Na estica à beira-mar

Com frio ou calor, chuva ou sol, esse mineiro que vos escreve, morando em Santos, caminha cotidianamente pela orla atlântica. Invariavelmente esse passeio é feito sobre a calçada que limita jardim e praia. São sete quilômetros de jardim, praia e mar. Obviamente que não caminho tanto assim. Vou um cadiquim para cá, um cadiquim para lá, sento-me para ver navios, distraído em alguns momentos por pássaros e gente.

Não sei nadar. “Como assim?” já ouvi muitas vezes. Presumo com certeza não ser o único a dominar tal coisa, mas invariavelmente informo ser de Minas Gerais. Talvez por isso, pelo menos por enquanto, meus joelhos continuam virgens da água marinha. E vivo bem sem nadar. Sei andar, corro, já dancei muito, mas nadar… não nado. E tenho a quem puxar.

Ulysses e Bino

Este rapaz elegante, de terno claro, é o Bino, meu pai. Esteve assim aqui em Santos, lá pela primeira metade do século passado, antes de eu ter nascido. Veio em visita aos meus tios que, vindos de Portugal, moravam por aqui. Este, ao lado do meu pai, é o Tio Ulysses, casado com Isaura, irmã caçula de minha mãe. Tenho vaga lembrança de terem morado na Praia José Menino.

Sou capaz de apostar que nenhum santista viu as pernocas do meu pai. Nem os cariocas, pois quando papai visitava o Rio de Janeiro – uma dessas viagens me lembro bem – era nessa “estica” que ele caminhava por Copacabana e outras praias mais.

Não tenho nenhuma informação de meu pai tomando banho em lagos ou rios. E, todo mundo sabe, rio é o que não falta em Minas Gerais. Todavia, em um aspecto saí a meu pai. Nem rio, nem lago, nem mar, nem piscina. Chuveiro a gente gosta. Muito! Quanto a mares, rios e lagos, que fiquem lá com todo o respeito e cuidado que merecem. Gente como nós se contenta em olhar, sentir o cheiro, a brisa.

Poderia estender esse texto com mil razões, outro tanto de conjecturas sobre tal situação. Bobagem. Ou então que fique para outra hora. Só me incomoda quando alguém vem questionar por que vou de meias e sandálias nas caminhadas à beira-mar. Vou como quero, mas como nem tudo é tão rígido, celebro alguns avanços: tenho feito caminhadas molhando os pés naquele ponto em que as ondas se desmancham na areia. Às vezes, chegam até as canelas e até já chegaram bem próximas do joelho. Chupa, Michael Phelps!

Outro dia fiquei presenciando uma ressaca, admirando vários surfistas em ação. Deslizando sobre as ondas como seres mágicos, alguns terminando o trajeto me lembrando Charles Chaplin nas trapalhadas de Carlitos. Nesse mesmo dia um morador da praia – já percebi que há vários por aqui – foi resolutamente bêbado caminhando em direção ao mar. Passos trôpegos, transferi a preocupação para os companheiros do sujeito em caso de afogamento e fiquei observando. Ele caminhou até a água ir acima da cintura, pulando ondas e, de repente, retornando o corpo em viravoltas desconexas junto a uma onda mais forte. Levantou-se como se fosse um herói olímpico, gritou obscenidades para os colegas e retornou, calmamente, para o local de origem.

Naquele dia deixei surfistas, moradores e, como tenho feito, voltei para casa, sequinho, sequinho. Com certeza nadar deve ser muito bom. Mas, além de ser filho do Bino, não tenho pressa. Estou morando por aqui há tão pouco tempo! Quem sabe, em algum momento, eu não venha narrar algumas braçadas celebrando um dia de sol no mar?

Até mais!

Maníaco por cacarecos

Entre as múltiplas funções das pedras de um jogo de dominó estão a facilidade em compor escadas, estabelecer limites da coxia em espaços imaginários ou criar rotundas no fundo de um palco. Tampas de tubos de pasta de dente podem se tornar pés de uma mesa; umas sobre as outras formam belas colunas e, com a parte menor para baixo, simulam vasos. Tampas de garrafa são bandejas onduladas e caixas de fósforo se transformam em armários… Foi assim, brincando com cacarecos que iniciei minha paixão por cenários.

