Outubro e o que resta do que um dia fomos

acólito

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
(Fernando Pessoa in A criança que fui chora na estrada.)

O que é que ainda permanece desse menino? Foi a pergunta que ouvi enquanto mexia com minhas fotos de quando criança. Sobrou alguma coisa? E dei de pensar olhando algumas imagens, as personagens que nelas estão comigo, os momentos em que foram registradas. Todos nós, inevitável, passamos por grandes mudanças, mas o que se espera, ou o que me parece, o que gostaríamos é que tenha permanecido o que tivemos de melhor.

A princípio, penso, temos a sensação de que somos sempre os mesmos. Essa abstração que nos autodenomina, o Eu, não tem idade e por isso entramos em crise quando um olhar atento ao espelho nos revela uma ruga, a pele perdendo o viço, mais alguns fios de cabelos brancos, o corpo ficando em forma… de bola. E ficamos mais chocados quando é o outro que nos faz conscientes de que já não somos os mesmos: – Você mudou muito! Quanto tempo!

A rede social nos acostumou, nos últimos anos, a nos revermos crianças, expondo antigas fotos na web. Graças à isso descobrimos a suavidade que já existiu em alguns, o sorriso espontâneo de outros, a ingenuidade evidente que pouco se alterou, a pureza tão ilimitada quanto perdida e, sobretudo, vejo que em todas as fotos de velhas crianças desse mês de outubro transbordam sentimentos de esperança, sonhos de vir a ser e estar em um mundo digno.

Ah, eu gostaria de não ter algumas dúvidas que volta e meia me atormentam. Eu acreditava em Deus, sem questionar. Havia o pai no céu que minha mãe da terra me deu. E tinha também a mãe do céu, que a mesma mãe da terra me ensinou a amar e a confiar. O mundo de então, era mais preciso; havia pessoas más e pessoas boas. As más estavam longe, bem longe, e os entreveros familiares eram simples e corriqueiros distúrbios logo serenados. Sonhava mais acordado do que dormindo e para esses sonhos Pasárgada e Shangri-la perdiam feio. Tudo era possível, tudo aconteceria no seu devido tempo. Hoje… sobram incertezas.

O quinto de seis irmãos, cresci em um ambiente sempre cheio de gente, de vozes conversando, música no rádio, jogo na televisão. Na hora de dormir tinha medo por ser, talvez, a única hora em que ficava sozinho. Mamãe rezava seu terço diário a meu lado, dizendo-me rezar para eu dormir. Confiante, eu dormia e acordava no dia seguinte, tranquilo ante o barulho da casa. Não gosto de solidão e vou sentir sempre a falta de todos os que povoaram minha casa de infância.

A excitação antes de qualquer viagem permanece. Seja para o lugar novo, seja para mais uma entre as centenas de voltas à Uberaba. Quando a viagem não é física, continua sendo literária o que me leva a crer que não mudou o amor a Salvador d’Os Capitães da Areia, a Londres de Oliver Twist, o porto do Havre d’O diário de Dany. Outras viagens, cinematográficas, levam-me para mundos distantes, outros imaginários, em companhias que prezo e que fico feliz em rever, por exemplo como se dançasse na chuva com Gene Kelly, ou lutasse ao lado do Cid Campeador de Charlton Heston.

Penso que algumas lembranças dessa criança com o castiçal possam suscitar outras, de quem me dá a honra de ler este texto. Esse santinho da foto levava cascudos do Pe. Luigi Stella, por conversar durante a missa e aprendeu a gostar de música erudita, assim como de imagens barrocas e renascentistas com outro padre, Nicola Rudge. Por mais que eu possa caminhar e vivenciar outras religiões é essa, a primeira, que somo a todas as demais. Um terceiro padre, Líbero Zappone, ensinou-me a respeitar todas as manifestações, levando-me muito cedo a ver Deus em todos os tipos de crença.

Essa criança aí da foto ainda está por aqui. Guardada em diferentes escaninhos do cérebro, do coração. Reconheço-a quando brinco com meus amigos, na convivência com meus irmãos que às vezes dirigem-se a mim como o caçula que fui. Reencontro o menino quando cuido das plantas que, lá atrás, cresciam soltas no quintal. Convivo diariamente com o gosto por andar de trem, sentindo um prazer indescritível com o som de quando os vagões mudam de trilhos e voltarei sempre à Santos, pra rever e andar de bonde, como aquele menino feliz que transitava nos bondes de Campinas, lamentando a ausência desses em Uberaba.

