Do meu tempo… É o escambau!

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Já aconteceu de eu falar em Bethânia e o indivíduo rebater com um “não é do meu tempo”. Outros já lamentaram os dias atuais afirmando que “no tempo deles” era melhor.  Também já tentaram insultar-me gritando que meu tempo passou. Bom, pra todos esses cabe o alerta de Exupéry, via Pequeno Príncipe: a linguagem é uma fonte de mal entendidos. Eu prefiro esbravejar (É o escambau!) e propor refletir a respeito.

Vivemos momentos preciosos de revisão de comportamentos, posturas, hábitos. Se o mundo evolui que não seja apenas na maquinaria, na cibernética, nas fórmulas para obtenção de lucro. Junto com cada inovação esperam-se também novas atitudes, aprimoramento de modos e maneiras. E penso ser esta ideia o motor para incendiar a população perante o assédio sexual, ou para gritar contra os preconceitos de gênero, lutar por melhores condições de trabalho, continuar batalhando contra o racismo, combatendo pela liberdade religiosa e muito mais.

“O mundo tá ficando chato” é a frase reticente que pondera situações advindas desses novos anseios, assim como também serve para justificar a insistência de outros na manutenção do sistema – hábitos – vigentes. Alguns humoristas nada são sem os chavões preconceituosos; muitos homens nada têm a dizer além de elogios chulos; muitos de nós ficamos embaraçados ante a possível liberdade do outro de ser o que é (A delícia, disse Caetano!); alguns de nossos líderes burilam leis, criam normas, estabelecem regras a serviço da classe dominante e, entre o muito mais do parágrafo acima estão os religiosos combatendo a outra religião por insegurança, ou pior, para manter o obscurantismo e assegurar ganhos monetários.

O mundo está interessante! “- Como sempre”, diria minha querida avó. Entre avanços e retrocessos rolarão muitas pinimbas, perdas e ganhos. Vivo o tempo de todo aquele que ultrapassa a idade adulta a caminho da velhice, e enfrento conflitos internos e externos nessa nova situação. Rejeito, por exemplo, a expressão “Terceira idade” indicando velhice, pois concordo com Ariano Suassuna, para quem terceira idade é para fruta – verde, madura e podre. “Melhor idade” então é o escambau! Nem passado, nem futuro, o melhor é pra ser vivido em toda a vida. E tenho ímpetos assassinos quando o sujeito diz bobagens do tipo “não é do meu tempo”.

É comum encontrar indivíduos que escondem a própria ignorância usando esse “tempo” como desculpa. Também é fato que a maioria de nós já afirmou, entre possíveis variantes, que “na minha época não era assim”. Penso ser saudável que situações pesadas, embaraçosas, mereçam um eufemismo; é mais delicado lamentar não ser tal coisa do nosso tempo que esbravejar diante de ação ou fato estúpido. O que não dá é usar tal expressão para excluir os indivíduos, no caso os mais velhos.

Qual é a idade para usar uma cor, viver um relacionamento, mudar de emprego, empreender uma luta? Qual é o momento para ouvir uma canção, dançar outra, conhecer o novo? Quais são as possibilidades de aceitação mútua, o novo aceitando o estabelecido e o velho abrindo-se para o novo? O que há de real em ser velho, quando há coisas boas e ruins em todas as fases da vida?

O tempo é abstração humana e enquanto o indivíduo for capaz de entender essa abstração ele estará dentro dela, do tempo. Que ninguém use o tempo para excluir ninguém. Entre o que há para brigar, e muito, é pelo respeito ao outro – os mais novos, os jovens, os adultos, os velhos. Todos dentro do tempo em que – você que leu até aqui irá concordar comigo – estamos vivos!

Até mais.

VANDRÉ, PRA NÃO ESQUECER QUE TIVEMOS DITADURA.

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geraldo vandré

Vim de longe, vou mais longe
Quem tem fé vai me esperar
Escrevendo numa conta pra junto a gente cobrar
No dia que já vem vindo que esse mundo vai virar…(1)

Há muita coisa por ser revelada desse triste período da nossa história… 1964! E quem está interessado em dizer que a “ditadura foi boa para o país” só pode querer minimizar culpas, receando cobranças sobre responsabilidades ou… demonstrar imensa ignorância e desconhecimento da história.

Recordo-me vagamente desse distante 1964. Depois soube de conhecidos presos, um tio de outro vizinho desaparecido e a irmã de uma grande amiga, escondida dentro de casa. Mas eu era criança e certamente aproveitei bem aqueles dias.

Eu vou levando a minha vida enfim
Cantando, e canto sim
E não cantava se não fosse assim
Levando pra quem me ouvir
Certezas e esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar… (2)

Seria bom perguntar para milhares de famílias cujos parentes, filhos, foram torturados, mortos, o que eles acham dessa tal “ditabranda”.

