Sina

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A palavra como escape,

Desejo, norte ou vício.

Reclama, exige, pede, implora!

– ESCREVE!

Feito ávido viajante…

Desfaça malas,

Distribua lembranças,

Discuta ideias.

Enuncie, proclame, reclame

ESCREVA!

Há que se escrever

Tanto quanto cantar

Amar, comer, viajar

Respirar!

E assim volto,

Por isso escrevo.

“O Tíutio”, o nosso jornal

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Basta olhar para a imagem e o tempo, já distante, reaviva o cheiro de álcool e tinta característicos da impressão via mimeografo. Mesmo com todas as andanças, mudanças daqui e dali, ainda tenho um exemplar. É “O Tíutio” de número quatro, o jornal do Movimento de Jovens da Paróquia de Nossa Senhora das Graças, lá em Uberaba, MG.

Nosso grupo, lá no Bairro Boa Vista, começou com o trabalho de outros jovens, do então chamado Movimento Mundo Novo, cujos participantes eram de outras paróquias da cidade. Estimulados pelos Padres Somascos continuamos o trabalho. Esses já estavam na paróquia desde a década anterior e guardo, com muito carinho, muito do que aprendi com o Padre Nicola Rudge, a quem chamávamos Padre Nicolau ( Com ele descobri a arte do renascimento, aprendi xadrez enquanto ouvia música erudita, em especial, a ópera italiana).

A turma de acólitos (os populares coroinhas) criado pelo Pe. Nicolau caminhou naturalmente para o grupo de jovens, assim como as meninas do grupo que nas novenas, anualmente, coroava as imagens de Maria. Outros padres, Líbero Zappone e Américo Veccia, passaram a trabalhar conosco. Américo, o Tíutio que deu título ao jornal, tinha foco em ações da pastoral vocacional e Pe. Líbero, a quem chamávamos Coronel, era o Vigário de então.

O Coronel justificava o título com “ordens” variadas. “– Vocês irão tocar violão na missa daqui a um mês!” Fátima Borges e eu, obedientes, corremos para ter aulas e no tempo exigido estávamos, trêmulos, executando acordes para que nossos amigos cantassem.  Outra ordem, mexeu com todo o grupo, cerca de 50 pessoas: “- Na próxima quermesse vocês serão os festeiros!”.  Uma revolução. Em toda a história da paróquia as quermesses eram feitas por casais experientes do bairro, com domínio e prática daquele tipo de evento. O grupo topou o desafio e fez um belo trabalho.

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O jornal – faz tempo! – não sei como surgiu, mas está no exemplar que guardo menção à grande colaboração do “Coronel”. A redação está assim descrita: “Valdo, Inimar, Luiz Albino e Ronaldo. Os desenhos foram a cargo de: Gerson”. Os assuntos? Um texto reflexivo de abertura, algumas piadas e muita brincadeira com algumas pessoas participantes do grupo. O número, último do ano de 1975, registra nome e endereço de 46 integrantes.

Já tínhamos sinais de que as coisas mudariam. Fátima Borges, por exemplo, já havia ido de mudança com a família para Goiânia. Logo eu também viria embora. E dos que constam desse velho jornal mimeografado, lamento algumas erdas irreparáveis: Ronaldo Feliciano de Assis, meu querido amigo, faleceu. Também falecidos: João Cardoso Borges e Maria Catarina Souto. Talvez outros, não sei. Muitos integrantes permaneceram lá no bairro, formaram família, os filhos já crescidos, certamente há avós entre esses jovens do Tíutio. Outros foram pra outras cidades, outros estados. E o tempo passou.

Foi em uma dessas arrumações de final/começo de ano que mostrei ao Agostinho Hermes, meu irmão Gugu, o jornal de quando éramos jovens e ele, na época menino, era acólito cuja atuação está registrada nas fotos de casamento de minha irmã Walderez. Ele impediu-me de jogar fora o velho exemplar, assim como também o texto da primeira homilia que fiz, sob as ordens do Coronel, tendo como tema a Parábola do Semeador. – É história, Vavá! Tem que registrar no blog. E aqui está.