Penso ter sido sorte não dispor de um quarto cheio de brinquedos. Isso nos permitiu, incluindo aqui irmãos e primos, a transformar latas de sardinha em vagões de trem de ferro, cascas de nozes em carapaças de tartarugas e latas de extrato, ou de óleo, em pés de lata. Aprendemos rapidamente a transformar câmaras de bicicleta em estilingues após identificarmos as forquilhas mais resistentes nas goiabeiras do quintal e por aí seguimos, somando bolas de gude, piões, carrinhos e toda a sorte de brinquedos aos nossos artefatos caseiros.

As pessoas crescem e param de brincar. Algumas. Outras continuam brincando – que é a melhor definição que assumo para teatro: brincar de ser! No meu caso, o lado estranho de algo legal, iniciado lá na infância, tornou-se um razoável vício em guardar coisas. Um acumulador, dizem atualmente. Uma dificuldade considerável em desapegar-se de coisas que, quase sempre, perdem função e serventia.

Obviamente que há desculpas esfarrapadas para acumular bobagens. Minha preferida é pelo fato de vir de uma época, e de um determinado grupo social, em que guardávamos bexigas pelo maior tempo possível e, quando presenteados, desembrulhávamos o objeto com o máximo cuidado para, em ocasião propícia, dar novo destino ao papel que poderia ser uma capa de caderno, forrar o fundo de uma gaveta e até embrulhar um novo presente. A vida não era fácil!

Há justificativas afetivas: a caneca presenteada pela tia, o copo e a imagem da santa que se tornaram lembranças da avó, o par de esporas usado pelo pai quando no exército, a lanterna que acompanhou o avô ao longo de 40 anos na Mogiana, o potinho que veio da vizinha, a espanhola D. Antônia, o livro usado por minha mãe quando na escola… Deixar essas e outras bugigangas gera uma culpa que nem Freud resolve!

Acontece que, entre o brinquedo e a lembrança, há os badulaques (essa palavra muito usada por D. Laura), os bagulhos (com outra função para a molecada de hoje) e as tralhas, amigas das traças e teias de aranha. Por que alguém guardaria tampas sem panela? Potes de plástico sem tampas, copos e pratos díspares, roupas número 40 para quem já beira ao 48? Vidros de compotas vazios, alguns cheios de rolhas inúteis, outros cheios de parafusos sem porcas… E para dar um fim nessa constrangedora relação há os restos de tintas já secas, inúmeros suportes para mangueiras de chuveiro e pedaços de vela nunca encontrados quando acaba a energia.

Há muito tenho consciência de ter manias de guardar coisas. Lá atrás, quando tive um quintal para chamar de meu “colecionei” fósforos queimados, vidros de energético e embalagens plásticas do concorrente, o tal que vem cheio de lactobacilos vivos. Quando questionado sobre a tal mania bancava o artista plástico: “- Vou fazer uma instalação!”. Da casa grande para um kitchenette, a futura fracassada instalação foi toda para o lixo e, algum tempo depois, já professor, passei a acumular papéis.

Revistas para exemplificar anúncios, mídia cards para diferentes exercícios, embalagens diferentes para atividades em criatividade… Jornais, malas diretas, papeis de embrulho personalizados… Encartes, brindes, materiais de ponto de venda… E de cada objeto tornado exercício o registro físico em papeis, muitos papéis, posto que arquivos digitais não têm a menor graça…

Da primeira terapia guardo os exercícios de desapego que, em bom português, nada mais são do que jogar cacarecos fora, dar destino ao que ainda possa ter e, prêmio garantido: ganhar espaço. Periodicamente pratico o tal exercício, mas percebi nesses dias, ao preparar minha mudança, que aqui e ali driblei legal essa coisa de desapego. Posso exemplificar com panelas de pressão obsoletas, agendas usadas desde o século passado, leques de um frustrado projeto teatral e, entre outras, vários canudos que são suporte para papel toalha e papel higiênico.

