Padre Líbero Zappone, nosso “Coronel”

Pe. Líbero, em montagem com fotos obtidas nas redes sociais.

Éramos jovens e faltava experiência para uma melhor percepção da vida, das pessoas. Crescidos sob tutela de muitos padres, não era muito fácil distinguir com profundidade o que e quem era cada um dos sacerdotes. A simpatia de uns, as brincadeiras de outros, até a rabugice de poucos, o distanciamento, tudo era percebido de maneira um tanto emocional. Todavia, tivemos a argúcia mínima necessária para perceber que o Padre Líbero Zappone era especial. Um sujeito ímpar.

Em plena década de 70 apelidar alguém de “Coronel” não era propriamente um elogio. Provavelmente esse apelido foi dado por Fátima Borges. Sob a ditadura militar, apareceu-nos um padre que não pedia, mandava. E a gente obedecia, pois as ordens do Coronel eram muito claras e tinham como objetivo nos fazer crescer. Exemplo: Fátima e eu judiávamos de violões encontrados na sacristia, antes e após reuniões. Vem o Coronel e nos dá um mês para aprender a tocar e acompanhar os colegas durante a missa. Um mês! E lá fomos nós atrás de aulas, muito estudo, muito nervosismo e, obviamente não apresentamos um concerto. Chegou a tal missa e lá estávamos junto ao grupo, outros violões dando força. Fafá começaria ali uma linda trajetória musical.

Outras ordens dadas pelo Pe. Líbero colocaram o enorme grupo de jovens da paróquia em intensa atividade. “Na próxima quermesse, vocês serão os festeiros”. Para quem não sabe, ou não se lembra, festeiros são fieis encarregados da organização das quermesses. Pessoas experientes, negociantes, comerciantes capazes de administrar um evento que, durante nove dias, deve arrecadar dinheiro para as obras da paróquia. Encaramos a tarefa. O que a gente não sabia nos foi ensinado pelos pais, por amigos. Deu certo, tanto que depois ele nos levou a repetir a dose.

O Coronel priorizava o conhecimento. E a fé, com lucidez. Lembro-me dele conversando por diversas ocasiões com um “crente”, que hoje chamaríamos evangélico. Cada um munido de sua Bíblia, as conversas entre ambos eram acaloradas, intensas. Na minha estúpida postura de jovem argumentava com o Coronel: “Não é uma perda de tempo conversar com esse sujeito?”. O padre me deu uma lição que ainda hoje procuro seguir. “Eu aprendo com ele, reforço o que sei. Respeito o lado dele”. Recordo um dos temas, os dois citando versículos sobre os nomes de Deus, o que me leva agora a pensar que o outro deveria ser Testemunha de Jeová, pois era esse o nome pelo qual insistia. O Coronel, calmo, ensinava o outro a localizar Javé no livro santo.

Pessoalmente, o Padre Líbero provocou dois momentos que marcariam minha trajetória futura. Ele me mandou (de novo!) preparar uma homilia para a missa das nove, que era a “Missa dos Jovens”. Eu deveria comentar a Parábola do Semeador. “A missa não é só do padre! É de todos nós. Todos somos responsáveis”. E lá fui eu, jovenzinho, enfrentar a casa cheia, como eram todas as missas da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, lá em Uberaba. Recordo ter estudado muito. De ter redigido o texto, decorado, feito resumo, conferido em Mateus, Marcos e Lucas, e fiz. O Coronel…  pediu-me nova empreitada, mais aprofundada. Muniu-me de livros e um imenso dicionário de teologia para elaborar uma dissertação sobre Revelação. Eu saí das narrativas bíblicas para o exercício da exegese, um começo para futuras palestras, aulas, vida acadêmica.

Creio que cada um dos participantes do grupo de jovens da paróquia tem uma história para contar, uma experiência particular. O Padre Líbero nos dividiu em equipes, cada uma delas responsável por um trabalho de apoio às atividades de formação e aprofundamento cristão. Com Maria Amélia Cruz e Terezinha Benetolo desenvolvemos trabalhos e apresentamos para a paróquia o que foram as Cartas de Medellin, o Concílio Vaticano II, e outros temas em uma tal “Equipe de Integração”. Com Ronaldo Feliciano de Assis, encarregado de atividade teatral, colaborei na montagem do que veio a ser o meu primeiro trabalho cênico, norteando toda a minha vida a partir de então. Quais serão as lembranças do Paulinho Silveira, do Getúlio, de tantos outros que por lá passaram.