Prepare o seu coração
Pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão,
Eu venho lá do sertão,
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar…(3)

A vida de Geraldo Vandré, após a ditadura, já virou folclore. É certo que foi exilado e saiu daqui para o Chile, e de lá também teve que sair, indo para a Argélia, a República Federal da Alemanha, Grécia, Áustria, Bulgária, Itália, França… Mas Geraldo Vandré também foi intérprete, grande intérprete.

Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar
Luar sem amor, amor sem se dar… (4)

O compositor, enquanto porta-voz de sua gente, cabra-macho da Paraíba, não teve medo de chamar para a briga quando sentiu necessidade.

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos, de armas nas mãos
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão… (5)

Deixando-nos um convite irrecusável:

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer… (6)

Geraldo Vandré, provocando, fazendo acender a luz da incerteza, da desconfiança, abriu caminho para o conhecimento do que estava realmente ocorrendo.

Vida que não tem valor
Homem que não sabe dar
Deus que se descuide dele
Jeito a gente ajeita
Dele se acabar.
Fica mal com Deus… (7)

História pra ser vivida, pra ser lembrada. Tivemos uma ditadura. Conheçamos as consequências disto para que possamos tomar todas as medidas necessárias para que não se repita.

Até!

Nota – As músicas citadas acima são:
1 – Arueira –Geraldo Vandré
2 – Porta Estandarte – Geraldo Vandré e Fernando Lona
3 – Disparada– Geraldo Vandré e Théo de Barros
4 – Samba em Prelúdio – Baden Powell e Vinícius de Moraes
5 e 6 – Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores – Geraldo Vandré
7 – Fica Mal Com Deus – Geraldo Vandré

Palavras do Juca

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juca chaves

A situação do Brasil vai muito mal
Qualquer ladrão é patente nacional…
Porém, ladrão… isso tem pra todo o lado!
Caixinha, obrigado!(1)
.

Política confusa, ninguém chega a conclusão
Um lado diz que sim, e o outro diz que não… (2)
.
…Aqui não há problemas, pra que tanta confusão?
O povo passa fome, mas o Brasil é campeão! (Foi, Juca, foi!) (3)
.
Enquanto a nossa imprensa decadente
Se ocupa com farrinhas de garoto
Deveria zelar por essa gente inocente
Que marcha cada vez mais para o esgoto
Deveria apontar os criminosos
Que arruinando a prole ta maltrapilha
Da massa arranca impostos clamorosos, tão custosos
Pra verba dos cartórios em Brasília, que maravilha! (4)
.
Enquanto os empresários, operários da cobiça
Investem lá no norte, no norte da Suiça
Democracia é isto, é trabalhar contente
Pro caviar do nosso presidente… (5)

.

(e como nem tudo é só tristeza, Juca também fala de amor)
.
Eu quero uma mulher
Que seja diferente
De todas que eu já tive
De todas tão iguais
Que seja minha amiga,
Amante e confidente
A cúmplice de tudo
que eu fizer a mais… (
.
Na alameda da poesia
Chora rimas o luar
Madrugada e Ana Maria
Sonha sonhos cor do mar
Por quem sonha Ana Maria
Nesta noite de luar? (7)
.
(1) Caixinha, obrigado!; (2) e (3) A Situação; (4) Crítica das Críticas; (5) Honestidade; (6) A Cúmplice; (7) Por Quem Sonha Ana Maria; TODAS DE JUCA CHAVES.

UBERABA, DE CÓRREGOS E RIACHOS INDOMÁVEIS

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Minha querida cidade carece de atentar para o próprio nome. “Água brilhante”, “água clara”, “águas cristalinas” Yberaba! Água! Isto é Uberaba. A história da cidade está ligada ao Córrego das Lages e a história registra, por entre suas colinas existiam várias nascentes. Os mais velhos recordam córregos pelas, hoje, principais avenidas da cidade.

Lá pelas tantas – eu era adolescente – resolveram cobrir os córregos da cidade. Tentaram domar os córregos em nome de um duvidoso progresso, garantindo privilégios para carros e outros veículos e…  Ganhamos enchentes de “brinde”. Passaram-se os anos e recordo histórias de minha irmã em cima de balcão de estabelecimento comercial aguardando final de enchente, as águas escorrendo via Leopoldino de Oliveira, retomando o caminho do córrego escondido.

Recentemente uma obra gigantesca tentou solucionar os problemas das obras anteriores e ainda alardeou novidades, aproveitamentos… Muito tempo em que a cidade ficou caótica, o trânsito todo modificado pelos canteiros de obras que, com certeza, custaram milhões, muitos milhões!

Nesse último final de semana, veio a chuva, a chuva de São José! As imagens são terríveis!

enchente em Uberaba

enchente em Uberaba 2

Ao longo de muitos anos vários uberabenses gostaram da ideia de cobrir córregos e cobriram seus quintais. Quantos quintais e jardins impermeabilizados? Sem ter como escoar, sem ter por onde correr receio que as catástrofes continuarão.