Quantas coisas úteis estão inúteis por aí? Quantos cacarecos absolutamente sem utilidade ocupam espaços que, livres, no mínimo deixariam ambientes mais bem arejados? Difícil! Minha solidariedade àqueles que, como eu, têm essa mania estranha. E assim, só me resta continuar mesmo sabendo que virão recaídas!

Bora desapegar!

Estou a ver navios

Não sei de onde vem o fascínio pelo ir e vir de navios que, nesse momento da vida, tenho observado entrando ou saindo pelo canal marítimo que liga o oceano ao porto de Santos. Talvez da infância quando, em dias de muita chuva e enxurradas, meu irmão Valdonei e eu fazíamos barquinhos de papel que, invariavelmente, não chegavam até a esquina mais próxima. Afundavam! Buscávamos papel mais resistente e, às vezes, até conseguíamos um que fosse impermeável.

Ver barquinhos descer rua abaixo em corredeiras pluviais e imaginar até onde chegariam era um exercício de fantasia. Não havia bueiros no bairro e sabíamos que parte da enxurrada descia por toda a extensão da avenida enquanto a outra, pela Rua João Pinheiro, tomava rumo ao centro da cidade. Barquinhos mais resistentes chegavam no ponto onde a enxurrada se dividia e era esse o limite até onde ia meu irmão, acompanhando as canoinhas que, pura imaginação, eram barcos, grandes navios.

Lá pelas tantas, na adolescência, tive ideia de que não seria bom ficar estacionado, vendo barcos e vida a passar. Uma das minhas canções preferidas de então termina com versos cantados magistralmente por Maria Bethânia:

Não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não

Lamentando o eterno movimento

Movimento dos barcos, movimento!

A mesma canção, de Capinam e Jards Macalé, também diz:

Não quero ficar dando adeus às coisas passando

Eu quero é passar com elas…

Quantas vezes ouvi Movimento dos Barcos? Não sei! O que sei é que a ideia de estacionar era apavorante tanto quanto a possibilidade de perder algo que a vida pudesse me propiciar. “Eu quero é passar com elas”, pensava enquanto exercia atividades teatrais, educativas, jornalísticas, religiosas, literárias… Um turbilhão de coisas invariavelmente feitas simultaneamente que me levaram a pensar que não sabia, não conseguia meditar.

Voltas que o mundo dá. Mineiro de Minas Gerais, que não sabe nadar nem brincar em piscina de criança, me vejo sentado em diversos pontos do imenso e belo jardim da orla santista, completamente absorto, fascinado pelo eterno movimento das ondas que chegam e se desmancham na areia. Vejo respeitosamente a imensidão que me apequena. Eita, marzão grande, sô! Evito pensar no que ele esconde e nada do que possa estar ali à espreita me assusta, posto que é o mesmo respeito que me mantém distante, mal molhando os pés.

O mar tem me permitido altos níveis de alheamento. Sei lá para onde vão os pensamentos, os desejos, as vontades, os anseios. Tudo se resume a entrar em sintonia com o movimento das águas, no ritmo de ondas às vezes altas, outras meros marulhos. Perco o olhar no infinito, onde mar e céu se encontram e mantenho contato com a realidade a cada navio que passa. Como se cada embarcação me perguntasse de onde vim, para onde vou, o que eu quero. E eu quero é continuar a olhar o mar, a ver navios.

Lá atrás, trabalhando para a gente do Pará e do Maranhão, homenageei Luís da Câmara Cascudo em personagem que chamei “Cascudinho”, nome que me vem quando penso no estudioso brasileiro. Foi Cascudinho, li na coluna Sobre Palavras, do Sérgio Rodrigues, que dá duas versões para a expressão a ver navios. Uma diz de um rico dono de navios que desafiou Deus e este teria dado uma lição no sujeito naufragando as embarcações. Outra, refere crença na volta de D. Sebastião, o rei português que morreu em batalha.