O Padre Líbero nos levava a sério. E conversava conosco de maneira adulta. Com ele aprendi a diferença entre Garrastazu Médici e Ernesto Geisel. E o papel que cada um estava tendo naquele momento da ditadura. Ele apontava o que pensava de cada um, qualidades, defeitos. Tempos depois, fui recebido por ele na Vila Luzita, em Santo André. Era 1977, creio eu, e o lugar era um bairro em formação. “É aqui, junto aos que necessitam que devemos estar”. Já então percebia as diferenças entre ele e os demais padres de nossa convivência. Pouco antes ele havia recusado uma paróquia prontinha, bonitinha, lá em Campinas, mas de difícil acesso ao povo. Optou pela vila em formação onde, literalmente, tudo estava por ser feito.

Anos depois, ele já atuando em Socorro, no interior de São Paulo, fomos, Fátima e eu, visitá-lo. Não nos surpreendemos em encontrar na paróquia um grupo de jovens cuidando de uma emissora de rádio criada pelo Coronel. “Eles que tomam conta”, nos disse, com inegável orgulho. Nem foi surpresa conhecer o conjunto residencial que ele, com recursos e trabalho dos grupos da paróquia, estava construindo e que se destinava aos mais necessitados. Durante o trajeto de volta comentamos sobre aquela grande figura. Uma coerência rara!  Um cristão digno da fé que professava. Um líder como poucos.

Hoje recebi a notícia do falecimento do Padre Líbero Zappone. Quem me participou desse triste acontecimento foi minha irmã Walderez. Ele foi o padre que celebrou o casamento dela. Nas fotos do álbum, os noivos e o celebrante, guardamos o registro da presença desse notável sacerdote em nossa família. Muitos paroquianos terão fotos de batismo, de primeira comunhão. Na cidade de Socorro, onde foi pároco por mais de três décadas, as redes sociais registram o afeto e o apreço pelo sacerdote.

Como última lembrança, quero guardar inúmeras caminhadas curtas, um vai e vem no pátio da paróquia (onde ainda não havia quadra, nem o salão construído sobre esta). Ele estava lá, nas tardes de todos os dias, indo e vindo com seu terço, ou o breviário, ou conversando com alguém. “Coronel, preciso falar com você”, e ele, “Venha, vamos caminhar. Pode falar”. E ali eu exercia o sacramento da confissão, sem fórmulas, sem madeira ou tecido me impedindo de perceber o olhar atento, a voz calma, mas decidida, opinando sobre o que ele achava melhor para minha situação. Às vezes, alguém nos interrompia. Continuaríamos depois. Ou então, ele encerrava o assunto com um “vamos rezar” e andávamos, em silêncio, sem penitências ou castigos. Que Deus o receba, Padre Líbero! Em minha lembrança, a figura de um sacerdote extraordinário que, com pulso firme e um especial carisma, conseguiu com que nós, jovens, o obedecêssemos.

Até mais, Coronel!

Sina de escritor

Como começou nem ele mesmo sabe. Pode ter surgido em distantes manhãs quando, ainda na cama, ouvia as novelas de rádio seguidas por sua mãe. Ou teria sido à noite, em cotidianas reuniões familiares quando as parentes contavam umas às outras tal filme, um capítulo não assistido, um livro lido. Essa mania de contar histórias teria surgido com os casos que, chegando da rua, eram narrados pelo pai para toda a família?

Havia uma vizinha que contava histórias da Espanha. E o avô, cheio de causos de assombrações. Também umas tias, fofoqueiras, detalhando histórias alheias com pitadas críticas, maledicências misturadas com anedotas. E os padres! Com fatos antigos, de antes do nada. “No princípio era o verbo!”.  E vieram as árvores, os territórios, os reis, as viagens.

Das primeiras narrativas compostas por ele, reconhece as decorrentes das necessidades domésticas. Como está sua avó? Me conta, como foi seu dia na escola? Quero saber direitinho o motivo da sua professora estar me chamando! E ai dele se não apresentasse boas razões para não ter feito as tarefas escolares, ou por ter conversado com os amigos durante a missa. O castigo vinha certo. Junto com as consequências desses corretivos foram engendradas, com certeza, vinganças espetaculares. Ele iria se matar e ela iria chorar no velório, e passaria a vida a levar flores no cemitério, soluçando, arrependida.

