Medos

virus

O vírus assombra o planeta,
Assusta, deixando-nos no devido lugar.
Somos frágeis, indefesos,
Meros mortais.

O vírus avança lá,
Recua acolá,
aparece por aqui
O bicho-papão da infância
Volta em forma de realidade.

O medo antecede o vírus
O terror televisionado
Anônimos infectados
Anônimos mortos.

E as bolsas caem!
Feito ratos astutos
Feito baratas treinadas
Investidores preparam o bote
Recuam para melhor lucrar com a morte.

O vírus, tragédia anunciada
Pede serenidade perante o cadafalso
Resignação.
Medo mesmo, vem dos obtusos
Dos contaminados disfarçados
Dos propagadores irresponsáveis.

Medo maior dos donos das coisas
Das bolsas retraídas
Dos investimentos suspensos.
Para que água tratada?
Para que esgoto na periferia?
A hora é de investir em laboratórios
Distribuidores, vendedores de vacinas.

Medo dessa gente
Que lucra com o câncer
Com os tratamentos sofisticados
O dinheiro retraído para o próximo bote

O vírus, silencioso
Não discrimina ricos
O que é vantagem para o pobre.
A vacina, se vier,
Quando vier
Terá que ser para todos.

 

Valdo Resende, Março/2020

Foto: Flávio Monteiro

Ave, Uberaba, em seus duzentos anos!

catedral (2)

A cidade se renova, se expande. Ostenta orgulhosa o que é visível de seu passado e enfrenta o presente com galhardia, com a tranquilidade dos sábios que guardam verdades simples e imutáveis: vamos rumo ao futuro. A despeito de qualquer situação, segue-se em frente. Ave, Uberaba, em seus duzentos anos!.

Os limites da cidade são outros, longe daqueles que percorri quando criança e adolescente. Entendo melhor a expressão “no meu tempo”. Uberaba é outra cidade, diferente e igual àquela em que nasci. Transformada e modificada espacialmente, guarda prédios ainda com a mesma função e permanece altiva sobre suas sete colinas. Sinto falta de muita gente e saúdo os novos habitantes, esses que farão a cidade permanecer e, ao mesmo tempo, continuar.

Ave, Uberaba! Resolva seus problemas, corrija seus passos! Orgulhe-se de sua trajetória, de suas contribuições para com o Estado e o País. Comemore seus duzentos anos! Viva milhares de outros!

Feliz aniversário!

(Trechos de “O Tempo e o Espaço”, um dos textos integrantes do livro “O Vai e Vem da Memória”, coletânea de contos e crônicas dedicados a Uberaba que será lançado por Valdo Resende em abril de 2020)

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Obs: Embora haja um aparente imbróglio quanto a ser março ou maio o aniversário de Uberaba, pretendo deixar essa questão para os historiadores. Meu desejo é comemorar o ano inteiro. A cidade merece.

O convalescente

rom online

Prédio branco entre jardim verde. Degraus brancos de mármore. A enorme porta de ferro também branca, como os corredores, os quartos, as cortinas, e todas as outras dependências. Silêncio no ambiente calmo. Prédio branco entre jardim verde. Paz e esperança ante a dualidade. O início e o fim. A vida e a morte. O hospital. Dualismo na mente e no espaço. Tão grande! Tanto quanto a duplicidade de sua existência paradoxal. Ocaso no interior dos silenciosos. E o convalescente, em seu silêncio que não é ocaso, vislumbra a certeza do amanhã. 

Está ali há tanto tempo! Esquece que existe a esperança em torno da paz, de tanto branco à sua volta. Mas, se lembra dos primórdios; as manhãs de matiz colossal; o pôr de sol ametista… Tudo distante, irreal. Os primórdios ficaram no jogo de bola no campo, junto aos demais meninos. No galho da mangueira, que tanto gostava, que talvez já esteja seca. Ficaram os primórdios no gládio do florão da sala… Nem se lembra mais de quem, com quem! Sim, ficaram longe; estão distantes. Os primórdios…

Lembra-se do idealismo da adolescência; das escolhas e renúncias; as incertezas diárias; a onisciência; as contemporizações frustrantes; a escolha única e decisiva; o assumir do caminho, a maturidade. A Universidade foi-lhe a melhor época, sem dúvida! As discussões filosóficas, a literatura fascinante. Lord Byron, Victor Hugo; os romancistas. O realismo na vida de Bentinho e Capitu. Ah! Machado de Assis, de Dom Casmurro e Esaú e Jacó.