Humildemente sugiro ressignificar a velha expressão “Ficar a ver navios”. Passa a ser um processo de meditação para iniciantes onde o sujeito entra em estado de contemplação observando o oceano. Devidamente acomodado de frente para o mar, sob sombra ou sol, conforme a temperatura pedir. E como o pensamento teima em funcionar, tirar do alheamento, deixe-se levar pelo ir e vir das grandes embarcações.

Outro dia veio uma com o nome Grimaldi. Deve ser da família de Mônaco; Amauri é o nome do meu novo amigo, que me ensina coisas do mar: aquelas que se parecem com grande caixa, acho feias, carregam grãos. Todas têm uma linha que determina para o observador se estão vazias ou carregadas. Aquelas cheias de grandes contêineres me lembram lego. Para logo chegará um grande navio da China. Tiveram que alargar o canal quando veio pela primeira vez…

Passatempo bom, ver navios. Não tenho o menor interesse em saber para onde vão, de onde vieram. Apenas desejo que façam boa viagem e, quando chegando, que não tragam nada de mal.

Quanto tempo vou levar para dar um jeito de me “empoleirar” em um desses “trens grandes”, rumo a não sei onde?

Ficar a ver navios é bom. Recomendo.

Ziriguidum 67

“Um mineiro em Santos”

Quando as coisas andam sem cor e se a sensação é de vida estagnada, o jeito é seguir o conselho da minha dileta Márcia Gomes Lorenzoni: “É preciso dar um ziriguidum na vida!” Para deixar claro, seria algo tipo dar um up, diriam atuais adolescentes, ou sair da caixa como indica o coaching da hora colocando-nos “in” ou “out” em relação a quase tudo. Todavia, ao invés de um “up”, a gente pode carecer mesmo é de ir para os lados e, alerto, um bom ziriguidum pode ocorrer dentro, em cima, embaixo ou fora da caixa.

Li que aos 60 e poucos de idade a gente passa a priorizar arnica e canela de velho aos bons hidratantes. É vero! Aos 65, aposentados por idade, agradecemos não ver luzes brancas no final de túneis com vultos desconhecidos vindo nos buscar. E quando em meio ao período em que sessenta se confunde com “cê senta e fica quieto”, vieram: um acidente, uma demissão e uma pandemia, levando-me, como diria Belchior, a ficar “mais angustiado que o goleiro na hora do gol”.

Bobagem enfrentar o tempo. Ainda mais porque, sendo abstração humana, o tempo ignora relógios, calendários. Ele simplesmente segue em frente e já sabemos nosso destino nessa dimensão. Daí que a gente corre o risco de ser um tal velho, aquele da canção de Chico Buarque:

O velho sem conselhos

De joelhos, de partida

Carrega com certeza

Todo o peso dessa vida…

Eu hein! Na real, penso que a vida só pesa quando olhamos para trás, já que não temos ideia do que teremos pela frente. Assim, o passado é lastro (gosto dos lastros que me norteiam!), mas o tempo que nos virá é o que merece maior atenção, planejamento, cuidado…  Quanto tempo? Não sei. Pode ser uma semana, uma ou mais décadas, ou… Segundos (Nãooooo!)!   Quem quiser que meça, ou tente medir o tempo que lhe reste. Eu vou é viver e, de preferência, com um grande ziriguidum!

Ziriguidum, para alguns, pode ser um corte de cabelo, uns copos de cerveja a mais, uma noite alucinante de sexo, uma tentativa de crime perfeito, uma surra no vizinho chato… Euzinho, que nasci no mesmo dia em que D. Maria Bethânia, curto coisas mais intensas (para lembrar Sonia Braga em Aquarius), e posso até aceitar “uma pedra falsa, um sonho de valsa” desde que seja para viver uma grande paixão por alguém como Gal, cantando Folhetim (Chico, sempre ele!).