Nosso país anda feio! Os anos de 1970 também foram difíceis: estávamos lá! Semeando esperança e nos preparando para seguir em frente. Até onde percebo, via redes sociais, ou papos pessoais, continuamos na luta. A fé pode não ser a mesma, assim como os ideais foram mudando com o tempo, mas ouso afirmar: – Somos gente do bem. E aprendemos boa parte do que somos lá, ao lado dos padres.

Os Somascos ensinaram-nos a fazer reuniões, organizar eventos, discutir textos, planejar ações de integração, discussão. Entre muitas atividades, creio, que a principal foi a discussão e interpretação de textos. Da Bíblia, dos livros de formação e de letras de canções, notícias de jornal, poesias. Um aprendizado informal, mas que certamente norteia a vida de todos aqueles que viveram intensamente aqueles anos.

Meu carinho aos padres e para todos os meus companheiros de grupo, para quem vai este texto. Meus sentimentos aos familiares por aqueles que partiram.

Terminarei registrando todos os nomes citados no jornal; um encontro virtual para lembrar tempos em que sonhávamos grande e, quem sabe, não seja este um pequeno estímulo para continuar a sonhar. No mínimo, um bocado de histórias para lembrar.

Ajair dos Reis Farias Pinto, Alcides Delfino Camilo, Anivaldo Santana, Antonio Sebastião de Souza, Antonio Sergio Manzan, Ariadina Aparecida Borges, Célio Heli Batista, Daniel Lázaro das Neves, Delcio José Matos, Dulcelane dos Santos Loureiro, Eleusa de Fátima Ramos, Getúlio de Oliveira, Gilberto dos Reis Mota, Haidee Maria Fialho, Inimar Eurípedes Santana, João Cardoso Borges, José Geraldo de Oliveira, José Humberto da Silveira, Lúcia Helena Ribeiro, Luiz Albino Gonçalves, Marco Antonio Britto, Maria Amélia Cruz, Maria Aparecida Souto, Maria Bernadete Camilo, Maria Bernadete da Silveira, Maria Catarina Souto, Maria das Graças, Maria das Graças Silveira, Maria Lucia Souto, Maria Natividade Ramos, Marilene Alves, Marilene Justino, Marina Alves Rocha, Marisa Helena Alves, Marluce Aparecida Justino, Marluce Helena de Souza, Marta Aparecida Camilo, Paulo Roberto da Silveira, Pedro Bernardino da Silveira, Pedro Delfino Camilo Filho, Ronaldo Feliciano de Assis, Shirley de Matos, Silvia Gonçalves, Tania Cristina Melo Oliveira, Valdo Vinagreiro Resende, Vanildo Portela de Jesus.

Até mais!

São Paulo, cidade de romance

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Um trecho dos tantos sobre São Paulo em “dois meninos – Limbo”, para expressar todo o amor por nossa cidade. Feliz aniversário, São Paulo!

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…  Para um mineiro que não gosta das coisas passageiras, a solução possível foi seguir o fluxo evitando ventos que provocavam barreiras intransponíveis. Morei no Alto de Pinheiros, na Vila Mariana, na Bela Vista, Paraíso, Ipiranga, no Brás, Mooca… mapeei a cidade e fui tornando-a minha, tomando-a palmo a palmo. Respirei com volúpia entre as alamedas de seus bairros arborizados, suei em bicas ou tiritei de frio sob o concreto de apartamentos, dormi embalado com os sinos do Mosteiro de São Bento e, como um comum nordestino, durante longa temporada bati o ponto todos os domingos na feira sob o viaduto da Radial, ao lado da Baixada do Glicério. Ironicamente fui vizinho da Marquesa de Santos e de Dona Olívia Penteado, em pensões ordinárias ao lado da Sé e em Higienópolis. Tive tardes de leitura no mirante da Lapa e, como o mais nobre dos paus-de-arara, subi a Rua Augusta, sobre os cacarecos que chamava de móveis, entulhados na carroceria de um caminhão, em direção ao Baronesa de Arari, na Avenida Paulista(…).

