No te entregues corazón libre

bolivia

Há que se ter um lado. Vejo a trajetória de Evo Morales, o dirigente boliviano que acaba de sofrer um golpe. À história ouso ressaltar o tom da pele, a espessura do cabelo desse URU-AIMARÁ e de vários outros componentes de seu governo que colocou cultivadores de coca no poder; e penso na gente da América do Sul. Nos raros verdadeiros sul-americanos que chegaram a dirigir sua própria terra. A voz de Mercedes Sosa invade a memória e o coração. Versos que norteiam meu destino. (clique nos primeiros versos para ouvir as canções).

Salgo a caminar

Por la cintura cósmica del sur

Piso en la región

Más vegetal del viento y de la luz

Siento al caminar

Toda la piel de América en mi piel

Y anda en mi sangre un río

Que libera en mi voz

Su caudal.

A caminhada, linda, é cheia de dor e sofrimento. Sobretudo é trilha de luta, guerra, resistência. Fomos e somos celeiro da Europa. Produzimos prata, ouro, borracha, madeira, todos os minérios de Minas para a ganância de europeus e, agora, de seus comparsas norte americanos. E por isso morremos. E por muito mais precisamos lutar.

Sólo le pido a Dios

que la guerra no me sea indiferente

es un monstruo grande y pisa fuerte

toda la pobre inocencia de la gente

Por aqui estávamos comemorando as reviravoltas jurídicas revalidando a Constituição. Vozes de vingança esqueceram o Direito enquanto outras enalteceram a justiça. A saída de Lula da prisão é só um capítulo de uma luta que vai longe. Pouco após a fala do ex-presidente enaltecer a Bolívia veio a notícia infelizmente já esperada. 

Cambia, todo cambia

Cambia, todo cambia

Pero no cambia mi amor

por mas lejos que me encuentre

ni el recuerdo ni el dolor

de mi pueblo y de mi gente

Há que se ter um lado. O meu é dos que precisam de escola, hospital, justos salários, aposentadoria com dignidade. O meu lado é dos que dividem, não o daqueles que acumulam em cima da exploração alheia. O meu lado é o mesmo daqueles de onde vim: dos que lutam por uma casa, sonham com dentes saudáveis e, além daquilo que é direito humano, o meu lado é daqueles que ousam ser quem são, que exigem e exercem o dom sagrado de falar, amar e lutar.

Dale tu mano al indio

Dale que te hara bien

Y encontraras el camino

Como ayer yo lo encontre

Es el tiempo del cobre,

Mestizo, grito y fusil

Si no se abren las puertas

El pueblo las ha de abrir

Dias difíceis os que vivemos. Não são diferentes de outros, quando nos calaram à força, nos torturaram, nos mataram. E resistimos. E voltamos a lutar, a caminhar. Seguir em frente. 

Quanto a mim, deixo-me guiar pela voz de Mercedes Sosa, pelos desejos da minha gente. Sou romântico, sou poeta e, sempre, um batalhador. Não me calarão!

No te entregues corazón libre, no te entregues.

No te entregues corazón libre, no te entregues.

Y recuerda corazón, la infancia sin fronteras,

el tacto de la vida corazón, carne de primaveras.

Se equivocan corazón, con frágiles cadenas,

más viento que raíces corazón, destrózalas y vuela.

 

Até mais!

 

Notas:

As canções e seus respectivos autores:

1 – Canción com todos – Armando Tejada Gómez (letra) y César Isella (música).

2 – Solo le pido a Dios – Leon Gieco

3 – Todo cambia – Julio Numhauser

4 – Canción para mi América – Daniel Viglietti

5 – Corazón libre – Rafael Amor

 

Vila dos Confins e Chapadão do Bugre para as novas gerações

MARIO PALMERIO

É hoje, em Uberaba, Minas Gerais. O convite que recebi de João Eurípedes Sabino é também para todo o público:

“O relançamento dos livros: “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” de Mário Palmério promete balançar as estruturas da terra de Major Eustáquio! 07/11-quinta-feira- 19:00h – no Centro Cultural Cecília Palmério- Av. Guilherme Ferreira,217-Uberaba/MG.

