Em Guabiru, cidade fictícia do interior paulista, o técnico e leiloeiro Olympio vê sua paixão pelo futebol ser capturada por disputas políticas em plena volta do pluripartidarismo. Entre traições, chantagens e promessas eleitorais, o sonho de construir um estádio transforma-se em moeda de campanha. Com humor e crítica social, Valdo Resende revela os bastidores da manipulação política que se alimenta da paixão nacional.
O VAI E VEM DA MEMÓRIA
Crônicas, contos e poemas312 págs. – R$ 55,00*
Um mineiro de Uberaba, vivendo em São Paulo, revisita lembranças e confronta o presente. A partir de datas marcantes, o autor costura crônicas, poemas e contos que refletem a experiência do migrante e sua busca por pertencimento. Um livro sensível, que dialoga com a memória de milhares de brasileiros.
A SENSITIVA DA VILA MARIANA
Contos – 2020 –R$ 20,00*
Vanilda, a Tatuada, e seu amigo Vadico procuram uma sensitiva para resolver dilemas cotidianos. O conto que dá nome ao livro abre uma coletânea de histórias cheias de humor, amizade e afeto, protagonizadas por personagens paulistanos que transitam entre o real e o pitoresco.
DOIS MENINOS – LIMBO
Romance – 2014 – Elipse, Arte e AfinsR$ 20,00*
A trajetória de um pintor de origem humilde que escolhe a arte acadêmica em plena São Paulo do fim do século XX. Entre a vida operária, noites agitadas e o surgimento da AIDS, o romance celebra amizade, solidariedade, amor e também a solidão. A estreia literária de Valdo Resende, marcada por força emocional e olhar humano.
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Sobre os demais títulos da ilustração:
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Dos tempos de magistério mantenho algumas amizades que, lá, já eram grandes. Continuam crescendo e quando é entre mineiros, só tende a melhorar. Luiz Antônio Genghini é de Monte Sião e através da nossa amizade escrevi por várias oportunidades para o Jornal de Monte Sião. A vida toma outros rumos, mas a amizade continua e, com alegria e me sentindo honrado, recebi e quero registrar o texto que o mestre escreveu sobre Várzea, meu romance recentemente lançado.
E aí estou, em meio aos Genghini, que aprendi a respeitar e a estimar através do meu amigo. Desse carinhoso texto do Luiz quero destacar algo que me foi caro ao criar Várzea: o desejo de que o leitor se divirta com as situações, sem perder a informação que deve levar à reflexão e à comparação com o que anda acontecendo por aí.
Muito obrigado, Genghini! Deveria ter comentado aqui, antes, a tua simpática menção. Sabe como é, a vida é cheia de um monte de coisas e quando nos damos conta o tempo já passou. No entanto, sabemos, a escrita permanece. E que bom que permanecerá no Jornal de Monte Sião, entre outros teus textos esse, sobre Várzea.
Grande abraço, meu amigo!
Abaixo a transcrição do texto de Genghini:
VÁRZEA, O NOVOLIVRO DE VALDO RESENDE, COLABORADOR DO MONTE SIÃO
Estou na última parte da leitura de Várzea, o relato da dinâmica de uma cidade de pequena para média, com os seus 50-60 mil habitantes, envolvendo futebol, nossa paixão nacional, e a política, essa coisa que parece tatuagem que não desgruda da vida das pessoas.
Para quem foi criado em Uberaba e já foi seminarista, cantor, ator e diretor de teatro, professor universitário, publicitário e até se envolveu no mundo da moda em um de seus empregos, o Valdo Resende possui um conhecimento profundo das mazelas que cercam a vida na cidade do interior e repertório suficiente para narrar todos os quiproquós, as mazelas que cercam a vida nas cidades do interior, a competição doentia, a ciumeira, a inveja, os vícios, as infidelidades, as artimanhas e todas as manobras inimagináveis que ocorrem no cotidiano envolvendo os moradores, os políticos, o clero, o comércio, os esportes, os botequeiros, os cachaceiros, os namoros e as casas de tolerância. Difícil ler um parágrafo e não identificar uma situação que a gente já viu ou conhece de modo muito lúdico e divertido porque Valdo vai ao ponto! Quer se informar e divertir-se ao mesmo tempo? Então leia o Várzea, de Valdo Resende. Pode adquirir direto com o autor: valdoresende@uol.com.br ou pelo site valdoresende.com. Boa leitura!
