Avenida Paulista, 1111, térreo. Os dias e horários são de segunda a sexta-feira, das 9 às 19h00. Sábados, domingos e feriados, das 10 às 17h00. Entrada franca. Outras informações sobre o artista: www.marcelograssmann.blogspot.com

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Bom final de semana!

Nesse Natal conquistamos uma avenida

O bom de tudo é que não foi programado. Nenhuma instituição pública ou privada determinou o fechamento da Avenida Paulista nestas dias que antecedem o Natal e o Ano Novo. Os paulistanos abandonaram suas casas, deixaram a televisão com seu frequente sensacionalismo barato e com irmãos, amigos, filhos, mães, foram para a Paulista. Nesse Natal conquistamos uma avenida!

Paulistas trocam catástrofes televisivas pelas luzes da Paulista

É bem verdade que as empresas colaboraram, assim como o poder público, decorando os edifícios e prédios para as festas. Rendendo-se às evidências, fecharam o trânsito na Paulista. A festa ocorre desde há muito e os congestionamentos na avenida sempre aumentam neste período do ano. Ainda ocorre de, sem descer do carro, diminuindo a velocidade, o cidadão admirar o trabalho de decoradores, vitrinistas e artistas plásticos. Isso durante a semana. Agora mudou!

No dia-a-dia os congestionamentos persistem; motoristas e passageiros observam.

Neste 2011 o paulistano rendeu-se ao trabalho dos decoradores da avenida e abandonaram suas máquinas. Sem perceber, estão criando não uma data, mas todo um período em que a Paulista é do ser humano e não de motores poluentes de carros, motos e ônibus. Ontem, conversando com um gerente de uma rede hoteleira, ele comentou o aumento dos negócios. A Paulista tem como maiores atrações o Réveillon e a Parada Gay. Agora, são semanas, principalmente nos finais de semana, que a Avenida é tomada pela população, criando as tais oportunidades de negócios, mas fundamentalmente tornando a cidade mais humana.

Decoração natalina: o desafio de renovar-se ano após ano

Todas as tribos, todas as idades, a cidade representada na Avenida. Uma grande festa sem música barulhenta, sem álcool, sem comilança. A população reaprendendo gentilezas, cordialidades; tudo para que um local possa ser visto, um efeito compartilhado, algo belo possa ser fotografado. Assim é, penso, uma festa de Natal e, na Avenida Paulista, o Espírito Natalino acontecendo.

Feliz Natal, São Paulo!

Nas ruas transversais, nas paralelas, muito congestionamento. Quase silencioso; um ou outro desavisado aciona a buzina, acelerando tensamente. A maioria permite que as pessoas possam atravessar, tranquilamente, na faixa de pedestres. Depois falam que a cidade é desumana! Neste Natal, em vários locais e principalmente na sua principal Avenida, o paulistano esbanja humanidade, gestos fraternos, assinalando que a cidade é do ser humano e que nela ele pode passear tranquilamente, como se em um velho footing da São Paulos dos lampiões de gás.

Feliz Natal, São Paulo!

Na Paulista, uma pensão de fino trato

Avenida Paulista e a imagem concreta da mega cidade

Quem leu meu texto publicado ontem sabe da minha paixão pela Avenida Paulista. Quero registrar outros aspectos, não tão charmosos, mas que são bem humanos. Aqui vai minha segunda contribuição para a história da Paulista:

Imaginem um mineirinho de Uberaba chegando para morar em São Paulo. Poderia ser mais um pau-de-arara, mas (“-Sorry, Periferia”, diria Ibrahim Sued!), o cidadão tinha endereço certo e este era a principal avenida da cidade. Tudo bem que era uma pensão… Sim, caros leitores, uma pensão clandestina, já que a proprietária não era a dona do imóvel e não poderia sublocar o espaço. Todos os que dividiam aquele endereço diziam-se sobrinhos da simpática senhora; era uma regra da casa. O porteiro e o síndico recebiam propina para engolir toda aquela numerosa parentela.

Dona “Con” não gostava de ser chamada Conceição, muito menos “Concinha”. Era uma empreendedora, uma batalhadora que sustentava filhas e filhos bonitos. Segundo ela, assim que as crianças nasceram passou a massagear-lhes o nariz e afirmava convicta que tinha modelado à mão as belas narinas de toda a prole. O garoto dizia-se modelo e logo fiquei sabendo, por vias tortas, que prestava favores sexuais para quem aceitasse o preço. Aliás, vias tortas eram coisas comuns na tal pensão.