O que é que ainda tem desse menino? Foi a pergunta… Quase tudo. Quase nada. As coisas foram se modificando, as pessoas tornaram-se outras mantendo algo que faz com que as veja como sempre vi, reconhecendo nelas os infinitos detalhes que nos ligam. Esse menino aí fui eu. Um dia. Hoje sigo em frente. Dou graças à Deus pelo esquecimento, por me permitir viver sem a tortura das más recordações, sem a dimensão de todas as perdas, como também por caminhar tranquilo sem o afogamento pelos momentos de êxtase, de felicidade. Agradeço por ser outro, ter experimentado, ter sobrevivido e sobretudo, por estar modificado o que, espero, tenha sido para me tornar um ser humano decente.

Até mais!

Obs.: A foto acima é do final de uma procissão na Igreja Nossa Senhora das Graças, no Boa Vista, em Uberaba, por volta de 1965.

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Aprendiz de narrador

Sempre sonhei escrever, tornar-me escritor. Guardo alguns textos que escrevi quando bem jovem. Resolvi compartilhar parte de um, abaixo, escrito em 02/07/1973 quando morava com meus avós, em Campinas, no interior de São Paulo. Os originais estão bem conservados e, assim mesmo, não resisti a pequenas alterações, um vício em tentar melhorar.

PARA COMPOSIÇÃO

O MORTO

Aqui em frente à casa dos meus avós, do outro lado da rua, existem duas linhas paralelas. Sobre elas passam diariamente vários trens; é a linha da Fepasa. São grandes composições de cargas ou passageiros. São mercadorias levadas para o interior, ou matéria-prima vindas para a industrialização. Às vezes, quando sentado sobre o gramado do pequeno jardim, ou da janela do meu quarto, observo as máquinas possantes, puxando enormes vagões. Fico imaginando o destino reservado a cada pessoa, a cada mercadoria.

Quando essa rotina do vai-e-vem é quebrada nunca é por coisa boa. Os trens não se atrasam por esperar pessoas; é sempre por ter havido algum desastre. Um descarrilhamento ou uma catástrofe maior ainda. Nunca havia pensado na possibilidade de acontecer algo aqui em frente, mas aconteceu.

Na última sexta-feira, de manhã, fui acordado por um estrondoso barulho provocado por uma enorme composição de carga, puxada por três locomotivas. Fiquei chateado com a perturbação feita pelo som estridente de freios e fui ver o que estava acontecendo. O maquinista e o foguista, assim chamado devido à antiga função de abastecer as antigas Marias-fumaça, haviam descido e olhavam tudo à procura de algo. Em poucos instantes surgiu um grupo de pessoas, tão curiosas quanto eu, desejosas de saber o que é que estava acontecendo.

“- Eu tenho certeza”, dizia o maquinista. “Havia um homem entre os trilhos. Foi atropelado”. Pelas laterais não havia sinais de nenhum corpo, mas logo foi dado o alarme: “- Está aqui! Sob as rodas do primeiro vagão”.

Senti náuseas ao constatar o estado em que um homem se encontrava, todo cortado e quebrado. Seus miolos estavam esparramados, suas pernas, cabeça, braços, todos cortados e encontrados ao longo das rodas do vagão. O tronco havia sido aberto, todo o aparelho digestivo à mostra. Os órgãos sexuais também estraçalhados, um espetáculo sinistro. As roupas rasgadas e tiradas do corpo, estavam presas nas ferragens e o infeliz permaneceu nu, exposto ao olhar de curiosos.  Foram longas três horas de um show triste.

Primeiro veio a polícia, depois a perícia; o corpo de bombeiros e em seguida, para encerrar o desfile das corporações municipais, a perua de uma empresa funerária. Os homens colocaram luvas para recolher o que restava de um corpo ainda jovem. Os restos mortais foram depositados em uma caixa ordinária, de madeira bem vagabunda, provisória, até que algum parente fosse notificado e tomasse as medidas necessárias.