Todos as situações dos 60 em diante, citadas acima, levaram-me primeiro ao fundo do poço, intensamente! Fazendo vir à tona o Álvares de Azevedo que carrego desde a infância:

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã…

E, mineiro, comecei a matutar. Recordando Marcinha, só sairia dessa com um bom ziriguidum. Depois de pensar, repensar, planejar, discutir, desistir, insistir, recomeçar, tudo num círculo constante vivenciado ao lado do Flávio Monteiro até que a decisão viesse. O ziriguidum! E euzinho, estagnado e velhinho da Bela Vista, com meu boné italiano e cachecol enrolado no pescoço, passei a cantarolar Raul Seixas:

Ah! Eu é que não me sento

No trono de um apartamento

Com a boca escancarada, cheia de dentes

Esperando a morte chegar…

Os sinais foram dados neste mesmo blog, também nas redes sociais. “Estou em Santos, sou de Santos. Cidade que escolhi como destino”. Concretamente e NÃO definitivo, pois continuarei aberto a outros possíveis ziriguiduns. Aos 67, que chegarão em breve, continuarei contando histórias, certamente com o mar entre os protagonistas. Aliás, Dorival Caymmi não me tem saído da cabeça e dos lábios, murmurando canções pelas praias da cidade:

Andei, por andar andei

E todo caminho deu no mar

Andei, pelo mar andei

Nas águas de Dona Janaína…

Ziriguidum é bom, recomendo a todos, todas e todes. Não importa a idade! Outras faces deste momento que vivo virão por aqui em uma série de textos que, segundo prometi ao Edison Derito, deverá ter por título “Um mineiro em Santos”. Espero continuar com a atenção de quem me leu até aqui!

Até mais!

Maria Amélia, da delicadeza e do sorriso incansável.

Maria Amélia, ao centro, no Auto da Esperança

Ao longo de toda a minha vida tenho trabalhado com grandes mulheres: Mara, Sonia, Regina, Claudia, Vânia… A primeira, aquela quem norteou meus caminhos futuros, foi Maria Amélia. Lá em Uberaba, quando fomos aprendizes de quase tudo.

Um grupo considerável de jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, foi organizado em diferentes equipes pelos padres coordenadores Líbero e Américo. Participei de uma dessas equipes, denominada Integração, coordenando-a com Maria Amélia e Terezinha Benetolo. Como o próprio nome da equipe sugere, nosso trabalho consistia em dar continuidade a trabalho anterior, realizado pela Catequese. Crianças, após a primeira comunhão, aprofundavam conosco temas religiosos e pertinentes a pré-adolescentes.

Caçulas de famílias distintas, Terezinha e eu éramos tímidos aprendizes no que Maria Amélia transitava com inequívoca simpatia e tranquilidade. Os diversos temas tratados pela Equipe de Integração eram facilitados pela nossa amiga que, já naquele momento, tinha algo de arrimo de família, lutando por melhores condições de trabalho para o próprio pai. “Estou trabalhando para conseguir uma banca no Mercado Municipal para o meu pai” recordo a frase que logo se tornou realidade.

Dessa equipe quero frisar de Maria Amélia a maturidade, o imenso carinho fraternal, às vezes maternal com que conduzia tudo sem perder a alegria, sem esconder um sorriso franco, sempre aberto a cada encontro. Trabalhamos por um bom período sem nenhuma perturbação, sem rusgas, intrigas. Fomos irmãos!

Lá pelas tantas, preparando com Ronaldo Feliciano Assis um momento do encontro de final de ano do grupo jovem, escrevi e dirigi o que chamo minha primeira experiência teatral. Entre as atrizes, lá está Maria Amélia se fazendo presente em momento de carinhosa lembrança.

Da esquerda para a direita: Luis Albino segura os ombros de Maria Catarina. Walter, Maria Amélia Cruz, Valdo Resende, Marisa Helena Alves, Célio Heli Batista, Rubens, Maria Judite da Silveira. Embaixo: José Humberto Silveira, Marilene Justino, Daniel Lázaro das Neves, Marluce Justino e Ronaldo Feliciano de Assis.