Recebo de uma amiga um desses textos “deus nos acuda”, cuja origem também refere o criador: “sabe lá Deus de onde veio”. O dito cujo apregoa nova forma de se dirigir às pessoas “60+ ativas”, recusando o “rotulo de idoso”. Respiro fundo, seguro a irritação para em seguida responder, o que faço aqui, publicamente à tal mensagem.
Por favor, dirija-se a mim pelo meu nome. Não me rotule disso ou daquilo. E, não me conhecendo, use formas de tratamento coerentes com o que minha aparência denota. Sou um senhor! A relação começa mal quando o interlocutor, pensando me agradar, solta um “e aí, garoto!”. Devo ressaltar que garoto, embora me faça sentir retardado em relação ao tempo é melhor que garotão: Aqueles gordos, barrigudos como eu. O mesmo ocorre quando soltam um “fala, coroa!”.
Volto ao texto recebido, que segue a onda de que o que vem de fora é melhor, ou seja, está em inglês, o que deveria dar importância à coisa. Se a origem é a Grã-Bretanha, meu primeiro pensamento é “abaixo a monarquia!”, já se vem dos EUA, lanço automaticamente maldições ao fascista ocupante da Casa Branca. O tal texto propõe uma nova forma de se dirigir a “pessoas que seguem vivendo com propósito, curiosidade e vontade de evoluir”.
Excluindo doentes, físicos ou psicológicos, o propósito básico de todo ser humano continua sendo comer, beber e dormir. Quer propósito mais lindo que preparar e deglutir um café da manhã, tomar cerveja no boteco com os amigos e dormir bem acompanhado – antes de dormir, óbvio, brincar com quem estiver dividindo a cama. Propósito legal, procurar alguém, caso a cama se torne local de um indivíduo.
Outra “pérola” da proposta afirma que o novo idoso faz o tempo acontecer. Pra escrever tal sandice é provável que o autor jamais tenha lido Shakespeare, pois sendo da literatura e da arte, deixarei para outra oportunidade a filosofia e as ciências sociais. Das abstrações humanas, Deus e o Tempo, existem independendo de qualquer outra coisa exceto a crença, no primeiro, e a aceitação reguladora do outro.
O texto me provoca ímpetos assassinos quando conclui que “viver bem depois dos 60 não é exceção – é tendência”. Ou seja, todo velho ferrado o é por não seguir a nova onda!. É para afirmar que o autor de tal texto deveria ser devolvido “à escuridão do ventre de onde não deveria nunca ter saído” (Ave, Chico Buarque!).
Ao caríssimo leitor que tenha chegado até aqui, caso se pergunte o motivo de eu estar escrevendo sobre algo inútil e de péssima qualidade, explico: é um apelo! Um pedido aos amigos, conhecidos, leitores! NÃO MANDE TEXTOS IDIOTAS PARA OS AMIGOS! Mande Lear, do Shakespeare, caso queira propiciar reflexões sobre a velhice. Mande Hilda Hilst, caso perceba que falta ao amigo idoso aprender algumas coisinhas que, poeticamente pela Hilst, são bem mais interessantes.
As redes sociais, os aplicativos, são pródigos em textos que deveriam ir para o lixo. Então, caríssimos, enviem livros para seus “contatos”, enviem um jornal que tenha credibilidade, físico ou em versão virtual e, quando me conhecerem, por favor, meu nome é Valdo Resende, tenho 70 anos. Ah, e não me chamem menino! Tenho dias que acordo menina, menine e ou o escambau. Quanto ao termo que indica o “novo idoso”, nem sob tortura divulgo nome e autor da coisa.
Aos 21 anos, Joyce Prado era uma menina e uma mulher. A menina que nunca deixaria de brincar, de ser doce, solidária, afetuosa e carinhosa. A mulher preta já conhecia o mundo e as batalhas todas a serem vencidas. O lugar, a redação do Papolog, era uma novidade a explorar as possibilidades da Internet.