Aberto ao Público! Você está convidado(a) e estenda o convite a outras pessoas! A Academia de Letras do Triângulo Mineiro e a UNIUBE lhes receberão de braços abertos! Livros serão vendidos no local! O momento é esse! Vamos fazer bonito!”

Se eu estivesse aí não perderia, João! Mas, com certeza amigos e parentes estarão nesse evento e, oportunamente, terei exemplares dessas novas edições. Desejo todo o Sucesso!

Até mais!

Finados: Todos seremos!

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…um abraço e mãos que trocam carícia.

E a experiência me garante que este título deve gerar incômodo. Vivemos como se a morte fosse para os outros, que ela não nos chegará e vivenciamos cotidianamente o alheamento ao assunto. A vida é bela, estamos aí e nada pode interromper a energia que corre plenamente em nossas veias levando nosso coração a pulsar. O oxigênio, mesmo ruim de nossas cidades, enche nossos pulmões, colaborando no bombeamento do sangue, no funcionamento do cérebro. Todavia…

A morte vem, implacável, e deixando momentaneamente as questões religiosas todos somos colocados diante do fim. O ser amado torna-se frio, rígido. Sentimos diferentes tipos de dor, terríveis sensações e, penso, todas elas nos levam ao total sentido de impotência. Todo o poder, todo o dinheiro no mundo não bastam. Nada acrescenta um único minuto de vida quando o indivíduo falece. Somos, nesse instante, colocados na nossa verdadeira condição humana e o arrogante “sabe com quem você está falando” tem a definitiva resposta: – Um mortal.

Quando o óbito é do outro percebemos graus na nossa vida. O parente envelhecido, o primo distante, o conhecido do bairro, a criança… Assim como há sensações distintas perante assassinatos, acidentes, mortes coletivas. E, exercitando a honestidade, há aquele defunto que leva da gente um “já foi tarde” ou, no mínimo, um “antes ele do que eu”. Se esses diferentes tipos de morte nos levam a reconhecer um alarme interno, lembrando-nos a finitude, é a morte de seres amados que trazem a tragédia, o sofrimento atroz, a depressão e, sobretudo, a impotência. Nada podemos por aqueles que amamos.

Podemos rezar. Podemos cultuar nossos antepassados e contemporâneos já falecidos. Aí entra outro grande dilema humano: o conflito entre a capacidade de crer e a de duvidar. Alternamos momentos de conforto e angústia, de calma e desespero. Normalmente a situação é serenada pelo tempo que, somado a atividades e compromissos, ao instinto de preservação e a deveres para com o outro nos leva a continuar, a seguir em frente. E provavelmente para evitar que todas as sensações voltem, todo o sofrimento instalado demore a ser digerido é que evitamos falar do assunto.

Creio que devemos pensar e falar sobre a morte. Tendo passado por situações limite e tendo perdido muitos seres amados é que me vem, primeiro, a necessidade de evitar situações embaraçosas, indecisões quanto a que atitudes tomar; enfim, questões absolutamente práticas como o que fazer com a coleção de postais, os livros e discos preferidos, a cadeira de balanço. Com qual roupa enterrar o defunto? É possível e seria vontade desse doar órgãos, proceder à cremação? Qual cemitério, de qual cidade? Eu, por exemplo, não gosto do cheiro de velas mais rosas, uma combinação que peço não ser oferecida a quem for ao meu velório…

Há bens maiores, os objetos de grande valor monetário para os que ficam! Os muito ricos, ou quase ricos, costumam deixar testamentos detalhados para evitar que herdeiros se matem. Para gente como eu recomenda-se transferir a casa ou apartamento em vida. Quanto menos coisas tiver, menos grana para o inventário, já que o sistema entra com severos impostos quando morremos.