Essas duas experiências, marcantes, nortearam minha vida pessoal e profissional. Aprendi a conhecer um pouco mais sobre crianças e adolescentes com a Equipe de Integração. Primeiros passos numa carreira de professor que ultrapassou três décadas de trabalho. Com o Auto da Esperança, iniciei uma carreira de teatro que, espero, ainda dê mais alguns frutos. Nas duas atividades trabalhei com mulheres, fui dirigido e coordenado por mulheres incríveis, sobretudo generosas, como foi Maria Amélia.

Cada um seguindo caminho distinto, nunca deixamos de lado os laços de amizade que nos uniram desde então. Ultimamente nos falávamos por WhatsApp e, não raro, ela deixava comentários delicados nas redes sociais como este, publicado abaixo que, infelizmente, veio a ser nossa despedida. Maria Amélia publicou a mensagem na sexta-feira, vindo a falecer no dia seguinte. A dona da delicadeza e do sorriso incansável fez sua passagem.

Registro aqui minhas sinceras homenagens, e certamente de todos os amigos de Maria Amélia Cruz Barbosa. Nossa tristeza infinita é somada a certeza de que pessoas como ela, só podem ter um destino de paz e harmonia ao lado do Criador. Registro também gratidão pelo carinho, pela amizade serena, pela simpatia nunca deixada de lado em todos os nossos encontros.

Mineiro encantado, João Justino

João Carlos Justino

Há um tipo muito peculiar de mineiro que, me parece, está difícil de encontrar. Chegado em uma boa e longa prosa, disposto a encontrar os amigos na própria cidade para um café, ou reforçar laços visitando-os quando de passagem por locais distantes. Sujeitos como João Carlos Justino! Educado, respeitoso, alegre, receptivo, sobretudo cordial. “— Vamos conversar, Valdo! Falar até do que a gente não entende! Aproveitar a vida!” Essa vida que o deixou nesse dia 15 de maio, entristecendo familiares e amigos que muito o amaram.

Éramos muitos! Em determinado momento é certo que sessenta ou mais jovens frequentavam o grupo da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, em Uberaba – MG. Havia amizade, um sentimento geral unindo todos que, não raro, se intensificava em grupos menores extrapolando as reuniões semanais. Num momento em que dois, três anos de diferença de idade separam pessoas, o que unia mesmo eram afinidades, incorporadas no relacionamento sem que possamos, hoje, precisar como foi que ocorreu. Ficamos amigos! Somos amigos irmãos. E assim permanecendo vida adiante, mundo afora.

Pelo lado materno, João Justino vinha de uma imensa família, quase todos de Ponte Alta que, aos poucos, chegaram ao Boa Vista. Os Silveira! Família que teve músicos talentosos como a dupla Silveira e Silveirinha, os demais membros participando ativamente da vida do bairro, da paróquia. Sr. Claudionor, Sr. Euclides, Judite, D. Maria, Sr. Antônio…

Há um tipo de mineiro que adora conversar! De fala fluente, sempre pronto a esticar a conversa quando boa até o amanhecer. João era assim, cheio de filosofias, de frases calorosas, de efeito e simpatia. Em minha casa, tanto conversava comigo quanto com meus pais, D. Laura, ou o Seo Bino! Não o fazia por deferimento ou gentileza, mas por prazer, por entender que a amizade que tínhamos era sentimento extensivo aos nossos familiares.

Mineiro raro! Essa formalidade no trato social o levava a estar sempre vestido com camisas de manga comprida, calças sociais. Meu amigo era o homenzinho da casa, amando e sobretudo respeitando as irmãs Marilene e Marluce, protegendo os mais novos, Júlio e Maristela. Essa postura, assumida com tranquilidade pela educação recebida de D. Lourdes e Seo Antônio, afastou-o de farras comuns a jovens e adolescentes. Em pouco, João estava casado com Angelina, formando com esta uma bela família. Então, já estávamos morando bem distantes.

Mineiros gostam de ganhar o mundo. Um dia nos encontramos, caminhando pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo. João e eu em direções opostas. Paramos tudo, para colocar a conversa em dia. Recordar viagens para Goiânia, Ribeirão Preto, Ponte Alta, Santa Rosa de Lima, o Rio Uberaba… João logo estaria rumo ao centro-oeste, trabalhando em Brasília e nos Estados de Mato Grosso, Tocantins, Goiás. Em cada lugar, buscava reencontrar os amigos, sonhava reencontro geral daquele grupo em que, um dia, todos se conheceram.