Capitaneado por um visionário Rafael Mendes, em 2008, o Papolog possibilitava que cada artista tivesse um blog, conduzisse sua própria carreira, falasse diretamente com seu público. Cabia ao site criar um ambiente favorável com conteúdo pertinente ao universo musical. Os dois básicos, imagem e texto, eram responsabilidade nossa. Joyce Prado e eu.
Em comum tínhamos um jeito sério de levar a vida. Entrar, tomar posse do ambiente, fazer nosso trabalho da melhor maneira possível e ignorar, colocando em seu devido lugar, o que pudesse nos atrapalhar. Não sei onde e quando Rafael conheceu Joyce, jovem cineasta que dirigiria os clipes produzidos pelo site. Foi na universidade onde estudou que ele trouxe o professor para a direção de conteúdo.
Em pouco trocávamos figurinhas. O cara de 53 com a menina de 21, brincando de fazer fotos, de produzir imagens. Amigo da montadora Cris Amaral, foi normal trabalhar com Joyce Prado, deixar que ela me dirigisse nos primeiros vídeos que fizemos. Já então trocávamos confidências, de como os seres humanos tratam uns aos outros por questões de raça, gênero, idade. Um triste exemplo: com serenidade e firmeza, Joyce enfrentava vizinhos que chegaram a indicar a entrada de serviço informando que era a proprietária do apartamento tal.
Conheci e convivi com Joyce Prado transitando com coragem, cabeça erguida, tomando conta da parte desse mundo que lhe coube. No Papolog fez clipes, vinhetas, vídeos de média duração, reportagens. Tenho o orgulho de ter uma palestra sobre música, conteúdo básico do nosso trabalho, depois fixada no Youtube. Muito do que fizemos ficou lá, no tempo em que o site existiu antes de ser vendido para os espanhóis.
Permanecemos ao longo do tempo com uma parceria de socorros rápidos, como o telefone de uma celebridade que consegui com ela há cerca de duas semanas. Um objeto de cena, uma pessoa, um livro! Estranhei a ausência de Joyce no lançamento que fiz neste sábado, dia 6. Ela havia comparecido em todos os anteriores. Devia estar atarefada, pensei.
Um dos livros que escrevi, o primeiro romance, foi papo nosso lá, em 2014. Me disseram que era um texto cinematográfico e sentenciei. Se for para virar cinema, que seja pela direção da Joyce. Selamos o pacto em um almoço, lá na Pompeia. Ela atarefada com todo o trabalho que se desenhava e que tinha pela frente. “Na hora certa, faremos”, me disse. A hora chegou no começo deste ano. “Tem um edital de adaptação de livro pro cinema aberto. Anima?”.
Eu havia enviado um livro com uma série de poemas que abordam a questão negra. “Há um poema sobre o Xirê, belíssimo”. Ela gostou do livro, mas para o tal edital seria o “dois meninos – limbo”, o meu romance. Entre papos de sincronicidade mental e piadas quanto a quem penteia a peruca do ministro, fizemos o exaustivo trabalho que é cadastrar qualquer projeto para obtenção de recursos em nosso país.
Ontem, já altas horas, o Fernando Brengel me chamou para a notícia. Ele percebeu pela minha movimentação nas redes que eu não soubera da morte de Joyce Prado. Percorri toda a rede em busca de algo que dissesse “é mentira”, uma tenebrosa brincadeira de mal gosto. Não achei. Aos 70 anos perdi a amiga de 38 que, nossa intimidade permitia, era mais velha que eu, era da mesma idade, e era sobretudo a menina que falava comigo como sempre falaram minhas sobrinhas queridas.
Houve um momento, no fechamento do projeto da adaptação do romance, que Joyce me perguntou se eu queria participar da roteirização. “Quero acompanhar. Prometo ficar quieto”. Logo depois ela enviou imagens, “fiz esse doc extra pra trazer um clima”, confidenciou na mensagem que trouxe uma dezena de referências cinematográficas, norteadoras de encaminhamento em que se discutiria a adaptação. E eu tive a absoluta certeza de ter feito a escolha certa.
