Colo, novo livro de Monahyr Campos

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Conheci Monahyr Campos na universidade onde fui professor. Temporariamente distantes pela atual situação, fico feliz em poder divulgar Colo, novo livro em pré-lançamento, exclusivamente virtual. Formado em Letras e mestre em Linguística, Discurso e Mídia, Monahyr tem intensa atividade cultural. Compositor e intérprete, também atua como colunista da Rádio Baruk, Programa Podcasts Literários.

“Em Colo, Monahyr Campos cria conexões com o público, ora expondo questões sociais, ora refletindo a partir do cotidiano subjetivo de pessoas comuns, tecendo suas tramas com as diferentes linhas que contribuíram para o enraizamento da cultura brasileira”.

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Leia abaixo um dos contos publicados no livro:

Cerimônia da Partilha!

Havia uma colmeia dentro da caverna,

Com abelhas inofensivas.

Precisa paciência para extrair inteira,

mas compensa retirá-las vivas.

Uma roda de ciranda com sete meninos e sete meninas cantava interminavelmente esse mantra segurando firmemente nas mãos uns dos outros. Davam passos firmes e ritmados, em perfeita sincronia, em sentido horário e anti-horário. A cada repetição da estrofe, um garoto e uma garota, cortavam a roda, indo a direções opostas, ocupando o lugar deixado pela pessoa que o havia saudado com reverência, no centro da circunferência.

Às vezes, aparentemente de improviso, o casal interagia entre si com uma dança diferente: imitando as abelhas, ou os mais velhos, ou criando coreografias inusitadas.

Com a chegada dos mais velhos, eu entre eles, imaginei que a dinâmica fosse ser alterada, porém, abriu-se uma segunda roda, em torno da primeira, engrossando o coro e acrescentando o som das palmas ao ritmo dos pés batendo forte no chão. – Eu queria apenas observar, comentei com D. Meninge, mãe venerável daquele povo de felicidade. – É assim que observamos o mundo: participando dele. Vocês, cientistas, param de respirar quando estudam respiração?

Neste momento, uma garota canta mais alto e seu gesto foi imediatamente compreendido como sinal para dar-lhe a palavra. Todos silenciam e sentam-se mantendo a forma circular. Pia inicia sua narrativa cantada lembrando que é tradição milenar de seu povo receber estrangeiros ávidos por conhecimento. Todos a acompanharam no refrão:

A aranha quando tece

A teia do conhecimento

O inseto aceita

É puro arrebatamento

Ela retoma a palavra e me apresenta, em versos, contando fatos de minha vida como se Ney Lopes tivesse composto minha biografia, tamanha a beleza na escolha das palavras. Retornam ao refrão. Após finalizar D. Meninge assume a palavra:

– É uma benção inigualável podermos manter nossa tradição, mesmo com todo retrocesso que vem ocorrendo no mundo dito civilizado. Todo conhecimento que cultivamos, nossas histórias e experiências, justificam sua existência quando temos a honra de fazer acréscimos a nossos irmãos menos abençoados. Quando nossos sábios foram visitar esses povos, tiveram que utilizar nomes populares, falar por parábolas, respeitando suas dificuldades em compreender os fatos mais evidentes, mais triviais. Soltemos um pombo branco em homenagem a estes corajosos que assumiram essa missão suicida, de equilibrar um pouco mais a elevação espiritual dos povos espalhados pelo planeta.

Da mesma forma, devemos dar toda honraria a este destemido cientista por dar sua vida em troca do conhecimento. Sua abnegação em busca de sabedoria é notória, assim como a doação de sua juventude, das horas de sono perdidas, tudo pelo bem maior. Fomos agraciados com sua companhia por 14 dias de generosidade, nos quais este ser humano de grande valor pode subir ao topo mais alto, de onde pode ver com mais lucidez toda a história da vida no planeta.

É chegada a hora da partilha. Todo sacrifício pela ciência, pela consciência e transcendência nos une, nos alimenta o corpo e a água. Eu declaro iniciada a cerimônia da partilha!

Para adquirir o livro acesse aqui o site da editora. O frete é grátis!