Do avô ganhou um bloco, lápis, exclusivamente para escrever histórias. E não terminou o primeiro romance, como não terminaria várias outras histórias ao longo da infância, adolescência, juventude. Começava a escrever e no meio do enredo perdia o interesse, achava tudo sem graça. Um dia ouviu que era coisa de gente do signo de gêmeos, deixar coisas pelo caminho. Bobagem! Eram histórias bobas, ruins. Tal qual o exercício que, não se completando, exige do atleta o frequente recomeçar.

A descoberta mais interessante daquelas fases iniciais veio com a decisão de escrever um diário. Espartano, ele obrigou-se a escrever todos os dias e isso gerava dificuldades imensas quando, o que era bem comum, não acontecia nada de relevante, emocionante, instigante. Os dias comuns são exercícios incríveis para um pretenso escritor. É fácil narrar o quebra-quebra do vizinho, a morte da bezerra, o assalto ao trem pagador. Exercício mesmo é escrever sobre o cotidiano medíocre onde nada de relevante, pitoresco ou dramático acontece. Ele viveu momentos de aprendizado ao ter que ir para além do aparente.

De certeza desses tempos de aprendizagem ele tem a escrita enquanto ato solitário. E mesmo quando dizem escrever em conjunto, o ato de elaborar qualquer enunciado antes de anunciá-lo é ato solitário. Alguns vícios também decorreram daqueles momentos iniciais como, por exemplo, escrever à noite. De preferência com mais ninguém acordado pela casa. Foi quando efetivamente criou os primeiros textos; alguns contos, crônicas, poemas, peças de teatro.

Redigir peças teatrais sob demanda foi eficaz pela imediata exposição dos resultados ao público. A resposta também imediata na reação da plateia, às vezes durante a apresentação. Com temas densos, dramáticos, ele tinha clareza do resultado nos aplausos finais, escassos ou fartos, tímidos ou efusivos. Se era comédia, a angústia era imediata, terminando com os primeiros risos e chegando ao êxtase quando esses se tornavam gargalhadas.

Escrever profissionalmente, para revistas, jornais, sites, foi percebido como ato fundamental para aprimorar o ofício, esquecer questões adolescentes tipo “só consigo escrever à noite”. Foi o tempo de diariamente entrar em uma redação, ocupar uma mesa e trabalhar, ou seja, escrever o que era preciso, o necessário, o que era esperado ou solicitado. Aprendeu a rir de coisas tipo inspiração. Guardou esta para as futuras tentativas de literatura.

Hoje, que o tempo passou, ele contabiliza um, dois, três… seis livros. Vendidos aqui, acolá, atingiram “Europa, França e Bahia”, é certeza. Ele está, comprovadamente, por aí. Há títulos esgotados!  Quer coisa melhor? No entanto, como se retornando aos primeiros momentos, vem a necessidade do interlocutor. Escrever sem ser lido é tipo sexo não consumado.  Meses e anos para construir um texto, elaborar uma narrativa, desenvolver uma história! Às vezes, ele sente vontade de escrever e mais nada. Todavia, só se reconhece escritor quando lido.

Terminado o texto, este mesmo se é que você chegou até aqui, ocorrerá ou não a magia entre emissor e receptor, autor e leitor. Não se trata da resposta mercadológica que se mensura por resultado de vendas. Nem da vaidade tola das críticas e dos elogios simples ou rebuscados. O esperado é que ocorra uma união íntima entre esses dois seres, o que escreve e o que lê. Serena se concordarem, ou cheias de pensamentos argumentativos para, oportunamente, expor as próprias ideias, outra conclusão ou ponto de vista.

E assim aguardarei, caro leitor, que tenhas algo a me dizer. Se assim for, até breve!

O sorriso do maestro

Detalhe da apresentação de ontem. Foto: Flávio Monteiro.

Das voltas que o mundo dá, voltamos a cantar na Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos. O dia chuvoso não impediu que a casa ficasse lotada, gente assistindo e filmando até pelo lado de fora. Os madrigais escolhidos pelo diretor artístico do coro, nosso maestro Ricardo Cardim, combinaram perfeitamente com o local. Nos vídeos gravados, publicados nas redes sociais, há junto conosco o som de pássaros, dos muitos que perambulam pelos jardins do sobrado.

