Quatro anos: Carta a Lorenzo

Um acontecimento pode ser comum e, ao mesmo tempo único, pelo fato de assim o ser na vida das pessoas envolvidas. Um aniversário que não pude comparecer acendeu uma luzinha sobre o tempo perdido e as consequências disso na vida das pessoas. Um aniversário revela o tamanho de uma vida. Daí minha carta ao aniversariante que, espero, venha a ser tão meu amigo quanto seus familiares.

Carta a Lorenzo.

Santos, 23 de Julho de 2023

Quanto tempo, Lorenzo! Já se foram quatro anos.

Cheguei à maternidade um ou dois dias após você ter nascido, naquele julho de 2019. Terminando a amamentação sua mãe te colocou, confiante, em meus braços. Estávamos felizes, teus pais e eu, falando baixinho como convinha ao momento.

Eu já sabia desse nome, Lorenzo, embora tivesse sugerido para que o batizassem Francisco, o Chiquinho de Assis. Sua avó, Regina, quem me passou a informação: Lorenzo! Os pais escolheram! Nome bonito! Deixa o Chiquinho para outra oportunidade.

Você ficou quietinho no meu colo. Acredito que seja esse um sinal de amizade se estabelecendo. E assim, logo vieram os primeiros meses. Luciana sendo a mãe que a gente esperava e Regina adorando a ideia de ser avó. Todo mês durante o primeiro ano rolou uma foto via internet, uma mensagem; os amigos acompanhando seu crescimento.

De repente o planeta entrou em caos. Você teve a boa sorte de ignorar tudo aquilo e de estar longe do burburinho de São Paulo, protegido na pacata Araçariguama. Tua família obedecendo aos protocolos todos para que a epidemia não chegasse até você. Foram tempos difíceis que, espero, não voltem a se repetir.

Embora raramente nos tenhamos visto, sempre soube de você. Nos vimos muito rapidamente no lançamento do meu livro, O vai e vem da memória. Isso ainda em tempos de máscaras escondendo e ao mesmo tempo protegendo o rosto das pessoas. Fora essa rápida passagem, acompanhei teu crescimento via contato com sua avó. Fase por fase. E fico feliz sabendo que você está em meio a muito verde, muitas frutas, flores, pássaros, cachorros. Provavelmente, em breve será você a cultivar a horta, cuidar do pomar.

Lá se foram 4 anos! Restabelecida a normalidade, outras tantas mudanças se concretizaram. Agora, por exemplo, moro em outra cidade, vivo outra vida. O que me dificultou nesse momento e acabou que não consegui comparecer às comemorações de seu quarto aniversário, aumentando mais um pouco esse tempo desde seus primeiros dias. Todavia, tenho certeza, foi uma linda festa e você esteve em companhia de muita gente querida. E deve ter sido tudo muito divertido!

Quatro anos! Quantas coisas passaram por todo o planeta desde então. Você, Lorenzo, é um dos símbolos de esperança, de luta e de vitória. A certeza de que tudo passa e, de que, o que vale são esses momentos de alegria ao lado dos familiares. De que tudo o que foi preservado, de tudo o que merece ser preservado. A vida segue! Que Nossa Senhora da Saúde, tão cara à sua avó, cuide de você e o proteja por toda a vida.

Feliz aniversário. Grande abraço!
Valdo

Encontro na Pinacoteca Benedicto Calixto

Vista noturna da Pinacoteca. Arquivo pessoal.

Clipping do A Tribuna

Todos estão convidados!

Até lá.

Chico solitário em manhã de domingo

Uma rápida saída e caminho pela Praça Rui Barbosa, nesse domingo ensolarado de Uberaba. O céu azul desse dia brilhante tem, no alto da torre da catedral metropolitana, a imagem de Cristo soberano, vigilante, tomando conta de tudo que sempre foi dele. Me sinto solitário caminhando pela praça vazia, com um ou outro veículo subindo ou descendo indiferente à beleza das árvores, ao canto dos pássaros. Os automóveis estão com vidros escuros, fechados, escondendo passageiros.

Passo por Chico Xavier, cuja escultura aparenta ser como as tantas que há por aí, as cidades homenageando pessoas ilustres. O médium está sentado no lado esquerdo do banco, usando paletó e boné, calças e sapatos simples. No colo, sobre as pernas unidas segura um livro transformado em suporte para livros reais, flores murchas e uma enorme, artificial. Na capa do livro que está na frente lê-se o título: O caso dos exploradores de cavernas. Não guardei o nome do autor e, registrando o momento em foto, não consigo decifrar o sujeito. Com certeza, não é da autoria de Chico.

