Ato Solitário – versão do autor

Bruno Fracchia em foto de Lairton Carvalho

No próximo dia 12 (sexta-feira), no MISS, às 19 horas, Santos será palco do lançamento da obra audiovisual Ato Solitário – versão do autor, numa exibição seguida de bate-papo com o realizador Bruno Fracchia. 

Escrita e dirigida por Bruno Fracchia, a obra é um teleteatro que, jogando com conceitos de realidade e ficção, aborda a trajetória de um homem que sucumbe a compulsão sexual em pornografia virtual. Seu crescente isolamento social é atravessado por temas como pornografia da vingança, machismo e o poder da indústria pornográfica. Um universo denso, mas abordado por meio de uma estética agradável de se ver e que proporciona uma bela fruição artística:  a Pop Art. 

A compulsão sexual por pornografia e indústria do sexo são temas atuais e assuntos para debates sociais urgentes, haja vista as frequentes notícias sobre mulheres vítimas de pornografia da vingança (com muitas delas tirando suas próprias vidas) e os dados que demonstram que a cada segundo, aproximadamente, 28000 usuários de internet estão consumindo conteúdo pornográfico e 3000 dólares são gastos nesta indústria que fatura, anualmente, em torno de 97 bilhões de dólares. 

Ato Solitário – versão do autor é uma obra em prol da vida, da educação sexual e de debates urgentes, mas sem esquecer seu papel também como fonte de entretenimento. 

Com: Bruno Fracchia; participações especiais: Day Lopes, Juliana Sousa, Letícia Tavares Homem, Luiz Fernando Almeida, Maria Tornatore, Natanael Gomes e Thays Bras. Atriz convidada: Aline Alves

Serviço:

Lançamento do teleteatro Ato Solitário versão do ator

Local: Museu da Imagem e do Som de Santos (Avenida Pinheiro Machado, 48) 

Horário: 19h 

Duração: 50 minutos. 

Classificação indicativa: 16 anos 

Entrada franca 

Ressaca

Ontem, sábado, a praia santista, normalmente tranquila e singela em sua beleza, estava suja e cheia de lixo. Resultante da ação criminosa e irresponsável de nós, seres humanos. Lixo devolvido pelo mar via ressaca brava, forte. Pude distinguir uma sandália, um esqueleto de celular, muitas embalagens plásticas de diferentes tamanhos, latas de cerveja, refrigerante e pedaços de madeiras diversas…

Tudo presenciado em apenas um pequeno trecho da praia. Atravessando a avenida já se via a espuma amarelada que havia invadido partes mais baixas do jardim e algumas vias paralelas aos canais. Essa espuma, normalmente resultante de material orgânico apresentava inequívocos sinais do óleo, combustível de barcos e navios.

Admirando a força e o tamanho de algumas ondas, as incríveis variações de cinza, um e outro navio atravessando o horizonte com aparente tranquilidade, fiquei dividido entre a admiração pelo momento que a natureza estava me presenteando e o desalento pelos rastros deixados por algum semelhante.

O movimento era intenso. Coletores de latas – vi cinco ou seis – caminhavam rapidamente com suas sacolas cheias, as embalagens já enegrecidas pela ação do sal ou outro material marinho. Um casal de idosos observavam com cuidado os resíduos disponíveis e só recolhiam coisas que me pareceram tacos de madeira. Gente passeando cachorros, e atletas correndo, impassíveis, buscando um corpo temporário.

“O mar está vomitando o lixo que jogam nele”, tragando um cigarro me disse um sujeito desconhecido, desses que não se aguentam e precisam verbalizar o caos. Quando comentei com o amigo, funcionário do quiosque, a acusação foi clara: “o lixo vem dos navios. Tem coisa que não é daqui, não se compra por aqui em lugar nenhum. Vem dos navios!”. Uma colega do rapaz também foi enfática: “Sujeira é coisa de turista. Quem mora por aqui e vive do mar respeita, cuida.”