De todos os lugares em que estivemos tínhamos um, muito especial. O alto da torre da igreja, o campanário da Paróquia de Nossa Senhora das Graças. Ali, por especial deferência do pároco de então, vimos o sol poente em várias oportunidades e, em noites de vigília pascal, presenciamos o nascer do sol. Outros momentos foram divididos com Ronaldinho, Fátima, Keila, Kaká, Paulinho, Sônia, Maria Amélia, os Padres Líbero e Américo… Na casa de D. Eponina Borges jogávamos cartas. João e Ronaldo se inflamavam. Quando o barulho extrapolava, bastava mencionar o nome da querida D. Nina para que os ânimos fossem serenados. Puro respeito e carinho para com a dona da casa.

João Justino teve filhos, netos. Esses conheço pouco. A distância e o tempo cobram seus preços. Todavia sei do afeto que os unia e deles o patriarca falava com orgulho, com imensa satisfação, como quando do nosso último encontro, em dezembro passado. Estive em Uberaba e fui visitá-lo, ele em plena luta com a doença que, como diria outro João, o Guimarães Rosa, o encantou. E agora, aqui recordando tal momento, quero registrar a força, a esperança, o bom-humor: “— Agora, você sabe onde me encontrar, Valdo! Pelo menos enquanto tiver desse jeito vou ficar por aqui!”, disse-me rindo da situação, da doença.

Há mineiros que trabalham por toda uma vida! João trabalhou com remédios, dominando o setor farmacêutico, abrindo frentes de trabalho. Sabia das composições, dos efeitos colaterais, dos resultados. Sabia o que cada remédio faria em seu corpo, o que seria possível resolver… ou não resolver. Penso que que tal conhecimento ganha uma dimensão trágica e, ao mesmo tempo, um teste de fé perante a vida. Creio que a fé prevaleceu, pois as últimas notícias que tive vieram da esposa, Angelina: “— Ele tá aqui, lutando para não ir!”.

Mineiros são gente de fé. Como a que uniu um imenso grupo lá no Boa Vista, em torno e sob a proteção de Nossa Senhora das Graças. O tempo levou esse pessoal para locais muito distantes; as tarefas cotidianas, a luta pela vida separou muita gente. Alguns permaneceram unidos, em contato, em amizade fraterna, acreditando e sonhando, como sei que João Justino sonhou, que um dia estaremos todos juntos. Que Deus o ouça!

De tanto

Chicareli, o Carlinhos, é um grande poeta. Nos conhecemos lá atrás e nos distanciamos, cuidando da vida, das nossas carreiras. Há pouco nos reencontramos, virtualmente, e temos trocado nossos trabalhos, como o que publico abaixo, recebido hoje. Obrigado, Carlos! Feliz em poder compartilhar seu trabalho aqui, no blog.

DE TANTO

Carlos Alberto Chicareli


De tanto que é de todos
é chamada de Nossa
e eu, sozinho, preciso muito
de sua mão e seu colo.


De tanto que é sublime
é chamada de Ave
e, eu ave-menina, preciso…
preciso tanto da sua voz suave.


Preciso do seu manto para enxugar as lágrimas,
preciso de seus olhos para enxergar o caminho;
quero ser um bom menino, um bom menino
neste mundo meio e tão perdido…


Preciso do seu ombro para me apoiar;
quisera ter na mente e coração
a ligação com o seu pensar,
sem decepções seguir meu rumo
e neste caminho esquecido planar.


Virá, virá, eu sei que virá!!!
Este dia em que vai me agasalhar,
proteger a minh’alma para frio não passar…
proteger o meu peito para de tristeza
nunca mais chorar…


Nossa Senhora, Ave Maria,
Mãe Querida, Mãe Maria…
Eu só queria dizer estas palavras
para agradecer e voar!!!

.-.-.-.-.-.