E os estragos são imensos. E fico me perguntando: quanto tempo vai levar para que os dirigentes da cidade aprendam que com água não se brinca. Seria bom que eles lembrassem a velha canção de Padre Zezinho, cheia de verdades perenes:

… Água pequena desceu, cantarolou

Rochedo a interrompeu, ela o cavou

Homem tentou impedir, ela cresceu

Homem temeu sucumbir, água venceu

Nuvem choveu lá no céu, água subiu

Desceu fazendo escarcéu, tornou-se um rio

Homem tentou impedir, ele cresceu

Homem deixou água ir, luz acendeu…

O ser humano gaba-se de domar a natureza. E os resultados estão aí. No entanto, uma certeza nós, uberabenses, temos. Nossos córregos são indomáveis. Eles até desaparecem sobre o asfalto e trafegamos feitos donos da geografia. Vez em quando a grande mãe resolve nos lembrar do nosso real tamanho, das nossas reais condições e… Seguem seu curso. Quem sabe, algum dia, aprendamos a lição.

Até mais!

Nota: O nome da canção do Padre Zezinho é “O riacho é como a gente” e pode ser ouvida abaixo:

E a banda passa!

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chico e nara e jair

Jair Rodrigues, Nara Leão e Chico Buarque, em 1965

Nunca pensei em ver “A Banda” passar. Aquela mesma, “A Banda”, do Chico Buarque que prefiro na voz de Nara Leão e que, invadindo a infância, permaneceu no cantinho de meus grandes afetos. Há como não gostar de “A Banda”? E se de repente… E não é que a banda passou de novo! A história veio bonita e meio torta, bem torta mesmo; mas, quem tá preocupado com linha reta?

Eu não “estava à toa na vida” e sim, tomando banho. Aos poucos a música, de longe, foi se aproximando, se aproximando. Logo recordei ser o primeiro sábado após o carnaval, quando sai aqui pelas ruas do bairro um simpático bloco conhecido como “Enterro dos Ossos”, fechando as festas de Momo na Bela Vista. Meu amor, não me chamou! Mas me avisou que a banda subia a nossa rua vinda lá dos lados da Rua Martiniano de Carvalho em direção à Brigadeiro Luis Antonio.

“Despedi-me da dor” e ainda molhado, enrolado em toalha de banho, fui pra janela ver a banda passar. Estávamos todos lá: o “homem sério” abandonou o caixa e saiu para a rua e, nesta, “o faroleiro” empunhava copo de cerveja como troféu. Várias namoradas, de todas as formas, de todas as idades estavam acompanhando a banda ou paradas, no passeio, “para ver, ouvir e dar passagem”.

O bloco “Enterro dos Ossos” é cheio das manhas. Tem lá sua porta-estandarte, seu abre-alas – uma charanga toda colorida e enfeitada – e músicos que formam uma suave e deliciosa banda. Esta enche nossas ruas de velhas canções de outros carnavais. Pura nostalgia! Grandes marchinhas, marotas e sempre, sempre “cantando coisas de amor”.

Eu não estava pensando em Chico Buarque! Nem em Nara, nem na música que venceu o Festival de Música Popular Brasileira de 1965, empatando com “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, cantada por Jair Rodrigues. Nem mesmo pensava em fim de carnaval. Era apenas sábado e no domingo, dia 5, Daniela Mercury tomaria a cidade com seu Trio Elétrico e aí sim, eu iria fazer o meu “enterro dos ossos”. Foi então que…

Filmei a passagem do bloco pela minha rua para mostrar via redes sociais aos amigos e familiares. Quis registrar o contraste do “meu” quarteirão vazio e, a partir da esquina, a rua tomada pelo bloco. Lamento não ter o registro ideal, mas, caro leitor, observe no vídeo abaixo que há um pequeno edifício à esquerda em frente do qual o bloco está parado. E parou porque no segundo andar, no terraço, uma simpática velhinha dançava e acenava aos foliões. Como não lembrar que “O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou”?

Hoje é domingo; no outro, com Daniela Mercury, dancei pouco e tomei um banho de chuva de mais de duas horas. Esta noite está silenciosa e as ruas do Bexiga estão sossegadas. Essas mesmas ruas cheias de momentos como aquele em que, vendo a senhorinha dançando no terraço, dei-me conta e exclamei: “- Foi isso que o Chico Buarque viu!” e transformou em canção, e povoou o coração de milhares de brasileiros com lembranças de bandas que cantam coisas de amor.

Tempos bicudos. Tais como aqueles que vieram após o golpe militar. Recordo que, na época, havia murmúrios que condenavam a nostalgia de Chico por “fugir” da realidade com uma “velha” marchinha. Cinquenta anos depois, vendo “O Enterro dos Ossos” e a Bela Vista em festa veio-me a certeza de que é este o Brasil que é nosso; alegre, leve, suave, o país que “tomou seu lugar depois que a banda passou”.