O mar vomita! Essa expressão me fez refletir sobre o que via, toda a gama de materiais manipulados pelo homem sendo expulsos por ondas agressivas, nervosas. Diferente de dias amenos quando, desmanchando na areia outras ondas nos acariciam os pés. No vômito marinho há nítida violência, aviso agressivo, impaciente. Saco cheio!

As águas turvas, a areia revirada e trazida pelas ondas… O mar esconde tanta coisa! Animais e plantas visíveis em tamanhos diversos e outros, minúsculos, microscópicos, vivendo em suas profundezas. O mar também guarda muitas coisas! Lembrança de vidas que se perderam em tentativas de travessia, sinais de corpos despejados de navios com gente escravizada, de migrantes que buscaram oportunidades de sobrevida, também os próprios navios e barcos que, por razões diversas naufragaram.

Água, aprendi muito jovem, a gente não domina. O ciclo que a natureza estabelece a gente conhece: mar, vapor, nuvem, chuva, riacho, córrego, rio, mar, vapor, nuvem, chuva… E vi que há muito veneno, os tóxicos e agrotóxicos, muito óleo, muito garimpo ilegal enchendo rios de mercúrio e por aí vai, uma enorme gama de coisas envenenando e tornando corriqueira a placa “Imprópria” em lagos, rios, mar.

Ressaca é momento para perceber o que estamos fazendo com o mar, assim como enchentes denunciam o que fazemos com córregos, rios, e pragas revelam o que estamos fazendo com o campo, nossas florestas… Os avisos estão aí! Os alertas sendo dados. Hora cobrar de todo e qualquer candidato das próximas eleições um compromisso adulto e um plano responsável para a sobrevivência do planeta, nossa sobrevivência!

Até mais!

Na estica à beira-mar

Com frio ou calor, chuva ou sol, esse mineiro que vos escreve, morando em Santos, caminha cotidianamente pela orla atlântica. Invariavelmente esse passeio é feito sobre a calçada que limita jardim e praia. São sete quilômetros de jardim, praia e mar. Obviamente que não caminho tanto assim. Vou um cadiquim para cá, um cadiquim para lá, sento-me para ver navios, distraído em alguns momentos por pássaros e gente.

Não sei nadar. “Como assim?” já ouvi muitas vezes. Presumo com certeza não ser o único a dominar tal coisa, mas invariavelmente informo ser de Minas Gerais. Talvez por isso, pelo menos por enquanto, meus joelhos continuam virgens da água marinha. E vivo bem sem nadar. Sei andar, corro, já dancei muito, mas nadar… não nado. E tenho a quem puxar.

Ulysses e Bino

Este rapaz elegante, de terno claro, é o Bino, meu pai. Esteve assim aqui em Santos, lá pela primeira metade do século passado, antes de eu ter nascido. Veio em visita aos meus tios que, vindos de Portugal, moravam por aqui. Este, ao lado do meu pai, é o Tio Ulysses, casado com Isaura, irmã caçula de minha mãe. Tenho vaga lembrança de terem morado na Praia José Menino.

Sou capaz de apostar que nenhum santista viu as pernocas do meu pai. Nem os cariocas, pois quando papai visitava o Rio de Janeiro – uma dessas viagens me lembro bem – era nessa “estica” que ele caminhava por Copacabana e outras praias mais.

Não tenho nenhuma informação de meu pai tomando banho em lagos ou rios. E, todo mundo sabe, rio é o que não falta em Minas Gerais. Todavia, em um aspecto saí a meu pai. Nem rio, nem lago, nem mar, nem piscina. Chuveiro a gente gosta. Muito! Quanto a mares, rios e lagos, que fiquem lá com todo o respeito e cuidado que merecem. Gente como nós se contenta em olhar, sentir o cheiro, a brisa.

Poderia estender esse texto com mil razões, outro tanto de conjecturas sobre tal situação. Bobagem. Ou então que fique para outra hora. Só me incomoda quando alguém vem questionar por que vou de meias e sandálias nas caminhadas à beira-mar. Vou como quero, mas como nem tudo é tão rígido, celebro alguns avanços: tenho feito caminhadas molhando os pés naquele ponto em que as ondas se desmancham na areia. Às vezes, chegam até as canelas e até já chegaram bem próximas do joelho. Chupa, Michael Phelps!