Desço pelo calçadão da Rua Artur Machado que, nessa manhã, tem uma única loja aberta, dois vendedores ávidos oferecendo bolsas, mochilas, carteiras. Entro à esquerda na Avenida Leopoldino de Oliveira. Feia, sem charme algum. Não consigo ver graça em asfalto e corredor de ônibus onde um dia houve um córrego, muretas baixas que nos serviam de acento sob árvores que ofereciam sombra refrescante. A avenida está vazia de gente, cheia de carros que correm para não sei onde.

Após sair da farmácia caminho até ao Mercado Municipal. Estou tão solitário quanto o Chico. Ele, parado enquanto ocupantes de veículos passam indiferentes. Tento me dominar, evitando a irritação diante do Cine Metrópole abandonado. É preciso preservar o humor nesse dia bonito. Ainda assim acho a gente de hoje meio besta. Deixar um cinema bonito como o Metrópole foi destinado ao nada…

Há gente, muita gente no Mercado. Quase todas sem portar sacolas com compras. Queijo, doces, pinga! A moça me oferece cachaça para provar. Brinco com ela: Me parece que, por aqui, vem um para comprar e dez para aplaudir! Ela ri, concordando e completando: Falam muito, não compram nada. Volto feliz portando duas pratas da casa, pinga e queijo, mais mexericas, que sempre preferi ao Zebu.

De volta à praça, reencontro o Chico. A praça continua vazia e tento uma telepatia básica com o médico: Oi, Chico! Cadê o povo? Eles se isolam dentro de seus carros, correm de um esconderijo para outro como se as ruas fossem perigosas! Mas, não há ninguém, pelo menos no plano em que consigo ver! Vai ver têm medo de encontrar espíritos, ou a si mesmos. O senhor não acha que é isso?

O médium não responde e gosto da ideia de que quem cala consente. Tento materializar o barulho do passado, quando a praça era tomada por humanos. Gente que ia ao cinema, ao clube, aos bares, à banca de revista. Agora correm em seus carros, assumindo um individualismo motorizado, correndo direto de suas garagens para shoppings, ou para o mercado, para aplaudir quem compra queijos e outras delícias.

Solitário humano, temporariamente dono da praça, saco meu celular para fotografar o Chico em sua singela humildade, sentadinho em um banco comum na parte baixa da praça. Há sutilezas outras, além dessa simplicidade em contraste com a imponência da catedral católica. Chico está de costas para o prédio antigo da Prefeitura Municipal, onde hoje está a Câmara dos Vereadores. Educado demais para dar uma banana para o poder e seus representantes temporários, Chico dá as costas.

Enquanto me distancio da representação em bronze do médium não deixo de pensar em suas caminhadas pela região, presenciadas quando fui jovem. Ele nunca ficava sozinho por um único minuto. Jogava conversa fora com todo mundo, sempre atento, sorridente e, qualidade incomparável: falando baixinho!

Sem olhar para trás, vim-me embora, certo de que nas outras esferas, também sendo domingo, Chico deve estar rodeado de amigos, de pessoas queridas, feliz da vida por não precisar psicografar nada para aqueles que estão com ele. Há um lado bom em tudo. Bom domingo, Chico Xavier! Meus respeitos! E para que o senhor não se livre de pidões, peço: dê lembranças aos meus.

Obrigado!

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Nota: A escultura em bronze de Chico Xavier é obra de Vânia Braga, inaugurada em 2020, por ocasião dos 110 anos do médium espírita.

O Zé e o José, nosso Teatro

A morte inesperada e dolorosa de Zé Celso nos entristeceu. O pessoal do Oficina, familiares e amigos trataram de realizar um ritual funerário digno do artista. A primeira coisa que me veio a cabeça foi querer um velório assim! Cheio de música e dança!  A vontade não é inédita, posto que surgiu quando, adolescente, assisti ao filme O Enterro da Cafetina (Alberto Pieralisi, 1971). Um velório festivo para o retorno dessa longa viagem que é a vida.

Zé Celso caminhava sempre pelo bairro Bela Vista e o encontrei mais vezes no supermercado da Rua Pedroso do que no teatro. Sempre gentil e delicado, sorridente e atencioso para com as pessoas. Aparentemente discreto, nos detalhes é que se percebia o dionisíaco diretor e ator do Oficina, de quem comecei a ouvir falar desde aqui, de Uberaba, nas primeiras leituras sobre o teatro brasileiro. Os Pequenos Burgueses, O Rei da Vela! As Bacantes. Aí me mudei para São Paulo, onde o Teatro Oficina é parte do cotidiano da cidade e do pessoal de teatro.