A banda ou o bando que tomou o país em 1964 passou; outro bando que está por aí, impedindo o país de cantar, também terá seu fim. Paramos para brincar carnaval, mas já voltamos. Estamos aqui, atentos, prontos para continuar. E lutaremos por um país melhor porque também amamos bandas, blocos, carnaval, e belas senhorinhas cantando nos terraços.

Até mais!

Curso de Produção Cultural e Captação

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Sonia Kavantan já realizou dezenas de cursos contribuindo na formação de produtores culturais de todo o Brasil. Nos dias 17,18 e 19 de março – um final de semana – ela ministrará o curso em São Paulo. Neste post uma breve síntese do CURSO DE PRODUÇÃO CULTURAL E CAPTAÇÃO.  Maiores detalhes no site http://www.kavantan.com.br/cursos.

Conheço Sonia e já fizemos muitos trabalhos juntos; para quem ainda não conhece, veja abaixo:

facilitadora

Entre os vários trabalhos que fizemos juntos está o Arte na Comunidade que, em sua primeira versão, visitou os estados do Pará e Maranhão, com a peça O Casamento do Pará com o Maranhão. A imagem da peça sobre abaixo, sobre os aspectos práticos da produção cultural é do cartaz da peça, que fez longa temporada na região amazônica.

arte 1

Para concluir esse breve post, a síntese do programa do curso, cujo conteúdo é fundamental para todo profissional que trabalha com teatro, exposições de arte, eventos musicais, cinema e outras atividades correlatas.

programa

Uma indicação para os leitores deste blog. Entrem em contato e saibam todos os detalhes com o pessoal da Kavantan & Associados.

Até mais!

Vila Maria é Emoção no Carnaval

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Ala das Baianas da Vila Maria. União do sagrado e do profano.

A história comprova: O que fica de um bom carnaval é a velha e intensa emoção diante da musa, da alegoria, da fantasia engraçada… Para uma escola de samba vencer o campeonato é exigido muito mais.  Tudo começa com um belo e bom enredo a soma de todas as alas, todos os quesitos, todos os detalhes atingindo o coração do público leva à vitória, independendo de resultados oficiais. Assim, sem receios, sem titubear: vou guardar o carnaval de 2017 como aquele em que, pela primeira vez, fiquei intensamente emocionado por uma escola, a Unidos de Vila Maria.

“Aparecida – A Rainha do Brasil; 300 anos de amor e fé no coração do povo brasileiro” foi o enredo que uniu com rara competência o sagrado e o profano. O carnavalesco Sidney França estreou celebrando o jubileu dos 300 anos da aparição da imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul. Os pescadores encontrando a santa foi mote para subir imensa escultura na abertura do desfile que, ainda, teve como destaque a ala das baianas vestidas tal qual a Santa e terminando com chave de ouro ao colocar réplica da basílica transformada em alegoria.

Aos teus pés vou me curvar

Senhora de Aparecida

A prece de amor que nos uniu

Salve a Rainha do Brasil

O samba de Leandro Rato, Zé Paulo Sierra, Almir Mendonça, Vinicius Ferreira, Zé Boy e Silas Augusto contou linearmente o enredo proposto. Saltando da história para os hábitos atuais, a Vila Maria mostrou que é possível tratar de temas aparentemente impensáveis dentro da tradição carnavalesca.

A primeira noite do carnaval de São Paulo teve Elba Ramalho na abertura. A cantora foi  carregada feito santa por um grupo de rapazes da Tom Maior, o que conota lembranças nada agradáveis de senhorias incapazes de andar com as próprias pernas… A Mocidade Alegre veio correta, sem conseguir empolgar a plateia. Depois da Vila Maria, a emoção continuou com o desfile da Acadêmicos do Tatuapé que, com o enredo “Mãe-África conta a sua história: do berço sagrada da humanidade à terra abençoada do grande Zimbabwe” fez um carnaval para vencer o campeonato no grupo especial.

Que me perdoem as outras, já vou para o segundo dia, direto para a Unidos do Peruche. A segunda escola que passou pelo sambódromo, no sábado, cantou Salvador “Cidade da Bahia, Caldeirão de Raças, Cultura, Fé e Alegria”. A comissão de frente lembrou grandes ícones da cidade: atores representando Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e, entre outros, Jorge Amado e Raul Seixas, abriram o desfile da escola, dançando com leveza e graça.

A riqueza de detalhes é o maior trunfo da Império da Casa Verde. A campeã de 2016 veio íntegra, luxuosa, com alas inteiras fantasiadas com o maior capricho e, notável, a maquiagem dos foliões. É comum ver gente desfilando com cara amarelada, piorada pela iluminação exagerada. Ao fazer da maquiagem complemento da fantasia, Jorge Freitas garante bons pontos para a escola.