Outro dia fiquei presenciando uma ressaca, admirando vários surfistas em ação. Deslizando sobre as ondas como seres mágicos, alguns terminando o trajeto me lembrando Charles Chaplin nas trapalhadas de Carlitos. Nesse mesmo dia um morador da praia – já percebi que há vários por aqui – foi resolutamente bêbado caminhando em direção ao mar. Passos trôpegos, transferi a preocupação para os companheiros do sujeito em caso de afogamento e fiquei observando. Ele caminhou até a água ir acima da cintura, pulando ondas e, de repente, retornando o corpo em viravoltas desconexas junto a uma onda mais forte. Levantou-se como se fosse um herói olímpico, gritou obscenidades para os colegas e retornou, calmamente, para o local de origem.

Naquele dia deixei surfistas, moradores e, como tenho feito, voltei para casa, sequinho, sequinho. Com certeza nadar deve ser muito bom. Mas, além de ser filho do Bino, não tenho pressa. Estou morando por aqui há tão pouco tempo! Quem sabe, em algum momento, eu não venha narrar algumas braçadas celebrando um dia de sol no mar?

Até mais!

Maníaco por cacarecos

Entre as múltiplas funções das pedras de um jogo de dominó estão a facilidade em compor escadas, estabelecer limites da coxia em espaços imaginários ou criar rotundas no fundo de um palco. Tampas de tubos de pasta de dente podem se tornar pés de uma mesa; umas sobre as outras formam belas colunas e, com a parte menor para baixo, simulam vasos. Tampas de garrafa são bandejas onduladas e caixas de fósforo se transformam em armários… Foi assim, brincando com cacarecos que iniciei minha paixão por cenários.

Penso ter sido sorte não dispor de um quarto cheio de brinquedos. Isso nos permitiu, incluindo aqui irmãos e primos, a transformar latas de sardinha em vagões de trem de ferro, cascas de nozes em carapaças de tartarugas e latas de extrato, ou de óleo, em pés de lata. Aprendemos rapidamente a transformar câmaras de bicicleta em estilingues após identificarmos as forquilhas mais resistentes nas goiabeiras do quintal e por aí seguimos, somando bolas de gude, piões, carrinhos e toda a sorte de brinquedos aos nossos artefatos caseiros.

As pessoas crescem e param de brincar. Algumas. Outras continuam brincando – que é a melhor definição que assumo para teatro: brincar de ser! No meu caso, o lado estranho de algo legal, iniciado lá na infância, tornou-se um razoável vício em guardar coisas. Um acumulador, dizem atualmente. Uma dificuldade considerável em desapegar-se de coisas que, quase sempre, perdem função e serventia.

Obviamente que há desculpas esfarrapadas para acumular bobagens. Minha preferida é pelo fato de vir de uma época, e de um determinado grupo social, em que guardávamos bexigas pelo maior tempo possível e, quando presenteados, desembrulhávamos o objeto com o máximo cuidado para, em ocasião propícia, dar novo destino ao papel que poderia ser uma capa de caderno, forrar o fundo de uma gaveta e até embrulhar um novo presente. A vida não era fácil!

Há justificativas afetivas: a caneca presenteada pela tia, o copo e a imagem da santa que se tornaram lembranças da avó, o par de esporas usado pelo pai quando no exército, a lanterna que acompanhou o avô ao longo de 40 anos na Mogiana, o potinho que veio da vizinha, a espanhola D. Antônia, o livro usado por minha mãe quando na escola… Deixar essas e outras bugigangas gera uma culpa que nem Freud resolve!