Falar da morte, até mesmo com certo humor, me leva a valorizar a vida. E a pensar e a tomar atitudes que penso ser necessário considerar cotidianamente, principalmente quando sou notificado da morte de alguém que amo. Estou longe de ser o indivíduo que idealizo, mas tento, por exemplo, esquecer a ganância e sempre exercitar o desprendimento. Muito porque, se a coisa é material, o preço do túmulo é alto demais para levar cacarecos além do próprio corpo. E toda morte inesperada me lembra que devo dizer que amo a quem amo; a deixar de lado as picuinhas momentâneas, a até a ignorar o pecado da gula em prol de um bom pedaço de pudim.

Há quem pensa ser necessário acreditar na vida após a morte, o que garantiria maior responsabilidade para nós, vivos, já que nosso destino “do outro lado” seria conforme nossas ações na terra, que nessa circunstância costuma ser denominada plano. Nesse plano, então, a religião entra como regulador, passaporte para outros. Fé, a gente respeita, e admito um monte de coisas que acredito além-túmulo. Entretanto, não é pelo Éden, Paraíso, Shangri-la, Pasárgada ou qualquer outra ideia de céu que devo ser “o cara”.

Digo que é bobagem acumular se tudo vai ficar por aqui. Os pais e mães responsáveis dirão da necessidade de segurança para os filhos, bem-estar etc. É fato. É justo.  Só não viajar na maionese e esquecer o ciclo ao qual todos estamos condicionados. Quando acumulamos algo para deixar a outros, é bom pensar que esses outros também nos acompanharão e o melhor a deixar para esses é um planeta digno com água limpa e ar respirável, tesouros maiores que estão ameaçados, junto a toda a cadeia ecológica colocada em risco com queimadas, excesso de agrotóxicos e por aí vai.

O tema é vasto e podemos ir muito longe. Por enquanto fico aqui, pensando na loucura que é lembrar a morte da minha mãe e dois, três dias depois recordar o aniversário de nascimento dela. Minha amada mãe não está mais neste plano. Se você chegou até aqui, caro leitor, corra e dê um abraço e um beijo em sua mamãe. Sinta o calor da mãe materna sobre sua fronte, ouça a sublime melodia da voz que se altera com minúcias e sutilezas quando nos chama pelo nome, quando diz meu filho. Se sua mamãe já se foi, ofereça-lhe uma oração e olhe para o lado. Espero que haja alguém para ser amado, beijado, acarinhado. E é isso, só isso, pelo aconchego em um abraço e mãos que trocam carícia é que vale a pena viver.

Até mais.

Triste planeta, esse d’A Lavanderia

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Meryl Streep. Delicada composição em A Lavanderia (divulgação)

Era para ser apenas um filme com Meryl Streep; a atriz que me é garantia de diversão, entretenimento, além de não raros momentos de puro encantamento. Gosto das sutilezas de composição de personagem, da capacidade incrível de Meryl interpretar e de colocar-se no universo de mulheres absolutamente distintas. De quebra tinha Gary Oldman e Antonio Banderas. Todavia, o filme foi muito além.

A Lavanderia expõe o quanto o ser humano pode ser abjeto e, pior, deixa claro que há um contingente imenso de gente que apoia, colabora, é cúmplice. Falcatruas, golpes, fraudes, evasão fiscal… O mundo não é dos mansos de coração e o diretor Steven Solderberg mistura cinema e teatro, quebrando a quarta parede, fazendo de Oldman e Banderas personagens e narradores da história transitando entre tomadas externas em espaços reais com outras, em estúdio, evidenciando tratar-se realmente de um filme.

