O que é arte mesmo?

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Todo radicalismo é, no mínimo, chato. É tenebroso, doentio, prepotente, soberbo, orgulhoso e, a história registra, também é assassino. E burro! Irritantemente burro. Ultimamente temos presenciado radicalismos da direita – o que implica haver outro, o da esquerda. Ambos teimam em impor modo de ver, sentir e viver aos outros. Radicais são donos da verdade, embora nem sempre se saiba o que é a verdade.

Temos agora um imenso contingente de pessoas alçadas à categoria de críticos de arte, com posições assentadas em moral, bons costumes, religiões e ninguém, mas ninguém mesmo, citando Tatarkiewicz (A Grande Teoria) ou, então, Pareyson (A teoria da formatividade in Os Problemas da Estética). Isto pra citar dois, entre os grandes teóricos. Exposição, peça de teatro, um quadro, foram vítimas de uma censura ilícita (já que não há censura no país) e entre os argumentos vem o costumeiro atentado ao pudor assentado na conclusão de que “Isto não é arte”.

Seria pedir pouco ao receptor de denúncias que conceituasse a dita cuja, já que, acatando acusações e determinando a suspensão de eventos ou a retirada de objetos expostos, juízes e delegados devem, no mínimo, saber sobre o que estão agindo; portanto, sabem o que é arte e, assim sendo, quem poderá dizer que temos profissionais despreparados?

Venho lecionando há mais de duas décadas em universidades e nunca encontrei alunos que soubessem conceituar arte. Ok, lá é um lugar para se aprender. No entanto, é de se estranhar que o indivíduo passe por oito, dez anos de escola e entre na universidade sem a capacidade de conceituar sobre algo que está presente no cotidiano de todo mundo. Todos falam de arte, todos reconhecem produtos e manifestações artísticas, mas o que é arte mesmo?

Profissionais de medicina têm agido sobre o rosto de muitas pessoas, em procedimentos de estética duvidosa, mas ninguém questionou se isto é medicina ou não. E quando morre-se de calor em construções já condenadas à ação de aparelhos de ar condicionado não se questiona se tal local é ou não obra de engenharia. Outros exemplos são possíveis, mas creio que medicina e engenharia são um bom mote para indagar sobre motivos que levam indivíduos a discutir arte, principalmente aqueles que confundem arte com entretenimento.

Sobre a pecha de “arte” e “artistas” há muita coisa por aí, feita inclusive por gente que gaguejaria quando questionada sobre a imitação e a mimese em Platão e Aristóteles. O que diriam os moralistas de plantão sobre o paradigma formalista de Clive Bell ou com que prazer orientariam suas falas com base no que Collingwood escreveu (The Principles of Arts).

Creio que os radicalistas que andam se manifestando por aí não querem saber de Platão, Tatarkiewicz, Bell, Collingwood, Pareyson… Querem é impor sua ignorância e sua interpretação de mundo sobre os demais. Querem que todos vejam a lascívia que está na mente deles, a pornografia, a zoofilia; uma moral que é boa pra manchete de jornal e pra alardear uma preocupação com o que outro deve ver e fazer.

Tenho estudado arte ao longo de toda a minha vida. Não sou teórico, sou estudioso. Acredito profundamente a arte como elemento questionador que propõe reflexão e que, quando julga, deixa de ser arte. Não vou, neste post, publicar as definições de arte aceitas pela comunidade acadêmica e que têm norteado meu trabalho profissional. Vou sim, questionar os críticos de plantão, moralistas de ocasião, donos da verdade: O que é arte mesmo? Conceitue!

Até mais!

Nelson Barsam, Médico da(s) Família(s)

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Ana Luiza, Maria Abadia e o Dr. Nelson Barsam

Ontem veio a notícia do falecimento do Dr. Nelson Barsam. Junto ao sentimento pela perda veio a gratidão pela extraordinária capacidade desse médico, lá em Uberaba, que por meio de seu trabalho tornou melhor a vida de inúmeras pessoas. Aqui vai um relato com a dupla intenção de homenagear e agradecer; mais que um testemunho, fui agraciado com o trabalho do Dr. Barsam.

Foi em 1993. O tornozelo quebrado durante um atropelamento. No Pronto do Socorro do Hospital São Paulo, aqui na capital paulista, quando recebi um diagnóstico preocupante. O médico chefe aproximou-se e indagou-me: – Você tem condições de fazer tratamento com um bom médico? O seu tornozelo foi triturado e precisa ser reconstituído. Você corre o risco de ficar aleijado.

