Medos

virus

O vírus assombra o planeta,
Assusta, deixando-nos no devido lugar.
Somos frágeis, indefesos,
Meros mortais.

O vírus avança lá,
Recua acolá,
aparece por aqui
O bicho-papão da infância
Volta em forma de realidade.

O medo antecede o vírus
O terror televisionado
Anônimos infectados
Anônimos mortos.

E as bolsas caem!
Feito ratos astutos
Feito baratas treinadas
Investidores preparam o bote
Recuam para melhor lucrar com a morte.

O vírus, tragédia anunciada
Pede serenidade perante o cadafalso
Resignação.
Medo mesmo, vem dos obtusos
Dos contaminados disfarçados
Dos propagadores irresponsáveis.

Medo maior dos donos das coisas
Das bolsas retraídas
Dos investimentos suspensos.
Para que água tratada?
Para que esgoto na periferia?
A hora é de investir em laboratórios
Distribuidores, vendedores de vacinas.

Medo dessa gente
Que lucra com o câncer
Com os tratamentos sofisticados
O dinheiro retraído para o próximo bote

O vírus, silencioso
Não discrimina ricos
O que é vantagem para o pobre.
A vacina, se vier,
Quando vier
Terá que ser para todos.

 

Valdo Resende, Março/2020

Foto: Flávio Monteiro

Ramiro, cadê a nota?

apresentações de ramiro (2)

Por gentileza, prestem atenção na imagem acima. Não é uma imagem deslumbrante e não há os atrativos costumeiros que nos detêm perante objetos, paisagens, animais ou pessoas expostas. Todavia, esse mapa com “bolotinhas” destacadas me é muito caro. As “bolotinhas” indicam todos os locais onde a peça Um Presente Para Ramiro foi apresentada. Desculpem insistir no pedido, mas… atenção: A produção da Kavantan & Associados, patrocinada pela “Visa”, percorreu todas as regiões da capital. Foram cinquenta apresentações na cidade de São Paulo. Também fomos ao Paraná e à Paraíba, fazendo doze apresentações em Maringá e outras doze em Campina Grande.

Fico muito feliz por participar de projetos que, literalmente, vão “aonde o povo está”. E de graça, pois não cobramos ingressos nessas apresentações. O mapa acima facilita dimensionar corretamente as distâncias que, em conjunto, tiveram um invariável ponto de partida: a estação de Metrô Paraíso. Volta e meia entrava um recado da produção para o grupo do Ramiro informando horários de saída; teve saída às 9h30, às 11h00, às 6h00 e todo um monte de observações necessárias em meio a piadas do pessoal. Relacionamento criado e amadurecido ao longo de muito tempo.

Para quem não está habituado com todo o processo de uma montagem teatral é bom pontuar: levamos uma ideia ao possível patrocinador, e esta, quando aprovada,  vem a se concretizar em texto teatral. Tudo muito pé no chão, baseando-se em objetivos práticos e em verbas realistas. Aprovada ideia e sinopse, o passo seguinte é solitário, do autor: O cara escreve, re-escreve, discute, escreve novamente e após aprovação começam os trabalhos de produção.

Segunda grande fase da produção é feita por um bando de gente: os que estarão no palco e os que trabalharão para que tudo fique da melhor maneira possível em todas as fases e em cada apresentação. Atores, diretores, músicos, figurinistas, cenógrafos e todo o pessoal da produção. Uns criam, outros viabilizam, outros concretizam e em dois, três meses de trabalho árduo, chegam as apresentações. A estreia de Um Presente Para Ramiro foi em Sapopemba, na Zona Leste da capital paulista, em outubro de 2018, e essa primeira temporada foi encerrada no Tendal da Lapa, em novembro de 2019.

A última etapa, e tão importante quanto as outras, é a da prestação de contas. Fase pouco noticiada, mas de suma importância para quem produz com dinheiro advindo de Lei de Incentivo Fiscal via patrocínio da VISA. Eita! É a tal Rouanet mesmo! A lei que recebeu muitas críticas nos últimos tempos e que exige um MINUCIOSO ACERTO DE CONTAS! Assim mesmo, com todas as maiúsculas, para possíveis detratores de plantão. Além de critérios rígidos para aprovação de um projeto, a Lei prevê e exige informações documentadas sobre o destino de cada centavo. Essa prestação de contas também carece da aprovação final dos técnicos do Governo.