É real a origem do roteiro de Scott Z. Burns. Em 2016 vieram à tona inúmeros documentos de um escritório de advocacia comprovando a existência de empresas, aos milhares, criadas em paraísos fiscais. Grande número dessas existem só no papel, e somadas a outras e mais outras formam um painel fechado em si mesmo, impedindo que clientes e consumidores tenham acesso a serviços adquiridos. É o primeiro grande mote do filme. A personagem vivida por Meryl Streep perde o marido em um acidente e ao buscar o seguro a que tem direito entra no universo de empresas de fachada criado por advogados, com a conivência de governos e grandes instituições financeiras.

Comédia, drama, muito sarcasmo e cinismo em cena. Dividido em pequenos episódios, há várias histórias que têm como eixo a mesma origem, ou mesma pendência. O mundo vive sob fraude e infelizmente, em algo baseado em fatos, o Brasil tem destaque. Dessa vez não temos o país como destino de fugitivos, mas como protagonista via Odebrecht destacando-se propinas entre as fraudes da empresa.

A Lavanderia é um filme contra a corrupção mundial. Com ironia e inteligência o filme expõe a força/importância do dinheiro para o ser humano. Lucros, independendo de como são obtidos, é o que importa. A vida é mercadoria e a venda de órgãos é apenas um detalhe entre as milhares de possibilidades de se ganhar dinheiro.

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Gary Oldman e Antonio Banderas, diretamente para a câmera. (divulgação)

Um ou dois sujeitos na cadeia não resolve uma postura que é comum entre empresários, políticos, donos de grandes empresas. Uma grande falcatrua desvendada só evidencia o quanto de outras há por aí. O mundo é uma lavanderia de dinheiro sujo? O planeta deve se tornar uma lavanderia, limpando tudo o que há de sujo por aí? Eu gostaria de ter esperança e só espero não perder a vontade de lutar.

Daqueles filmes que dificilmente farão grande carreira nas salas comerciais, A Lavanderia está no Netflix. Além dos três atores citados, ainda há David Schwimmer, Sharon Stone, James Cromwell e Jeffrey Wright em personagens que merecem atenção, compondo o triste cenário de parte desse nosso mundo que, parece, com sistemas judiciários corrompidos, continuará por muito tempo aguardando a justiça divina… fazer o quê?

Até mais!

 

Manhã na Rua 7 de abril. Até quando?

7 de abril
Rua 7 de Abril, tranquilamente abandonada.

O centro da cidade de São Paulo aparenta ter momentos de tranquilidade. Principalmente no chamado “centro velho” onde ainda há ruas e avenidas que indicam calma e sossego se o olhar for distraído ou condescendente. Combinei de encontrar um amigo na Rua 7 de abril, numa das manhãs da semana que passou. Sobrou indignação após a permanência momentânea em uma das ruas centrais da cidade mais rica da América do Sul.

Não conheci os momentos de glória da Rua 7 de Abril quando nela estava a sede dos Diários Associados e, dentro dessa, o MASP, Museu de Arte de São Paulo, hoje com o acréscimo Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Uma homenagem ao dono dos Diários Associados, responsável pela implantação da televisão no Brasil. Pois foi ali, na mesma sede, em 1950, que foram ao ar as primeiras imagens da TV TUPI, mudando a partir de então a comunicação no país e os hábitos dos brasileiros.

Pela Rua 7 de abril, nos anos de 1950, certamente passaram os maiores magnatas da cidade, em determinado momento portando obras de arte para “doação” ao MASP. Os parênteses na doação estão aí para assinalar histórias que insinuam ameaças, chantagens, troca de influências e sabe lá o que mais, dentro da teia de poder manipulada por Chateaubriand que, como todo grande homem da comunicação do país tinha ligação com a Presidência da República, no caso de Chatô, Getúlio Vargas.