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Dois Meninos – Limbo (ISBN 978-85—68591-00-0) é romance de Valdo Resende, publicado pela editora Elipse, Arte e Afins.

O cenário do romance é a cidade de São Paulo do final do século XX; a vida operária, a agitação de noites trepidantes tornadas tensas e perigosas com o surgimento da AIDS e, decorrentes dessa realidade,  as profundas mudanças e exigências impostas à sociedade.

Revivendo esse momento, “Dois Meninos – Limbo” celebra a amizade e a solidariedade ante a adversidade, tanto quanto celebra a solidão e o amor.

Para conhecer ou adquirir o livre acesse a página do autor: https://valdoresende.com/loja/

 

 

O Artbook54 e o meu ego

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O lançamento será na Quanta Academia de Artes, dia 20/01, 14h

Sorry! Folhear um trabalho como o Artbook54, de um artista como Octavio Cariello, e deparar-se com a própria imagem é para jogar o ego lá pra estratosfera. Então… lá estou eu entre personagens reais e imaginários; um, entre muitas personalidades desenhadas, esboçadas ou recriadas em divertidas caricaturas desse artista genial. E não são só pessoas; há logomarcas, fontes, quadrinhos… toda uma gama de trabalhos que comprovam a qualidade inegável do autor.

Ego é uma coisa doida. A gente tenta controlar, mas foi pegar o Artbook54 e, ao folhear, disfarçar a ansiedade, engolir a pergunta “- cadê eu?”. Ainda havia outra curiosidade: qual, entre os vários trabalhos feitos em conjunto, foi colocado no livro; das vezes em que tive o privilégio de ser desenhado, qual caricatura foi escolhida?

Serenada a vaidade vejo muito além da minha face; acompanho a carreira de Octavio Cariello em São Paulo desde quando ele chegou por aqui vindo de Recife. Os primeiros trabalhos, os primeiros grandes êxitos. O grande talento reconhecido quase que de imediato, colocando-o em pouquíssimo tempo na galeria dos melhores desenhistas nacionais, com prêmios e, sobretudo, o testemunho dos maiores entre seus pares.

Recordo os primeiros desenhos em que descobri estar diante de alguém com uma capacidade incomum em captar ângulos, descrever nuances, registrar faces e aspectos inusitados da forma. Também, entre amigos, ele brincava com guardanapos enquanto tomávamos cervejas na noite paulistana, desenhando com caneta esferográfica, conquistando a admiração de quem dividia a mesa conosco.

A loucura do sujeito – aquela do surto de quem não se cansa de criar – é perceptível na criação de fontes, onde o velho e bom alfabeto ganha nuances particulares, únicas, em mínimos detalhes que permeiam cada letra e que, em si, constituem-se numa família tipográfica. É a loucura do detalhe; de quem observa de tal forma que consegue recriar entre milhares a forma única. Doido!

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Que orgulho!

Este texto é passional. Fazer o que? A capacidade criativa e o talento de Octavio Cariello são inegáveis e, repito, – Sorry, estou no livro! Divido uma página com David Bowie, Clarice Lispector, Marcelo Campos, Alan Moore… E não é só. Há outra em que estou ao lado do próprio Cariello, registro do livro Alterego organizado por ele onde participei com um conto. Pura satisfação! Boa sorte, Cariello! Obrigado! Vamos curtir este livro, pois com certeza, outros virão!

O Artbook54 está no mundo. O lançamento será no próximo sábado, 20 de janeiro, a partir das 14h, na Quanta Academia de Artes (Rua Doutor José de Queirós Aranha, 246, perto da estação do metrô Ana Rosa). Todos estão convidados!

Até lá!

Com carinho, para Sonia Kavantan!

