Do tempo da Mogiana!

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O primeiro esboço de romance que escrevi, e que ainda guardo, foi em um bloco que ganhei de meu avô, José dos Santos Vinagreiro. A narrativa desenha um cenário bem mineiro: “Ao amanhecer na fazenda Ribeiro notava-se uma atmosfera estranha…”. Presente de meu avô, sobras de seu antigo escritório, eu ganhei um lápis e o bloco que servia, originalmente, para transcrição de telegramas recebidos.

Ferroviário durante quarenta e cinco anos meu avô aposentou-se como mestre de linha da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Comprou uma casa bem ao lado da residência de meus pais, no bairro Boa Vista, em Uberaba. Durante muitos anos fui reconhecido pelos ferroviários como neto do Sr. Vinagreiro. Enquanto morou em Uberaba meu avô tomava minha mão, eu devia ter quatro ou cinco anos, no máximo seis, e levava-me até a estação de trens. Eram tardes em que ficávamos observando o movimento das manobras no imenso pátio ferroviário.

Não registrei a data de meus primeiros escritos. Certamente antes dos quatorze anos, pois nessa época eu grafava meu nome com “W” e “Z”. Só descobri o “V” e o “S” do registro de nascimento quando precisei deste ao alistar-me para o exército. Coisas de uma época em que podia-se caminhar por aí “sem lenço e sem documento”. O fato é que está no cabeçalho de todas as páginas do bloco: Waldo Rezende.

Ainda não contabilizei dessa época quantas histórias inacabadas. Sim, eu começava a escrever, me empolgava e… Desistia alguns dias depois. Eram histórias estruturadas basicamente como novelas que escutava no rádio, ouvi-las era hábito de minha mãe. Antes da televisão havia novelas o dia todo e acabei gostando de histórias de nobres, de romances açucarados e dramas cubanos como “O Direito de Nascer” de Félix Caignet.

Fui insistindo em iniciar a redação de histórias até me convencer da falta de maturidade para escrevê-las, concluindo que precisava viver e aprender redação, português…  Mas, como eu gostava de escrever! Um dia caiu em minhas mãos um livro desses ditos “de formação”, de um padre francês, Michael Quoist. Era o Diário de Dany. Este foi o meu livro de cabeceira por toda a adolescência e, estimulado, comecei a redigir diários, narrando meu cotidiano.

A complexidade de um diário é a sinuca de bico propiciada por uma vida comum. Nada de crimes, roubos, romances proibidos. Era só o cotidiano de um jovem estudante tímido, sem aptidão para arroubos de qualquer espécie. Dá-lhe narrativa comum! Acordar, ir ao colégio, brincar à tarde, estudar, passear de bicicleta… Brigar com os irmãos, com os pais, sonhar com possíveis namoradas… Viajar nas férias para a casa dos avós, agora morando em Campinas, SP, e lembrar ao encontrar-se com o avô do romance inacabado.

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Passados tantos anos tenho um bloco amarelado cheio de um texto no qual reconheço a criança que um dia fui. Outras histórias vieram e outros tipos de texto… Ficam para outra hora. Agora volto ao trabalho reformulando aulas, formulando outras e, coisas da vida, preparando um curso para ensinar como escrever…  Processos de Criação na Escrita!

Há algumas décadas entre eu e o garoto que rabiscou o bloco da Mogiana. Revendo o material, lembrando o passado recordei histórias ouvidas de meu avô; das fantásticas mulas sem cabeça à Revolução de 1932; dos animais defrontados em noites escuras aos desastres ferroviários em noites de chuva. Muitas histórias… Do tempo da Mogiana. Primeiras histórias! E o desejo de contar todas elas, criar outras, escrever mais, muito mais e sempre…

Até!

O último trem

Vivemos um momento histórico fantástico, onde a Internet promove encontros, aproxima pessoas. Faz pouco tempo, publiquei aqui um texto que já havia postado em meu blog anterior. Com o título  “Um garçom, um trem, um gavião“, recordei as viagens de trem, quando criança, com minha família. O que levou-me a tais recordações foi uma entrevista no Programa do Jô, com um garçom que trabalhou na Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. O senhor entrevistado foi um dos possíveis autores da façanha; trechos do que escrevi:

“Entre as estações de Ituverava e Canindé, outras vezes, na região de Aguaí, um gavião acompanhava o trem. Um garçom ficava com um pedaço de carne espetado em um garfo, esticando o braço para fora do trem, até que o pássaro conseguisse pegar a refeição.

… Chegava no trecho habitado pela ave, o trem diminuía a velocidade e todo mundo corria para as janelas. A linha tinha muitas curvas e corríamos de um lado para o outro do vagão para presenciar o acontecimento. Foram anos com isso ocorrendo e houve momentos em que dois pássaros – pai e filho? – acompanhavam o trem. Há registros desse fato até 1977 e, repito, perderam-se os fatos de como tudo começou”.

Gilberto Mussio, que ainda não conheço pessoalmente, é de Jaú, no Estado de São Paulo e leu minha publicação e comentou ter comprado de um fotógrafo uma foto, feita para um documentário e, nas memórias de Gilberto, o fato ocorria em Ipeuna. Voltando ao local, ele não encontrou a estação e acredita que o fotógrafo tenha se equivocado com o nome do lugar.

Caro Gilberto, posso afirmar que ele errou. Ipeuna não consta entre as estações, ou postos, da tronco ferroviário que liga Ribeirão Preto a Uberaba. A história da Mogiana é parte da história de minha família. Meu avô paterno, José dos Santos Vinagreiro,  trabalhou na estrada de ferro durante quarenta e cinco anos. Outros tios, muito queridos, tiveram a Mogiana como único emprego e até hoje, tenho primos que trabalham por lá. Esse “por lá” implica em uma vasta gama de ramais que ligam Ribeirão Preto a Franca, no Estado de São Paulo e estas a minha Uberaba, e a Araguari, ambas em Minas Gerais.

Quem terá outras imagens desse momento?

Fiquei emocionado ao receber a foto enviada por Gilberto Mussio e pedi autorização para dividi-la com os que leem esse blog, com meus amigos e familiares que têm muito de suas vidas e lembranças ligadas à velha e querida Mogiana. Atualmente, nas linhas entre Ribeirão Preto e Uberaba só trafegam trens de carga. Recordo-me ainda de quando anunciaram o fim dos trens de passageiros. Foi lamentável pelo descaso com um meio de transporte eficaz, barato e seguro, presente no mundo inteiro, mas que no Brasil foi esmagado pelo interesse de montadoras e de políticos interessados em receber benefícios advindos da indústria automobilística.

Como relatei anteriormente, e tive o prazer de constatar, vi  (e sendo criança, não tenho a menor condição de precisar a data) um gavião acompanhado por um filhote buscando a carne oferecida pelo garçom. E agora, fiquei pensando no último trem, em todas as pessoas que deixaram de ter uma condução confortável para suas viagens, e em um gavião perdido no tempo, sobrevoando a linha, esperando um trem que não voltou a passar.

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Grato, Gilberto, pela foto. Bom final de semana para todos!

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