De repente a lembrança de Gonzagão emociona até corações endurecidos. A emoção volta a imperar com a escola Dragões da Real que homenageou “Asa Branca”, a música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Triste por si, Asa Branca conta a história, infelizmente atual, dos problemas decorrentes da seca, mas a história aposta na esperança, em “samba em forma de oração”… “Que eu voltarei, viu, pro meu sertão”.

Fonte inesgotável para bons sambas, o nordeste e, especificamente a Bahia, propicia mais emoção no carnaval. É a Vai-Vai com “No Xirê do Anhembi, A oxum mais bonita surgiu – Menininha, Mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil”.  Há muito que a Vai-Vai não fazia um desfile tão intenso, com fantasias de rara beleza, da primeira à última ala. Se for a campeã, será título merecido para a escola da Bela Vista.

Outras agremiações passaram pelo Anhembi mostrando sua força. A Rosas de Ouro provou publicamente seu carisma, mantendo a plateia cativa, aguardando essa que foi a última escola a desfilar no grupo especial para um “banquete de alegria”.  O enredo da roseira diz, em determinado momento, “não importa a religião, Salve Cosme e Damião”. Salve! Quem irá negar saudação aos santos, a Nossa Senhora Aparecida, à Mãe Menininha do Gantois? O melhor do carnaval continua sendo a capacidade de fazer sorrir e, tocados profundamente, até mesmo chorar.

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A Basílica na Avenida. O inusitado que emociona.

A Liga das Escolas de Samba de São Paulo buscou neste 2017 uma formação diferenciada para os jurados. Todos os apaixonados por carnaval estão ansiosos, aguardando os resultados para saber o que se passou na cabeça do grupo de juízes formado por gente de fora da cidade, que foi para a cabine via sorteio, após concurso acirrado. Que venha a campeã! A vitória importa para todos os que lutaram para fazer a grande festa. Para quem ama o carnaval, importa que a festa continue grande e bela.

Eu aposto e desejo que a campeã seja a Vila Maria. Ficarei contente se for a Vai-Vai, a Tatuapé, a Peruche… O júri pode decidir por outra, sem problemas. Como todo júri é soberano, fazer o que? Júri nenhum manda no coração da gente. O meu coração, em 2017, é todinho da Vila Maria.

Até mais.

Braguinha, Pra Cantar no Carnaval

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braguinha

Em tempos de sambas de enredo longos, complicados, nada melhor do que lembrar as marchas que, entra ano e sai ano, são a alegria dos foliões. Compositores, carnavalescos e dirigentes de escolas de samba deveriam atentar para o carnaval de rua voltando com tudo até em São Paulo. Sempre com alegria e músicas que encantam e alegram a festa.

Um bom carnaval carece de gente bamba e entre os bambas há um compositor dos bons: JOÃO DE BARRO, o BRAGUINHA (CARLOS ALBERTO FERREIRA BRAGA – 1907/2006). Quem nunca cantou uma marchinha carnavalesca de Braguinha?

“Yes, nós temos bananas

Bananas pra dar e vender

Bananas, menina, têm vitamina

Banana engorda e faz crescer…”(1)

Descomplicado. Próximo de tudo o que é popular. Este é BRAGUINHA. Nada de grandes malabarismos temáticos; sem pretensões de sociólogo ou antropólogo. É carnaval, é alegria, uma brincadeira para todo cidadão.

“Ô balancê, balancê

Quero dançar com você

Entra na roda, morena, pra ver

O balancê, balancê…” (2)

gal-e-carmen

Gal Costa e Carmen Miranda, intérpretes de Balancê.

A música de BRAGUINHA é marota, essa palavra meio esquecida em tempos difíceis como o nosso. O compositor encanta pela simplicidade, por uma sensualidade suave, brejeira, que permite o galanteio (atitude também meio perdida nas baladas contemporâneas) com a elegância do indivíduo de bem com a vida.

“Lourinha! Lourinha!

Dos olhos claros de cristal

Desta vez em vez da moreninha

Serás a rainha do meu carnaval…” (3)

Nossos carnavalescos (os “donos” dos temas das escolas, cujas sugestões são transformadas em sambas de enredo) adoram situações exóticas, diferentes, levando as nossas escolas a grandes viagens. BRAGUINHA, sempre descomplicado, mas com uma eficiência invejável, levou-nos para a Martinica, imortalizando uma tal Chiquita (4) e transportou-nos para as Touradas em Madri com aventura e  muito humor. Sem muito lero-lero.

“… Eu conheci uma espanhola

Natural da Catalunha

Queria que eu tocasse castanhola

Que pegasse touro à unha…” (5)

Poucos e eficientes versos, música inspirada e a alegria está garantida. PIRATA DA PERNA DE PAU (6) e PIRULITO (7) estão entre as composições de BRAGUINHA, ainda presentes nos carnavais atuais, onde o povo canta e dança sem a busca desesperada do primeiro lugar dos integrantes de escolas de samba.