Somamos novas canções ao repertório apresentado em recente concerto. Então há o prazer em revisitar o que já conhecemos e a ansiedade em cantar o novo, cheio das nuances e dos detalhes trabalhados em meses de ensaio. A reunião de um grupo tão diverso em diferentes aspectos passa pela solução de conflitos velados, outros expressos, em que se evidencia no conjunto a complexidade humana.

Trabalhei muito com teatro onde, esquecendo o coro grego, acontece a somatória de solos dos atores em cena. Bem distinto, o canto coral é o resultado do trabalho conjunto das diferentes vozes buscando atingir a excelência necessária para interpretar uma canção. Atinge-se uma unidade raríssima nas relações humanas. Está nas atitudes do maestro, mais que o mero movimento dos braços, a condução do grupo. Maior ou menor intensidade, força ou suavidade, parar, continuar, calar. Quanto maior a precisão, melhor resultado.

Acostumado a estreias teatrais seguidas de longa temporada ainda não me habituei a ensaiar meses e realizar uma única apresentação com o coral. “Isso não dá dinheiro”, diria papai. E sendo informado de que fazemos esse trabalho sem remuneração nenhuma ele complementaria com um “você é doido, não toma jeito, meu filho!”. O argumento para responder ao meu pai seria o mesmo de outras atividades que tive ao longo dessa vida: “Eu gosto!” E se há uma coisa que aprendi com meu pai foi essa, fazer o que a gente gosta. A vida fica bonita, aguentamos os revezes com sorrisos nos lábios.

Sinto falta de conversar com minha mãe sobre o meu dia a dia. Nas vésperas de exames, nas tensões decorrentes das estreias teatrais, entre outros acontecimentos eram as mãos de minha mãe sobre minha testa a me acalmar e fazer diminuir a ansiedade. Eu detalhava confiantemente, pois a confiança era plena, embora mamãe não deixasse de me dizer o que pensava. Tendo a oportunidade de narrar o dia a dia do Madrigal é bem provável que, em algum momento dona Laura diria um “tenha paciência, meu filho!”.

Normalmente, eu a tranquilizaria enquanto desfilaria o rosário cotidiano: Sempre se começa com um certo atraso. Decorre da dificuldade de confundirmos hora de chegada com hora para começar. E há faltas! Por doença, por trabalho ou por outra razão justificada. Alguns estudam em casa, outros não. Uns já levam as partituras previamente impressas, outros esperam as cópias lá na hora mesmo. Há barulhos, “percussão involuntária”, e logo após o “tenha paciência” de minha mãe, eu continuaria em defesa própria e dos colegas. Amamos cantar! A vida com música é infinitamente melhor!

Estudando no Instituto de Artes da Unesp descobri a beleza de cantar em um coro. Tempos de estudante são complicados e ficaram lá no Ipiranga experiências com Samuel Kerr. Décadas depois venho a cantar em um coro onde o maestro, além de também ter sido aluno é fã do Samuel. Meu pai iria além de “doido” para adjetivar o maestro. Um cara que pesquisa, escolhe, estuda detalhadamente a partitura, opta por um andamento, uma dinâmica para, pacientemente, ensinar frase a frase todas as vozes exigidas pelo compositor. No caso, sem salário! Papai aumentaria para “doido varrido”!

Antes que todos nós, certamente é o maestro a vislumbrar o resultado que se deseja com um coro. Na grande Babel que é o mundo, feita não só de diferentes línguas, mas egos, a música coral é a experiência cotidiana em tentar concretizar a unidade humana. Um ideal que respeita as diferenças, aqui ditas vozes, para harmonizá-las. Cada qual no seu quadrado, no seu limite! Somando agudos, médios e graves para que, idealmente, perceba-se uma melodia. Com todas as nuances características das regiões vocais do ser humano e, não raro, permitindo que uma única voz se eleve exprimindo em solo. Trabalho árduo.

O ouvido de maestro é um detalhe à parte. À frente do coro ele percebe o que falta para que cada subgrupo chegue ao esperado. Após ler a canção, o que basicamente se trata de cantarolar a peça musical, começa o trabalho mais aprofundado, a interpretação. Onde suavizar, onde colocar força, exteriorizar o sentido da letra que se canta com graça e entre outras coisas, sobretudo com afinação. O tempo sempre curto, o calendário que não atrasa e nem espera, chega o dia da estreia. Tensão!