Durante a semana, na hora do almoço, a pensão da D. Con transformava-se em restaurante. Claro, também este era clandestino. Uma bela moça era tratada com a deferência de modelo internacional, com direito a garrafa de água mineral exclusiva e saladas, muitas saladas para manter o corpo nas medidas da moda.  Ela chegava antipática, sem olhar para ninguém, como se estivesse entrando em um dos sofisticados restaurantes da vizinha Alameda Santos. E por ser muito chata ninguém nunca contou à cidadã que D. Con abastecia a exclusiva garrafa de água com a torneira da pia da cozinha, sempre justificando: – Ela é muito metida!

Permanecia quieto, no meu canto, ainda descobrindo a cidade. Dividia o quarto com outros marmanjos; minha memória, seletiva ao extremo, não guardou o nome nem as feições de nenhum deles. Havia garantido meu lugar na parte superior de um beliche e, graças a isto, nunca fui atingido pelo vômito do cidadão da cama inferior. Ele chegava invariavelmente bêbado e quando despejava o excesso no próprio quarto a noite se alongava. Dona Con rogava todas as pragas possíveis para o cidadão.

Éramos vizinhos da casa noturna de Oswaldo Sargentelli, com suas mulatas estonteantes que faziam a alegria dos olhos de todos nós. Outro colega de quarto gabava-se de namorar uma morena de coxas descomunais e quadris malemolentes. Raramente ele ocupava a própria cama.  Lembro-me dele gargalhando quando, voltando da peregrinação à cata de emprego, cheguei assustado após presenciar um assalto na esquina que a Paulista faz com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima. “- Mineirinho, você ainda não viu nada!”

Realmente eu nunca tinha visto assalto a mão armada. Também não sabia de rapazes que vendiam o corpo, nem de donas de pensão que enganavam hóspedes até com água! Ela, D. Con, sempre foi simpática comigo. Dessas coincidências que exotéricos adoram, a mulher havia sido dona de outra pensão, em Campinas, no interior de São Paulo, na Avenida Orozimbo Maia. Lá se hospedou meu irmão, então um jovem e comportado cidadão. Ele fez a fama da família e sendo boa gente, no conceito de Dona Con, eu também era. Mesmo tratado com deferência, ficava quieto no meu canto, tentando entender, tentando digerir a cidade.

Tive todos os contratempos, muitos estranhamentos; todavia nada se equiparou ao susto inicial. O mineirinho de Uberaba chegava para morar em uma pensão na Avenida Paulista, símbolo da renovação paulistana, da incrível capacidade da cidade em se reinventar. Havia descoberto a pensão através de meu primo Beto, que veio de Campinas para trabalhar aqui. Era uma sexta-feira de 1979. A idéia era chegar nesse dia, ter tranqüilidade no final de semana para conhecer a região, comprar o jornal de domingo, selecionar vagas e sair, já na segunda, procurando emprego.

Beto não estava na pensão. Estranhei o fato, mais ainda quando a dona da pensão me perguntou se eu tinha lugar para ficar, pelo menos até a segunda-feira seguinte: “ – Então, houve uma discussão entre dois hóspedes, colegas de quarto de vocês. Eles acharam que seu primo estivesse dormindo. Na discussão um acusou o outro de ladrão; este revidou, dizendo que pelo menos não estava sendo procurado por assassinato.”

Meu primo e eu teríamos um ladrão e um assassino como companheiros de quarto. Alertada, a dona da pensão sugeriu para que Beto fosse para Campinas, durante o final de semana. Eu, nem entraria na pensão, assim, nem conheceria os “moços de fino trato”. Deixei minha mala no local e tomei o rumo de Santo André, no ABC. A dona da pensão apelou para seus contatos e a polícia fez seu trabalho, livrando a simpática Dona Con dos hóspedes indesejáveis.

Foi assim, como em outras oportunidades que a vida me propiciou, que percebi a realidade além do que é aparente. A Avenida Paulista é bela e hoje, tanto tempo depois, ainda tem porte majestoso. Vai saber o que acontece por lá, em suas pensões clandestinas; quem são realmente seus moradores, o que escondem sob as roupas de grife, a maquiagem bem feita.  Logo depois saí da pensão e passado algum tempo, voltei a morar na Avenida Paulista. A história foi totalmente outra…

PAULISTA, DE UM MILHÃO DE ESTRELAS

Amanhã é o aniversário da Avenida Paulista. Optei por, neste primeiro momento, recordar um post que escrevi em outro aniversário, o da cidade de São Paulo.