Conheci a 7 de Abril já no final dos anos de 1970 e por lá estive inúmeras vezes nos anos seguintes, frequentando outra sede, da companhia de telefones. Lá era um dos locais ideais para fazer interurbanos (para as crianças de agora, chamadas telefônicas para outros municípios) em cabines que garantiam o mínimo de conforto, segurança e privacidade. Nos últimos anos ainda fui lá visitando um amigo em loja de serviços de reprografia com ênfase no popular “xerox”.

Voltar na semana passada foi triste, melancólico. Transformada em calçadão, com pequenas ilhas de convivência criadas com bancos de madeira e floreiras, a rua evidencia descaso da administração municipal pela quantidade de sujeira no ambiente. Lixeiras sobrecarregas são visitadas por infelizes e, uma atitude estranha: quando em duplas, o primeiro sujeito olha, mexe, procura algo antes de seguir caminho enquanto o outro faz o mesmo, checando ou procurando algo diferente do primeiro.

Usuário constante, o vendedor ambulante vem com um saco cheio de lixo sem conseguir descarregar os resíduos. Um ou outro transeunte joga um papel, ou qualquer outro objeto de pequeno porte na lixeira, o que me alegra pelo gesto educado e civilizado. Isso não se pode dizer de fumantes, os responsáveis por quantidade absurda de bitucas que, em próxima chuva, colaborarão para as enchentes na cidade.

Aguardei meu colega ao lado de duas agências bancárias e, em frente a essas, pude observar três lojas absolutamente iguais de capas para aparelhos celulares. Diante da loja central um casal de policiais, ciclistas, a bermuda fazendo parte do uniforme. O rapaz mantinha-se alheio enquanto a colega, por mais de vinte e cinco minutos, falou sem cessar ao telefone. Ambos ignoraram o sujeito que veio até a mim oferecendo maconha, para usar ou vender. Agradeci como aprendido em casa, educadamente, e o pseudo traficante se foi (levava mais para aviãozinho). Indignado passei a cronometrar o tempo da policial ao telefone e reitero, mais de vinte e cinco minutos!

Em contraponto à comunicativa policial, é raro ver alguém com o celular em mãos. E notei isso graças ao aviso de uma vizinha, sentada próxima, quando peguei meu aparelho para ver se já havia algum recado de quem eu esperava: “- Senhor, guarde seu telefone. Cuidado com assaltos. Se quiser usar, entre em alguma loja!” Foi o que fiz um pouco mais tarde quando o aparelho tocou anunciando a chegada do amigo ao encontro marcado.

Deixei a Rua 7 de Abril. Voltando para casa pude notar e confirmar que algumas ruas do meu bairro estão no mesmo diapasão. Ainda no caminho, passando pela Rua Major Diogo, vi mais uma vez a sede do TBC – TEATRO BRASILEIRO DE COMÉDIA, tão abandonado quanto a Rua 7 de Abril. Ah, São Paulo, cidade amada! Ah, conterrâneos, nascidos ou vindos de outros locais, como eu! Quando aprenderemos a escolher melhor nossos administradores? Quando exigiremos com veemência que não deixem a cidade imersa em sujeira e abandono?

Até mais.

As professoras lá de casa

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Waldênia, Walcenis e Walderêz

De repente me dei conta de ainda não ter escrito sobre as professoras lá de casa. Três! Cada uma com postura diferente, jeito de ser e agir, o que me faz pensar em esquerda, direita, centro… Certamente elas propiciam uma ideia do que seja ser professora em Uberaba, em Minas, no Brasil. Há uma que está sempre lendo jornais, a outra prefere livros, a outra parte fácil para as vias públicas nos atos políticos; uma mantém-se distanciada, postura exclusivamente profissional perante os alunos, a outra estende a maternidade pra sala de aula, pra escola e há aquela que administra, transitando fácil no universo burocrático que permeia secretarias e superintendências de ensino.