De tudo o que sonhei na vida e que não se realizou, nem se realizará, está um filme, baseado em livro meu, roteirizado e dirigido por Joyce Prado. Tudo bem! Certamente seria belo, sincero, honesto e sensível, como tudo o que ela fez. Nosso afeto atravessará tempos, vidas. Deveremos nos reencontrar e continuar, se não for um filme, que seja outra coisa desde que fale de amor e amizade.
SIGA EM PAZ, JOYCE PRADO!
Nota: Todas as fotos foram feitas por Joyce Prado, a gente brincando com a câmera de um computador, em 2008.
Com seis décadas, Ars Viva realiza semana gratuita de espetáculos a partir do dia 11
O prédio da Sociedade Humanitária de Santos, um dos locais do evento.
Concentrando apresentações musicais e oficinas gratuitas para toda a população, a Semana Cultural Ars Viva será celebrada entre os próximos dias 11 e 15 da Orla ao Centro Histórico. Fundada em 1961, a Sociedade Ars Viva é uma das instituições culturais mais longevas em atuação na Baixada Santista,com foco principalmente na música coral de concerto.
Ao todo, são 11 atividades descentralizadas em espaços que também compõem a história de Santos, reunindo diferentes gerações e segmentos artísticos. O evento promove o congraçamento de artistas, educadores e público por meio de criações coletivas que atravessam também a literatura, as artes cênicas e visuais.
“A Semana Cultural retoma um dos principais objetivos da Sociedade Ars Viva que é a promoção de diferentes linguagens artísticas, do mais tradicional ao contemporâneo, demonstrando que nossa instituição está em permanente reinvenção e por isso a gente segue até hoje”, destaca o maestro e diretor da Sociedade Ars Viva, Ricardo Cardim.
O concerto de abertura, com Madrigal Ars Viva, homenageando o compositor santista Gil Nuno Vaz será já na terça-feira (dia 11), às 19 horas, na Casa das Culturas de Santos. Situado na Rua Sete de Setembro, 49, Vila Nova, o casarão erguido no início do século 20 era então residência de trabalhadores portuários. A entrada é franca.
Detalhe da majestosa biblioteca da Sociedade Humanitária.
Também há programações previstas na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Santos (Av. Cons. Nébias, 689, Boqueirão), erguido em 1887 como sede de uma grande chácara do bairro e fomentou o clubismo local. Outro palco será a Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio de Santos (Praça José Bonifácio, 59, Centro), onde desde 1931 já recebeu bailes, cerimônias e também abriga a biblioteca pública mais antiga da Cidade. Confira a programação:
Dia 11/nov | Terça-feira | Sociedade Humanitária de Santos
• 10h: Oficina de corpo de Contato Improvisação, com Bruno Garrote;
Dia 11/nov | Terça-feira | Casa das Culturas de Santos
• 19h: Concerto de Abertura, com Madrigal Ars Viva – Homenagem a Gil Nuno Vaz;
Dia 12/nov | Quarta-feira | Instituto Histórico Geográfico de Santos
• 15h: Oficina de Xilogravura, com Luciano Favaro
• 19h: Concerto Duo Landum, com Antônio Eduardo e José Simonian;
Palestra e encontro estão programados na biblioteca mais antiga da cidade.
Dia 13/nov | Quinta-feira | Sociedade Humanitária de Santos
• 15h: Palestra “O homoerotismo na literatura brasileira”, com Valdo Resende;
Dia 14/nov | Sexta-feira | Sociedade Humanitária de Santos
• 15h: Roda de Conversa-‘Caminhos da escrita: entre técnica e inspiração’, com os escritores Ricardo Rutigliano Roque, Carlos Alberto Chicarelli e Luis Gilberto Moreira Corrêa, mediação de Valdo Resende;
• 17h30: Palestra “A música coral na cidade de Santos”, com maestro Roberto Martins, mediação de Ricardo Cardim;
• 19h: Concerto Coro-Escola Experimental Ars Viva.
Dia 15/nov (Sábado) | Casa das Culturas de Santos
• 15h: Espetáculo Teatral “Calma e Constância”, com Coletivo Valsa pra Lua;
• 16h: Performance “Sem Título”, com Lípari;
• 17h: Concerto de música antiga, com Lunatus.