O diploma universitário, o magistério. Vinte anos ensinando que a arte de compor trabalhos em prosa e verso, chama-se literatura; que Shakespeare é grande dramaturgo da Inglaterra, e que Dante Alighieri é o maior, entre os maiores italianos. Os jovens preferem os mais atuais. Ele não se lembra bem há quanto tempo se encontra no hospital. Os jovens, seus alunos tinham uma tendência para as reformas literárias de autores como Mário de Andrade, Hemingway… não gostava, como não simpatiza ainda com a literatura moderna. Infelizmente, a literatura de Arcádia e de Parnaso não são mais criadas; frequentemente esquecidas, guardadas nas estantes. 

Não se recorda da última visita que lhe fez a esposa. Faz tempo que ela não entra por aquela porta, agora somente aberta pelas enfermeiras; mas, ele se lembra de como ela entrou em sua vida. Gide; ele se deliciava ante a perspectiva à renúncia dos noventa e nove. “Professor, quando se opta por amor, não existe nostalgia; escolhe-se e pronto”. O ginásio estadual, muitas alunas… ela tinha no olhar o azul celeste. Era diferente porque conhecia o amor. Foi com a aluna que ele aprendeu a lição do dom de si. Amar é dar-se por inteiro.

E o amor saiu das páginas líricas de Dirceu, para fazer morada no coração dele. Como se modificou a partir da consciência de amar! Ela pertencia à Ação Católica. Ele já se esquecera das práticas religiosas domingueiras, o que tanto preocupava sua mãe. Então, passou a ver o cristianismo sob outro ângulo. E, entre o Realismo e o Romantismo, abriu-se-lhe um novo campo de estudo que não pertence à nenhuma escola literária. A Teologia deu-lhe maior gosto pela vida. Tomás de Aquino e Santo Agostinho mostraram-lhe Deus nos passos vivos do cotidiano.

A alegria sem igual, com a chegada do primeiro filho, que se repetiu por mais duas vezes. Era doce a espera ante a certeza da chegada. A véspera era linda devido ao oval na forma esguia do corpo amado. Forma de pôr de sol. Espera de nascente. Ele viveu novamente através da vida dos filhos. Viu seus primórdios nas algazarras infantis. A Universidade que voltou pelos assuntos dos filhos. A estrada andou na roda da vida, e o tempo caminhou com a estrada. A velhice chegada, e novamente os primórdios na presença dos netos.

Sua filha… sim, sua filha! Amou tanto a vida, a música de Beethoven! Não deveria ter tido morte tão estúpida. O susto, tal qual os que levara na infância com a ilusão dos fantasmas, assombrações. O susto. O enfarte.

Às vezes, falta-lhe a memória, mas há momentos em que revê tudo e todos em sua mente. Em outros, o vazio é tão imenso que ele sente vislumbrar o eterno. Sua esposa que não vem; a infância que ficou; a ausência da filha e a lucidez, que começa a se fazer ausente também.

Prédio branco entre jardim verde. Degraus brancos… Entra um homem de negro. Um negro diferente, no qual está contido silêncio, branco de paz. O homem chega bem próximo do leito do convalescente que se desfaz, olhando intensamente o velho professor, sussurrando: “Por esta unção e Sua mercê suavíssima, que o Senhor te perdoe todo e qualquer pecado que tenhas cometido pela vista, pelo ouvido, pela boca… “

Os primórdios ficaram na lembrança de quem com ele viveu.

 

Valdo Resende / Santo André-SP , Verão de 1982.