Após pequeno drama advindo da situação recebi “alta” para que eu pudesse ir para Uberaba. Lá eu tinha toda a minha família. Lá estava o Dr. Nelson Barsam.

Todos os cuidados médicos nos primeiros sete anos do meu sobrinho Thiago vieram do Dr. Nelson. No outro extremo, durante os últimos anos de vida do meu avô, o tratamento veio do mesmo ortopedista. Papai, com a clavícula quebrada durante um assalto, voltou à normalidade com o eficaz tratamento do Dr. Barsam; assim papai o chamava. Mamãe, minhas irmãs… O Doutor Nelson Barsam foi médico de toda a nossa família.

Tenho lembranças peculiares do tratamento que recebi. Grogue com o efeito da anestesia percebi a ação do doutor reconstituindo meu tornozelo. Acordei horas depois em um quarto tendo outro convalescente na cama ao lado. Um senhor que, antes de qualquer outra palavra, perguntou-me se eu era fumante. Com minha resposta afirmativa foi estabelecida a cumplicidade. A noite chegou e o senhor, já em condições de caminhar buscou cigarros escondidos no armário. Confusão estabelecida ao amanhecer; enfermeiros irritados com aqueles doentes irresponsáveis. Resolveram cortar a presença de acompanhantes. O conflito estabelecido foi resolvido pelo Dr. Barsam, falando com meu pai: “-Leve esse moleque pra casa, pra ele não me criar mais problemas”.

A Casa de saúde São José – toda Uberaba sabe – fica sobre uma pequena elevação do terreno, acima da rua; uma semana depois, lá do alto de uma das janelas do estabelecimento, o Dr. Nelson viu-me chegando montado na garupa da motocicleta do meu pai, o pé ainda inchado e estendido rente ao veículo… O médico amigo de papai não se conteve: “- Bino, filho da puta, quebra a outra perna desse moleque e leve pra outro consertar!” Papai riu; eu, logo depois, acatei a decisão do ortopedista: – “Não vamos engessar; você vai levar anos fazendo fisioterapia. Comece os exercícios já e logo você estará bom. E volte pra casa de carro!” Papai riu. Logo depois, da mesma janela, outros palavrões ecoaram pela Rua Santo Antônio. Quatro meses depois eu deixava muletas; pouco depois já caminhava normalmente pelas ruas de São Paulo.

Quantas histórias similares a esta poderão ser narradas? Quantas famílias, quantos indivíduos tiveram suas vidas normalizadas pelas mãos do Dr. Nelson Barsam? Incontáveis. Todos, com certeza, nutrindo eterna gratidão pelo médico e profissional impecável que deixava a clínica e o casa de saúde para atender no Hospital Escola. Que deixava o consultório para ir até as residências de seus convalescentes, tratando e acompanhando-os com presteza e dedicação.

Obrigado é o mínimo que se diz. Deus lhe pague, é bom. Expressões que inúmeras famílias de Uberaba estão lembrando nesses momentos onde a tristeza nos encaminha para as orações, pedindo por quem nos fez tanto bem.  Tenho ainda hoje, em meu tornozelo, parafusos colocados pelo ortopedista que me garantiu o ir e vir com tranquilidade. “- Tire se quiser, disse uma vez. Não há necessidade”.  Agora eles tornam-se lembrança para, sempre que possível, nutrir sentimentos de gratidão e agradecimento ao amigo.

Fica aqui, além desta singela homenagem, meu carinho e de toda a minha família para os familiares, em especial para a esposa Maria Abadia Prata Barsam e a filha, Ana Luiza. Que Deus as conforte e receba em seus braços nosso amigo, médico das famílias, Nelson Barsam.

Até mais!

Quatro Cantos

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Ilustração em vaso grego, inspirada em Medeia

A música tem permeado toda a minha vida. Através do canto, desde a infância, das brincadeiras com violão onde surgiram as primeiras composições. Com o tempo meu trabalho ficou restrito à letras e, com orgulho e gratidão, somo parcerias com Wilson de Oliveira, lá de Minas Gerais, Leonardo Venturieri, no Pará e aqui, em São Paulo, com Maurício Werá e Flávio Monteiro. De um velho projeto resgato o soneto abaixo, já musicado por Maurício Werá. Nossa inspiração veio da tragédia Medeia, de Eurípedes, lembrada na ilustração acima.