Fala-se muito contra a Lei Rouanet. Vivemos em tempos obscuros em que a informação, rasteira ou mesmo falsa, vai de pessoa a pessoa, de grupo a grupo. Por exemplo, costumam afirmar que o dinheiro da lei beneficia apenas gente famosa. Bom, como bem sabem, não sou famoso, assim como a maioria dos profissionais com os quais trabalho. Somos sim, conhecidos e respeitados no meio em que atuamos. Damos um duro danado para isso, incluindo uma precisa e correta prestação de contas em nossas ações.
Quietinhos lá no escritório, contabilizando cada etapa, é o único momento em que nós, os outros participantes desse trabalho, não ouvimos expressões do tipo “peça a nota”, “tem que ter nota”, “não esqueça a nota”, “só se for com nota”… NOTA FISCAL. Taxi, refeições, ensaios, tecidos, aviamentos, recibos do trabalho feito por cada profissional, divulgação, transporte, hospedagem… nada fica sem a tal nota. Respeito e tenho orgulho de atuar ao lado desses profissionais, “minha produção”. É por ser exigente e séria que Sonia Kavantan e equipe têm parcerias com empresas diversas, parceiras em nossas montagens.

Nunca li nenhuma reportagem sobre esse aspecto da Rouanet, do minucioso acerto de contas que se exige das produções. Seria bom que as pessoas atentassem para esse acerto. Não discuto as possíveis mudanças, os melhoramentos necessários da Rouanet. Toda e qualquer lei carece de ser vista como algo em movimento, em conformidade com os padadigmas da sociedade, das mudanças e transformações da mesma. Isso evitaria discussões inúteis, baseadas em informações advindas de fontes duvidosas.

Até mais!

Ave, Uberaba, em seus duzentos anos!

catedral (2)

A cidade se renova, se expande. Ostenta orgulhosa o que é visível de seu passado e enfrenta o presente com galhardia, com a tranquilidade dos sábios que guardam verdades simples e imutáveis: vamos rumo ao futuro. A despeito de qualquer situação, segue-se em frente. Ave, Uberaba, em seus duzentos anos!.

Os limites da cidade são outros, longe daqueles que percorri quando criança e adolescente. Entendo melhor a expressão “no meu tempo”. Uberaba é outra cidade, diferente e igual àquela em que nasci. Transformada e modificada espacialmente, guarda prédios ainda com a mesma função e permanece altiva sobre suas sete colinas. Sinto falta de muita gente e saúdo os novos habitantes, esses que farão a cidade permanecer e, ao mesmo tempo, continuar.

Ave, Uberaba! Resolva seus problemas, corrija seus passos! Orgulhe-se de sua trajetória, de suas contribuições para com o Estado e o País. Comemore seus duzentos anos! Viva milhares de outros!

Feliz aniversário!

(Trechos de “O Tempo e o Espaço”, um dos textos integrantes do livro “O Vai e Vem da Memória”, coletânea de contos e crônicas dedicados a Uberaba que será lançado por Valdo Resende em abril de 2020)

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Obs: Embora haja um aparente imbróglio quanto a ser março ou maio o aniversário de Uberaba, pretendo deixar essa questão para os historiadores. Meu desejo é comemorar o ano inteiro. A cidade merece.

Show Fogueira das Rosas

 

Neste show, as tradições musicais nas mãos percussivas de Angélica Leutwiller e Valéria Zeidan se juntam ao acordeom experiente e sensível de Gabriel Levy e à dança multicultural de Paula Lena em show no Estúdio Mawaca, amanhã,  dia 28/02/2020, às 20h30. Ingressos a R$ 30,00. Local: Estúdio Mawaca – End. Rua Inácio Borba, 483 –Chácara Santo Antônio – São Paulo.

O duo Fogueira das Rosas vem sendo reconhecido, tanto por sua sofisticação vocal quanto pela pesquisa de percussão. A escolha instrumental da dupla baseia-se principalmente na sonoridade dos frame drums – pandeiros orientais, mediterrâneos e brasileiros – além de outras percussões que buscam acompanhar um repertório multicultural formado por canções de trabalho, cantos devocionais, cantigas de ninar, trovas de amor e amizade, antigas e contemporâneas.