Desejo ao Monahyr boa sorte e sucesso nessa nova empreitada.

Até mais!

Aos que nos divertem, inspiram e propiciam encantamento

O setor cultural, em 2018, empregava 5 milhões de brasileiros. Parte considerável desse contingente é de trabalho informal. Os dados do IBGE comprovam que em São Paulo, por exemplo, de um milhão de postos de trabalho, 650 mil são informais. É bom lembrar aos desatentos que informal significa não ter horas extras, férias, fundo de garantia, cesta básica, convênio médico… É bom também enfatizar que para o trabalhador informal fica difícil a manutenção de uma reserva financeira, pois entre um trabalho e outro o profissional passa vários períodos sem remuneração. E aí veio a pandemia.

Ficar em casa é o indicado para quem pode. Àqueles que não puderam parar, cuidados redobrados. Serviços essenciais estão mantidos e toda e qualquer aglomeração deve ser evitada. Cinemas, teatro, casas de shows, circos, baladas, bares foram fechados. Nem todos tem a visibilidade que chama milhões de pessoas e de reais. Uma imensa parcela, vulnerável, sem trabalho, enfrenta a situação com lances inovadores ou por pura sobrevivência. Nosso bem-estar emocional carece das diferentes formas artísticas, conforme nossas preferências, para que possamos seguir em frente. A classe artística se vira como pode. Alguns exemplos estão acessíveis via celular, computador.

teresa cristina e lula
Teresa Cristina conversa com Lula

O que seria das noites de milhares de pessoas sem as lives da Teresa Cristina? Todos os dias, sem grandes estardalhaços, ela está lá, cantando e conversando com as pessoas. Sem nenhum instrumento acompanhando, ela canta, interrompe pra dar risada, pegar “cola” de partes das letras das canções. E chama todo mundo pra roda. Retoca o batom, assinala o tamanho da própria testa e ri, divertindo-se com os comentários do público. Vem gente famosa, tipo Daniela Mercury e Bebel Gilberto; mas também vem outras, como uma moça de Manaus cantando Cazuza, ou um Casal de Porto Alegre, expondo as agruras geradas pelo preconceito. Teresa não tem patrocínio. Ela nos diverte começando às 22:00 e seguindo por três, quatro horas adiante.

Sábado passado, enquanto a Rede Globo reprisava um Altas Horas, em que Teresa estava entre os artistas homenageando Zeca Pagodinho, a live da cantora seguia firme, ela rindo por estar em dois espaços simultaneamente. É ótimo não contar e presenciar coisas inesperadas, como Chico César abrindo a porta para que o gato de estimação saísse para passear, ou o Lula, o Luís Inácio Lula da Silva, ao lado da esposa em situação caseira, íntima, conversando sobre uma de suas canções preferidas, Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues. Lula lembrou o fato de Teresa não ter patrocínio.

Isadora Petrin
Momentos de Isadora Petrin em Amores Difíceis

Isadora Petrin faz teatro online. A peça Amores difíceis está na internet, em sessões via Zoom, o site que permite interação visual entre pessoas. O grupo Arte Simples, do qual Isadora é integrante, dividiu a peça em cenas isoladas, pequenos solos que são apresentados pela atriz e, em dias alternados, por outra integrante do grupo, Andrea Serrano. O trabalho, dirigido por Tatiana Rehder, é uma ótima experiência nesses tempos de quarentena. Uma alternativa para quem está sem possibilidade de trabalho por conta da pandemia. Para quem quiser ver, e participar, é bem divertido. As atrizes conversam com a plateia e, um exemplo de interação que guardarei com carinho: em dado momento, Isadora solicita participação, contracenando com um voluntário. E assim, aos 64 anos, fiz publicamente uma cena como o Romeu, para a graciosa Julieta interpretada pela atriz. Sem patrocínio, o grupo solicita colaboração via “chapéu virtual”.

O material de trabalho de determinados artistas são os próprios artistas, o corpo e a voz. O canto de Teresa e as cenas de Isadora são exemplos. Elas não estão recebendo salário e ainda nos propiciam diversão e entretenimento. Haveria muito mais gente trabalhando, em tempos normais, ao lado dessas profissionais. Músicos, instrumentistas, técnicos de som, iluminadores, montadores, cenógrafos, figurinistas; enfim, toda a gama de profissionais que compõem um show ou uma peça de teatro. Como essas pessoas estão sobrevivendo?

