O Bilac que não conheci na escola

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(Um poeta bem-humorado, divertido; outra face do Príncipe dos Poetas que relembro abaixo).

bilac

Velho conto

Rita, mocinha, faceira,

Passeia com o namorado

E, descendo uma ladeira,

Dá um tombo desastrado.

Que tombo! Quase desmaia…

E o noivo, que o tombo aterra,

Vê coisas por sob a saia

Mais do céu do que da terra.

Nem acode a levantá-la:

Contempla, mira, remira,

Fica tonto, perde a fala,

Bate palmas e suspira.

Levanta-se ela sozinha…

Vendo do moço a surpresa,

Murmura rindo a Ritinha:

“Viu a minha ligeireza?”

E ele, logo: “Sim, senhora!

Vi, mas sem que suspeitasse

Que aquilo que vi de fora

Também assim se chamasse…”

Olavo Bilac, Velho Conto, em Os Melhores Poemas

Aceito a minha idade

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(No poema de Carlos Nejar encontro as palavras que gostaria de dizer para esse momento em que a poesia é o exercício agradável para continuar).

autorretrato

Aceito a minha idade

e a que me completa

a face padecida e conquistada

as derrotas caladas

no meu sangue

os amores poentos e chovidos

e este amor que me fez reencontrar

o dia humano

.

Nada me ilude mais

nenhum signo é perfeito

as mistificações

o exato reino

das mãos e da vontade

me conhecem

e sei de cor a sua brevidade

o círculo fendido

.

E a idade convenceu-me

de estar mais junto ao chão

rente à pele, ao diário suor,

ao coração

Carlos Nejar in ‘Melhores Poemas’

Do poema para vozes

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(Excerto do Auto do Frade, de João Cabral de Melo Neto, que um dia dirigi e sonho voltar a montar).

paisagem ibirapuera.jpeg

Acordo fora de mim
como há tempos não fazia
Acordo claro, de todo,
acordo com toda a vida,
com todos cinco sentidos
e sobretudo com a vista
que dentro desta prisão
para mim não existia.
Acordo fora de mim
como vida apodrecida.
Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.
Mesmo quando alguém acorda
para um fiapo de vida
como o que tanto aparato
que me cerca me anuncia:
esse bosque de espingardas
mudas, mas logo assassinas, …

João Cabral de Melo Neto, in ‘Auto do Frade’, monólogo do frei.

Desejo de Regresso

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(Entre vidas e sonhos, a ilusão do renascer, o desejo de reviver. E a vida que penso e quero é a que expressa o verso alheio tomado emprestado nesse exercício para retornar).

eu aviao

Deixai-me nascer de novo,

nunca mais em terra estranha,

mas no meio do meu povo,

com meu céu, minha montanha,

meu mar e minha família.

E que na minha memória

fique esta vida bem viva,

para contar minha história…

Porque há doçura e beleza

na amargura atravessada,

e eu quero a memoria acesa

depois da angústia apagada.

Cecilia Meireles in ‘Melhores Poemas’

Poema

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(Manhãs nubladas sob infinito céu azul. Irreversível,
inesquecível. Entre cimento e asfalto, mantenho a poesia
alheia nesse exercício para retornar).

ceu azul

Oh! aquele menininho que dizia
“Fessora, eu posso ir lá fora?”
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul…
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo…
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

Mario Quintana in ‘Antologia Poética”.

Lusitânia no Bairro Latino

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(Terra encantada… Sempre longe, nunca saí de lá.
Agora,novamente, navego na poesia alheia nesse
exercício para retornar).

igreja de santa rita

…Ó minha
Terra encantada, cheia de sol,
Ó campanário, ó Luas-cheias,
Lavadeira que lavas o lençol,
Ermidas, sinos das aldeias,
Ó ceifeira que segas cantando,
Ó moleiro das estradas,
Carros de bois, chiando…
Flores dos campos, beiços de fadas,
Poentes de julho,poentes minerais,
Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

Que é feito de vocês? Onde estais, onde estais?