É bom frisar que gosto muito de escola de samba. Quando não estou na arquibancada, nem na “passarela”, fico horas frente à TV vendo os desfiles (e me irritando com as transmissões mal feitas!). Sinto falta de bons sambas-enredos. Hoje em dia, via de regra, os sambas de enredo são cantados apenas por integrantes das escolas e raramente vão além do carnaval. Raras exceções, os sambas das grandes escolas são músicas “consumidas” e logo substituídas pelo tema do próximo ano.

Acredito que um caminho para o carnaval é beber nos grandes mestres. Música simples, com letras brejeiras, alegres, como as de BRAGUINHA e seus parceiros, destaque especial para Alberto Ribeiro e Noel Rosa.

O bom de carnaval é a brincadeira, é cantar e dançar ao som de uma boa música. Que tal pesquisar, lembrar e cantar nossos grandes mestres? João de Barro, o Braguinha, é o autor de Carinhoso (com Pixinguinha), fez a versão de Luzes da Ribalta (Charles Chaplin) totalizando cerca de 400 músicas gravadas. Assim, sem mais, vamos concluindo este post com uma das mais belas músicas do carnaval brasileiro:

A estrela Dalva

No céu desponta

E a lua anda tonta

Com tamanho esplendor… (8)

Até!

Notas :

(1) Yes, nós temos bananas – João de Barro/Alberto Ribeiro (1938. Gravação original de ALMIRANTE).

(2 )Balancê – João de Barro/Alberto Ribeiro (1937. Gravação original de CARMEN MIRANDA, sucesso também no carnaval de 1980 na voz de GAL COSTA).

(3)Linda Lourinha – João de Barro.(1934. Gravação original de SYLVIO CALDAS).

(4) Chiquita Bacana – João de Barro/Alberto Ribeiro (1949. Gravação original de EMILINHA BORBA).

(5) Touradas em Madri – João de Barro (1938. Gravação original de ALMIRANTE).

(6) Pirata da Perna de Pau – João de Barro (1947. Gravação original de NUNO ROLAND).

(7) Pirulito – João de Barro/Alberto Ribeiro (1939. Gravação original de NILTON PAZ e EMILINHA BORBA).

(8) Pastorinhas – João de Barro/Noel Rosa (1938. Gravação original de SYLVIO CALDAS).

Intertexto Paulistano

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basquiat-bananas

Uma banana Basquiat

Para Sonia Kavantan!

Uma banda sinfônica é desmantelada pelo Governo do Estado de São Paulo. Faltam recursos! Parece que há planejamento e aprovação de orçamento de um ano para outro; a tal banda estaria dentro desse orçamento, mas por falta de recursos (E o planejamento?) foram todos demitidos. Li nos jornais que os músicos serão chamados quando houver apresentação com patrocínio. Quem buscará essa grana?

Várias atividades artísticas dependem de patrocínio para que possam sobreviver.  Há um mundo interessado em baixos custos e altos lucros. Bandas sinfônicas, por exemplo, não são exemplos aceitáveis para tal mercado. Esse aspecto – alto custo – na formação de um artista e na manutenção de grupos de música, de dança e similares é tão discutível quanto os lucros advindos de tal atividade. O que é indiscutível e mesmo impensável é o mundo sem música; boa música.

Grosso modo toda forma de arte tem aspectos eruditos e populares; nessas acepções estão formas com maior potencial para comercialização, afluência de público e consequente retorno para quem banca a formação, e o trabalho, de artistas que obtêm respostas rápidas e vantajosas para produtores e patrocinadores. Óbvio, algumas formas artísticas recebem grandes somas de investimentos e outras ficam na dependência de recursos advindos de instituições públicas ou privadas, sendo que nessas últimas, o dinheiro tem vindo atrelado aos possíveis benefícios fiscais oferecidos pelo Estado.

É pela popularidade, e “facilidade” (entre aspas, pois não pretendo diminuir o trabalho de ninguém), que algumas formas recebem grossas somas de dinheiro privado e outras ficam dependendo da verba de orçamentos que são passíveis de “vontade política”, ou seja, o cidadão no poder direciona as verbas conforme os próprios interesses. Um angu de caroço, já que o artista que recebe grana submete-se ao “objetivo de marketing” do patrocinador enquanto o outro, sem grana, mas patrocinado pelo Estado, vive a insegurança das mudanças de poder.

Quem pode negar a necessidade de uma banda sinfônica? Não é porque a ideologia dominante prega rápido retorno financeiro e máquina enxuta que comunidades inteiras deverão desprezar os benefícios de uma ou outra atividade artística; o conflito é praticamente inevitável e as discussões e debates devem ser exercício constante. Algumas questões não devem ser deixadas ao esquecimento: um artista, no exemplo o músico, não se define ao acaso, mas pelo estudo e aquisição de técnica que demanda, além de tempo, grana para a aquisição de instrumentos, pagamento de professores e de todo um conjunto de profissionais que viabilizarão todo o trabalho: da formação do artista aos recitais do mesmo.