No início dos anos 80, creio que exatamente em 82, o Teatro Oficina promoveu uma mostra com grupos da cidade e do grande São Paulo. Uzyna Uzona! De Santo André participou o Grupo Caroço, com Os Pintores. Texto e direção deste que vos escreve. Foi a única vez que estive profissionalmente no Oficina. Acanhado tabaréu, nunca tive a verve “louca, alucinada e criança” para explodir nos palcos de Zé Celso. Meu destino foi parar no território de outro Zé, o Antunes Filho.

Conheci o trabalho de Antunes Filho no palco ao ver a montagem de Esperando Godot. Logo depois, o diretor criou Macunaíma, um divisor no teatro nacional. Anos depois, 1984, fui trabalhar no CPT – Centro de Pesquisa Teatral, do Sesc, com o diretor a quem, para provocar, um colega chamava de Zezinho. José Alves Antunes Filho. Adaptei-me ao jeito do encenador disciplinado, mergulhado em livros e leitura. Foram tempos de profunda imersão no fazer teatro, quando Antunes me parecia o próprio Téspis na lendária expressão “Eu sou o Teatro!”.

Dois mestres do teatro. Dois nortes. Parecidos e diferentes. Em comum, a paixão pelo palco, este visto de modos absolutamente distintos e, por isso mesmo, enriquecedores. No que a linguagem expressa, e a interpretação me permite, esses dois indivíduos revelam modos de ser ao assumir a forma de ser identificados. Zé Celso Martinez Correa, o Zé Celso, cujo Zé denota irreverência, alegria, e José Alves Antunes Filho, o Antunes Filho denotando um distanciamento em favor do trabalho artístico, o ser exigente, uma de suas características.

Um imenso privilégio tê-los conhecido: O Zé Celso e o Antunes Filho. Dois homens e um teatro, o melhor teatro. Evoé!

Manifesto dos 68 ou ser velho é…

Considerando a sensação comprovável de que 68 não significa nada além da distância entre o momento em que alguém nasce e agora,

Filosofando ao sabor da cerveja que um número é apenas um dado entre o anterior e o próximo,

Aceitando o fato de transformarem o número em data, a data em efeméride, popularizada como aniversário propõe-se reflexões, ponderações e decisões:

– A terra, Novinha da Silva, tem bilhões de anos, 68 ou 78, ou 88, ou 98 da vida de um sujeito são apenas o “é da coisa” e, reiterando D. Clarice, “que de tão fugidio já não é mais”.

– Substituamos aniversário por natalício. A etimologia do primeiro tem um falso cognato – annus – que nos ajuda a trocar por natalício, nos leva a nascer de novo. Nasça de novo sempre que quiser!

– Distancie-se do espelho, cuide para desaparecer com incômodos físicos e exercite a memória, ou aguente o tranco:

– Diante dos espelhos que nos são impostos por uma arquitetura tosca perceba que, como grande quantidade de bebês, os de 68 anos ou mais também tem rugas. Nesses momentos recorde sua mãe (Lindo da mamãe!) e suas tias (que gracinha!).

– Ao pensar em harmonização – um direito! – considere harmonizar cabeça, tronco e membros. Parece que mãos e pescoço só obedecem a luvas e cachecol, ou essas golas altas mesmo. Caso pretenda a harmonização para coisas do sexo, considere o impacto da luz do amanhecer sobre todo o corpo em contraste com o rosto harmonizado.

– Ainda frente ao espelho encare: a pele sem viço, o cabelo nevado ou pintado e, caso o dito cujo exponha uma barriga em formato de chimpanzé lembre-se: Tais fatos são manifestação divina para que não esqueçamos nossas origens e nosso fim.

– Emocionalmente, deite e role na astrologia. Não sei quem na quarta casa, o ascendente em qual planeta e gêmeos, escrevo no meu lugar de fala (coisa chata, essa coisa de lugar de fala), os 68 não levam o geminiano a deixar de ser instável. Às vezes bem, às vezes mal, com tempos variáveis de duração e muita rapidez nas mudanças. Um saco!

– Jamais confunda emoções com paixões, afetos e amores e assim, postula-se:

– Seja fiel às suas paixões. As primeiras te formaram, as que vieram em seguida consolidaram e fizeram de você o ser presente. Neste aspecto, preste atenção e recorra à revistas, sites e similares: até o Roberto Carlos mudou de penteado no decorrer do tempo. Só use o corte de cabelo da sua paixão de décadas passadas com a consciência de ser “vintage” ou “sessentage” ou “setentage”. E seja feliz assim, se possível.