 

Notas do autor: 

 

Quando cheguei por aqui, no finalzinho da década de 1970 tinha dois objetivos: fazer teatro e literatura. Em 1982 tive a publicação de “A mulher que eu amo”, um conto, em revista de circulação nacional. No mesmo ano fui premiado com “O convalescente”, no VIII Concurso de Contos do DEPEC – Departamento de Educação e Cultura, da Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul, São Paulo. Neste 2020 tenho como projeto a dedicação “quase” irrestrita à literatura. O “quase” fica por conta do meu amor ao teatro e ao desejo de divulgar neste blog, os trabalhos de amigos e de profissionais a quem admiro. 

 

A reprodução de partes ou de todo o texto deve obrigatoriamente mencionar a fonte e o autor.

 

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Vila dos Confins e Chapadão do Bugre para as novas gerações

MARIO PALMERIO

É hoje, em Uberaba, Minas Gerais. O convite que recebi de João Eurípedes Sabino é também para todo o público:

“O relançamento dos livros: “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” de Mário Palmério promete balançar as estruturas da terra de Major Eustáquio! 07/11-quinta-feira- 19:00h – no Centro Cultural Cecília Palmério- Av. Guilherme Ferreira,217-Uberaba/MG.

Aberto ao Público! Você está convidado(a) e estenda o convite a outras pessoas! A Academia de Letras do Triângulo Mineiro e a UNIUBE lhes receberão de braços abertos! Livros serão vendidos no local! O momento é esse! Vamos fazer bonito!”

Se eu estivesse aí não perderia, João! Mas, com certeza amigos e parentes estarão nesse evento e, oportunamente, terei exemplares dessas novas edições. Desejo todo o Sucesso!

Até mais!

A mulher que eu amo

Trabalhar nos idos de 1981 na Rua Abdo SChain, paralela à Rua 25 de Março, deu-me nova visão de São Paulo. Eu dividia atividades entre um grupo de teatro em Santo André, no ABC Paulista, e durante o dia era auxiliar de auditoria em uma companhia têxtil. Gostava das lojas de decoração infantil, com vitrines que lembravam grandes cenários, seguia minha vida obedecendo aos sons do relógio do Mosteiro de São Bento e já então ficava meio aturdido com tanto cacareco oferecido para consumidores ávidos para vender para seus clientes.

Na calçada da Ladeira Porto Geral vi inúmeras pessoas escorregando e se estabacando na calçada. Além da descida, íngreme, os escorregões ocorriam na porta de uma lanchonete de pasteis duvidosos (um ano antes houve um surto de pasteis com recheio de comida para cachorro… uma outra história.). Todos os dias o piso da lanchonete era lavado e a água escorrida ladeira abaixo. Sabão e óleo, os vilões de transeuntes incautos.

Da Rua Constituição, uma ladeira similar à Porto Geral, guardo a imagem de alguns assaltantes descendo a passos brutalmente largos – tentem descer a ladeira fugindo de perseguidores e entenderão a expressão – enquanto lojistas gritavam um inevitável “- Pega ladrão!”. Da vizinha Rua Barão de Duprat vi relógios voadores, saindo de algum dos andares da galeria Pagé. Certamente um lojista preferiu jogar boa parte de seu estoque janela abaixo evitando o flagrante da fiscalização. O mais hilário foi ver o dono do carro sobre o qual caíram os relógios agir com a rapidez dos espertos: primeiro desceu do veículo com visível ódio; ao olhar para a mercadoria, pegou tudo o que pode, jogou dentro do carro e saiu em alta velocidade.

Uma colega de trabalho, Neusa, era leitora assídua da Revista Sétimo Céu, da extinta editora Bloch. A garota sabia que eu escrevia para teatro e, na cabeça dela, achava que escrever um conto para a tal revista seria a mesma coisa. Mostrou-me o anúncio da seção Conto Premiado que informava: “Escreva um conto usando, no máximo, cinco páginas com vinte e cinco linhas datilografadas. Se ele for premiado, você receberá Cr$ 2.000,00…”. Uma quantia legal quando me lembro das dificuldades de então.

revista setimo ceu

“A mulher que eu amo” surgiu em pensamento e o conto transcrito e reelaborado em horários de almoço. Com alguma noção de público-alvo e já com a mania de escrever na primeira pessoa, narro aventuras triviais com uma moça urbana, socióloga, em contraste com o eu do discurso, um rapaz vindo do interior de São Paulo.