Antônio Nobre in ‘Poesia Simbolista / Literatura Portuguesa’

Cantiga

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(Comigo me desavim… e fiquei longe, aqui mesmo.
Agora,lentamente, utilizo a poesia alheia nesse
exercício para retornar)

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Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assim crescesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo
tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda, in ‘Poesia Clássica / literatura portuguesa’

E Dona Fernanda disse!

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fernanda montenegro divulgação

Fernanda Montenegro (Divulgação)

O que leva uma atriz como Fernanda Montenegro a ter que afirmar a própria honestidade, em momento emocionado e tenso, e também a honestidade da classe que, sem dúvidas, representa? Em tempos conturbados, quando a maledicência sobrepuja o conhecimento e fala-se muito sem o necessário conhecimento de causa, fica a dúvida quanto ao que vem por aí. Onde iremos parar? O que nos espera? Essa pergunta está presente no que leio, naquilo que vejo na tv, na internet, nas redes sociais.

Desde o triste episódio criado pela revista Veja, deturpando informações sobre a Lei Rouanet para denegrir Maria Bethânia que percebi crescer em muitos, manifestando-se com frequência, o desconhecimento do mecanismo da Rouanet em discursos onde nós, artistas, seríamos corruptos por nos beneficiarmos de algo estabelecido e regularizado.

Hoje Dona Fernanda Montenegro não tinha discurso decorado. As palavras não fluíram como é costume em suas manifestações públicas. Penso que seja pela indignação de uma atriz que ao longo de décadas de carreira sempre esteve longe da fofoca vulgar, de escândalos idiotas que alimentam revistas populares. Com 75 anos de uma carreira sobre a qual os adjetivos se tornam pequenos, Dona Fernanda precisa vir à televisão para dizer que é honesta. Que o terreiro da corrupção está em outro espaço, em outro grupo; é parte de outra gente.

Tenho ojeriza a costumeira postura de Fausto Silva, interrompendo constantemente seus convidados. Hoje, felizmente, ele ficou calado, cedendo o espaço/tempo de seu programa e, a partir de um dado momento, segurando o microfone para que Dona Fernanda Montenegro dirigisse seu apelo a todos os brasileiros. Chamando para si a representatividade de todos os artistas homenageados, Dona Fernanda disse: “- Não somos corruptos!”.

Aqui, no meu cantinho, fiquei feliz com a manifestação emocionada. Fernanda Montenegro valeu-se do próprio legado, somando a este, a postura de Marieta Severo, Adriana Esteves e tantos outros. “– Não somos corruptos!”. Gostei também do fato de ela não ter explicado a lei, o mecanismo de aprovação, os caminhos de um projeto artístico na utilização da lei. Quem fala contra deveria saber.

Outro dia meu colega de trabalho, Tiago Barizon, escreveu um ótimo texto sobre alguns aspectos da Lei Rouanet (clique aqui para conhecer). Há outros artigos e reportagens por aí. As pessoas deveriam conhecer antes de ter sua energia e força política desviada para atingir quem trabalha sob a legislação vigente. Aqueles que falam contra a lei sabem quem é esse tal Rouanet? Foi ministro de qual governo? De qual pasta? Aos incautos um pedido: Me poupem o desprezo e os palavrões: a lei não é coisa do PT!

Dona Fernanda Montenegro recebeu um prêmio especial. Deveria ser apenas comemoração. Foi necessário momento de, como a grande mãe que é, chamar a atenção de todos, dar puxão de orelha, apelar para o raro bom senso e, acima de tudo, da atriz impoluta, da mulher de caráter, da profissional impecável exigir respeito: “- Não somos corruptos!”. Tomara Dona Fernanda tenha conseguido sensibilizar alguns, dos tantos detratores desinformados que há por aí. Tomara eles atentem para onde está a corrupção, para quem e onde está sendo desviado o dinheiro público.

Até mais!