QUATRO CANTOS

Maurício Werá e Valdo Resende

Canto pelos quatro cantos do mundo

Minha voz ocupa espaços sonoros

Entre um canto e outro calo ou choro

Silêncio e morte onde o som infundo

Quer saber então por que é que eu canto

E nas pausas descanso a garganta?

Se existe razão para quem canta

Louvar a alegria e entoar o pranto?

A canção é toda matéria viva,

O calor da pele, a fria deriva.

Ressoam na voz cor e escuridão.

A razão não sabe do sentimento

Que embarga a voz e encarna o tempo

Música ultrapassa qualquer compreensão.

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Até mais!

Entre Jeanne e Brigitte

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Jeanne Moreau e Brigitte Bardot em “Viva Maria!”

E lá se foi Jeanne Moreau. Com seu rosto doce, grandes e expressivos olhos. “Uma Mulher Para Dois”, “A Noite”, lembranças de filmes dos anos de 1960. Acompanhava minha irmã Waldenia em cineclubes e fiquei impressionado com a moça francesa, a atriz talentosa. Todavia, eu era criança. E havia Brigitte Bardot, com pseudo ingenuidade em corpo deslumbrante. Havia o sorriso de Brigitte, seus olhos brilhantes, os cabelos loiros…

Não havia grandes problemas, mas para os radicalismos da juventude, o incômodo era considerável. Em terras tupiniquins eu também me dividia entre Elis Regina e Wanderléa. Para algumas cabeças isso era quase impossível. Eu resolvera o impasse, temporariamente, via astrologia onde, dizem, os do signo de gêmeos gostam de “todo o mundo”. Não era bem assim; eu tinha meus desafetos e, hábito desde então nem vou citá-los, mantendo-os no devido limbo.

Mais que bonita, Jeanne Moreau foi uma mulher forte. Dessas atrizes marcantes ao darem vida a personagens que retratam uma época, refletem mudanças e transformações consideráveis como, por exemplo, nos filmes “Duas Almas em Suplício” ou então em “Jules e Jim”. Brigitte, por sua vez, foi um grande símbolo sexual, o que por si, para a época, já se constitui em marco considerável. Encantou meio mundo em “E Deus Criou a Mulher” e marcou, ao lado de Marcelo Mastroianni, em “Vidas Privadas”.

Um dia chegou a notícia de um filme com as duas francesas. Já chegou com o rótulo de golpe comercial, visando grandes bilheterias. O roteiro é uma brincadeira onde duas Marias tornam-se grande atração de um circo ao, “acidentalmente”, inventarem o strip-tease e, de sobra, tornando-se líderes revolucionárias… Um grande sucesso onde as moças esbanjam beleza, simpatia e talento, com ambas concorrendo a prêmios de melhor atriz pelo filme.

Nunca soube se foram amigas. Brigitte deixou de ser atriz e tornou-se ativista em prol dos animais. Jeanne, na década seguinte, veio ao Brasil para filmar com Cacá Diegues. Fez Joanna Francesa, cantando no filme a música de Chico Buarque. E pra continuar firme em meu coração compareceu, nos anos de 1980, em disco de Maria Bethânia declamando “Poema dos olhos da amada” (Vinicius de Moraes e Paulo Soledade).

E lá se foi Jeanne Moreau. Morte sentida como a de grandes amigos distanciados no tempo e na geografia, mas nem por isso menos considerados. Jeanne foi uma atriz; uma grande atriz! E gostando de Jeanne e Brigitte aprendi a distinguir atriz de estrela. Brigitte, mais que atriz, foi uma grande estrela. Daquele tipo de estrela que não precisa de filme pra ser lembrada. Jeanne, além da beleza, será lembrada também pelos filmes, pelas canções, pelo trabalho cuidadoso. Que descanse em paz!

Até mais!

Cleide Queiroz em Palavra de Stela: Poesia e Teatro

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Cleide Queiroz em Palavra de Stela. Foto: João Caldas.

Um bom trabalho, dizem, pode ser resumido em uma frase; lá vai: Cleide Queiroz mostra infinitas faces de uma mulher no monólogo Palavra de Stela. Escrito assim parece pouco, indigno da performance da atriz que comemora nessa montagem 50 anos de carreira . Por isso é fundamental escrever um pouco mais.

Stela do Patrocínio foi internada em uma colônia psiquiátrica aos 21 anos e assim ficou por quase trinta anos. Um jeito diferente de Stela ser e, principalmente, de dizer coisas impressionou outra mulher, a artista plástica Neli Gutmacher, quando esta montou um ateliê na Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, em Jacarepaguá.  Uma terceira mulher, Viviane Mosé, organizou a fala de Stela gravada por Neli , publicando essas em forma de poesia no livro “Reino dos bichos e dos Animais é o meu nome”. Uma síntese do percurso de mensagens resultantes na montagem Palavra de Stela, escrita e dirigida por Elias Andreato .