Waldênia, Walcenis e Walderêz são as professoras lá de casa. Carregam em si algo de minha mãe Laura, que sonhou ser professora. Todas foram alunas do Colégio Cristo Rei e as duas primeiras foram além, estudando na Faculdade de Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino, das Irmãs Dominicanas, hoje integrada à UNIUBE. Lá fizeram Letras, Ciências Sociais, Pedagogia, Administração Escolar…

Minhas irmãs estiveram na vida de centenas de uberabenses; não consigo nominar todas as escolas, mas guardo algumas na lembrança: Escola Estadual Professor Hildebrando Pontes, EE Professora Corina de Oliveira, EE Presidente João Pinheiro, EE Frei Leopoldo de Castelnuovo e uma delas, a Walcenis, trabalhou anos na Superintendência Regional de Ensino. Tudo começou no século passado (lamento, meninas!), em uma pequena escola, na Vila Dr. Arquelau.

Guardo recordação precisa de acompanhar minha irmã Waldênia, toda bonita e arrumada, com uma blusa vermelha de um tecido muito leve, pelas ruas poeirentas de então. Era a primeira a sair de casa para lecionar; foi na Escola Nossa Senhora Aparecida que, sem sede própria, funcionava na capela de mesmo nome na Vila Arquelau. Depois chegou a vez de Walcenis em outra escola, diariamente voltando para casa com flores, muitas flores, todo o dia cheia de flores, presentes dos alunos que certamente amavam a mestra que, pela cidade afora, não esconde fama de dura e rígida (e competente!) em se tratando da profissão. O pessoal da Superintendência que o diga… Depois Walderez, a caçula, começou a lecionar na mesma escola Nossa Senhora Aparecida já evidenciando características maternas no trato com os alunos.

Hoje minhas irmãs estão aposentadas. Volta e meia encontram adultos que se tornam crianças perante a professora. São acarinhadas, respeitadas. Um respeito imenso que, infelizmente, não é o mesmo das autoridades mineiras. E aqui este texto toma outro rumo, o da indignação. Salários dos professores de Minas Gerais são pagos com atraso e, pior, em parcelas, levando a classe à instabilidade e insegurança constantes. O governo estadual, desde a gestão anterior, não consegue regularizar a situação. Infelizmente, milhares de profissionais permanecem na incerteza de receber algo que a lei garante, o direito estabelece. E aí, em datas como o dia dos professores, aparece um monte de gente hipócrita desse mesmo governo com o discurso da importância dos profissionais, da escola, da educação…

O que pessoas na terceira idade podem fazer diante da incompetência administrativa dos responsáveis pelos seus salários? Sem perder o humor, penso que caminhadas podem ser evitadas; mas, sentar-se na avenida e lutar pacificamente pelos próprios direitos é uma possibilidade. Dá para aproveitar e bater um bom papo com os transeuntes sobre a situação. Também podem tomar celulares e computadores e encher as caixas de mensagens desses políticos que aparecem na época de pedir votos. Fundamental: Guardar nome e sobrenome de quem não se deve votar nas próximas eleições.

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Enfim, voltando ao motivo deste. Feliz dia dos Professores Eulália Cristina Afonso, Edna Idaló, Vanda Spínola Silva, Maria Abadia Prata Barsan, Célia Ferreira Peixoto, Marize Idaló. Em especial quero enviar um carinhoso abraço para Maria Helena Gabriel, incansável na luta pelos direitos de seus pares. E sem esquecer minhas primeiras e inesquecíveis professoras, minha gratidão eterna para com D. Zilda, D. Marília Fidalgo, D. Vânia Boaventura e Dona Maria Ignez Prata.

Feliz dia dos professores, minhas irmãs Waldênia, Walcenis, Walderêz! Como nossos antepassados diriam, tive a quem puxar, tenho a quem seguir. Um beijo carinhoso para todas as professoras e professores de Uberaba, de Minas, do Brasil.

Até mais.

Ramiro! Um garoto na contramão.