A Semana Cultural Ars Viva compõe o projeto o Circuito Ars Viva de Cultura – iniciativa realizada pela Sociedade Ars Viva em convênio com a Prefeitura de Santos através da Secretaria de Cultura. Outras informações em: https://madrigalarsviva.wordpress.com/
Pe. Líbero, em montagem com fotos obtidas nas redes sociais.
Éramos jovens e faltava experiência para uma melhor percepção da vida, das pessoas. Crescidos sob tutela de muitos padres, não era muito fácil distinguir com profundidade o que e quem era cada um dos sacerdotes. A simpatia de uns, as brincadeiras de outros, até a rabugice de poucos, o distanciamento, tudo era percebido de maneira um tanto emocional. Todavia, tivemos a argúcia mínima necessária para perceber que o Padre Líbero Zappone era especial. Um sujeito ímpar.
Em plena década de 70 apelidar alguém de “Coronel” não era propriamente um elogio. Provavelmente esse apelido foi dado por Fátima Borges. Sob a ditadura militar, apareceu-nos um padre que não pedia, mandava. E a gente obedecia, pois as ordens do Coronel eram muito claras e tinham como objetivo nos fazer crescer. Exemplo: Fátima e eu judiávamos de violões encontrados na sacristia, antes e após reuniões. Vem o Coronel e nos dá um mês para aprender a tocar e acompanhar os colegas durante a missa. Um mês! E lá fomos nós atrás de aulas, muito estudo, muito nervosismo e, obviamente não apresentamos um concerto. Chegou a tal missa e lá estávamos junto ao grupo, outros violões dando força. Fafá começaria ali uma linda trajetória musical.
Outras ordens dadas pelo Pe. Líbero colocaram o enorme grupo de jovens da paróquia em intensa atividade. “Na próxima quermesse, vocês serão os festeiros”. Para quem não sabe, ou não se lembra, festeiros são fieis encarregados da organização das quermesses. Pessoas experientes, negociantes, comerciantes capazes de administrar um evento que, durante nove dias, deve arrecadar dinheiro para as obras da paróquia. Encaramos a tarefa. O que a gente não sabia nos foi ensinado pelos pais, por amigos. Deu certo, tanto que depois ele nos levou a repetir a dose.
O Coronel priorizava o conhecimento. E a fé, com lucidez. Lembro-me dele conversando por diversas ocasiões com um “crente”, que hoje chamaríamos evangélico. Cada um munido de sua Bíblia, as conversas entre ambos eram acaloradas, intensas. Na minha estúpida postura de jovem argumentava com o Coronel: “Não é uma perda de tempo conversar com esse sujeito?”. O padre me deu uma lição que ainda hoje procuro seguir. “Eu aprendo com ele, reforço o que sei. Respeito o lado dele”. Recordo um dos temas, os dois citando versículos sobre os nomes de Deus, o que me leva agora a pensar que o outro deveria ser Testemunha de Jeová, pois era esse o nome pelo qual insistia. O Coronel, calmo, ensinava o outro a localizar Javé no livro santo.
Pessoalmente, o Padre Líbero provocou dois momentos que marcariam minha trajetória futura. Ele me mandou (de novo!) preparar uma homilia para a missa das nove, que era a “Missa dos Jovens”. Eu deveria comentar a Parábola do Semeador. “A missa não é só do padre! É de todos nós. Todos somos responsáveis”. E lá fui eu, jovenzinho, enfrentar a casa cheia, como eram todas as missas da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, lá em Uberaba. Recordo ter estudado muito. De ter redigido o texto, decorado, feito resumo, conferido em Mateus, Marcos e Lucas, e fiz. O Coronel… pediu-me nova empreitada, mais aprofundada. Muniu-me de livros e um imenso dicionário de teologia para elaborar uma dissertação sobre Revelação. Eu saí das narrativas bíblicas para o exercício da exegese, um começo para futuras palestras, aulas, vida acadêmica.