Os funcionários e as autoridades retiraram-se tranquilamente. O trem saiu lentamente e sobrou especulações. Um acidente? Bem próximo havia uma trilha, conduzindo ao outro bairro, do outro lado. Foi suicídio? Uma senhora afirmava que sim…

rua ari barroso

(Na minha imaturidade prossegui, julgando o ato do infeliz, sem mesmo ter a certeza do que realmente causou o atropelamento. Conclui meu texto pensando em fé, caridade e dirigindo uma oração ao morto, o que repito hoje, 46 anos depois. Para registrar, a rua citada é a Ari Barroso, esquina com a Rua Antônio Bonavita, no bairro Taquaral. A imagem acima é do Google, de como a rua está hoje, sem as linhas da estrada de ferro).

Até mais!

Os amigos do meu pai

 

papai e joão
Bino, o meu pai, e João Eurípedes Sabino

Recentemente conheci João Eurípedes Sabino, presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. A ideia do encontro partiu de Marta Zednik, quando em visita ao Arquivo Público de Uberaba. Um dia intenso. Depois de muitos anos estive na plataforma da antiga estação da Mogiana, hoje sede do Arquivo e, em seguida, fiquei frente a frente com o autor de uma bela homenagem ao meu saudoso pai, que publiquei aqui (clique para conhecer ou reler o texto).

Final de tarde. A sede da Academia está em um casarão na Rua Dr. Lauro Borges, de onde se vê os fundos e toda a lateral da majestosa Paróquia de São Domingos. O sol desce lentamente e inúmeras maritacas se acomodam em árvore no fundo da Igreja; o barulho é imenso, como se as pequenas aves comentassem o dia, ao mesmo tempo procurando aproximação de algum afeto, dando um “chega pra lá” em desafetos… Logo estarão silenciosas, mas enquanto executam a costumeira sinfonia somos recebidos pelo amigo do meu pai.

João Eurípedes Sabino, como autêntico mineiro, nos recebe cerimoniosamente. Com calma e delicadeza nos leva até uma pequena sala de estar, oferece-nos um confeito e, antes de qualquer coisa, silenciosamente me observa para, em seguida, dizer a frase que é sonho de todo e qualquer filho: “- Como você se parece com seu pai! É como se eu estivesse conversando com o Bino”. De leitor agradecido torno-me amigo e, posso afirmar, minha irmã Walcenis, acompanhando-me na visita, sentiu o mesmo.

Walcenis, eu e João
Um registro do nosso encontro.

Papai fez muitos amigos. Felisbino Francisco Rodrigues de Resende fez poucos conhecidos, mas o Bino… Com o apelido era identificado praticamente em todos os cantos da cidade. Eu gostava muito de desembarcar na rodoviária e, ao tomar taxi, dizia o endereço complementando “sou filho do Bino”; aí, não precisava dizer exatamente onde era minha casa. O motorista, como João Eurípedes Sabino, tinha praticado tiro ao alvo que tornou papai conhecido.

É o próprio João que recorda locais onde papai trabalhou. Durante uma fase da vida ele colocou a barraca de tiro em quermesses e praças da cidade. Depois, construiu um parque de diversões – sim, meu pai construiu um parque inteiro, brinquedo a brinquedo, no quintal da minha casa – com o qual percorreu todos os bairros de Uberaba e de algumas cidades da região. Depois, já próximo da aposentadoria, vendeu o parque e voltou a trabalhar só com a barraca de tiro, permanecendo vários anos instalado no bairro da Abadia.

João Eurípedes escreveu: “Bino, autêntico amigo das crianças”. Provavelmente João não sabe que meu pai presenteava toda criança que aparecia em casa com um estilingue. Tinha sempre o material necessário e, quando a visita chegava, papai ia até a oficina para fazer o brinquedo, quando não o tinha pronto. Mas penso que meu pai soube fazer e manter amigos, vide as homenagens recebidas pela comunidade do bairro Boa Vista (Veja a Turma do Campinho) ou por toda a cidade (Veja a Rua do Bino). A prova maior da longevidade das amizades do Bino esteve ali, em momento de rara emoção, no encontro que tivemos com o João, amigo de tantas décadas.