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Nesse conturbado mundo em que vivemos, onde os reais valores são cada vez mais escassos, frágeis, até mesmo inexistentes, sinto-me feliz por celebrar a amizade, o companheirismo, a cumplicidade e sobretudo o imenso carinho e respeito que tenho por Sonia Kavantan. Hoje é o dia do aniversário de Sonia, a produtora com a qual já realizei mais de trinta trabalhos em também trinta anos de parceria (31 faremos neste 2018!)

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(1987, em nossa primeira foto e hoje, neste 2018).

Como eu, centenas de profissionais têm muito a agradecer a essa profissional. Optei, para expressar minha gratidão, recuperar um perfil que escrevi sobre a produtora Sonia Kavantan, quando de nossa estreia no Pará, em 2008. Reitero tudo o descrito abaixo e reafirmo que o tempo só fez aprimorar o trabalho dessa incrível mulher. Parabéns, Sonia Kavantan! Para você, todo o carinho do mundo.

IDEALIZAR E PRODUZIR: SONIA KAVANTAN

Essa é uma madrugada comum para a maioria das pessoas. Para grupos restritos é o momento que antecede um grande dia. Entre esses, há um pequeno grupo de profissionais lá no Pará e outro, menor ainda, aqui em São Paulo, todos apreensivos. Logo mais será a nossa estreia. Um momento vital de uma caminhada que começou faz tempo e que, pretendemos, continue por outro tanto.

Tenho certeza que lá em Castanhal há uma pessoa acordada, trabalhando, ultimando detalhes, resolvendo situações não previstas. Pura adrenalina!

Uma vez, estávamos em frente ao Teatro Abril, aqui na Av. Brigadeiro Luiz Antônio, e vivíamos situação semelhante. E no meio de toda a turbulência de uma estreia, lembro de pequenos olhos negros, muito brilhantes, olhando tudo e todos, um sorriso nos lábios, enquanto me dizia: – Eu gosto disto!

Ninguém tem dúvida. É preciso gostar muito para ser uma produtora. A produtora de Vai Que É Bom, certamente trabalhando na madrugada de Castanhal, é Sonia Kavantan. É a responsável por tudo; ela é quem captou uma ideia, surgida sei lá eu quando, e viabilizou todo o necessário para que essa ideia viesse a ser uma peça de teatro, iniciando temporada em 6 de novembro [de 2008].

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Artistas são pessoas que sonham muito, viajam outro tanto, deliram mais um pouco e, quase sempre, guardam a praticidade da vida em algum departamento insondável de seus cérebros. Há a necessidade de alguém botar ordem na casa, tornando as ideias mirabolantes em fatos. Esse é o papel do produtor.

Quem já teve a oportunidade de acompanhar, de perto, o trabalho de um produtor, tem uma noção da extensão desse trabalho. E repito, uma noção. É preciso viver todo o tempo ao lado do produtor para conhecer os inúmeros detalhes que permeiam a criação, a montagem e a carreira de um trabalho teatral.

Sonia Kavantan tem o domínio de todos esses detalhes adquiridos em experiência vasta e diversificada. Já produziu filmes, concertos, exposições de artes plásticas, concursos, exposições de artes cênicas, shows, livros, cursos, prêmios… e peças, muitas peças de teatro.

Conversando com ela, em um dado momento, sob um aspecto, nem me passa pela cabeça dezenas de outros que ela está considerando. Conversamos muito, trocamos bastante, e até consigo apontar algumas soluções para problemas que ela me apresenta. Solto as rédeas, viajo longe e ela vem com objeções concretas: A coerência com a ideia central do projeto, o preço, o espaço físico, o outro profissional envolvido, o tempo, a verba disponível, as condições da gráfica, as condições de criação… e por aí vai. Tudo pensado e pesado; se solucionado, vem o sorriso que conheço “desde o século passado”!!!

Sinto-me, nesse momento, um instrumentista qualquer e vejo-a como o maestro. A maestrina! Aquela que arregimenta, ordena, organiza e, harmoniosamente, coloca tudo para funcionar. Quando termina o espetáculo, ela continua; avaliando, administrando, tornando possível a continuidade, o dia seguinte, prestando contas…

Sonia Kavantan é socióloga; adora ensinar e tem incontáveis alunos, por todo o Brasil, onde ministrou aulas, além de residentes ou dos que vieram até São Paulo para aprender no curso, criado por ela, sobre os mecanismos todos de uma produção de eventos culturais.