Ouça abaixo, “El Dezembre Gongelat” e conheça o som da dupla:

 

 

 

 

Mangueira, teu samba é uma reza

Um samba que já está na galeria dos melhores de todos os tempos! Clique e cante com a Estação Primeira de Mangueira. Um grito contra a intolerância!

O convalescente

rom online

Prédio branco entre jardim verde. Degraus brancos de mármore. A enorme porta de ferro também branca, como os corredores, os quartos, as cortinas, e todas as outras dependências. Silêncio no ambiente calmo. Prédio branco entre jardim verde. Paz e esperança ante a dualidade. O início e o fim. A vida e a morte. O hospital. Dualismo na mente e no espaço. Tão grande! Tanto quanto a duplicidade de sua existência paradoxal. Ocaso no interior dos silenciosos. E o convalescente, em seu silêncio que não é ocaso, vislumbra a certeza do amanhã. 

Está ali há tanto tempo! Esquece que existe a esperança em torno da paz, de tanto branco à sua volta. Mas, se lembra dos primórdios; as manhãs de matiz colossal; o pôr de sol ametista… Tudo distante, irreal. Os primórdios ficaram no jogo de bola no campo, junto aos demais meninos. No galho da mangueira, que tanto gostava, que talvez já esteja seca. Ficaram os primórdios no gládio do florão da sala… Nem se lembra mais de quem, com quem! Sim, ficaram longe; estão distantes. Os primórdios…

Lembra-se do idealismo da adolescência; das escolhas e renúncias; as incertezas diárias; a onisciência; as contemporizações frustrantes; a escolha única e decisiva; o assumir do caminho, a maturidade. A Universidade foi-lhe a melhor época, sem dúvida! As discussões filosóficas, a literatura fascinante. Lord Byron, Victor Hugo; os romancistas. O realismo na vida de Bentinho e Capitu. Ah! Machado de Assis, de Dom Casmurro e Esaú e Jacó.

O diploma universitário, o magistério. Vinte anos ensinando que a arte de compor trabalhos em prosa e verso, chama-se literatura; que Shakespeare é grande dramaturgo da Inglaterra, e que Dante Alighieri é o maior, entre os maiores italianos. Os jovens preferem os mais atuais. Ele não se lembra bem há quanto tempo se encontra no hospital. Os jovens, seus alunos tinham uma tendência para as reformas literárias de autores como Mário de Andrade, Hemingway… não gostava, como não simpatiza ainda com a literatura moderna. Infelizmente, a literatura de Arcádia e de Parnaso não são mais criadas; frequentemente esquecidas, guardadas nas estantes. 

Não se recorda da última visita que lhe fez a esposa. Faz tempo que ela não entra por aquela porta, agora somente aberta pelas enfermeiras; mas, ele se lembra de como ela entrou em sua vida. Gide; ele se deliciava ante a perspectiva à renúncia dos noventa e nove. “Professor, quando se opta por amor, não existe nostalgia; escolhe-se e pronto”. O ginásio estadual, muitas alunas… ela tinha no olhar o azul celeste. Era diferente porque conhecia o amor. Foi com a aluna que ele aprendeu a lição do dom de si. Amar é dar-se por inteiro.

E o amor saiu das páginas líricas de Dirceu, para fazer morada no coração dele. Como se modificou a partir da consciência de amar! Ela pertencia à Ação Católica. Ele já se esquecera das práticas religiosas domingueiras, o que tanto preocupava sua mãe. Então, passou a ver o cristianismo sob outro ângulo. E, entre o Realismo e o Romantismo, abriu-se-lhe um novo campo de estudo que não pertence à nenhuma escola literária. A Teologia deu-lhe maior gosto pela vida. Tomás de Aquino e Santo Agostinho mostraram-lhe Deus nos passos vivos do cotidiano.

A alegria sem igual, com a chegada do primeiro filho, que se repetiu por mais duas vezes. Era doce a espera ante a certeza da chegada. A véspera era linda devido ao oval na forma esguia do corpo amado. Forma de pôr de sol. Espera de nascente. Ele viveu novamente através da vida dos filhos. Viu seus primórdios nas algazarras infantis. A Universidade que voltou pelos assuntos dos filhos. A estrada andou na roda da vida, e o tempo caminhou com a estrada. A velhice chegada, e novamente os primórdios na presença dos netos.