Sinto que é necessário ampliar esse preâmbulo. Que tal conhecer algumas palavras, da Stela do Patrocínio, transcritas do programa da peça?

“Não sou eu que gosto de nascer

Eles é que me botam para nascer todo dia

E nem sempre que eu morro me ressuscitam

Me encarnam me desencarnam me reencarnam

Me formam em menos de um segundo

Se eu sumir, desaparecer,

Eles me procuram onde eu estiver”

Eita! Dá uma vontade enorme de ter mais versos de Stela.

Uma história densa, um texto forte, poético. O público entra na sala do Top Teatro e a atriz já está em cena. Cleide Queiroz. A mulher tece teias por onde outras mulheres surgirão via mente de Stela, voz e corpo de Cleide. Poucos adereços em um cenário que ressalta possíveis espaços na mente da personagem, tornado físicos pela capacidade cênica da atriz.

A história não é linear. Vamos descobrindo Stela do Patrocínio aos poucos, simultaneamente vamos reconhecendo aqui e ali a trajetória da moça, da atriz, tudo devidamente realçado na direção de Elias Andreato e no inquietante figurino de Mira Haar.  Tem mais: Iansã comandando ventos e todos os elementos, tem Medeia tornada Joana, aquela da Gota D´água, que Cleide já interpretou na íntegra. Tem um jeito de ser e cantar que é Maria Bethânia sem deixar de remeter à fonte da própria Bethânia, Dalva de Oliveira e, sobretudo, tem Stela do Patrocínio.

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Stela do Patrocínio, com Cleide Queiroz. Foto: João Caldas.

Stela é a doente abandonada, a professora, a dona de casa, a menina, a mulher exuberante. Stela vai se desnudando, se desvelando enquanto fala com o público, com o gravador da psiquiátrica, com as pessoas todas que povoaram sua mente. Cleide Queiroz revela Stela em versos declamados com ritmo preciso, em canções que somam intenções, mas também a atriz nos mostra a personagem via silêncios perturbadores.

A coordenação do projeto é de Carlos Moreno. A direção de produção é de Sonia Kavantan. Palavra de Stela tem música original e arranjos de Jonatan Harold, desenho de movimento e programação visual de Roberto Alencar – cujos registros figuram entre as notáveis ilustrações do programa. Mira Haar, além do figurino, assina a cenografia. As fotos são de João Caldas.

Palavra de Stela está no TOP TEATRO (Rua Rui Barbosa, 201 – Bela Vista. Tel: (11) 2309-4102). A temporada vai até o dia 27 de Agosto. Os horários:  sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 19h. Ingressos: R$40,00 (inteira) e R$20,00 (meia). Duração: 70 minutos. Vendas online: http://www.aloingressos.com.br/

Marque na sua agenda, reserve seus ingressos. Palavra de Stela é imperdível.

Até mais!

Lá vamos nós… Outra vez.

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Das abstrações humanas penso que o tempo está entre o que há de mais incrível, uma criação ímpar, infinitamente superior a qualquer objeto, qualquer bugiganga; superior até mesmo à, por enquanto utópica, máquina do tempo.

Lá vamos nós, para mais um semestre. Derivado do tempo, o calendário nos informa que passamos a primeira metade de 2017 e vamos em frente, rumo ao futuro. Este futuro vai se fazendo a cada novo instante; por conta do tempo, colocamos o que virá lá pra onde não sabemos, onde seremos outros, faremos novas coisas, continuaremos até, lembrando Fernando Sabino, sermos interrompidos antes de terminar.

É difícil seguir sem pensar no que vai ficando, no tudo que já passou. Às vezes seguimos meio que instintivamente, respirando porque assim os pulmões exigem, buscando comida quando o estômago grita. Levamos perdas, e guardamos dia, mês e ano do tempo findado para aqueles muito amados. Respiramos fundo, dolorido, e de pé, seguimos.

Nas beiras vamos deixando o que não acrescenta; o que pouco vale. O tempo, quase sempre, é benção infinita pra quem não carrega o que merece ficar esquecido às margens: mágoas, raivas, desprezos, iras, contratempos menores. Os que são sábios deixam nas beiras ansiedade, o consumo idiota, a vaidade obsoleta, as mesquinharias todas da vida. Por aqui tenho muito que aprender!