Acontece que, entre o brinquedo e a lembrança, há os badulaques (essa palavra muito usada por D. Laura), os bagulhos (com outra função para a molecada de hoje) e as tralhas, amigas das traças e teias de aranha. Por que alguém guardaria tampas sem panela? Potes de plástico sem tampas, copos e pratos díspares, roupas número 40 para quem já beira ao 48? Vidros de compotas vazios, alguns cheios de rolhas inúteis, outros cheios de parafusos sem porcas… E para dar um fim nessa constrangedora relação há os restos de tintas já secas, inúmeros suportes para mangueiras de chuveiro e pedaços de vela nunca encontrados quando acaba a energia.

Há muito tenho consciência de ter manias de guardar coisas. Lá atrás, quando tive um quintal para chamar de meu “colecionei” fósforos queimados, vidros de energético e embalagens plásticas do concorrente, o tal que vem cheio de lactobacilos vivos. Quando questionado sobre a tal mania bancava o artista plástico: “- Vou fazer uma instalação!”. Da casa grande para um kitchenette, a futura fracassada instalação foi toda para o lixo e, algum tempo depois, já professor, passei a acumular papéis.

Revistas para exemplificar anúncios, mídia cards para diferentes exercícios, embalagens diferentes para atividades em criatividade… Jornais, malas diretas, papeis de embrulho personalizados… Encartes, brindes, materiais de ponto de venda… E de cada objeto tornado exercício o registro físico em papeis, muitos papéis, posto que arquivos digitais não têm a menor graça…

Da primeira terapia guardo os exercícios de desapego que, em bom português, nada mais são do que jogar cacarecos fora, dar destino ao que ainda possa ter e, prêmio garantido: ganhar espaço. Periodicamente pratico o tal exercício, mas percebi nesses dias, ao preparar minha mudança, que aqui e ali driblei legal essa coisa de desapego. Posso exemplificar com panelas de pressão obsoletas, agendas usadas desde o século passado, leques de um frustrado projeto teatral e, entre outras, vários canudos que são suporte para papel toalha e papel higiênico.

Quantas coisas úteis estão inúteis por aí? Quantos cacarecos absolutamente sem utilidade ocupam espaços que, livres, no mínimo deixariam ambientes mais bem arejados? Difícil! Minha solidariedade àqueles que, como eu, têm essa mania estranha. E assim, só me resta continuar mesmo sabendo que virão recaídas!

Bora desapegar!

Estou a ver navios

Não sei de onde vem o fascínio pelo ir e vir de navios que, nesse momento da vida, tenho observado entrando ou saindo pelo canal marítimo que liga o oceano ao porto de Santos. Talvez da infância quando, em dias de muita chuva e enxurradas, meu irmão Valdonei e eu fazíamos barquinhos de papel que, invariavelmente, não chegavam até a esquina mais próxima. Afundavam! Buscávamos papel mais resistente e, às vezes, até conseguíamos um que fosse impermeável.

Ver barquinhos descer rua abaixo em corredeiras pluviais e imaginar até onde chegariam era um exercício de fantasia. Não havia bueiros no bairro e sabíamos que parte da enxurrada descia por toda a extensão da avenida enquanto a outra, pela Rua João Pinheiro, tomava rumo ao centro da cidade. Barquinhos mais resistentes chegavam no ponto onde a enxurrada se dividia e era esse o limite até onde ia meu irmão, acompanhando as canoinhas que, pura imaginação, eram barcos, grandes navios.

Lá pelas tantas, na adolescência, tive ideia de que não seria bom ficar estacionado, vendo barcos e vida a passar. Uma das minhas canções preferidas de então termina com versos cantados magistralmente por Maria Bethânia:

Não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não

Lamentando o eterno movimento

Movimento dos barcos, movimento!

A mesma canção, de Capinam e Jards Macalé, também diz:

Não quero ficar dando adeus às coisas passando

Eu quero é passar com elas…

Quantas vezes ouvi Movimento dos Barcos? Não sei! O que sei é que a ideia de estacionar era apavorante tanto quanto a possibilidade de perder algo que a vida pudesse me propiciar. “Eu quero é passar com elas”, pensava enquanto exercia atividades teatrais, educativas, jornalísticas, religiosas, literárias… Um turbilhão de coisas invariavelmente feitas simultaneamente que me levaram a pensar que não sabia, não conseguia meditar.