A Aurora da Minha Vida

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Foi há tanto tempo! Aurora era uma matriarca grave, ciente de sua condição de condutora familiar. Esbanjava força, ternura e, sendo mulher, tinha lá suas artimanhas cotidianas.

Na aurora da minha vida, quando minha mãe, Laura, visitava constantemente a tia e madrinha, era no colo de Aurora que ouvi as primeiras radionovelas. Dessas não me recordo. Sei que o colo era bom e, para permanecer sob tal aconchego eu permanecia silencioso até adormecer, sendo levado de volta pra casa nos braços de minha mãe.

Um dia veio a sentença. Aurora, com seriedade e forte sotaque português anunciou: “- Cido, se não deixares esta chupeta não sentarás mais no meu colo!”. Apenas ela e mamãe chamaram-me assim: – Cido!

Na manhã seguinte, antes mesmo de tomar o café, ou comer qualquer coisa, o Cido saiu da cama direto para o quintal. Abriu uma pequena cova e enterrou a chupeta sob olhares preocupados e uma segunda sentença da mãe: “- Se você chorar por conta da chupeta, vai apanhar!” Não apanhei.

Ainda era pequeno, ainda não estava na escola quando fizemos uma viagem; Mamãe, Tia Aurora e eu. O trem da Mogiana levava doze horas de Uberaba a Campinas. O dinheiro não sobrava e era comum levar lanche para substituir refeições. Não me recordo da contribuição de minha mãe para o lanche coletivo. Entre vários tipos de sanduiches e bolos, a Tia Aurora levou pão com ovo frito, que eu abominava sem nunca ter comido. A Tia, firme e terna, colocou-me a seu lado dizendo à minha mãe: “- Está gostoso! Comigo ele vai comer”. Comi e esta é minha primeira lembrança quanto ao paladar. Estava muito gostoso.

Enquanto Tia Aurora residiu em Uberaba fiz visitas constantes. Ia todas as tardes e ficava lá, no meu canto, enquanto ela cuidava de seus afazeres. Depois mudou-se para Campinas, no interior de São Paulo, e aos vinte e poucos anos fui hóspede dela.

Tia Aurora gostava de contar histórias, de lembrar fatos. Eu gostava de ouvi-la. Ela cuidava de mim com desvelo e atenção incomuns. Trabalhando em uma companhia aérea eu cumpria um rodízio insano, raramente permanecendo mais que três dias no mesmo horário. Colava a tabela com os horários ao lado da cabeceira da cama e não sei quantas vezes despertei com a tia olhando atentamente, sem saber ler, quando deveria preparar minha refeição, invariavelmente acordando-me para não perder o café. Aos sábados, quando eu trabalhava durante a madrugada, ela não permitia barulhos em casa, para desespero dos primos que queriam ouvir música ou fazer faxina: “-O Cido está dormindo!”.

Ela voltou para Uberaba; eu me mudei para São Paulo. Foi morar com a filha caçula, Dulce, e quando esta anunciava minha chegada a Minas, Tia Aurora acordava cedo, arrumava-se e, toda bonita, ficava me esperando. Foram nossos últimos encontros neste plano. Desde então ela me visita em sonhos. E foi em um desses, há muito tempo, quando pensei em morrer que ela me apareceu, jovem como nunca a vi, com seu jeito grave e terno, sentenciando mais uma vez: “- Cido, ainda não é a sua hora.” E conduziu-me por um corredor imenso, onde se ouvia uma bela canção.

Hoje vivo tranquilo, carregando saudades da Aurora e da aurora da minha vida. Gosto de viver e procuro conviver serenamente com o ocaso; o fim que, espero, seja passagem. É esta fé que me garante momentos amenos para quando chegar minha hora pois, dizem, espíritos de luz e guias amigos vêm para nos conduzir durante a travessia. Entre esses, tenho certeza, estará Tia Aurora, sentenciando-me como sempre: “-Dê-me sua mão, Cido! Vamos para casa”.

Até mais.