– Afeto nunca é demais. Aos amigos, aos vizinhos, aos parentes, aos familiares, aos gatos, aos passarinhos, aos cachorros, aos peixes, ao planeta. Atenção: Alguns pequenos ódios dão equilíbrio à vida. Pequenos! Considere sublimar seus ódios na literatura descrevendo as possíveis maldades que farias para maltratar o ser odioso.

– Sobre amores, o lema está expresso em verso da música “Ah, Sweet Mystery of Life”: For it is love that rules for evermore. E siga o conselho da versão cantada por D. Maria Bethânia, a moça da Academia de Letras da Bahia: “A ninguém revelarei o meu segredo e nem direi quem é o meu amor!”. Um tratado sobre as vantagens dessa postura está no repertório de D. Maricotinha. Se você prefere outra cantora, não posso fazer nada; cante e chore como Marília Mendonça.

– Sobre ser velho, primeiramente lembre-se da cantora Cher: “É uma merda!” E sobre as vantagens, a sabedoria e o escambau da velhice, a sábia Cher determina: “Foda-se isto também”. Assim posto, aposente-se logo e sempre que possível. É maravilhoso vagabundar com salário garantido no final do mês.

– Dedique-se a fazer o que gosta, e àquilo que te faça sentir bem, como euzinho lindo aos 68, escrevendo meu primeiro manifesto, que finalizo deixando bem claro que não respondo por nada escrito acima. Estou só me divertindo e tentando fazer graça com os amigos.

Santos, 18 de Junho de 2023

Valdo Resende

E lá se foi Astrud!

Às vezes é bom parar e fazer uma indagação básica sobre os reais motivos de certas coisas como, por exemplo, o Brasil pouco conhecer Astrud Gilberto, a cantora falecida aos 83 anos lá longe, nos EUA, em 5 de junho passado. É bem verdade que as velhas gerações sabem que ela foi casada com João Gilberto. Os apaixonados por Bossa Nova sabem que é dela a voz da primeira gravação da música Garota de Ipanema em inglês. Um estrondo mundial! Mas, parece que fica nisso.

Baiana de nascimento, Astrud Gilberto continuou com o sobrenome do marido famoso, após poucos anos de casamento. Um marido “legal” que excluiu o nome da moça nos créditos do disco de 1964 que tornou a canção, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes ,a segunda música mais gravada do mundo. Astrud puxou a onda e ganhou o Grammy Award lá, debaixo do nariz das americanas. Não foi o primeiro, nem o único. A carreira de Astrud tinha tudo para ficar no primeiro disco, já que para Stan Getz, o cara que a acompanha em Garota de Ipanema, ela era apenas uma dona de casa… Não se sabe bem o que uma dona de casa estaria fazendo dentro de um estúdio, exceto para ser vítima de machismo. Já a cantora, seguiu em frente.

Dos dezenove álbuns que compõem a discografia da cantora, fora as participações como convidada em faixas de outros discos, pouquíssimo se ouviu dela no Brasil. Se foi difícil na era do disco físico, pelo menos agora podemos ter acesso a doce voz da cantora e compositora brasileira. Vale a pena ouvir. E vale a pena se perguntar: por que temos a mania de não valorizar nossos artistas, principalmente os que fazem sucesso no exterior? Aconteceu com Carmen Miranda, mas também é algo que acontece com Joyce Moreno, que canta mais no Japão do que aqui, na terrinha. O Trio Esperança, aquele da Jovem Guarda, gravou CDs incríveis na França e, por aqui, ninguém conhece esse trabalho. E por vamos nós e vão nossos artistas.

O triste é sermos levados pela indústria, impondo-nos gente medíocre, músicas de gosto para lá de duvidoso, mas com apelo fácil e, portanto, atingindo o público.  Um grande “sucesso” musical passa primeiro pelo pagamento de grana para que o “artista” apareça na televisão, sem mais nem menos, com espaço para apresentar duas, três, ou mais canções. Esses mesmos, que compram sucessos em “fábricas” onde um reduzido vocabulário incita ao álcool enquanto lamenta dores de corno. As cervejas adoram e patrocinam. Para que pensar, se beber é mais fácil?