Creio que cada um dos participantes do grupo de jovens da paróquia tem uma história para contar, uma experiência particular. O Padre Líbero nos dividiu em equipes, cada uma delas responsável por um trabalho de apoio às atividades de formação e aprofundamento cristão. Com Maria Amélia Cruz e Terezinha Benetolo desenvolvemos trabalhos e apresentamos para a paróquia o que foram as Cartas de Medellin, o Concílio Vaticano II, e outros temas em uma tal “Equipe de Integração”. Com Ronaldo Feliciano de Assis, encarregado de atividade teatral, colaborei na montagem do que veio a ser o meu primeiro trabalho cênico, norteando toda a minha vida a partir de então. Quais serão as lembranças do Paulinho Silveira, do Getúlio, de tantos outros que por lá passaram.
O Padre Líbero nos levava a sério. E conversava conosco de maneira adulta. Com ele aprendi a diferença entre Garrastazu Médici e Ernesto Geisel. E o papel que cada um estava tendo naquele momento da ditadura. Ele apontava o que pensava de cada um, qualidades, defeitos. Tempos depois, fui recebido por ele na Vila Luzita, em Santo André. Era 1977, creio eu, e o lugar era um bairro em formação. “É aqui, junto aos que necessitam que devemos estar”. Já então percebia as diferenças entre ele e os demais padres de nossa convivência. Pouco antes ele havia recusado uma paróquia prontinha, bonitinha, lá em Campinas, mas de difícil acesso ao povo. Optou pela vila em formação onde, literalmente, tudo estava por ser feito.
Anos depois, ele já atuando em Socorro, no interior de São Paulo, fomos, Fátima e eu, visitá-lo. Não nos surpreendemos em encontrar na paróquia um grupo de jovens cuidando de uma emissora de rádio criada pelo Coronel. “Eles que tomam conta”, nos disse, com inegável orgulho. Nem foi surpresa conhecer o conjunto residencial que ele, com recursos e trabalho dos grupos da paróquia, estava construindo e que se destinava aos mais necessitados. Durante o trajeto de volta comentamos sobre aquela grande figura. Uma coerência rara! Um cristão digno da fé que professava. Um líder como poucos.
Hoje recebi a notícia do falecimento do Padre Líbero Zappone. Quem me participou desse triste acontecimento foi minha irmã Walderez. Ele foi o padre que celebrou o casamento dela. Nas fotos do álbum, os noivos e o celebrante, guardamos o registro da presença desse notável sacerdote em nossa família. Muitos paroquianos terão fotos de batismo, de primeira comunhão. Na cidade de Socorro, onde foi pároco por mais de três décadas, as redes sociais registram o afeto e o apreço pelo sacerdote.
Como última lembrança, quero guardar inúmeras caminhadas curtas, um vai e vem no pátio da paróquia (onde ainda não havia quadra, nem o salão construído sobre esta). Ele estava lá, nas tardes de todos os dias, indo e vindo com seu terço, ou o breviário, ou conversando com alguém. “Coronel, preciso falar com você”, e ele, “Venha, vamos caminhar. Pode falar”. E ali eu exercia o sacramento da confissão, sem fórmulas, sem madeira ou tecido me impedindo de perceber o olhar atento, a voz calma, mas decidida, opinando sobre o que ele achava melhor para minha situação. Às vezes, alguém nos interrompia. Continuaríamos depois. Ou então, ele encerrava o assunto com um “vamos rezar” e andávamos, em silêncio, sem penitências ou castigos. Que Deus o receba, Padre Líbero! Em minha lembrança, a figura de um sacerdote extraordinário que, com pulso firme e um especial carisma, conseguiu com que nós, jovens, o obedecêssemos.
Como começou nem ele mesmo sabe. Pode ter surgido em distantes manhãs quando, ainda na cama, ouvia as novelas de rádio seguidas por sua mãe. Ou teria sido à noite, em cotidianas reuniões familiares quando as parentes contavam umas às outras tal filme, um capítulo não assistido, um livro lido. Essa mania de contar histórias teria surgido com os casos que, chegando da rua, eram narrados pelo pai para toda a família?
Havia uma vizinha que contava histórias da Espanha. E o avô, cheio de causos de assombrações. Também umas tias, fofoqueiras, detalhando histórias alheias com pitadas críticas, maledicências misturadas com anedotas. E os padres! Com fatos antigos, de antes do nada. “No princípio era o verbo!”. E vieram as árvores, os territórios, os reis, as viagens.