O dia dos pais próximo e eu pensando em meu pai. Antes de terminar a visita, João Eurípedes levou-nos a conhecer todas as dependências da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Falou-nos do Padre Prata, que um dia chamei de Pratinha, conversamos sobre Décio Bragança, com quem aprendi a gostar de literatura, e lembramos momentos da vida de Mário Palmério, homenageado no busto defronte ao casarão. Trocamos lembranças, fizemos fotos e João me incumbiu de uma tarefa, referindo-se ao artigo publicado em 03 de Junho de 2005, no Jornal da Manhã, de Uberaba: – O que fazer com esses três amigos? Como dar continuidade a essa história?

Ah, meu caro João Eurípedes Sabino! Tarefa difícil, ao mesmo tempo adorável. Prometo buscar, cada vez mais, parecer-me com meu pai. Sobretudo quero fazer amigos, tantos quanto ele os fez. E quando eu tiver algum obstáculo nesse intento, se por acaso encontrar alguma dificuldade intransponível, voltarei à Uberaba e te pedirei socorro, pois em você vi muito do mineiro que meu pai foi e outro tanto dessa qualidade rara que é fazer amigos.

Feliz dia dos pais, meu pai!

Feliz dia dos pais, João Eurípedes Sabino!

Até mais.

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A mulher que eu amo

Trabalhar nos idos de 1981 na Rua Abdo SChain, paralela à Rua 25 de Março, deu-me nova visão de São Paulo. Eu dividia atividades entre um grupo de teatro em Santo André, no ABC Paulista, e durante o dia era auxiliar de auditoria em uma companhia têxtil. Gostava das lojas de decoração infantil, com vitrines que lembravam grandes cenários, seguia minha vida obedecendo aos sons do relógio do Mosteiro de São Bento e já então ficava meio aturdido com tanto cacareco oferecido para consumidores ávidos para vender para seus clientes.

Na calçada da Ladeira Porto Geral vi inúmeras pessoas escorregando e se estabacando na calçada. Além da descida, íngreme, os escorregões ocorriam na porta de uma lanchonete de pasteis duvidosos (um ano antes houve um surto de pasteis com recheio de comida para cachorro… uma outra história.). Todos os dias o piso da lanchonete era lavado e a água escorrida ladeira abaixo. Sabão e óleo, os vilões de transeuntes incautos.

Da Rua Constituição, uma ladeira similar à Porto Geral, guardo a imagem de alguns assaltantes descendo a passos brutalmente largos – tentem descer a ladeira fugindo de perseguidores e entenderão a expressão – enquanto lojistas gritavam um inevitável “- Pega ladrão!”. Da vizinha Rua Barão de Duprat vi relógios voadores, saindo de algum dos andares da galeria Pagé. Certamente um lojista preferiu jogar boa parte de seu estoque janela abaixo evitando o flagrante da fiscalização. O mais hilário foi ver o dono do carro sobre o qual caíram os relógios agir com a rapidez dos espertos: primeiro desceu do veículo com visível ódio; ao olhar para a mercadoria, pegou tudo o que pode, jogou dentro do carro e saiu em alta velocidade.

Uma colega de trabalho, Neusa, era leitora assídua da Revista Sétimo Céu, da extinta editora Bloch. A garota sabia que eu escrevia para teatro e, na cabeça dela, achava que escrever um conto para a tal revista seria a mesma coisa. Mostrou-me o anúncio da seção Conto Premiado que informava: “Escreva um conto usando, no máximo, cinco páginas com vinte e cinco linhas datilografadas. Se ele for premiado, você receberá Cr$ 2.000,00…”. Uma quantia legal quando me lembro das dificuldades de então.

revista setimo ceu

“A mulher que eu amo” surgiu em pensamento e o conto transcrito e reelaborado em horários de almoço. Com alguma noção de público-alvo e já com a mania de escrever na primeira pessoa, narro aventuras triviais com uma moça urbana, socióloga, em contraste com o eu do discurso, um rapaz vindo do interior de São Paulo.