Em termos mercadológicos não basta pensar só nas grandes capitais, com suas casas de show, seus teatros imensos, e atualmente vazios. Há que se colocar na pauta inúmeros espaços culturais, parque e circos, ou os tão populares bares, espalhados pelo país que, fechados, não possibilitam trabalho para quem canta ao vivo enquanto os fregueses degustam salgadinhos e tomam cerveja. Nem todos dispõem dos mecanismos virtuais para, no mínimo, continuarem na lembrança do público como Tereza Cristina e Isadora Petrin. Pouquíssimos tem a visibilidade necessária para garantir horários na TV e patrocínio, expandindo ações pela rede virtual.

Aqueles que nos divertem, nos inspiram, que nos propiciam momentos de puro encantamento, precisam de nós. Artistas, produtores, técnicos e auxiliares da área de cultura e entretenimento carecem da atenção dos nossos dirigentes. Outro tanto de prestadores de serviço para esses profissionais (costureiros, maquiadores, motoristas, faxineiros, bilheteiros, garçons, marceneiros, eletricistas, seguranças…) aguardam ansiosos por ações oficiais que garantam a sobrevivência do setor.

Em São Paulo um projeto de lei, a PL 253, visa auxiliar trabalhadores da cultura e espaços culturais de pequeno porte. Foi criada uma Frente Parlamentar em Defesa da Cultura, suprapartidária, que protocolou pedido de auxílio imediato para os profissionais impedidos de trabalhar por conta da situação vigente (para assinar a petição, clique aqui). Outra iniciativa, a Associação de Produtores Teatrais Independentes (conheça as ações da APTI clicando aqui) lançou campanha de apoio a técnicos e artistas em situação de vulnerabilidade. Segundo a associação, há em São Paulo 25.000 profissionais em situação crítica. Há outras iniciativas, em outras cidades e estados. Vamos ficar atentos.

Como vai, como vai, como vai, vai, vai? (Alguém se lembra do Arrelia?) Eu… Estamos indo; às vezes bem, outras nem tanto. Hoje fui acordado pelo interfone. A vizinha, querendo saber como estou, colocou o filho adolescente à disposição caso eu precise de algo lá de fora. Há solidariedade em São Paulo. Então, meu querido Arrelia, onde você estiver, saiba que eu vou bem, muito bem, bem, bem. E apelo para o seu nome, para que todos se lembrem que palhaços, cantores, atores, bailarinos, iluminadores, enfim, toda essa gente que nos dá alegria, prazer, diversão e entretenimento, agora carece de nós. E se você, que me honra com sua leitura, puder ajudar, deixo aqui meu sincero agradecimento.

Até mais.

Atenção:

VEJA AS LIVES DE TERESA CRISTINA CLICANDO AQUI . INFORMAÇÕES SOBRE A PEÇA AMORES DIFÍCEIS CLICANDO AQUI

 

 

A devastação dos velhos

devastação da velhice

Parte de um vídeo de Lima Duarte após a morte de Flávio Migliaccio, o título “a devastação dos velhos” poderia ser encarado como força de expressão em momento altamente emocional. No entanto, o ator exterioriza e torna-se porta-voz dos mais velhos, milhares, assombrados pelo avanço da pandemia e pelos critérios que devem ser levados em consideração na escolha por pacientes em filas de UTIs. A primeira versão do documento, de abril passado, levava em conta a idade do paciente. Aos mais novos seriam destinados os leitos vagos.

Após o impacto negativo da versão inicial, vieram a público nesta semana novos critérios elaborados pela Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) e pela Abramede (Associação Brasileira de Medicina de Emergência). O discurso do ator, infelizmente, continua válido, pois a idade permanece entre os critérios vigentes, enfeitada em meio a palavras técnicas, sofismas que, ao final, deixam a impressão de estar tudo na mesma.