Na coxia as sensações afloram e se manifestam distintamente. Há os mudos, os falantes, os parados e os agitados. “Vaidade das vaidades, dizia o Eclesiastes, tudo é vaidade” em cabelos penteados, roupas ajustadas. A real e profunda face de cada integrante se manifesta em um “querer fazer direito” que facilita uma sintonia única, tanto no palco quanto nos altares das igrejas. Parece que o maestro carrega tudo, coloca tudo sobre si. E o grupo, confiante, vai com ele.

Ao longo de todo o tempo em que estou nessa experiência já passamos por situações distintas. Cantamos à capela, acompanhados por uma pianista, por um grupo de músicos, por uma Orquestra Sinfônica (Uau!). Nosso madrigal já subiu ao palco com outro grupo e, em outra oportunidade, com outros três coros. Momentos únicos! Há registros diversos em fotos e vídeos, nenhum com a totalidade do que se passa com todas as pessoas durante a apresentação.

Seria bom se repetíssemos nossas produções. Por experiência sei que iríamos muito além, pois trabalho de palco é coisa de artífice, melhorando a cada peça, a cada dia. Teríamos a chance de consertar aquela nota, a frase inteira. Poderíamos aperfeiçoar a interpretação, o que se consegue na repetição.

De uma geração que ouviu não sei quantas vezes o mero acerto como um “você não fez mais que a obrigação”, guardo daquele diretor alemão nos dizendo “vocês tem que ser os melhores! Bom é pouco!”. Cantando em coro a gente até que se ouve, ouve aqui, acolá. Ou não! Como ter certeza se fomos bem? O melhor termômetro que descobri é o sorriso do maestro.

Solene e compenetrado, como convêm ao cargo, nosso maestro nos encara com confiança durante toda a apresentação. Um alívio! A máxima do “roupa suja se lava em casa” assume total preponderância. Atento e catalisando a atenção do grupo ele conduz cada canção e é ao final, ainda de costas para o público, que penso já distinguir os sorrisos do maestro. Há aquele do dever cumprido, outro de alívio pela peça difícil executada com dignidade. Um bem especial é pela reação do público. Se aplaudem antes do final, há aquele sorriso tipo “somos fodas!”. O melhor de todos é um raro, bem mais raro do que eu gostaria, que se manifesta quando nós, o coro, fazemos tudo certo e bonito. Mais que eficientes, é aquele momento em que fazemos arte. Fica ali, sem que a plateia veja, um leve sorriso do maestro.

Por mais momentos de arte é o que nos leva a voltar aos ensaios, passar mais alguns meses preparando um novo trabalho. Cantar em coro é a insana tarefa de colocar todas as pessoas em sintonia, em harmonia. É bom ter remuneração por um trabalho e essa é uma grande luta nesse nosso país. Enquanto não vencemos tais batalhas vamos cantando. Com todas as dificuldades do cotidiano, mas com todo o amor pela atividade que nos faz seguir em frente.

Valdo Resende

P.S. – Esse texto é dedicado ao Madrigal Ars Viva e ao nosso regente, Maestro Ricardo Cardim.

“A Fera na Selva” no Cineclube ÁgoraECA

Veja o filme, leia o livro e o roteiro, e converse com Paulo Betti, que assina a direção de “A Fera na Selva” com Eliane Giardini e Lauro Escorel.

Será no próximo dia 26, terça-feira, às 19h, via Zoom: O Cineclube ÁgoraECA apresenta o filme “A Fera na Selva” seguido de bate-papo com o diretor e ator Paulo Betti sobre a obra de Henry James para o cinema.

Protagonizado por Eliane Giardini e Paulo Betti, A Fera na Selva, 2017, foi rodado no interior do estado de São Paulo. Baseado na obra homônima de 1903 do escritor norte-americano naturalizado britânico Henry James, o roteiro foi escrito pelo ator e diretor, baseado na adaptação teatral de Luis Arthur Nunes.

SINOPSE

João e Maria vivem uma vida inteira juntos. Ele é professor de português, ela de literatura inglesa. João é atormentado pela obsessão que uma coisa extraordinária vai acontecer em sua vida. Maria aceita esperar com ele A Fera na Selva, que um dia chegará avassaladora.

PACOTE COMPLETO

Atores formados pela Escola de Arte Dramática da ECA_USP, Betti e Giardini foram protagonistas da peça de teatro em 1992. Daí surgiu a ideia de fazer o filme, realizado em 2017.

