A foto de Nair Bueno, do Diário do Litoral, é triste:

Seria aquele que vi por aqui? O gavião apareceu morto no asfalto. Pode ser o que andava pelos telhados vizinhos, pode ser aquele que andou defendendo seu ninho à bicadas em distraídos transeuntes. Os ratos estão em festa. Menos um gavião para exterminá-los. Um elo da cadeia que se rompe e que nos leva ao desequilíbrio. Parece exagero, não é.
Por mais que se ame um lugar é questão de maturidade encarar questões que enfrentamos advindas das características locais. Arborizada e ensolarada, recortada por canais que drenam a cidade, o jardim da orla de Santos tem mais de 5.000m de cumprimento em área imensa, 218.800m²! Santos seria um imenso e belo jardim não fosse… a ação do homem.
O belo sistema de canais da cidade nos permite ver peixes, aves e, infelizmente, lixo. Quando a água está baixa fica mais evidente os sinais de esgoto e diferentes tipos de resíduos que deveriam ter outro destino. Somando restos de alimentos de barracas comerciais, de lixo mal condicionados para a coleta, às vezes expostos fora do dia quem que passam os coletores, o resultado é um número incalculável de ratos e baratas. Quem tem hábito de caminhar pela noite conhece essa realidade.
Ao longo do belíssimo jardim da orla há feiras semanais, barracas vendendo comida e bebida, restaurantes e ambulantes, além daquilo que vem com os próprios frequentadores. Há centenas de lixeiras ao longo das calçadas, frequentemente esvaziadas, o saco plástico recolhido por um exército de garis que também varrem a praia, recolhem o que foi deixado na areia por gente mal educada. Os funcionários públicos passam duas vezes ao dia no local. Para quem frequenta, é comum ver após a passagem do colorido grupo da limpeza a ação de gente que deixa restos de alimentos, favorecendo a alimentação dos ratos.
Uma das razões garantindo equilíbrio entre ratos, baratas e seres humanos são os pássaros. Gaviões e corujas comem ratos e pombinhas, assim como essas comem baratas. Não se trata aqui de fazer um extenso estudo demonstrativo do funcionamento do equilíbrio ambiental. O que importa é o recorte que nos leva a perceber que exterminar um ou vários animais é fato que nos levará ao caos ambiental.
Um gavião apareceu morto no asfalto. O finado comeria cerca de 1000 ratos em um ano. Mais aves mortas e o problema será alarmante. E a cidade, sempre linda, merece permanecer assim. Talvez o bichinho tenha morrido ao bater contra um vidro transparente, uma das consequências dos fortes ventos que tivemos por aqui. Pode ter sido abatido por um tiro de chumbo. Há gente besta e armada por aí! O certo é que precisa ser intensificado o cuidado para com aves e outros predadores de insetos e roedores. Esse cuidado deve ser acompanhado de comunicação, informação para evitar o fim que também pode ser o nosso.
O jardim da orla de Santos é um local mágico. Entre o mar e a cidade estão centenas de árvores, plantas ornamentais, floreiras, monumentos e conjuntos escultóricos por onde circulam 300 espécies de pássaros. Incalculável diversidade de insetos polinizam as plantas não só da orla, mas de todos os jardins e ruas da cidade. E são eles, os pássaros, que garantem equilíbrio para que tais insetos não se constituam em pragas.
Com tantos pássaros enfeitando e enchendo a paisagem com suas cores e trinados, não é incomum ver uma ou outra ave morta, caída no jardim. Às vezes ferida, sabe-se lá por qual inimigo. A morte do gavião nos chama atenção por a vítima ser adulta, estar em aparente vigor físico. Em meio à tanta violência entre os humanos é provável que não investigarão os motivos, os culpados. Sairemos todos perdedores.
Ainda que nao houvesse bem nenhum, um animal lindo, inofensivo, exuberante e que merece viver.
Morre o gavião, a natureza, e cada dia mais a esperança de dias melhores e seres humanos melhores…
Ou será que a natureza humana procura fazer o mesmo, reagindo e exterminando aqueles que considera uma ameaça…