Em aula ela conta todos os detalhes, não guarda trunfos tipo “segredos profissionais”. É facilitadora. Usando a própria experiência para elucidar conceitos, apresenta e discute todas as dificuldades para a captação de patrocínios. E sobre esses, há pouquíssimos profissionais no país que têm conhecimento, tanto quanto ela, sobre as Leis de Incentivo Fiscal.

Estive pensando, hoje, na quantidade de pessoas beneficiadas pelo trabalho da “minha” produtora. Para quantos profissionais ela já propiciou trabalho? Quantos sonhos, de artistas e idealizadores, tornou realidade? Quantos milhares de brasileiros participaram dos eventos produzidos por ela?

Já estive auxiliando e cooperando em suas produções; neste Vai Que É Bom, estou como autor. Sei, por diferentes aspectos, da angústia que antecede a próxima noite. Do quanto temos sonhado, planejado, trabalhado, somando-se a isso preces e orações próprias, e pedidas a outros, para que tudo dê certo.

Caro leitor, estamos no Brasil. Não temos os recursos financeiros fabulosos de Hollywood. Estamos distantes das condições físicas das casas de espetáculos europeias. E nossos profissionais aprendem mais no trabalho que em nossas escolas (isso quando há escolas, cursos, para certos tipos de profissionais necessários para uma montagem teatral). Somos todos sonhadores.

E é essa a imagem mais forte que tenho de Sonia Kavantan. A profissional que sonha com um Brasil melhor. Que tem como projeto de vida, tornado profissão, facilitar e criar eventos para a cultura deste país. Para ela, o meu MUITO OBRIGADO!

Até!

Entre Reis e o Carnaval

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Que tempo é esse, entre os Reis e o Carnaval? (Foto: Flávio Monteiro)

Passado o dia de Reis, 2017 é página virada. Bem verdade é que ainda falta o carnaval para que 2018 comece. Resta saber que tempo é esse, entre os Reis e o Carnaval onde, com muito receio constatamos o pouco que é mudar data, mês, dia ou ano. Tantos bons augúrios desejados para o país, para todos os habitantes… Junte-se muitas doses da bebida preferida às boas intenções e até inimigo foi agraciado com o desejo de um feliz ano novo. No entanto…

Deseja-se tanto em dezembro que a virada do ano e o subsequente quase nada diferente nos deixa com uma sensação de frustração, incerteza, vazio. Parece reprise as notícias de impostos, as chuvas, as tramoias políticas visando eleições; e omissões, várias, de todos os tipos como o que ocorre com a chamada grande imprensa que, por exemplo, deixou de citar a primeira dama, jogando a bela loira num ostracismo inquietante? Omissão leve esta, mas é começo de ano; vamos devagar.

A sensação de mesmice deste janeiro está maior que as anteriores? Não sei se pelas chuvas, se por não estar viajando em férias, ou se pela vinheta de carnaval da “globeleza”, feita de tal forma que parece que usaram sobras da anterior. Também por que há praias cheias, chuvas, aumento de tarifas… Mesmice! Outros dirão que está pior, dado à quantidade de gente duvidosa assumindo ministérios e outros cargos… Todavia, é histórico: quando não tivemos criminosos em cargos públicos?

Há tanto para dizer que mudou quanto para afirmar que permanece a mesma coisa. E essa constatação que se repete nesse tempo, entre Reis e Carnaval, não é para pessimismos drásticos muito menos otimismos obsoletos. É um lento balde de água pós carraspana de virada do ano, pelos excessos das festas, para que todos coloquem os pés no chão e continuem, como sempre, na luta por melhores dias, melhores tempos.

Tudo vai continuar. Tudo vai mudar. Tudo vai dar certo, é só esperar o carnaval passar… Ou não! É o que diria Caetano Veloso (Muito bom citar Caetano!).