 

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Neusa de Souza, Roberto Arduin, Conrado Sardinha, Rogério Barsan e Isadora Petrin. Foto: João Caldas

Gente de teatro é meio louca, dizem. Vai ver têm razão, já que é preciso uma boa dose de insanidade para estrear uma peça infantil anticonsumo no Dia da Criança. Faz um ano que Ramiro iniciou sua trajetória por palcos da capital paulista tendo realizado temporadas também em Maringá, no Paraná e em Campina Grande, na Paraíba. Faz um ano que estreamos oficialmente no bairro Sapopemba, no dia da criança, em um projeto de educação financeira visando ensinar crianças e seus responsáveis a administrar o suado dinheirinho que entra com dificuldade e sai feito água no ralo.

Ramiro, o garoto que criei, quer o mundo em forma de brinquedos. E a peça gira em torno do fato de que a vida não é bem assim. Um ano depois e Ramiro continua nos palcos paulistanos. Certamente transformado via uma mudança aqui, um corte ali, sem contar o próprio amadurecimento de cada ator no domínio do ofício que burila e descobre nuances em personagens e cenas. Mas é dia de aniversário de Ramiro, o menino quer presentes – o que leva a personagem a ter identificação com o público infantil – e as demais personagens vão brincar e tentar ensinar ao garoto a necessidade de economizar, investir, planejar…

Pensar que o Dia da Criança surgiu por vontade de um político, por volta de 1920, me faz pensar em apelação ordinária, em busca de votos via sentimentalismo barato. A data adquiriu sua sina consumista pela ação de duas empresas, uma indústria de brinquedos e outra com forte linha de produtos infantis. Vamos vender muito em todos os 12 de outubro e deixar para novembro, dia 20 para ser preciso, a reflexão sobre a Declaração Universal dos Direitos da Criança, data que lembra o dia em que a Unicef proclamou os tais direitos infantis.

Ramiro tem direitos e alguns deveres também. O mais difícil provavelmente é aprender a conter a ambição em ter tudo, redescobrir o lado bom de brinquedos simples, valorizar as relações de amizade e parentesco. As reações são diversas e normalmente a plateia infantil se mostra inquieta. Coloque-se no lugar de quem quer o máximo do que o mercado oferece e assiste um trabalho que prega contenção de gastos… Trabalho difícil, mas que nosso pessoal vem defendendo com raça e brilho.

Neusa de Souza, Roberto Arduin e Rogério Barsan trazem o lúdico para a cena, jogando com elementos simples que transformam ambientes e situações. Suas personagens conduzem a ação e são responsáveis pelo desenvolvimento da peça. Isadora Petrim faz afetivo contraponto ao primo, brincando de ser a prima mais amadurecida, companheira no crescimento do primo. Conrado Sardinha é o garoto Ramiro, fazendo este de tal maneira que encanta e ganha a cumplicidade da plateia.

Nossa Produtora Sonia Kavantan nos propiciou a música de Flávio Monteiro, os cenários de Djair Guilherme, os figurinos e adereços de Márcio Araújo, as fotos de João Caldas, a identidade visual criada por Fernando Moser com  ilustrações de Octavio Cariello, a assistência de Milka Master e Lilian Takara. Companheiros do elenco em toda a jornada, Tiago Barizon administra, William Gutierrez opera som e André Persant faz a luz, criada por Ricardo Bueno. Realização da Kavantan Projetos e Eventos Culturais, com patrocínio da VISA e da Lei de Incentivo à Cultura.

Hoje não há bolo de aniversário, nem salgadinhos, docinhos, refrigerantes. Há meu carinho, imenso, por toda essa gente que vem trabalhando nessa montagem. E muita gratidão. A mensagem de “Um Presente Para Ramiro” é uma minúscula gota na contramão do consumo desejado pelo mundo capitalista. Mas somos gente de teatro e por isso insistimos. E não desistiremos nunca!

Até mais!