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Foto: Nelson Kon

Tive o privilégio de, chegando a São Paulo, ter a Avenida Paulista como primeiro endereço. A capital era local de passagem, antes dessa mudança; um local de curtas estadias para curtir shows, peças de teatro ou para consumir objetos necessários e fúteis de vasto mercado. Vim tornar-me “paulistano” residindo na avenida mais charmosa da cidade.

Na Paulista os faróis já vão abrir

E um milhão de estrelas prontas pra invadir

Os jardins onde a gente aqueceu numa paixão

Manhãs frias de abril…

Tendo a Avenida Paulista como epicentro fui, lenta e perenemente conhecendo a cidade.  Meus primeiros dias por aqui, como qualquer migrante, tinha a busca de um emprego como atividade primeira; chegada a noite, um mar de possibilidades bem próximas de casa. No Teatro Popular do Sesi encenavam “A Falecida”, de Nelson Rodrigues. Namorei intensamente a exposição permanente do Masp – que viria a ser referência em todas as minhas futuras aulas de arte. Lembro da tristeza durante a primeira Corrida de São Silvestre, por estar longe da família, e da alegria em saber do resultado do vestibular no hall do prédio da Gazeta.

A Paulista sempre foi lugar de gente interessante, de todos os tipos. Em uma distante manhã percebi um certo alvoroço em torno de uma moça, entrando em uma livraria vizinha da minha casa. A moça era MARIA BETHÂNIA. Posteriormente vi o primeiro show de DANIELA MERCURY em São Paulo, dei um cigarro para BETH FARIA e dividi uma mesa de bar com CAZUZA. Tudo na Paulista! Logo tive que bater em retirada, morar próximo do emprego conseguido, economizar no aluguel, na condução…

Se a avenida exilou seus casarões

Quem reconstruiria nossas ilusões?

Me lembrei de contar pra você nessa canção que o amor conseguiu

Um dia cogitou-se de tombar os casarões da Paulista; esses se tornariam patrimônio histórico municipal. Antes que a lei tramitasse pelos canais competentes, os proprietários apressaram-se em destruir as fachadas dos casarões. Uma visão grotesca que tive, passando de ônibus pela avenida. Desci do veículo e fui ver de perto o resultado de uma idéia mal colocada, tornada desastre paisagístico pela ganância dos proprietários das mansões.

Você sabe quantas noites eu te procurei nessas ruas onde andei?

Contam onde passeia hoje, esse seu olhar

Quantas fronteiras ele já cruzou no mundo inteiro de uma só cidade

Zanzei por vários outros bairros e, um dia, voltei a morar na Avenida Paulista. Bem ao lado do Parque Trianon, em um edifício charmosamente decadente. ELKE MARAVILHA estava entre os condôminos; se RITA LEE era “a mais completa tradução” para a cidade, ELKE era o mesmo para o Edifício Baronesa de Arari. Eu me considerava ainda um estrangeiro, um mineiro fora de Minas. Prestes a entregar os pontos, definitivamente, para a Avenida, para a cidade.

Dividia um apartamento com três amigos. Uma cantora, um pintor e uma agente de turismo. A diversidade interna era imensa; entre as poucas unanimidades, a fotografia – chegamos a montar um laboratório doméstico –  e as vozes de GAL COSTA e JANIS JOPLIN. Foram tempos de grandes aprendizados e, quase prontos, tomamos destinos distintos.

Se os seus sonhos emigraram sem deixar

Nem pedra sobre pedra pra poder lembrar

Dou razão, é difícil hospedar

No coração sentimentos assim

Divido a posse de São Paulo com milhões de seres que estão aqui, alguns distantes, mas ainda proprietários apaixonados dessa “minha cidade”. Não moro mais na Paulista, mas estou nas imediações. Caminho por quatro quarteirões para chegar na local que ainda considero o mais bonito, o mais charmoso. Vejo a Paulista como NELSON KON, o dono da foto da avenida que ilustra esse post. Quando ouço VÂNIA BASTOS cantando “Paulista”, a música de EDUARDO GUDIN e J. C. COSTA NETTO dos versos que intercalam este texto, grafados em azul, mil e uma situações retornam, emergem de todos os anos, de toda uma vida nesta cidade de São Paulo.

Sou feliz em estar aqui. Muito feliz por usufruir da Paulista, uma paixão que ultrapassou o encantamento, a surpresa, algumas decepções e rompimentos. Vejo a Avenida Paulista como o coração de São Paulo, o meu coração em São Paulo. Por isso, nesse aniversário da cidade, minha total e dedicada reverência. Nesse feriado irei caminhar pela Paulista. Minha forma de desejar feliz aniversário para São Paulo.

Até!

(publicado originalmente em  22/01/2010, 10:42, no Papolog.com/valdoresende