Certamente essa gente de sucesso das grandes festas e feiras não é responsável pela nossa desatenção para com artistas nacionais que fazem carreira no estrangeiro. Com certeza não é problema que pare o país. Todavia, seria bom a gente se perguntar os motivos de idolatrarmos tanto os estrangeiros e, quando um dos nossos faz sucesso por lá, por aqui nem os iguais – aqui, estou explicitando os baianos – costumam aplaudir. Uma questão incômoda. Cantores e compositores baianos aclamam com justiça João Gilberto, mas colocam outros, como Astrud, num estranho limbo.

Lá se foi Astrud! Longe do Brasil. Aclamada pela mídia de todo o planeta, que fez questão de lembrar que a moça recebeu míseros 120,00 dólares pela gravação de Girl from Ipanema. O mínimo que o sindicato americano permitia a um profissional do setor. Todavia permanecerá lembrada pela primeira canção e por outras, como Fly me to the moon, Berimbau, A Certain Sadness, Ponteio e, entre dezenas de gravações competentes, uma deliciosa versão de A Banda, de Chico Buarque (Parade, na versão cantada pela cantora). Insisto: Vale a pena ouvir!

Da memória, do amor, dos meninos*

*Nina Borges Amaral

A uma pedrada de mim é o limbo.

Manoel de Barros

dois meninos – limbo, romance de estreia de Valdo Resende, é uma obra que conta uma história de amor, cujo desfecho é antecipado logo nas primeiras páginas, sob a perspectiva de um narrador tão anônimo quanto os personagens com quem convive.

Dando mote à narrativa, o poema “Limbo” abre o livro e, desmembrado, nomeia cada um dos dez capítulos de Dois meninos. “In memoriam” corresponde ao primeiro capítulo e se nos apresenta como recurso ambivalente, que alude tanto à morte do companheiro do narrador – o pintor que conheceremos aos poucos -, quanto ao apelo à memória: o narrador escreve, segundo ele próprio, para não se esquecer dos fatos vividos. Mas somos também nós, leitores, que nos sentimos impelidos a não nos esquecermos dessa e de muitas outras histórias que têm como protagonistas tantos outros anônimos que se escondem por aí ou para os quais muitas vezes não temos olhos.

Nos capítulos que se seguem, vamos sendo conduzidos através do retrato da vida do narrador e do pintor e vamos nos familiarizando com esses desconhecidos que nos são apresentados com a delicadeza que pede uma relíquia, a ser descoberta com cuidado, e a fundo. Concomitantemente à narrativa que expõe o enredo, ao relato dos caminhos de duas vidas distintas que (finalmente!) se encontram, é estabelecido um inconcluso diálogo entre narrador e seu amado, em que a escrita se dirige ao companheiro ausente. Curiosamente, nós, leitores, acabamos por nos ver colocados no papel de receptores desse diálogo, a compartilharmos de uma intimidade que nos é alheia ao mesmo tempo que nos envolve e cativa.

Desde o início do livro, o desenlace da história de amor entre esses “dois meninos” está dado, e, quando passamos então a conhecê-los, já sofremos com o fim de sua relação, com a morte do pintor. A ingenuidade do espectador comum frente aos encantos e possibilidades de qualquer começo lhe é privada pela complacência do narrador em desenvolver uma cronologia embaralhada, começando pelo fim a narrativa que segue com algumas idas e voltas no tempo, até encontrarmos o narrador em um tempo presente, a fazer um balanço de toda essa experiência vivida.

Do romance de Valdo Resende, fica a triste constatação do preconceito e do descaso de toda uma sociedade em relação aos portadores do vírus HIV, mas também a promessa de um futuro em que as batalhas não mais sejam necessárias, valendo-me das palavras de Octavio Cariello no prefácio do livro. Do amor que entre esses personagens foi cultivado e que foi abruptamente interrompido – o “serei interrompido antes de terminar” que eventualmente os encontrou -, fica a inspiração dos amores sempre amáveis…

Futuros amantes, quiçá

Se amarão sem saber

Com o amor que eu um dia

Deixei pra você.

Chico Buarque

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Amanhã, dia 11 de Junho, acontecerá a 27ª Parada do Orgulho LGBT+ DE São Paulo, com o tema QUEREMOS POR INTEIRO, NÃO PELA METADE. A resenha de Nina Borges Amaral encerra essa pequena série dos primeiros textos sobre o romance “dois meninos – limbo”. Os trabalhos dos organizadores da Parada, sintetizados no Manifesto oficial do evento, mais as pesquisas e matérias jornalísticas comprovam a necessidade que as batalhas, infelizmente, ainda são necessárias. Vamos em frente! Registro aqui meus agradecimentos especiais para os redatores desses três posts: Vânia Maria Lourenço Sanches, Fernando Brengel e Nina Borges Amaral.