Voltando de Uberaba logo após as festas de final de ano retomei meu trabalho, sem muito tempo para lembrar do concurso. Era ainda principiante na vida de cuidar de casa, ganhar salário como funcionário e, nas noites e finais de semana, batalhar no teatro, sonho que me trouxera para a capital. A moça que assinava a revista prolongou férias e quando voltou, recordo bem que ainda estávamos perplexos com a morte de Elis Regina. Minha colega deixou a revista sobre minha mesa, como quem não quer nada e só na hora do almoço soube que tinha meu primeiro conto publicado. Da praia, como era comum referir-se à Baixada Santista, dias depois recebi uma mensagem de Maria Elza Sigrist, a quem considero minha primeira leitora. Alguém que, sem que eu pedisse, dedicou alguns minutos de suas férias para ler o tal conto.

a mulher que eu amo

A sucursal da Bloch, em São Paulo, ficava em uma mansão, denominada Casa Manchete, construída pelo industrial Horácio Lafer, foi moradia da família proprietária da Bloch. Segundo consta por aí, atualmente a tal casa está avaliada em R$ 96 milhões.  Isto importa, pois na época o local era tão valorizado quanto hoje. Cheguei alegrinho ao local, ressabiado com toda a riqueza da Avenida Europa, mas cheio de planos para o dinheirinho que… ironia, veio com um considerável desconto destinado ao imposto de renda!

Irritado com o desfalque, não tenho a menor lembrança do destino do tal dinheiro. Guardei a revista que depois desapareceu em uma enchente. Dona Laura, minha querida mãe, guardou um exemplar e é este, aqui registrado, documento da primeira publicação de uma carreira que, sonho ainda, venha a ser exclusivamente literária.

Até mais!

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Quem me quer sem memória

(A força de um poema de Lêdo Ido: arma nesses tempos de luta pela educação.)

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Quem tapa minha boca
Não perde por esperar:
o silêncio de agora
amanhã é voz rouca
de tanto gritar.

Quem tapa meus olhos
nada esconde de mim.
Sei seu nome e seu rosto,
o lugar em que estou,
sua noite sem fim.

Quem tapa meus ouvidos
me faz escutar mais.
Igualei-me às muralhas
e o silêncio mais fundo
guarda o rumor do mundo.

Quem me quer sem memória
erra redondamente.
Lembro-me de tudo
e, cego, surdo e mudo,
até do esquecimento.

E quem me quer defunto
confunde verão e inverno.
Morto, sou insepulto.
Homem, sou sempre vivo.
Povo, sou eterno.

Lêdo Ido, ‘Precauções Inúteis’ in “Melhores Poemas”.

 

O Bilac que não conheci na escola

(Um poeta bem-humorado, divertido; outra face do Príncipe dos Poetas que relembro abaixo).

bilac

Velho conto

Rita, mocinha, faceira,

Passeia com o namorado

E, descendo uma ladeira,

Dá um tombo desastrado.

Que tombo! Quase desmaia…

E o noivo, que o tombo aterra,

Vê coisas por sob a saia

Mais do céu do que da terra.

Nem acode a levantá-la:

Contempla, mira, remira,

Fica tonto, perde a fala,

Bate palmas e suspira.

Levanta-se ela sozinha…

Vendo do moço a surpresa,

Murmura rindo a Ritinha:

“Viu a minha ligeireza?”

E ele, logo: “Sim, senhora!

Vi, mas sem que suspeitasse

Que aquilo que vi de fora

Também assim se chamasse…”

Olavo Bilac, Velho Conto, em Os Melhores Poemas

Aceito a minha idade

(No poema de Carlos Nejar encontro as palavras que gostaria de dizer para esse momento em que a poesia é o exercício agradável para continuar).

autorretrato

Aceito a minha idade

e a que me completa

a face padecida e conquistada

as derrotas caladas

no meu sangue

os amores poentos e chovidos

e este amor que me fez reencontrar

o dia humano

.

Nada me ilude mais

nenhum signo é perfeito

as mistificações

o exato reino

das mãos e da vontade

me conhecem

e sei de cor a sua brevidade

o círculo fendido

.

E a idade convenceu-me

de estar mais junto ao chão

rente à pele, ao diário suor,

ao coração

Carlos Nejar in ‘Melhores Poemas’