Uma imprensa duvidosa empreendeu, em tempos recentes, ataques a artistas que buscaram patrocínio via Leis de Incentivo Fiscal. Entre os vários casos lembro Maria Bethânia e Claudia Leite e, bom notar, independentemente do certo ou errado da tentativa de ação de cada artista, nenhum jornal criticou as empresas que patrocinam, já que são potenciais anunciantes. Usaram sua máquina para denegrir uma ação (site, no caso de Bethânia, show no caso de Claudia Leite) e uma forma de concretizá-la (o patrocínio obtido via Lei). Precisamos estudar as Leis de Incentivo.

A produção cultural, quando pensamos em arte, tem finalidades bem definidas. Há uma função pedagógica e há uma função expressiva. Ao escolher o que produzir – nisto está implícito o como – cooperamos no tipo de sociedade que queremos; nos benefícios que desejamos para todos os envolvidos; e é por questões tais como essas que a ética deve permear a ação de artistas e produtores. É necessário refletir sobre o papel dos produtores culturais, de patrocinadores.

A discussão é ampla e o debate deve ser contínuo. O que é imediato é a necessidade de pensar e refletir sobre as mudanças na educação e os rumos culturais possíveis advindas de atitudes como o desmantelamento de uma banda sinfônica. O que não dá é deixar passar em branco as ações de governos – municipais, estaduais e federais – que colocam em risco o futuro de todos nós. Não se trata de pensar exclusivamente em uma categoria profissional, mas no que cada forma artística representa e em tudo o que pode decorrer da supressão de ambientes em que atuam tais artistas.

Hoje, um amigo lembrou Bertolt Brecht, pois em duas esferas de São Paulo, municipal e estadual, estamos vendo as ações de indivíduos com princípios – ideologia – similares. Um Intertexto (o poema de Brecht). Um Intertexto paulistano. É preciso ficar atento! Sem alimentar neuras, mas ficar atento. Se preciso ir à luta.

“Primeiro, mandaram a Virada Cultural para a periferia,

Mas não me importei com isso

Eu não trabalho nela.

Em seguida proibiram pichações, pintaram grafites…

Mas não importei com isso

Eu também não era grafiteiro

Depois acabaram com a banda… (*)”

.

Até mais.

(*) Conheça o poema de Brecht: 

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

(Bertolt Brecht)

Uma brasileira não desiste nunca!

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Gosto de inventar histórias. Esta, abaixo, foi escrita há bastante tempo, para homenagear a Bibi, aniversariante do dia. Tava esquecida em arquivos não disponíveis. Vale a pena resgatar para, sobretudo reafirmar meu afeto e o título da história:

UMA BRASILEIRA NÃO DESISTE NUNCA!

vodka

Essa história rolou na calada, pouca gente soube e por ser esta uma ocasião especial chegou o momento de contá-la.  Em Uberaba, lá em Minas, junto com o mês de fevereiro chega um monte de garotas novas. São jovens ocupando vagas nas Universidades da cidade. Abre-se a temporada de caça para as novatas e a remarcação de território das meninas da cidade.

Ano passado chegou uma moça, como se diz por lá, metida à besta, uma fubá! Era de Barretos, São Paulo, e gabava-sede ser tão boa quanto qualquer peão se o assunto fosse copo. Não havia cerveja que a derrubasse! Tinha vindo pra Uberaba junto com uma prima, de Catalão, em Goiás, que também se gabava de derrubar toda a cachaça de um bar. Parecia ser esse o “marketing” das novatas frente aos rapazes uberabenses. As duas só entoavam música da banda SAIA RODADA.

Vamos “simbora” pra um bar

Beber, cair, levantar

Vamos “simbora” pra um bar

Beber, cair e levantar

Beber, cair e levantar…

Começaram a reinar nas noites de domingo, em frequentado bar da Avenida Santos Dumont. Tudo caminharia bem senão fosse pelo ato de beber e falar demais. Beber não era problema, mas falar pelos cotovelos… Certo dia, de cara cheia e língua solta, começaram a menosprezar as filhas da terra, afirmando que não haveria em Uberaba ninguém capaz de derrubá-las na bebida.

Mineiros, em geral, são quietinhos e, é conhecimento de toda a nação, dão um boi pra não entrar em uma briga e uma boiada inteira pra não sair. Estava armada a contenda. Tudo bem beber, tudo bem namorar alguns rapazes, mas menosprezar uberabense era demais! Foi tudo muito rápido. Mal as duas disseram as bobagens para que uma uberabense prontamente aceitasse o desafio, desde que a bebida fosse vodka.

A paulista de Barretos não titubeou em aceitar o desafio, muito menos a prima de Catalão. Segundo elas, traziam bebida antes mesmo da concepção, posto que os pais de ambas haviam tido PEPINO DI CAPRI como ídolo.