 

 

Nota: A Aurora da minha vida é Aurora Domingues Feiteiro. A outra aurora é verso do poema “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu.

 

Joubert, Maringá e Ramiro

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Desconheço atualmente  o quanto Joubert de Carvalho é lembrado nas salas de aula uberabenses. Tive a sorte de ter Maria Ignez Prata como professora e foi ela que nos ensinou a cantar “Maringá”. Faço parte de uma geração que aprendeu também a respeitar e ter orgulho desse compositor que, nascido em Uberaba, imortalizou-se com uma obra plena de brasilidade.

Maringá lembra as secas terríveis que assolaram nosso país e que obrigaram milhões de brasileiros a abandonarem a própria terra, retirantes que deixaram família e amores em busca de melhores oportunidades. Com graça e leveza, Maringá sintetiza a história de muitos.

Extensa, a obra de Joubert de Carvalho aborda outros aspectos. Desde 1930 que não há carnaval sem “Pra Você Gostar de Mim”, a Taí de Joubert que tornou Carmen Miranda nacionalmente conhecida. O compositor teve parceria notável com o poeta Olegário Mariano em “Maringá!”. Também “Cai, cai, balão” e “Tutú Marambá” estão entre os poemas tornados música, estabelecendo a parceria que ainda fez outro marco na canção brasileira, o cateretê “De papo pro ar”, que aprendi a amar na voz de Inezita Barroso.

Não sei quando soube da existência da cidade, a Maringá do Paraná, que assim foi chamada por conta da música de Joubert de Carvalho. Está no dicionário Cravo Albin: “”Maringá”, era muito cantada  pelos caboclos que desbravavam a mata virgem para  construir uma nova cidade no  Paraná, e quando a Companhia de Melhoramentos do Norte reuniu-se para  definir o nome que seria dado à cidade, a Sra. Elisabeth Thomas, esposa do presidente Henry Thomas, sugeriu que a composição desse nome à cidade”.

Sempre pensei em conhecer Maringá. Entretanto, meu trabalho chegará primeiro. A peça “Um presente para Ramiro” fará temporada na cidade com doze apresentações (Ver abaixo os locais, datas e horários). Nossa produção está fazendo um trabalho primoroso e o trabalho já está sendo divulgado em jornais locais, emissoras de tv e, também, por personalidades da cidade via redes sociais.

UM PRESENTE PARA RAMIRO 2 - DNG

Conrado Sardinha (Ramiro) Roberto Arduim (Miguel) e Isadora Petrin (Valentina) em registro de João Caldas Filho.

Sendo uberabense, não tenho o talento de Joubert de Carvalho, mas garanto a qualidade de meus parceiros nas canções, nos figurinos, cenário e demais aspectos da montagem e produção da peça, assim como estou representado por uma trupe de atores formidáveis. É por isso que, acredito, algumas crianças maringaenses gostarão de Ramiro tanto quanto vários meninos mineiros se apaixonaram pela moça Maringá, tão bonita que virou cidade.

Até mais!

Foto Joao Caldas Fº_19850press.jpg

Ao centro, Neusa de Souza e Rogério Barsan completam o elenco da peça. Foto: João Caldas Filho.

UM PRESENTE PARA RAMIRO

(Peça em um ato de Valdo Resende)

– PROGRAMAÇÃO EM MARINGÁ – PR

18/11 – Parque do Ingá – 10h30 e 15h

19/11 – Teatro Reviver – 10h e 15h

20/11 – Casa da Cultura Alcidio Regini – 10h e 15h

21/11 – CEU das Artes – 13h30 e 15h

22/11 – FLIM (FESTA LITERÁRIA DE MARINGÁ) – 9h30 e 14h

23/11 – FLIM – 9h30 E 14h

 

A entrada é franca. “Um presente para Ramiro” é uma realização da Kavantan & Associados – Projetos e Eventos Culturais, com patrocínio da Visa e da Lei Federal de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura e do Governo Federal e apoio da Secretaria Municipal de Cultura.