O tempo! Difícil pensar a existência sem ele. Creditamos ao mesmo nossas rugas e o corpo deteriorado tanto quanto a experiência adquirida, os bens conquistados. Nele depositamos todas as esperanças de uma vida melhor, de um mundo mais justo. Tanto quanto qualquer filosofia ou religião é o tempo que nos permite pensar presente e passado, prospectar futuro e, se Deus permitir, sonhar melhores dias, outros tempos.

Lá vamos nós. Mais um semestre! Estamos cheios de receios nesses tempos que vivemos, tentando vislumbrar o que nos aguarda e o que nos reserva o futuro. Prosseguimos pensando no que passamos, em tudo o que ficou e que, bem ou mal, bom ou ruim, constituiu-se na experiência que, embora nem sempre de todo aproveitada, nos permite ter esperança de melhores dias.

Das abstrações humanas penso no tempo, tenho fé.  Talvez seja a fé o que há de mais incrível, o sentimento mais bonito…

Até mais!

 

O hábito

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Antonio Fagundes respondeu com tranquilidade quando Pedro Bial perguntou sobre sua formação literária, sobre suas primeiras leituras: – Gibi, respondeu Fagundes; tal expressão diz bem a idade do ator; hoje em dia falam HQ. Como ele, li Gibi. E fotonovelas, e fascículos de radioteatro, e tudo ao que tive acesso, incluindo as famosas revistinhas de Carlos Zéfiro, que meu irmão denominava “catecismo”.

A entrevista fez-me buscar na memória as primeiras leituras… Vamos lá! O que ficou:

Primeiro, os fascículos de O DIREITO DE NASCER. Não ouvi a novela transmitida pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, ou pela Rádio Tupi, de São Paulo. E pouco vi da primeira versão da novela para a televisão. Todavia, em um quartinho que havia nos fundos da oficina onde meu pai trabalhava, estavam lá vários fascículos de resumo da novela, com fotos nas capas dos artistas participantes.  Eram muitos fascículos e devo ter lido todos, embora guarde apenas os detalhes principais da novela cubana escrita por Félix Caigne.

Também li gibis. Os primeiros foram dos habitantes de Patópolis, a cidade criada por Walt Disney. Donald, Peninha, Tio Patinhas, Margarida… Todos os personagens de Disney me são familiares, mas nenhum deles supera “O Fantasma”, personagem criada por Lee Falk. É muito genial a ideia da personagem existindo eternamente, o filho tomando lugar do pai. E tinha todo o exotismo africano, dos pigmeus…

Foi a foto de um ator, vestido a James Dean, que me chamou a atenção para as fotonovelas. O ator era Raimondo Magni. Segundo um internauta, dono de uma página que sigo, a fotonovela é de 1962. O título é “Quando o amor chegar” e foi publicada pela revista Capricho. Não lembro nada da história… Nem sei se conseguirei ter acesso, mas foi bom saber que existe e que, por estar já no tal quartinho, isso deve ter ocorrido lá pelos idos de 1963 ou 1964…

Ainda criança, a Jovem Guarda imperando, li tudo o que saia nas revistas sobre Wanderléa. E ganhei de um amigo, alguns números da revista Intervalo, que guardo com o maior carinho. Pura paixão!

Para gostar de ler é preciso ter acesso ao que ler. É o que penso. Dos primeiros textos fui para os contos de fadas. As mais belas histórias, em versão escrita por Lúcia Casasanta foram lidas e relidas. E depois vieram os livros; como cheguei aos mesmos está aqui mesmo, em post anterior.

De todos os meus hábitos de infância é a leitura o que mais prezo. O que nunca deixei. Foi o que, sem planejar, preparou-me para o trabalho que mais gosto: Escrever. Funciona como companhia, como terapia… Portanto, reiterando Fagundes, coopere na formação do hábito da leitura em filhos, sobrinhos… Deixe que leiam gibis, ou HQs.

Até mais!

Entre livros

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Com amigos, autores de “Um Profissional para 2020”.

Festa de aniversário; a amiga aproveita para mostrar a casa nova aos parentes e convidados; tudo novinho, arrumado com capricho. Passando pelo quarto da anfitriã há um livro no criado mudo ao lado da cabeceira; é o meu romance, “dois meninos”.  Fiquei lisonjeado e feliz. Tudo o que um escritor quer é ser lido e livros devem ficar nos lugares mais confortáveis e aconchegantes.