Voltando de Uberaba logo após as festas de final de ano retomei meu trabalho, sem muito tempo para lembrar do concurso. Era ainda principiante na vida de cuidar de casa, ganhar salário como funcionário e, nas noites e finais de semana, batalhar no teatro, sonho que me trouxera para a capital. A moça que assinava a revista prolongou férias e quando voltou, recordo bem que ainda estávamos perplexos com a morte de Elis Regina. Minha colega deixou a revista sobre minha mesa, como quem não quer nada e só na hora do almoço soube que tinha meu primeiro conto publicado. Da praia, como era comum referir-se à Baixada Santista, dias depois recebi uma mensagem de Maria Elza Sigrist, a quem considero minha primeira leitora. Alguém que, sem que eu pedisse, dedicou alguns minutos de suas férias para ler o tal conto.

a mulher que eu amo

A sucursal da Bloch, em São Paulo, ficava em uma mansão, denominada Casa Manchete, construída pelo industrial Horácio Lafer, foi moradia da família proprietária da Bloch. Segundo consta por aí, atualmente a tal casa está avaliada em R$ 96 milhões.  Isto importa, pois na época o local era tão valorizado quanto hoje. Cheguei alegrinho ao local, ressabiado com toda a riqueza da Avenida Europa, mas cheio de planos para o dinheirinho que… ironia, veio com um considerável desconto destinado ao imposto de renda!

Irritado com o desfalque, não tenho a menor lembrança do destino do tal dinheiro. Guardei a revista que depois desapareceu em uma enchente. Dona Laura, minha querida mãe, guardou um exemplar e é este, aqui registrado, documento da primeira publicação de uma carreira que, sonho ainda, venha a ser exclusivamente literária.

Até mais!

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Quem me quer sem memória

(A força de um poema de Lêdo Ido: arma nesses tempos de luta pela educação.)

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Quem tapa minha boca
Não perde por esperar:
o silêncio de agora
amanhã é voz rouca
de tanto gritar.

Quem tapa meus olhos
nada esconde de mim.
Sei seu nome e seu rosto,
o lugar em que estou,
sua noite sem fim.

Quem tapa meus ouvidos
me faz escutar mais.
Igualei-me às muralhas
e o silêncio mais fundo
guarda o rumor do mundo.

Quem me quer sem memória
erra redondamente.
Lembro-me de tudo
e, cego, surdo e mudo,
até do esquecimento.

E quem me quer defunto
confunde verão e inverno.
Morto, sou insepulto.
Homem, sou sempre vivo.
Povo, sou eterno.

Lêdo Ido, ‘Precauções Inúteis’ in “Melhores Poemas”.

 

O Bilac que não conheci na escola

(Um poeta bem-humorado, divertido; outra face do Príncipe dos Poetas que relembro abaixo).

bilac

Velho conto

Rita, mocinha, faceira,

Passeia com o namorado

E, descendo uma ladeira,

Dá um tombo desastrado.

Que tombo! Quase desmaia…

E o noivo, que o tombo aterra,

Vê coisas por sob a saia

Mais do céu do que da terra.

Nem acode a levantá-la:

Contempla, mira, remira,

Fica tonto, perde a fala,

Bate palmas e suspira.

Levanta-se ela sozinha…

Vendo do moço a surpresa,

Murmura rindo a Ritinha:

“Viu a minha ligeireza?”

E ele, logo: “Sim, senhora!

Vi, mas sem que suspeitasse

Que aquilo que vi de fora

Também assim se chamasse…”

Olavo Bilac, Velho Conto, em Os Melhores Poemas