Voltas que o mundo dá. Mineiro de Minas Gerais, que não sabe nadar nem brincar em piscina de criança, me vejo sentado em diversos pontos do imenso e belo jardim da orla santista, completamente absorto, fascinado pelo eterno movimento das ondas que chegam e se desmancham na areia. Vejo respeitosamente a imensidão que me apequena. Eita, marzão grande, sô! Evito pensar no que ele esconde e nada do que possa estar ali à espreita me assusta, posto que é o mesmo respeito que me mantém distante, mal molhando os pés.

O mar tem me permitido altos níveis de alheamento. Sei lá para onde vão os pensamentos, os desejos, as vontades, os anseios. Tudo se resume a entrar em sintonia com o movimento das águas, no ritmo de ondas às vezes altas, outras meros marulhos. Perco o olhar no infinito, onde mar e céu se encontram e mantenho contato com a realidade a cada navio que passa. Como se cada embarcação me perguntasse de onde vim, para onde vou, o que eu quero. E eu quero é continuar a olhar o mar, a ver navios.

Lá atrás, trabalhando para a gente do Pará e do Maranhão, homenageei Luís da Câmara Cascudo em personagem que chamei “Cascudinho”, nome que me vem quando penso no estudioso brasileiro. Foi Cascudinho, li na coluna Sobre Palavras, do Sérgio Rodrigues, que dá duas versões para a expressão a ver navios. Uma diz de um rico dono de navios que desafiou Deus e este teria dado uma lição no sujeito naufragando as embarcações. Outra, refere crença na volta de D. Sebastião, o rei português que morreu em batalha.

Humildemente sugiro ressignificar a velha expressão “Ficar a ver navios”. Passa a ser um processo de meditação para iniciantes onde o sujeito entra em estado de contemplação observando o oceano. Devidamente acomodado de frente para o mar, sob sombra ou sol, conforme a temperatura pedir. E como o pensamento teima em funcionar, tirar do alheamento, deixe-se levar pelo ir e vir das grandes embarcações.

Outro dia veio uma com o nome Grimaldi. Deve ser da família de Mônaco; Amauri é o nome do meu novo amigo, que me ensina coisas do mar: aquelas que se parecem com grande caixa, acho feias, carregam grãos. Todas têm uma linha que determina para o observador se estão vazias ou carregadas. Aquelas cheias de grandes contêineres me lembram lego. Para logo chegará um grande navio da China. Tiveram que alargar o canal quando veio pela primeira vez…

Passatempo bom, ver navios. Não tenho o menor interesse em saber para onde vão, de onde vieram. Apenas desejo que façam boa viagem e, quando chegando, que não tragam nada de mal.

Quanto tempo vou levar para dar um jeito de me “empoleirar” em um desses “trens grandes”, rumo a não sei onde?

Ficar a ver navios é bom. Recomendo.

Ziriguidum 67

“Um mineiro em Santos”

Quando as coisas andam sem cor e se a sensação é de vida estagnada, o jeito é seguir o conselho da minha dileta Márcia Gomes Lorenzoni: “É preciso dar um ziriguidum na vida!” Para deixar claro, seria algo tipo dar um up, diriam atuais adolescentes, ou sair da caixa como indica o coaching da hora colocando-nos “in” ou “out” em relação a quase tudo. Todavia, ao invés de um “up”, a gente pode carecer mesmo é de ir para os lados e, alerto, um bom ziriguidum pode ocorrer dentro, em cima, embaixo ou fora da caixa.

Li que aos 60 e poucos de idade a gente passa a priorizar arnica e canela de velho aos bons hidratantes. É vero! Aos 65, aposentados por idade, agradecemos não ver luzes brancas no final de túneis com vultos desconhecidos vindo nos buscar. E quando em meio ao período em que sessenta se confunde com “cê senta e fica quieto”, vieram: um acidente, uma demissão e uma pandemia, levando-me, como diria Belchior, a ficar “mais angustiado que o goleiro na hora do gol”.