Também tive na infância e adolescência o quarto e minha cama como locais ideais para leitura. Mais! Era no quarto que dividia com meu irmão mais velho que ficava a estante da casa; enorme, o espaço dividido entre os cinco irmãos. Além dos livros escolares havia romances, os livros de viagem, religiosos, e dicionários. Um volume de O Guarany, edição da José Olympio nunca me saiu da lembrança. Nem outra, do Grande Sertão, Veredas, do Guimarães Rosa. Havia toda a coleção de Jorge Amado e muitos outros, esparsos, de diferentes autores.

A biblioteca do SESI, lá na Praça Frei Eugênio, em Uberaba, foi onde me associei e onde emprestava todos os livros solicitados na escola. Líamos bastante. Desde então comecei a apreciar Fernando Sabino, Cecília Meireles, Tomás Antonio Gonzaga. Também li Hemingway, Dickens, Jane Austen e muitos outros; a leitura foi um dos melhores hábitos adquiridos naquele tempo.

Anos depois uma primeira grande festa, o lançamento de Alterego. E eu passei a ter um livro pra chamar de meu, de nosso já que estava entre outros autores. Passou um pouco e organizei Um Profissional Para 2020, mais um passo na caminhada literária. E veio o romance “dois meninos – limbo”.  Meu livro! Outros virão. Individualmente, ou com amigos. O que é impossível é não estar escrevendo, lendo… Continuamente entre livros.

Livros continuam fundamentais, embora seja impossível ignorar as novidades virtuais; assim, já acumulo arquivos eletrônicos com textos diversos. Todavia prefiro o papel impresso, o cheiro inconfundível de livros novos, ou de outros, que somam o tempo em páginas amareladas com odor “de armário”.  Sobretudo gosto de vê-los, tê-los como companheiros de horas de lazer, de trabalho. Preciso tê-los organizados para, em momentos precisos, contar com os mesmos como se conta com um velho e querido amigo.

Estou sempre entre livros. Ultimamente intensifiquei estudos sobre ensino de gêneros literários, para meu novo curso, Processos de Criação na Escrita. Nesta semana volto a trabalhar com meu romance, “dois meninos – limbo”, no 2º Bate-papo com Autores/Editoras de Literatura LGBT, evento que antecede a Parada do Orgulho LGBT. Estando com eles, entre eles, estou bem. Nestes dias frios, um livro, um bom copo de vinho, são companhias irrecusáveis.

Até mais!

Nota: Na foto acima, da esquerda pra direita, Fernando Brengel, Valdo Resende, Vania Maria Lourenço Sanches, Claudia Regina Bouman Olszenski, Victor Olszenski e Vania de Toledo Piza.

“dois meninos – limbo” na Feira Cultural LGBT

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Próximo dia 15, feriado de Corpus Christi, estarei com o romance “dois meninos – limbo”, na Feira Cultural LGBT, no Vale do Anhangabaú. Organizado pelo também escritor Fabrício Viana, o 2º Bate-papo com Autores/Editoras de Literatura LGBT terá início às 10h da manhã e irá até às 22h.

Na Feira Cultural LGBT estarão presentes Alice Reis, Aline Stivaletti, Fábio Carvalho, Fabrício Viana, Karina Dias, Léa Carvalho, Malu Santos, Manuela Neves, Occello Oliver, Paula Curi, Silvano Sulzart e eu, Valdo Resende. Uma oportunidade para conhecer escritores e a produção dos mesmos.

“Dois Meninos-Limbo”, publicação da Elipse, Arte e Afins Ltda., é sobre um pintor de origem humilde que, mesmo conhecendo a arte vigente, escolhe elaborar uma produção popular, visando fundamentalmente sobreviver com seu trabalho. Ao encontrar um crítico de arte dá-se o conflito pessoal e profissional.

O cenário é a cidade de São Paulo do final do século XX; a vida operária, a agitação de noites tornadas tensas e perigosas com o surgimento da AIDS e, decorrentes dessa realidade, as profundas mudanças e exigências impostas à todos. Revivendo esse momento, “Dois Meninos – Limbo” celebra a amizade e a solidariedade ante a adversidade, tanto quanto celebra a solidão e o amor.

Contamos com a presença de todos.

Até lá!

Serviço:

Literatura LGBT: 2º Bate-papo com Autores/Editoras
Dia 15/06 – Quinta-feira (feriado)
Das 10h as 22h.
Local: Vale do Anhangabaú em São Paulo
Entrada gratuita
Link do evento:
http://paradasp.org.br/literaturalgbt2017