Conforme noticia o UOL: Gravidade, maior grau de sobrevida e capacidade do paciente são a base dos critérios sugeridos no documento elaborado pelas duas associações. Atenção para a palavra SUGERIDOS. Para deixar claro o que pesa sobre a cabeça dos mais velhos, transcrevo parte da matéria do site:

OS TRÊS CRITÉRIOS

1) Salvar mais vidas

Como é feito? Usando o escore Sofa (Sequential Organ Failure Assessment) (?1), que avalia uma série de parâmetros de dados vitais (?2). Quanto maior essa pontuação, menor a chance de sobreviver (vai de 1 a 4 pontos).

2) Salvar mais anos de vida

Como é feito? Avaliando a presença de comorbidade (?3) grave com probabilidade de sobrevida (?4) inferior a um ano (caso isso ocorra, soma-se 3 pontos à conta).

3- Capacidade do paciente

Como é feito? Por meio da escala de performance funcional Ecog (Eastern Cooperative Oncologic Group). Nesse caso, o paciente é avaliado em uma escala que vai de “completamente ativo” até “completamente incapaz de realizar autocuidados básicos” (?5) (vai de 0 a 4 pontos).

Em caso de empate de pontos, diz o protocolo proposto, deve ser usada a seguinte ordem de escolha:

1. Menor pontuação do Sofa

2. Julgamento clínico da equipe de triagem

Atenção: os pontos de interrogação são meus. Proponho algumas reflexões sobre os mesmos. Vejamos:

?1 – O Sofa avalia gravidade de morbidade e predição de mortalidade. Morbidade, em medicina, é o conjunto de causas capazes de produzir uma doença. Pergunta de leigo: idade avançada está entre causa de produção de doença? Sim, parece óbvio. Mas, gente jovem também adoece. E aí?

?2 – Espero que dados vitais seja o mesmo que sinais vitais, ou seja: o documento fala de Pressão arterial; Pulso; Respiração; Temperatura. Algo me diz que pessoas da terceira idade saem perdendo no quesito…

?3Comorbidade, no texto, refere a presença de duas ou mais doenças relacionadas no mesmo paciente e ao mesmo tempo. Por exemplo, um sinal da Covid somada a depressão, comum em pessoas mais velhas, aliada ao pânico por ter mais idade e consequente aumento de falta de ar, aumento da pressão arterial e sabe-se lá Deus o que mais…

?4Sobrevida. Quanto tempo viveremos, ou sobreviveremos? E o que faremos durante o tempo que nos resta? João XXIII, um dos mais notáveis papas do século passado, viveu 82 anos. Nos últimos cinco anos de vida revolucionou a Igreja Católica conclamando o Concílio Vaticano II, causando uma das maiores revoluções na instituição.

?5Deve morrer o indivíduo “completamente incapaz de realizar autocuidados básico”?

A pandemia provocada pelo Corona Vírus deixou exposta o que antes permanecia num limbo socialmente aceito: a incapacidade da sociedade de cuidar com eficácia de todos os seus componentes e, pior, a desvalorização dos idosos, o descaso para com a situação desses beirando ao desprezo.

Os critérios mascaram uma pretensa “escolha de Sofia”, posto que o idoso já entra perdendo na competição por um leito de UTI. Todavia, os tempos mudaram e temos pessoas idosas altamente atuantes, sem que seja necessário muito esforço para nomear tais pessoas. Dona Luiza Erundina está com 85 anos. Lima Duarte está com 90. Dona Laura Cardoso está com 92 anos; Dona Nicette Bruno com 87, Dona Fernanda Montenegro, 90 anos, Tarcísio Meira está com 84 e, o mais jovem da turma que me vem à lembrança, Eduardo Suplicy, com 78 anos. Para quem curte “valores estrangeiros” Elizabeth II, da Inglaterra, está com 94 anos, e dos EUA, a estrela Jane Fonda, 82 anos… a lista é imensa.

