Usuários ou otários?

Com certeza não sou o único no planeta que, ao ligar o computador, o infeliz emperra exigindo que eu faça uma atualização não solicitada. Ocorre também com o telefone, com sites, apps e o escambau. Atualização! E dá-lhe sabe-se lá qual novidade, pois quando a máquina volta a funcionar nada acontece. Só uma certeza: não é para minimizar os custos dos programas, das assinaturas, das licenças de utilização. Outra certeza é a que, com um tempo muito curto, nossos aparelhos ficam incapazes por não comportarem tanta novidade tornando-se obsoletos e obrigando-nos a comprar um novo.

Não possuindo um computador que “canta Babalu em grego” e não tendo internet poderosa como a da ONU, as coisas demoram mais um pouco aqui em casa. Isto é: ontem, por exemplo, foram HORAS aguardando as atualizações “exigidas” e baixadas sem terem sido pedidas. A razão do tempo maior, é a lenda, foi por ter ficado mais de uma semana sem ligar o computador, daí terem acumulados novidades que, após as malditas esperas, não são minimamente percebidas.

Uma maquininha das boas está pelos olhos da cara. Algo que vai de 8 a 10 mil reais para quem pode pagar e há outras, por volta de 2 a 3 mil reais para serem adquiridas em 10 prestações sem juros, como é o caso do meu objeto, como comprova a imagem. Aqui está o x da coisa e a razão do ódio. PAGO E O OBJETO NÃO É MEU. O fabricante me cede um “espião” para vigiar meus desejos, vontades, necessidades e só não envia meus nus para o espaço porque não os faço. Compro um objeto que, para ser usado, careço de comprar programas e pagar sites e pagar, e pagar e pagar… Ganhar mesmo, só os malditos vírus.

Será que sou o único a me descabelar de raiva dessa situação? Será que mais alguém sonha com autonomia sobre um mero aparelho de uso pessoal? Nossos governantes não deveriam atuar para impedir essas enormes extorsões camufladas em “atualizações”? Para usar este word acabo de pagar R$ 449,00 mais impostos. Ao invés de um “obrigado”, os canalhas me enviaram um e-mail informando a data da nova cobrança em 2024. Ou seja, é como se a velha Remington ou sua contemporânea Olivetti me cobrassem aluguel pelo uso das teclas datilográficas.

Considero como a primeira grande aquisição da minha vida uma máquina de escrever Olivetti Studio 46. Leve, útil, pequena o bastante para não se tornar um estorvo. Uma paixão que me acompanhou por muitos e muitos anos. Cuidadoso, nunca precisei encaminhá-la ao conserto e tinha um único problema: a fita com tinta nas cores preta e vermelha um dia acabava. Como bom produto que era, avisava na medida em que ia perdendo nitidez, o preto virando cinza, o vermelho um rosinha vagabundo. Às vezes uma cor terminava primeiro. A gente usava a outra, acionando apenas uma tecla.

Não tenho a menor intenção em voltar ao século XX para reviver as dores e as delícias da datilografia. A questão é que já perdi as contas de quantos computadores tive, e maior ainda a quantidade de telefones celulares descartados por “incompatibilidade” com novidades não desejadas. E assim vou indo: De um lado, me sinto superior perante, por exemplo, a indústria automobilística, e gosto de me gabar por não ter sucumbido ao desejo de comprar um “carro do ano”, cuja maior novidade costuma ser coisas do tipo maçaneta diferentona. De outro lado, sou o otário que contribui para o lixo eletrônico com aparelhos em bom estado, mas tornados inúteis pelos seus malditos fabricantes ou que é obrigado a esperar por uma “atualização” que não fará absoluta diferença no meu cotidiano.

Minha arma é a escrita. Quem sabe um dia, ainda nesta encarnação, consiga ver esse quadro modificado. Me resta escrever e provocar: você, caro leitor, que se acha o máximo por comprar carro do ano, o último celular, o computador mais poderoso! Tu é tão otário quanto eu, mesmo sobrando a grana para pagar todas as contas de despesas desnecessárias. Portanto, deixe de ser otário e faça sua parte nessa contenda. Vamos formar um clube da luta contra essa joça toda?

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