Sua filha… sim, sua filha! Amou tanto a vida, a música de Beethoven! Não deveria ter tido morte tão estúpida. O susto, tal qual os que levara na infância com a ilusão dos fantasmas, assombrações. O susto. O enfarte.

Às vezes, falta-lhe a memória, mas há momentos em que revê tudo e todos em sua mente. Em outros, o vazio é tão imenso que ele sente vislumbrar o eterno. Sua esposa que não vem; a infância que ficou; a ausência da filha e a lucidez, que começa a se fazer ausente também.

Prédio branco entre jardim verde. Degraus brancos… Entra um homem de negro. Um negro diferente, no qual está contido silêncio, branco de paz. O homem chega bem próximo do leito do convalescente que se desfaz, olhando intensamente o velho professor, sussurrando: “Por esta unção e Sua mercê suavíssima, que o Senhor te perdoe todo e qualquer pecado que tenhas cometido pela vista, pelo ouvido, pela boca… “

Os primórdios ficaram na lembrança de quem com ele viveu.

 

Valdo Resende / Santo André-SP , Verão de 1982.

 

Notas do autor: 

 

Quando cheguei por aqui, no finalzinho da década de 1970 tinha dois objetivos: fazer teatro e literatura. Em 1982 tive a publicação de “A mulher que eu amo”, um conto, em revista de circulação nacional. No mesmo ano fui premiado com “O convalescente”, no VIII Concurso de Contos do DEPEC – Departamento de Educação e Cultura, da Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul, São Paulo. Neste 2020 tenho como projeto a dedicação “quase” irrestrita à literatura. O “quase” fica por conta do meu amor ao teatro e ao desejo de divulgar neste blog, os trabalhos de amigos e de profissionais a quem admiro. 

 

A reprodução de partes ou de todo o texto deve obrigatoriamente mencionar a fonte e o autor.

 

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A roteirista de Buriticupu

Neste blog quero começar 2020 com notícia boa. Após a apresentação da peça “Quem Prospera Sempre Alcança”, no final de dezembro, a produtora Sonia Kavantan recebeu e me transmitiu a seguinte mensagem: “- Pra alegrar o seu dia. Este é um comentário no Insta da Kavantan”:

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A mensagem refere-se ao Projeto Arte na Comunidade em sua primeira edição, quando percorremos dezenas de cidades dos estados do Pará e Maranhão. Entre as cidades, Buriticupu, no Maranhão. Produção da Kavantan, Projetos e Eventos Culturais, “Vai que é bom, O Casamento do Pará com o Maranhão” foi o texto que escrevi, dirigido por Emanoel Freitas e interpretado por atores paraenses. Visando resgate e valorização da cultura local, o Arte na Comunidade percorreu as cidades da Amazônia com uma tenda com capacidade para 400 pessoas sentadas e muitas centenas de outras que viam a montagem pelas laterais, abertas para minimizar o calor.

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O Casamento do Pará com o Maranhão

Receber essa mensagem tantos anos depois é um grande alento. É bom demais saber que uma menina que não conheço, e por isso optei por não divulgar o nome, teve nossa peça como start para a profissão de roteirista. Temos mantido contato com algumas pessoas que conhecemos por lá, durante a temporada que durou dois anos. Volta e meia recebemos esse tipo de retorno mostrando aspecto afetivo e, simultaneamente, consequências das nossas andanças por diferentes regiões do país. Ficamos felizes e agradecemos aos céus a oportunidade de realizar tal trabalho.

O Projeto Arte na Comunidade continuou, após o Pará e o Maranhão, com a segunda edição no Pontal do Triângulo, onde percorremos quatro cidades. A terceira foi na Baixada Santista, contemplando cinco cidades e a quarta, mais recente, no Vale do Paraíba, onde o projeto passou por quatro cidades. Estamos trabalhando e, embora com toda a realidade que não ignoramos, vamos insistindo e logo, se Deus quiser, teremos a quinta edição, em alguma região desse nosso imenso país.

 

Feliz ano novo!
Até mais.