Bobagem enfrentar o tempo. Ainda mais porque, sendo abstração humana, o tempo ignora relógios, calendários. Ele simplesmente segue em frente e já sabemos nosso destino nessa dimensão. Daí que a gente corre o risco de ser um tal velho, aquele da canção de Chico Buarque:

O velho sem conselhos

De joelhos, de partida

Carrega com certeza

Todo o peso dessa vida…

Eu hein! Na real, penso que a vida só pesa quando olhamos para trás, já que não temos ideia do que teremos pela frente. Assim, o passado é lastro (gosto dos lastros que me norteiam!), mas o tempo que nos virá é o que merece maior atenção, planejamento, cuidado…  Quanto tempo? Não sei. Pode ser uma semana, uma ou mais décadas, ou… Segundos (Nãooooo!)!   Quem quiser que meça, ou tente medir o tempo que lhe reste. Eu vou é viver e, de preferência, com um grande ziriguidum!

Ziriguidum, para alguns, pode ser um corte de cabelo, uns copos de cerveja a mais, uma noite alucinante de sexo, uma tentativa de crime perfeito, uma surra no vizinho chato… Euzinho, que nasci no mesmo dia em que D. Maria Bethânia, curto coisas mais intensas (para lembrar Sonia Braga em Aquarius), e posso até aceitar “uma pedra falsa, um sonho de valsa” desde que seja para viver uma grande paixão por alguém como Gal, cantando Folhetim (Chico, sempre ele!).

Todos as situações dos 60 em diante, citadas acima, levaram-me primeiro ao fundo do poço, intensamente! Fazendo vir à tona o Álvares de Azevedo que carrego desde a infância:

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã…

E, mineiro, comecei a matutar. Recordando Marcinha, só sairia dessa com um bom ziriguidum. Depois de pensar, repensar, planejar, discutir, desistir, insistir, recomeçar, tudo num círculo constante vivenciado ao lado do Flávio Monteiro até que a decisão viesse. O ziriguidum! E euzinho, estagnado e velhinho da Bela Vista, com meu boné italiano e cachecol enrolado no pescoço, passei a cantarolar Raul Seixas:

Ah! Eu é que não me sento

No trono de um apartamento

Com a boca escancarada, cheia de dentes

Esperando a morte chegar…

Os sinais foram dados neste mesmo blog, também nas redes sociais. “Estou em Santos, sou de Santos. Cidade que escolhi como destino”. Concretamente e NÃO definitivo, pois continuarei aberto a outros possíveis ziriguiduns. Aos 67, que chegarão em breve, continuarei contando histórias, certamente com o mar entre os protagonistas. Aliás, Dorival Caymmi não me tem saído da cabeça e dos lábios, murmurando canções pelas praias da cidade:

Andei, por andar andei

E todo caminho deu no mar

Andei, pelo mar andei

Nas águas de Dona Janaína…

Ziriguidum é bom, recomendo a todos, todas e todes. Não importa a idade! Outras faces deste momento que vivo virão por aqui em uma série de textos que, segundo prometi ao Edison Derito, deverá ter por título “Um mineiro em Santos”. Espero continuar com a atenção de quem me leu até aqui!

Até mais!

Em Santos, de Santos

Por vias estreitas, centenárias,

Seguem brasileiros e estrangeiros

Rumo ao futuro, cheios de fé.

No peito sonhos brejeiros

Na alma cheiro de café.

.

São de Santos, vivem em Santos,

Cidade que celebrizou Pelé.

.

Pelo imenso estuário da América do Sul

Desde os velhos vapores aos iates colossais

Chegam reis, príncipes, embaixadores,

Turistas enamorados de distantes capitais.

E marinheiros trafegam ao lado de estivadores,

.

Estão em Santos, vivem em Santos

Cidade que é porto, é cais!

.

Caminhei por todas as praias

Brinquei nos grandes cassinos

Vibrei com cada vitória

Nas igrejas toquei sinos

Hoje vivo sua história.

.

Estou em Santos, sou de Santos

Cidade que escolhi como destino.

.

Valdo Resende / 2015