Considerando a sensação comprovável de que 68 não significa nada além da distância entre o momento em que alguém nasce e agora,
Filosofando ao sabor da cerveja que um número é apenas um dado entre o anterior e o próximo,
Aceitando o fato de transformarem o número em data, a data em efeméride, popularizada como aniversário propõe-se reflexões, ponderações e decisões:
– A terra, Novinha da Silva, tem bilhões de anos, 68 ou 78, ou 88, ou 98 da vida de um sujeito são apenas o “é da coisa” e, reiterando D. Clarice, “que de tão fugidio já não é mais”.
– Substituamos aniversário por natalício. A etimologia do primeiro tem um falso cognato – annus – que nos ajuda a trocar por natalício, nos leva a nascer de novo. Nasça de novo sempre que quiser!
– Distancie-se do espelho, cuide para desaparecer com incômodos físicos e exercite a memória, ou aguente o tranco:
– Diante dos espelhos que nos são impostos por uma arquitetura tosca perceba que, como grande quantidade de bebês, os de 68 anos ou mais também tem rugas. Nesses momentos recorde sua mãe (Lindo da mamãe!) e suas tias (que gracinha!).
– Ao pensar em harmonização – um direito! – considere harmonizar cabeça, tronco e membros. Parece que mãos e pescoço só obedecem a luvas e cachecol, ou essas golas altas mesmo. Caso pretenda a harmonização para coisas do sexo, considere o impacto da luz do amanhecer sobre todo o corpo em contraste com o rosto harmonizado.
– Ainda frente ao espelho encare: a pele sem viço, o cabelo nevado ou pintado e, caso o dito cujo exponha uma barriga em formato de chimpanzé lembre-se: Tais fatos são manifestação divina para que não esqueçamos nossas origens e nosso fim.
– Emocionalmente, deite e role na astrologia. Não sei quem na quarta casa, o ascendente em qual planeta e gêmeos, escrevo no meu lugar de fala (coisa chata, essa coisa de lugar de fala), os 68 não levam o geminiano a deixar de ser instável. Às vezes bem, às vezes mal, com tempos variáveis de duração e muita rapidez nas mudanças. Um saco!
– Jamais confunda emoções com paixões, afetos e amores e assim, postula-se:
– Seja fiel às suas paixões. As primeiras te formaram, as que vieram em seguida consolidaram e fizeram de você o ser presente. Neste aspecto, preste atenção e recorra à revistas, sites e similares: até o Roberto Carlos mudou de penteado no decorrer do tempo. Só use o corte de cabelo da sua paixão de décadas passadas com a consciência de ser “vintage” ou “sessentage” ou “setentage”. E seja feliz assim, se possível.
– Afeto nunca é demais. Aos amigos, aos vizinhos, aos parentes, aos familiares, aos gatos, aos passarinhos, aos cachorros, aos peixes, ao planeta. Atenção: Alguns pequenos ódios dão equilíbrio à vida. Pequenos! Considere sublimar seus ódios na literatura descrevendo as possíveis maldades que farias para maltratar o ser odioso.
– Sobre amores, o lema está expresso em verso da música “Ah, Sweet Mystery of Life”: For it is love that rules for evermore. E siga o conselho da versão cantada por D. Maria Bethânia, a moça da Academia de Letras da Bahia: “A ninguém revelarei o meu segredo e nem direi quem é o meu amor!”. Um tratado sobre as vantagens dessa postura está no repertório de D. Maricotinha. Se você prefere outra cantora, não posso fazer nada; cante e chore como Marília Mendonça.
– Sobre ser velho, primeiramente lembre-se da cantora Cher: “É uma merda!” E sobre as vantagens, a sabedoria e o escambau da velhice, a sábia Cher determina: “Foda-se isto também”. Assim posto, aposente-se logo e sempre que possível. É maravilhoso vagabundar com salário garantido no final do mês.
– Dedique-se a fazer o que gosta, e àquilo que te faça sentir bem, como euzinho lindo aos 68, escrevendo meu primeiro manifesto, que finalizo deixando bem claro que não respondo por nada escrito acima. Estou só me divertindo e tentando fazer graça com os amigos.
Santos, 18 de Junho de 2023
Valdo Resende
Parabéns Valdo! Felicidades mil em mais uma oportunidade que Deus está te dando em comemorar mais um aniversário. Quantas pessoas não têm essa chance. Então… é só gratidão. E que venham tantos outros com muita saúde, paz e alegrias infinitas. Grande abraço.
Maravilhoso! O texto e você. Nem sabia que você tinha 68. O inteligente e o interessante, pra mim, são atemporais: transitam sem referência de tempo e transformam os espaços.
E te desejo uma vida longa, de muitos contemplares e muitas lindezas.