Junto com o filme os interessados poderão ler o livro e o roteiro, em links disponibilizados gratuitamente (veja links abaixo). Uma rara oportunidade de conhecer o original, ler o roteiro e, após a exibição do filme, conversar com o realizador.

Veja o vídeo sobre os bastidores da filmagem e, abaixo, os links para o evento.

LINK DO LIVRO PARA BAIXAR: A FERA NA SELVA

LINK PARA O ROTEIRO: A FERA NA SELVA ROTEIRO

PARA VER O FILME NO DIA 26: A FERA NA SELVA ZOOM

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Ficha técnica

“A Fera na Selva”, 2017, adaptação da obra de Henry James, 87 minutos.

Direção: Eliane Giardini, Paulo Betti, Lauro Escorel
Coprodução: Prole de Adão Produções, Batuta Filmes, Canal Brasil, Globo Filme
Roteiro: Paulo Betti, Luís Artur Nunes, Eliane Giardini e Rafael Romão
Produção associada: Fernando Meirelles
Produção executiva: Gilberg Antunes
Produção de elenco: Juliana Betti
Narração: José Mayer
Direção de fotografia: Lauro Escorel, ABC
Fotografia: Fernanda Tanaka
Direção de arte: Ronald Teixeira
Direção de produção: Alexandre Miliani
Direção de platô: Ocimar Marques
Montagem: Eduardo Escorel
Trilha musical:
Felipe Lara
Som direto: Márcio Câmara
Desenho de som: Alexandre Griva, Gabriel Pinheiro
Figurino: Maribel Espinoza, Ronald Teixeira
Maquiagem e caracterização: Siva Rama Terra, Ebony
Produção de finalização: Marcelo Pedrazzi
Elenco: Eliane Giardini, Paulo Betti, Cristina Labronicci, Juliana Betti, Janice Vieira, Ademir Feliziani, Mário Pérsico, João Leopoldo, Clara Nolasco

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Notas: Fotos, divulgação. Texto elaborado sobre release assinado por Regina Thompson.

Caminhantes noturnos

foto: Valdo Resende

No início da madrugada, o carro deslizando com velocidade sobre o asfalto, as construções às margens da estrada tornaram-se o que, ultimamente, as pessoas chamam gatilho. Prefiro escrever que acionaram lembranças, despertaram memórias. Tentei em vão visualizar a escola onde lecionei, assim como a empresa em que trabalhou um grande amigo. Já haviam ficado para trás.

Entramos em um trecho em que, seguramente, eu não passava há oito, dez anos. Os versos da canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil tornados realidade: “Tudo ainda é tal e qual, e no entanto nada é igual”. A capital São Paulo, gigante que nunca dorme, é o cenário de milhões e milhões de histórias. Sou um cisco irrelevante, incapaz de acordar a cidade. Mas ali estão as minhas lembranças, testemunhas do que vivi.

Houve um dia em que, após passar em um concurso, saí de Santo André, no ABC, em direção à Rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque. Uma imensa chuva provocara enchente e o trânsito, parado, me impedia atravessar um trecho da Avenida do Estado. Eu não conhecia a cidade e, preocupado em chegar no horário a tempo de realizar a entrevista de admissão, resolvi contornar a enchente tendo como rumo os edifícios centrais, o norte correto dado pela torre do antigo Banespa, hoje sede e propriedade privada.

Próximos de entrar no elevado sobre o Rio Tamanduateí percebi, que a fábrica da Arno não está ali, onde sempre esteve. Quando será que fechou? Ainda existe tal marca? Também, há séculos não careço comprar eletrodomésticos. Ficou para trás a fábrica, também ficou no passado a gravadora de discos que me encantava por saber que Ângela Maria, Elza Soares e Miltinho gravaram discos ali, em qual prédio mesmo? O da esquina, próxima da igreja horrorosa e caça níquel do outro lado da avenida, tão cheia de luzes quanto uma padaria.

Senti vontade de voltar ao Ipiranga, passar pela Avenida Nazaré e chegar ao antigo Instituto de Artes, onde estudei. Mas já descemos do viaduto sobre o rio e evito olhar para o quartel, prestando atenção na Estação do Metrô Pedro II. Sinto-me a caminho de casa. Entramos no trecho da Radial Leste que ligará com o Elevado João Goulart, o Minhocão. Durante quarenta anos passei por essas avenidas e ruas, praças e parques. Estou a caminho de casa.

