No meio da rua

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Exilado na multidão

sou silêncio e segredo, e venho

quando os outros vão.

(Lêdo Ivo)

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Um haicai quando na rua de ferro da Água Branca.

Até mais!

O Pensamento

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O ar. A folha. A fuga.

No lago, um círculo vago.

No rosto, uma ruga.

(Guilherme de Almeida)

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Primeiro haicai de dezembro.

Até mais!

 

Desaparecidos

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Foto: Flávio Monteiro

Giba desapareceu. Saiu de casa na sexta-feira para passar o final de semana conosco em São Paulo e na segunda, quando ligaram do trabalho questionando a ausência do funcionário é que o caos foi instaurado. Onde estaria? Com quem? Qual o motivo de ter mudado o destino? Após vários telefonemas aos amigos mais próximos ficou constatado o desaparecimento do rapaz.

Naquele momento todos os conhecidos saíram buscando informações. Polícia acionada, hospitais, necrotérios e até uma vidente nos informou que ele estava vivo. Desaparecido. Uma foto de alguém assassinado estampou a página de jornal. Incrível semelhança que, felizmente, não se confirmou. O corpo era de outro. Giba continuava sumido, sem dar qualquer sinal de vida.

Recordo D. Noêmia, pura tristeza, supremo desespero. A morte já lhe levara uma filha e agora o caçula desaparecia. Só fazia chorar, gemer profundo, dolorido. A pergunta atroz que ninguém respondia: onde Giba está? Onde foi? Porque não volta? O que aconteceu? Está vivo? Morto?

Provavelmente as perguntas sem resposta são o que de pior pode vir a acontecer com gente que espera aqueles que desapareceram.

“Quem é essa mulher,

Que canta sempre esse estribilho

Só queria embalar meu filho

Que mora na escuridão do mar…”

Naquele momento descobri o terror de não saber respostas fundamentais sobre aqueles pelos quais temos afeição. Os dias se arrastaram e as notícias não chegavam, aumentando a dor, o desespero e, qual doença tenebrosa, aumentando a dúvida, a desesperança. O mais cruel seria ver o tempo passar sem respostas.

O desaparecimento do submarino argentino fez-me lembrar a história, as sensações todas que vivenciamos e, fundamentalmente, presenciamos. Jamais vou esquecer o olhar daquela mãe, o semblante de infinito sofrimento aguardando notícias do filho. O sofrimento do pai, da irmã, dos amigos.

Cada um dos 44 tripulantes do “San Juan” tem alguém querido que, neste momento, busca equilibrar-se entre a dor e a esperança, por mais absurda que esta possa parecer. Não conheci nenhum dos tripulantes; também não conheço parentes e entes queridos. Conheço um pouco o que é esperar por notícias; o não saber de alguém querido.

“Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar…”

O Giba da minha história voltou. Hoje, João Gilberto é pai de um menino e segue tranquilo sua trajetória interrompida naqueles dias em que ficara perdido em meio à Serra do Mar. Familiares e amigos tiveram a alegria de revê-lo. E sem saber do final dessa tragédia submarina, escrevo em solidariedade aos que ficaram. Escrevo, que é minha forma de rezar pelos que se foram tanto quanto pelos que aqui estão.

A “Angélica” dos versos de Chico Buarque acima transcritos não teve respostas, não vivenciou reencontros. Outras tantas pelo mundo também não. Dezenas de mães, esposas e filhos da tripulação do submarino argentino ficarão eternamente se perguntando o que foi? Como foi? Por que teve que ser assim?

As autoridades tentarão responder; é quase certo que encontrarão razões, motivos e, provavelmente, consequências provocarão mudanças de regras, alterações de procedimentos. No entanto, aqueles que esperam pelos seus desaparecidos querem respostas, mesmos as mais difíceis e doloridas.

Que todos fiquem em paz.

Até mais!

Rota

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Que arda em nós

tudo quanto arde

e que nos tarde a tarde.

(Olga Savary)

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Um haicai para determinar caminhos.

Até mais!

Leminski

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cruzeiro (2)

a noite – enorme

tudo dorme

menos teu nome

(Paulo Leminski)

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E o tempo escoa breve, como haicai

Crédito da foto: Flávio Monteiro

Até mais!

 

Haicais de estrada

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Por que explicar?

aguente o fardo

Em silêncio.

why explain?

bear burdens

In silence.

(Jack Kerouac)

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Na estrada, o poeta americano faz haicai.

Até mais!

Millôr

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çlk

Não é segredo.

Somos feitos de pó, vaidade,

E muito medo.

(Millôr Fernandes)

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Um haikai para manter na real.

Até mais!

Das contradições da palavra

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nova nuvem (2)

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Sou o que as palavras dizem que sou.

Abstrações de comportamentos, sensações

Transformadas em vocábulos

Expostas em expressões.

Definidas, nomeadas, catalogadas.

.

Tendo a crer nas palavras como remédio,

Solução para todos os males

Pontes estabelecendo contatos

Esperanças para toda justa causa

Alicerces fundamentando relações.

.

Ah, as palavras!

Unem e separam com a mesma intensidade.

Provocam e pacificam situações similares,

Assumem hierarquia via emissores incautos,

Denotam o que entende o emissor!

Ilimitadas em constantes impasses

Palavras não unem.

Permeiam acidentes, circulam ciladas

Confundem o caos e opostos desse

E seguem no suporte, revivida na fala

Emulada no pensamento

Emoldurada no poema

Destilada na canção.

.

Pobre profissional das palavras

Tem pela frente todos os significados

Carrega consigo todos os postulados.

E entre o significante e o significado

Observa – estupefato – a limitação humana.

.

(Valdo Resende/ São Paulo/ Nov.2017)

Amanhece

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arcoiris flavio monteiro

Um copo de cristal

Sobre a mesa

Inventa as cores todas do arco-íris…

(Mario Quintana)

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Um haicai para manhãs de cinza!

Crédito da foto: Flávio Monteiro.

Até mais.

Desolação

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valdoresendefinados

Fim de estrada. Só.

Sem espaço para os passos.

Adiante e atrás: pó.

(Cyro Armando Catta Preta)

Um haicai pra sorrir da ganância.

Até mais!