Os tempos mudaram. As formas e procedimentos médicos evoluíram e não é isolado o exemplo de D. Canô Veloso, que viveu lúcida e saudável até completar 105 anos. Ou seja, mantendo-se cuidados e assistência necessária, a turma acima pode vir a ter 15, 20 anos mais de vida (Espero mais!). Isso implica em que essas, e muitos outros, tem muito a contribuir ao mundo. Nada justifica terem que passar pelo pavor da falta de tratamento adequado. Não se trata, em hipótese alguma, de escolher entre alguém mais jovem ou alguém mais velho para uma vaga de UTI. É fundamental que a sociedade garanta iguais possibilidades de tratamento para todas as faixas etárias dos diferentes grupos sociais. Alguém pode dizer que a pandemia é uma exceção, no entanto cabe lembrar que desde o final da II Grande Guerra que, durante a chamada Guerra Fria, vivíamos sob a ameaça de uma devastação advinda das consequências de um ataque com bomba atômica. Nunca foi feito nada para garantir a saúde dos cidadãos sobreviventes.

O vídeo de Lima Duarte nos mostra alguém desolado, deprimido, receoso para dizer o mínimo das sensações perceptíveis. Há milhares de outros seres em condições similares e até piores, se pensarmos naqueles que não detêm poder aquisitivo sequer para garantir alimentação adequada, quanto mais um tratamento digno. Precisamos lutar, precisamos mudar as perspectivas para os mais idosos. “Os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue”, finalizou Lima Duarte citando Brecht. Até quando atuaremos como Pilatos?

Até mais!

Obs: veja a matéria completa do UOL clicando aqui.

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Vamos!

Foto by Valdo Resende
Quem puder, fique em casa.

A vida interrompida, como se tudo ficasse em suspenso. O vírus invasor chegou trazendo o medo, a calamidade, a dúvida, o receio, a espera. Estar em quarentena poderia ter sido só os primeiros quinze dias e vieram outros dias, semanas e a gente continua em dúvida quanto ao que nos espera. No entanto…

Os números são terríveis. As perdas irreparáveis e o fim, distante, trará sequelas por longo tempo. E nós, seres humanos, tendo superado tantas adversidades ao longo da história, temos que buscar superar mais esta.

VIDA QUE SEGUE!

CARECE DE OLHAR PARA O OUTRO

ATENTAR PARA TODOS OS CUIDADOS

(QUEM PUDER, FIQUE EM CASA!)

BUSCAR SUPRIR NECESSIDADES.

VAI SER DIFÍCIL!

É PRECISO TER FÉ, ESPERANÇA

É PRECISO CONTINUAR.

VAI PASSAR.

Tenho agradecido continuamente aos céus por poder permanecer em casa. Tenho rezado continuamente pelos que precisam sair em busca do pão de cada dia. Procuro refrear o julgamento ante aquele que está na rua, cujo motivo não está aparente. E assim…

VAMOS EM FRENTE!

Esse retorno às atividades está precisamente centrado nas minhas atividades relacionadas ao mercado literário. Daí ter retomado as atividades da ELIPSE, ARTE E AFINS. Estamos preparando novos lançamentos e, enquanto a situação não nos é propícia, estamos reativando as atividades nas redes sociais.

Acompanhem nossas atividades e fiquem por dentro de ações culturais e atividades pertinentes ao momento, além dos trabalhos de nossos parceiros.

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Muito obrigado.

 

 

Não matarás!

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Colocar idosos em confinamento é a ideia ignóbil que precisa ser combatida antes que cresça. Feito o vírus que se espalha, traiçoeiro, é a inicial sugestão de isolamento vertical proposta pelo indivíduo que ocupa a presidência. Sem respaldo científico nenhum, mas com interesse em agradar setores da economia, opina-se para o isolamento de pessoas com mais de 60 anos. Isto significa confinar 13% da população brasileira. Dito assim, não esclarece que tal ação isolaria 28 milhões de indivíduos. VINTE E OITO MILHÕES DE INDIVÍDUOS!