Meus companheiros de viagem ignoram meus pensamentos, conversam sobre os benefícios do alho, cru, em pedaços. O chá é bom, mas perde um pouco a potência e retarda o efeito curativo. Chá de alho! O motorista segue atento ao tráfego e ignora a entrada para meu antigo lar. É rápido e já passamos em frente ao Teatro Oficina. Meu destino deixa de ser minha casa para ser meu trabalho. O carro faz parte do trajeto que percorri nos últimos anos antes de me aposentar.

Sob o elevado, em um semáforo fechado da Avenida Amaral Gurgel, percebo ainda os resquícios de noites efervescentes da década de 80. Passava por ali em direção ao CPT de Antunes Filho, andava de um lado para o outro para cobrir eventos das boates da região para a revista em que escrevi, onde vi os primeiros shows de sexo explícito, presenciei uma briga tenebrosa no Bar Quadrado, em frente ao Bar Redondo em madrugada como esta, em que atravessamos a cidade rumo ao lar dos nossos hóspedes.

Nosso destino é a Avenida Barão de Limeira, que conheci em relações de trabalho com a Folha de São Paulo. Chegamos ao destino. Despedidas rápidas, pois é tarde e o domingo já está prestes a receber os primeiros raios de sol. O frio é intenso e eu quero voltar para casa, a de agora, no litoral onde a temperatura mesmo fria é sempre mais amena que na Capital.

Estou cansado. A noite foi intensa e todas as lembranças que vieram à tona misturaram-se a flashs de outras histórias, muitas pessoas, vários lugares. Se acionadas com tempo sei que estão todas dentro de mim. Alguns deslizes e falharão as datas corretas, os nomes completos. Um ou outro detalhe se perdeu, talvez com hipnose seja resgatado, mas se foi perdido que fique por lá. Importa o que emergiu, o que está quente, pleno de vida dentro de mim.

Ah, São Paulo! Só um momento, só pequenas lembranças de um ser comum. Quantas outras em seus milhões de habitantes? Outras tantas em viajantes, já distantes. Volto à Caetano para afirmar que o “errante navegante, quem jamais te esqueceria”. São Paulo não é a minha terra. É a maior parte da minha vida!  De tantos outros que, trafegando madrugada adentro por suas ruas e avenidas, se derretem de amor e gratidão, até mesmo pelo emprego perdido por não chegar à tempo por conta de uma enchente.

São Paulo, 09/08/2025. Para meus companheiros de viagem, Patrícia Remondini, André Manzoni e Flávio Monteiro. O título desta crônica refere música d’Os Mutantes (Arnaldo Batista e Rita Lee). Os alhos, ruinzinhos, estavam expostos no supermercado. Não comprei.

Não sobrevivemos sem eles

Foto: arquivo pessoal

A greve dos coletores e profissionais da limpeza urbana é um momento de consciência da importância desses prestadores de serviço. Aquele profissional que trabalha correndo pelas ruas da cidade recolhendo sacos pesados, muitos fedorentos, sob chuva ou sol, recebe salários irrisórios. A média é de R$ 1.560,93 por mês, conforme o Portal Salário.

Há um consórcio atuando na região que privatizou a coleta de lixo. Os efeitos da administração das empresas responsáveis estão sendo sentidos pelos santistas e moradores de outras cidades da Baixada. Os passeios estão cheios, algumas esquinas lotadas de sacos de lixo levando o transeunte a invadir a rua para poder caminhar.

A situação é perigosa. Os ratos e baratas já invadem as ruas a céu aberto e outros insetos já são percebidos sobrevoando os entulhos. O péssimo odor é o menor dos problemas da insalubridade que nos ronda. Corremos o risco de um surto de dengue, Chikungunya e leptospirose, entre outros males possíveis.

A solução é um salário justo. Os profissionais pedem 7% de reajuste nos salários, elevando a média salarial para R$ 1.670,19! Aqueles que julgam errada a greve dos coletores trabalhariam por tal salário? O que importa para a sobrevivência do ser humano? Nenhuma categoria profissional é melhor ou mais importante que a outra. No entanto, algumas são necessárias e fundamentais; dentre essas, os coletores.