Das primeiras narrativas compostas por ele, reconhece as decorrentes das necessidades domésticas. Como está sua avó? Me conta, como foi seu dia na escola? Quero saber direitinho o motivo da sua professora estar me chamando! E ai dele se não apresentasse boas razões para não ter feito as tarefas escolares, ou por ter conversado com os amigos durante a missa. O castigo vinha certo. Junto com as consequências desses corretivos foram engendradas, com certeza, vinganças espetaculares. Ele iria se matar e ela iria chorar no velório, e passaria a vida a levar flores no cemitério, soluçando, arrependida.
Do avô ganhou um bloco, lápis, exclusivamente para escrever histórias. E não terminou o primeiro romance, como não terminaria várias outras histórias ao longo da infância, adolescência, juventude. Começava a escrever e no meio do enredo perdia o interesse, achava tudo sem graça. Um dia ouviu que era coisa de gente do signo de gêmeos, deixar coisas pelo caminho. Bobagem! Eram histórias bobas, ruins. Tal qual o exercício que, não se completando, exige do atleta o frequente recomeçar.
A descoberta mais interessante daquelas fases iniciais veio com a decisão de escrever um diário. Espartano, ele obrigou-se a escrever todos os dias e isso gerava dificuldades imensas quando, o que era bem comum, não acontecia nada de relevante, emocionante, instigante. Os dias comuns são exercícios incríveis para um pretenso escritor. É fácil narrar o quebra-quebra do vizinho, a morte da bezerra, o assalto ao trem pagador. Exercício mesmo é escrever sobre o cotidiano medíocre onde nada de relevante, pitoresco ou dramático acontece. Ele viveu momentos de aprendizado ao ter que ir para além do aparente.
De certeza desses tempos de aprendizagem ele tem a escrita enquanto ato solitário. E mesmo quando dizem escrever em conjunto, o ato de elaborar qualquer enunciado antes de anunciá-lo é ato solitário. Alguns vícios também decorreram daqueles momentos iniciais como, por exemplo, escrever à noite. De preferência com mais ninguém acordado pela casa. Foi quando efetivamente criou os primeiros textos; alguns contos, crônicas, poemas, peças de teatro.
Redigir peças teatrais sob demanda foi eficaz pela imediata exposição dos resultados ao público. A resposta também imediata na reação da plateia, às vezes durante a apresentação. Com temas densos, dramáticos, ele tinha clareza do resultado nos aplausos finais, escassos ou fartos, tímidos ou efusivos. Se era comédia, a angústia era imediata, terminando com os primeiros risos e chegando ao êxtase quando esses se tornavam gargalhadas.
Escrever profissionalmente, para revistas, jornais, sites, foi percebido como ato fundamental para aprimorar o ofício, esquecer questões adolescentes tipo “só consigo escrever à noite”. Foi o tempo de diariamente entrar em uma redação, ocupar uma mesa e trabalhar, ou seja, escrever o que era preciso, o necessário, o que era esperado ou solicitado. Aprendeu a rir de coisas tipo inspiração. Guardou esta para as futuras tentativas de literatura.
Hoje, que o tempo passou, ele contabiliza um, dois, três… seis livros. Vendidos aqui, acolá, atingiram “Europa, França e Bahia”, é certeza. Ele está, comprovadamente, por aí. Há títulos esgotados! Quer coisa melhor? No entanto, como se retornando aos primeiros momentos, vem a necessidade do interlocutor. Escrever sem ser lido é tipo sexo não consumado. Meses e anos para construir um texto, elaborar uma narrativa, desenvolver uma história! Às vezes, ele sente vontade de escrever e mais nada. Todavia, só se reconhece escritor quando lido.
Terminado o texto, este mesmo se é que você chegou até aqui, ocorrerá ou não a magia entre emissor e receptor, autor e leitor. Não se trata da resposta mercadológica que se mensura por resultado de vendas. Nem da vaidade tola das críticas e dos elogios simples ou rebuscados. O esperado é que ocorra uma união íntima entre esses dois seres, o que escreve e o que lê. Serena se concordarem, ou cheias de pensamentos argumentativos para, oportunamente, expor as próprias ideias, outra conclusão ou ponto de vista.
E assim aguardarei, caro leitor, que tenhas algo a me dizer. Se assim for, até breve!