O pensamento rasteiro do presidente já encontra eco. Campo de concentração, sugere um tal Marcão do Povo, que deve ter nascido sem pai e mãe. Trancafiar os velhinhos é a solução para Rodrigo Constantino, também sem mencionar se tem ou não filiação. E a ideia pode vir a ser considerada comum, viável, normal, se não for devidamente combatida. Onde estarão os campos de concentração? Como os idosos serão trancafiados? O presidente, acima dos 60, será encaminhado ao confinamento? Junto com ele, os Juízes do Supremo, os Senadores e demais representantes públicos sexagenários? Ou os canalhas, autores dessa monstruosidade, pretendem categorizar quais os “tipos de velhos” que ocuparão o cativeiro?

Não matarás, diz o Mandamento recebido por Moisés. No entanto, o protocolo médico internacional orienta que em caso de ter que escolher entre um idoso e um jovem, o remédio irá para quem tem maior possibilidade de sobrevida. Os perigos desse procedimento ético colaboram na difícil decisão de médicos, mas pode sugerir outras atrocidades para detentores do poder. No caso do Brasil, por exemplo, seriam 28 milhões de doses de vacina a menos, já que “velho pode morrer”. 28 milhões de doses de remédio a menos, 28 milhões de leitos a menos. 28 milhões de beneficiados à menos na conta da Previdência. Basta fechar os velhos em campos já com as valas destinadas aos corpos, ou o crematório permanentemente aceso, já que 28 milhões de corpos ocuparão espaços valiosos para o mercado imobiliário.

O quarto Mandamento determina que devemos honrar pai e mãe. E todos nós, pais e mães acima dos 60, devemos ter errado feio ao transmitir o mandamento que, em si, dispensa preceito religioso. É natural o reconhecimento por aqueles que nos prestaram benefícios. É humano ajudar a caminhar aqueles que necessitam e que, um dia, nos seguraram para os primeiros passos. É natural dar comida para quem nos alimentou com o próprio leite, com a força do próprio trabalho. É bem provável que alguns, com pouca afinidade com pai e mãe, acharão piegas, sentimentais, inúteis as ideias de dever, de troca, de gratidão. Por isso, e por existir gente que pensa em confinar idosos, que o discurso deve ser outro:

– Conclamo todos os sexagenários e acima, meus irmãos, parentes e amigos à luta!

Uma luta que começa por boicotar o SBT – Sistema Brasileiro de Televisão, por permitir que alguém use o canal para sugerir campos de concentração para idosos. Mesmo boicote à Jovem Pan, por ideias similares se difundirem via microfones da emissora. Lembrar na hora de votar do nome de cada político, sexagenário ou não, que aceita a ideia de confinar quem quer que seja, sem que este tenha cometido o mínimo crime.

Aprendi com meus falecidos pais, avós, tios, que deveria trabalhar muito na juventude para ter uma velhice tranquila. Hoje, aos 64 anos, sou oficialmente idoso e vejo a tranquilidade enquanto quimera. Décadas de trabalho não garantem direitos à aposentadoria digna. Aposentados, ainda precisamos de continuar a trabalhar para complementar renda visando obter além do estritamente necessário. Precisamos trabalhar para conseguir pagar um convênio médico, pois, repito, décadas de desconto na folha de pagamento não garantem um tratamento digno na rede pública de saúde. E na pandemia, a solução política é confinar o velho, prendê-lo em casa ou em campo de concentração.

Não vou odiar aqueles que estão mais jovens. Nem tratá-los como inimigos. E por desejar que esses jovens tenham longa e feliz vida é que não admito ser tratado como estorvo. Da luta conclamada acima, podemos lembrar a importância do nosso salário na economia familiar, da nossa experiência e conhecimento volta e meia desperdiçados por preconceitos imbecis. Quem somos nós, pobres velhos, para lutar contra a OMS e seus protocolos em tempos de pandemia. Mas podemos exigir que os governos de todos os países se preparem para a próxima doença, o próximo desastre. Podemos insistir para que todos deem mais voz aos cientistas para que digam aos quatro cantos que o confinamento de quem quer que seja não resolve o problema, mas joga esse para baixo do tapete.

O isolamento continua. É necessário. Todavia, isolamento vertical NÃO!

Até mais!

A imagem acima é reprodução de “o enterro” de Lasar Segall.

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“Desfaze-te da vaidade triste de falar”

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“Desfaze-te da vaidade triste de falar”, diz Cecília Meireles em “Não digas onde acaba o dia”; e a poetisa conclui:

Pensa, completamente silencioso,

Até a glória de ficar silencioso,

Sem pensar.