Já escrevi sobre o trabalho desses profissionais na minha rua. Admiro o astral alegre, a educação ao cumprimentar e saudar os moradores. Há alguns pormenores como, por exemplo, pararem no prédio vizinho para se abastecerem de água potável para consumo próprio. Cabe então lembrar aos que criticam a greve de dentro de gabinetes com ar-condicionado, café e água à disposição, que há uma série de seres humanos correndo pelas ruas para recolher o que descartamos.

Espero que a situação termine com o atendimento às propostas da categoria. Pensando na minha saúde, no meu conforto e bem-estar, desejo que consigam e que, na próxima, peçam muito mais! Eu poderia fazer uma lista de prestadores desnecessários, mas deixo para que cada um pense na sua. Uma coisa é certa: sem nossos coletores, sem a cidade limpa, não sobreviveremos.

O gavião no asfalto

A foto de Nair Bueno, do Diário do Litoral, é triste:

Seria aquele que vi por aqui? O gavião apareceu morto no asfalto. Pode ser o que andava pelos telhados vizinhos, pode ser aquele que andou defendendo seu ninho à bicadas em distraídos transeuntes. Os ratos estão em festa. Menos um gavião para exterminá-los. Um elo da cadeia que se rompe e que nos leva ao desequilíbrio. Parece exagero, não é.

Por mais que se ame um lugar é questão de maturidade encarar questões que enfrentamos advindas das características locais. Arborizada e ensolarada, recortada por canais que drenam a cidade, o jardim da orla de Santos tem mais de 5.000m de cumprimento em área imensa, 218.800m²! Santos seria um imenso e belo jardim não fosse… a ação do homem.

O belo sistema de canais da cidade nos permite ver peixes, aves e, infelizmente, lixo. Quando a água está baixa fica mais evidente os sinais de esgoto e diferentes tipos de resíduos que deveriam ter outro destino. Somando restos de alimentos de barracas comerciais, de lixo mal condicionados para a coleta, às vezes expostos fora do dia quem que passam os coletores, o resultado é um número incalculável de ratos e baratas. Quem tem hábito de caminhar pela noite conhece essa realidade.

Ao longo do belíssimo jardim da orla há feiras semanais, barracas vendendo comida e bebida, restaurantes e ambulantes, além daquilo que vem com os próprios frequentadores. Há centenas de lixeiras ao longo das calçadas, frequentemente esvaziadas, o saco plástico recolhido por um exército de garis que também varrem a praia, recolhem o que foi deixado na areia por gente mal educada. Os funcionários públicos passam duas vezes ao dia no local. Para quem frequenta, é comum ver após a passagem do colorido grupo da limpeza a ação de gente que deixa restos de alimentos, favorecendo a alimentação dos ratos.

Uma das razões garantindo equilíbrio entre ratos, baratas e seres humanos são os pássaros. Gaviões e corujas comem ratos e pombinhas, assim como essas comem baratas. Não se trata aqui de fazer um extenso estudo demonstrativo do funcionamento do equilíbrio ambiental. O que importa é o recorte que nos leva a perceber que exterminar um ou vários animais é fato que nos levará ao caos ambiental.

Um gavião apareceu morto no asfalto. O finado comeria cerca de 1000 ratos em um ano. Mais aves mortas e o problema será alarmante. E a cidade, sempre linda, merece permanecer assim. Talvez o bichinho tenha morrido ao bater contra um vidro transparente, uma das consequências dos fortes ventos que tivemos por aqui. Pode ter sido abatido por um tiro de chumbo. Há gente besta e armada por aí! O certo é que precisa ser intensificado o cuidado para com aves e outros predadores de insetos e roedores. Esse cuidado deve ser acompanhado de comunicação, informação para evitar o fim que também pode ser o nosso.

O jardim da orla de Santos é um local mágico. Entre o mar e a cidade estão centenas de árvores, plantas ornamentais, floreiras, monumentos e conjuntos escultóricos por onde circulam 300 espécies de pássaros. Incalculável diversidade de insetos polinizam as plantas não só da orla, mas de todos os jardins e ruas da cidade. E são eles, os pássaros, que garantem equilíbrio para que tais insetos não se constituam em pragas.

Com tantos pássaros enfeitando e enchendo a paisagem com suas cores e trinados, não é incomum ver uma ou outra ave morta, caída no jardim. Às vezes ferida, sabe-se lá por qual inimigo. A morte do gavião nos chama atenção por a vítima ser adulta, estar em aparente vigor físico. Em meio à tanta violência entre os humanos é provável que não investigarão os motivos, os culpados. Sairemos todos perdedores.