Até mais!

 

No meio da rua

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Exilado na multidão

sou silêncio e segredo, e venho

quando os outros vão.

(Lêdo Ivo)

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Um haicai quando na rua de ferro da Água Branca.

Até mais!

O Pensamento

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O ar. A folha. A fuga.

No lago, um círculo vago.

No rosto, uma ruga.

(Guilherme de Almeida)

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Primeiro haicai de dezembro.

Até mais!

 

Desaparecidos

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Foto: Flávio Monteiro

Giba desapareceu. Saiu de casa na sexta-feira para passar o final de semana conosco em São Paulo e na segunda, quando ligaram do trabalho questionando a ausência do funcionário é que o caos foi instaurado. Onde estaria? Com quem? Qual o motivo de ter mudado o destino? Após vários telefonemas aos amigos mais próximos ficou constatado o desaparecimento do rapaz.

Naquele momento todos os conhecidos saíram buscando informações. Polícia acionada, hospitais, necrotérios e até uma vidente nos informou que ele estava vivo. Desaparecido. Uma foto de alguém assassinado estampou a página de jornal. Incrível semelhança que, felizmente, não se confirmou. O corpo era de outro. Giba continuava sumido, sem dar qualquer sinal de vida.

Recordo D. Noêmia, pura tristeza, supremo desespero. A morte já lhe levara uma filha e agora o caçula desaparecia. Só fazia chorar, gemer profundo, dolorido. A pergunta atroz que ninguém respondia: onde Giba está? Onde foi? Porque não volta? O que aconteceu? Está vivo? Morto?

Provavelmente as perguntas sem resposta são o que de pior pode vir a acontecer com gente que espera aqueles que desapareceram.

“Quem é essa mulher,

Que canta sempre esse estribilho

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar…”

Naquele momento descobri o terror de não saber respostas fundamentais sobre aqueles pelos quais temos afeição. Os dias se arrastaram e as notícias não chegavam, aumentando a dor, o desespero e, qual doença tenebrosa, aumentando a dúvida, a desesperança. O mais cruel seria ver o tempo passar sem respostas.

O desaparecimento do submarino argentino fez-me lembrar a história, as sensações todas que vivenciamos e, fundamentalmente, presenciamos. Jamais vou esquecer o olhar daquela mãe, o semblante de infinito sofrimento aguardando notícias do filho. O sofrimento do pai, da irmã, dos amigos.

Cada um dos 44 tripulantes do “San Juan” tem alguém querido que, neste momento, busca equilibrar-se entre a dor e a esperança, por mais absurda que esta possa parecer. Não conheci nenhum dos tripulantes; também não conheço parentes e entes queridos. Conheço um pouco o que é esperar por notícias; o não saber de alguém querido.

“Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar…”

O Giba da minha história voltou. Hoje, João Gilberto é pai de um menino e segue tranquilo sua trajetória interrompida naqueles dias em que ficara perdido em meio à Serra do Mar. Familiares e amigos tiveram a alegria de revê-lo. E sem saber do final dessa tragédia submarina, escrevo em solidariedade aos que ficaram. Escrevo, que é minha forma de rezar pelos que se foram tanto quanto pelos que aqui estão.

A “Angélica” dos versos de Chico Buarque acima transcritos não teve respostas, não vivenciou reencontros. Outras tantas pelo mundo também não. Dezenas de mães, esposas e filhos da tripulação do submarino argentino ficarão eternamente se perguntando o que foi? Como foi? Por que teve que ser assim?

As autoridades tentarão responder; é quase certo que encontrarão razões, motivos e, provavelmente, consequências provocarão mudanças de regras, alterações de procedimentos. No entanto, aqueles que esperam pelos seus desaparecidos querem respostas, mesmos as mais difíceis e doloridas.

Que todos fiquem em paz.

Até mais!

Rota

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Que arda em nós

tudo quanto arde

e que nos tarde a tarde.

(Olga Savary)

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Um haicai para determinar caminhos.

Até mais!