Champagne per brindare um incontro

Con te Che già eri di un altro

Ricordi c’era stato um invito:

Stacera si va tutti a casa mia…

A Uberabense caiu na risada com a história do champagne. Só poderia ter dado naquelas duas. Onde já se viu tanto romantismo estrangeiro! Cheia de orgulho familiar, a mineirinha contou que, desde o bisavô, o lema da família já tinha sido imortalizado por INEZITA BARROSO:

Pego o garrafão e já “balanceio”

Que é pra mor de vê se tá mesmo cheio

Não bebo de vez porque acho feio

No primeiro gorpe chego inté no meio

No segundo trago é que eu desvazeio

Oi, lá!

Estava claro que a contenda seria boa! Grande! Os rapazes rodearam as meninas, armou-se uma banca de apostas e até um sujeito, galã por conta de uma mãe mentirosa (Ela falou e ele acredita que é!), resolveu premiar a vencedora com ROBERTO CARLOS.

Amanhã de manhã

Vou pedir um café pra nós dois

Te fazer um carinho e depois…

A indignação foi geral. Entrar com café antes do porre? Se houvesse tido um ensaio não teria saído tão perfeito. As três bebedoras responderam e mandaram às favas o galã em uníssono, com a força do velho e ótimo CHICO BUARQUE:

Pai! Afasta de mim esse cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice…

E a mineirinha emendou, colocando o chato pra escanteio, quebrando tudo com o BARÃOVERMELHO, banda do coração da moça:

Embriague-se, embriague-se

De noite ou ao meio dia

Embriague-se, embriague-se numa boa

De vinho, virtude ou poesia…

O barman resolveu incrementar a contenda, dando uma rodada de graça para todos os presentes. Interessado em ampliar vendas criou, de imediato, uma primeira regra para as três concorrentes: aquela que fosse ao banheiro estaria fora do jogo. As duas forasteiras gabaram-se do título de “bexiguinhas de ouro” conquistado numa noite como aquela, na Festa do Peão de Barretos.

A segunda regra criada pelo barman foi baseada em célebre sucesso de ELIZETH CARDOSO. O início da peleja seria com a banda residente tocando “Eu bebo Sim” três vezes e a concorrente que tomasse a maior quantidade de tragos durante a execução da música, corresponderia a pontos na disputa. Portanto, não bastaria manter-se de pé; a vitória seria dada a quem bebesse mais durante toda a noite. E a banda mandou ver:

Tem gente que já ta com o pé na cova

Não bebeu e isso prova

Que a bebida não faz mal

Uma pro santo, bota o choro, a saidera

Desce toda a prateleira

Diz que a vida ta legal

Eu bebo sim…

A moça de Barretos tomou 19 doses e a de Catalão, 18. A mineirinha… 22. As três, nessa altura, encostadas no balcão, já tinham os olhos vidrados, a boca pastosa, as pernas bambas, a cabeça pesada. Nenhuma dava sinais de um possível abandono da luta.

Uma hora depois, com outras três garrafas esvaziadas a coisa parecia chegar ao final, quando bateu a falta de elegância. A caloura de Catalão pediu um balde e, vomitando, foi desclassificada. A moça de Barretos tomou ares de vitoriosa e a mineirinha resolveu fazer serenata para o próprio copo, embalando este e lembrando CAZUZA:

Benzinho, eu ando pirado

Rodando de bar em bar

Jogando conversa fora

Só pra te ver passando, gingando…

A expectativa crescia e, como todo mineiro é precavido, a ambulância já havia chegado preparada para tratar comas alcoólicos. A banca de apostas crescia e o bolo chegava perto dos dez mil reais, dinheiro vivo, metade destinada à vencedora. Percebendo a proximidade do fim, o barman,resolveu abrir outras quatro garrafas de vodka, garantindo com isso, mais quatro vendas. As meninas encararam e um imbecil lembrou outro imbecil, famoso nas transmissões esportivas, onde, em qualquer jogo, solta a pérola: – Dramático! É um jogo de vida ou morte!

Antes de terminarem a segunda garrafa, das últimas disponíveis, a moça de Barretos caiu sobre o copo, escorregando feito lesma chão abaixo. O bar inteiro ovacionou a mineirinha que, com um grito de “chega!”, calou todo mundo, emendando para espanto geral: -Gente, eu estou só começando!

Sem dividir as garrafas restantes com ninguém, guardando o dinheiro obtido na disputa em uma bolsa a tiracolo,caiu ao começar a quarta garrafa. Quando correram pra socorrê-la, outro grito: “-Pode parar que eu ainda não acabei”. E ainda com cérebro para lembrar-se de uma conhecida lá de Belém do Pará, soltou a frase que ninguém, presente no bar naquela noite, jamais esquecerá: “- Eu bebo até cair e quando eu caio bebo deitada, porque sou brasileira e não desisto nunca!”

Essa mineirinha lembra outra que faz aniversário neste dia 6. Certamente  BIBI não beberá tanto quanto a dessa história, mas que  vai beber, isso vai!

bibi

Feliz aniversário, Adryana Gabriela!

 

Até!