 

 

 

Livre pensar…

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Lembrando Millôr Fernandes, livre pensar, é só pensar:

E após crescer sob a tenebrosa sombra da Guerra Fria, quem iria imaginar o mundo na atual situação? EUA e Rússia enfrentam o mesmo problema que China, Itália, Espanha, Brasil…

As bombas não cruzam os céus que, por sinal, estiveram ensolarados e belos nesses últimos dias. Parece que a única espécie ameaçada é o ser humano; a natureza, e Veneza é exemplo, ignora mazelas humanas e retoma um protagonismo de limpeza e vida. Na cidade dos canais, agora sem gôndolas, as águas estão claras; peixes e pássaros chamam mais a atenção que os pombos da Praça São Marcos.

Quarentena, isolamento social e cuidado, muito cuidado com o inimigo tão ínfimo quanto perigoso, invisível e, talvez esteja aqui o grande reboliço: o corona vírus não respeita classe social. Dezenas de membros da comitiva presidencial brasileira, Angela Merkel, na Alemanha, Rand Paul nos EUA e, entre muitos outros figurões, Tom Hanks e a nossa querida Preta Gil…

Pânico e medo, parece, predominam sobre os incautos que encaram a necessária suspensão de atividades com férias. Sábado, no edifício onde moro, rolou uma festa no bar que há no térreo. E as pessoas só foram embora dos bares após esses fecharem as portas. São poucos, mas colocam-se em risco e também por isso ameaçam aos demais moradores do bairro.

Errou feio quem pensou que as fake news políticas tinham sido o maior problema dos aplicativos na comunicação entre famíliares e grupos afins. A coisa foi polarizada, o que nos permitia identificar o lado oposto num piscar de olhos. Na atual situação, o que realmente fazer perante a ameaça do vírus mortal? Aliás, o vírus é mortal, ou com tratamento à tempo e adequado ele é só mais um? Unanimidade é lavar as mãos e rezar, é o que fica perceptível.

Os otimistas (ou mal informados?) pensam que tudo se resolverá logo, em quinze, vinte dias. Jornais e sites de notícias assinalam setembro como o mês em que voltaremos ao normal. Sem futebol, sem o boteco pra cachaça, sem novela (para os que não gostam de reprise)… Deus é que nos guarde! Trancafiados e sem Palmeiras e Corinthians pra alimentar pinimbas, sem a conversa fiada do boteco, sem discutir rumos de novela… Aí vem o sujeito dizer que o cidadão deve ler. Com as famosas e requintadas bibliotecas das salas de estar da população simples do Brasil… Viveremos tempos difíceis.

Enquanto isso, uma monumental briga política toma conta e rivaliza em atenções com a doença. Tem o imbecil que prega o vírus enquanto “gripezinha” e, do outro lado, em condições de sustentar a briga, governadores “lutando” cada um pelo seu estado. As aspas na palavra lutando é para chamar a atenção para campanhas políticas em andamento e, quem diria, até o lançamento de novos nomes para disputar futuras prefeituras, governos e até a República. Não é só o capitalismo a lucrar com a atual situação.

Se a coisa for até setembro completarei meus 65 anos (espero!!!) em plena crise. Estou grupo de risco. É muito doido! Recentemente quiseram me impedir de tomar vacina, pois eu estava fora do grupo visado pela saúde pública. Me vem o mesmo raciocínio de então: vírus pede RG antes de infectar o sujeito? E pior que vacina, é a possibilidade de não vir a ser tratado; ou deixado de lado… Santo Deus! E ser deixado de lado não é apenas para aquele que, infelizmente, possa vir a contrair o vírus. Há os moradores de rua, os desempregados, os afastados de suas funções informais…

Esse é um texto sem fim, vai saber o que nos espera… portanto, vale a pena repetir: Lembrando Millôr Fernandes, livre pensar, é só pensar.

Até mais!

PS: A foto é das escadarias no Bairro Bela Vista, aqui em São Paulo. Vazias, como quase toda a cidade.