Autor: valdoresende
As formas de expressão dominam minha vida. E aqui, neste blog, pretendo escrever sobre elas, sobre meu cotidiano, as coisas e pessoas que curto. Sou professor, escritor, diretor teatral, mestre em artes visuais pela UNESP e um pouco mais. Frutos de uma vida, graças a Deus, intensa.
E o dono do bosque nem viu!

– “Bora sentar que tô cansado”, informou o ancião da turma, todos testemunhas do primeiro show de Daniela Mercury na Paulista e do início e ocaso do Orkut. O tronco de madeira, em um delicado bosque da Lapa, aqui em São Paulo, remeteu aos bancos do jardim do convento, onde estudamos. Sim, convento! Ah, não somos religiosos (na acepção da função de quem se filia à uma ordem ou congregação).
O IAP – Instituto de Artes do Planalto, da UNESP, usava antigas dependências de um convento lá no Ipiranga, perto de – onde dizem – D. Pedro gritou. A construção segue padrões antigos, com formato quadrado e um jardim interno que, se falasse, ainda hoje causaria insônia e desgosto às tradicionais famílias. Sentados nesses bancos, foi possível ver dois queridos professores – com mestrado e doutorado – em briga homérica, tapas contidos pela então diretora que, sem pestanejar ordenou: – Quieta, veados! (hoje ela seria processada?!).
Também desses bancos foi vista outra cena, trágica e hilária. Trabalho de final de ano, um aluno fez uma performance, lembrando antigos happenings, caminhando e dançando seminu pelos corredores da escola, aludindo à antigas manifestações de coros gregos. A tarefa – era uma avaliação de final de ano – deveria ser filmada. O encarregado do registro se esqueceu de colocar fita na máquina e… nada gravado. O aluno correndo pelado tentando bater no encarregado da filmagem foi o melhor evento daquele ano.

Tempo, tempo, tempo… (pra cada “tempo” conte 10 anos!) e assim chegamos ao final de 2021. Um encontro tão complicado quanto acertar a economia mundial. A primeira tentativa foi de estarmos todos às 9h00 no tal bosque, lá na Lapa. – Quem acorda cedo? Dá licença.
– Mas, a exposição da Suzanita termina às 13h!
– A gente pode chegar 12h30?
– Poderíamos fazer um piquenique!
– Tenho que sair às 14h.
Após negociações e pequenas sutilezas por faltas anteriores (- Lisa sarou da gripe?) nos encontramos, felizes, serenados, com a confiança e certeza dos grandes afetos. Somos quatro amigos. Estamos juntos há mais de trinta anos. E, para carregar na poesia que é viver uma grande amizade, devo registrar que “vivemos em acordo íntimo, como a mão esquerda e a direita”.
Suzana, a anfitriã do dia: – Queria ter balançado com vocês. A Martinha é muito vaidosa. Amo😍. E o Valdo? Meu amor até a última vista. Lisa, nossa gueixa maravilhosa. Ficaria ao seu lado o tempo todo.
No evento, uma exposição com os trabalhos recentes de Suzana (vejam aqui). Uma incrível combinação de delicadeza e força. Após usar o balanço, citado acima, fomos conversar, sentadinhos e tranquilos, como sempre. “– Quem ficar na beirada pode ser cortado depois!” Risada geral.
Há pessoas que precisam de iates, castelos. Outras carecem de prataria e cristais nas refeições. Um número considerável precisa de um copo de qualquer coisa alcoolizada, um cigarrinho do capeta para segurar a onda. E é por isso que preciso registrar nosso banquinho, lembrando bancos de outrora. Estando juntos já é o bastante. “– Cara, a gente agora conversa de dores… aqui, ali!”, mais gargalhadas. E somos amigos! E somos felizes. Esse tipo de amizade, de encontro, de convivência que desejo para todos, com meus votos de FELIZ NATAL! ÓTIMO 2022!
Fim da coisa: Lisa, delicada, nos deu confeitos com recheio de goiaba. Feitos por ela. Suzana nos presenteou pequenos vasos, com diferentes tipos de flores, sobre uma base rústica, preparada por Darli, único marido presente no recinto. Marta e eu agradecemos os presentes (- Que falta de gentileza! Rsrsrsrsr). Em uma grande demonstração de força de vontade cheguei na Bela Vista com todos os docinhos intactos.
E vou repetir: simples assim. Um banquinho, quatro amigos, obras de arte feitas por um deles e, certamente, um dos melhores encontros do ano. Desejo mais uma vez o mesmo para todos, durante todo o ano que se avizinha.
Boas festas!
Nota: sutis referências. No título, Chico Buarque, e na citação de Fernando Pessoa, sobre acordos íntimos…
Surpreendentes descrições

Por Nando Cury*
Impossível não entrar dentro de cada história autobiográfica descrita por Valdo Resende, em seu livro “O vai e vem da memória”.
No vai, navega o passado com sua privilegiada memória. E no vem, volta ao cotidiano de sua cidade natal, para completar surpreendentes descrições das passagens marcantes de sua infância e adolescência.
Tem Uberaba, MG, como grande cenário dos incríveis personagens, personalidades, prédios, lugares, eventos e fatos retratados nesta obra. Das brincadeiras nos quintais aos momentos de reflexão sobre os telhados. Dos parques de diversões ao recinto de exposições de gado. Da linha do trem da Mogiana ao pátio do colégio. Das belas canções ouvidas na Rádio PRE-5 aos cobiçados vinis nas lojas de disco. Dos bailinhos com Bee Gees aos cults nas sessões das salas de cinema. Da religiosidade e fé, nos encontros litúrgicos de jovens, aos primórdios das suas criações autorais para o teatro.

Serviço:
O vai e vem da memória – Ed. Elipse, 312 páginas. Para adquirir, entre na loja pelo link https://valdoresende.com/livros
* Nando Cury é publicitário, escritor, compositor e cantor. Publica semanalmente no podcast Semônica.
7 anos! dois meninos – limbo

7 anos! No dia 13 de dezembro de 2014 lancei meu primeiro romance. Poderia relatar tanta coisa ocorrida desde então, mas só faria constatar que mudanças, na real, foram pouquíssimas. Bora andar com esses dois meninos. Há muito por caminhar!
“Dois Meninos-Limbo”, publicação da Elipse, Arte e Afins Ltda., é sobre o pintor de origem humilde que, mesmo conhecendo a arte vigente, escolhe elaborar uma produção popular, dentro das tradições acadêmicas que elegeram gêneros como a paisagem, o retrato e a natureza-morta como fontes para um trabalho pretensamente artístico, mas que visa fundamentalmente a sobrevivência através da comercialização dos resultados. No encontro com o crítico de arte dá-se o conflito pessoal e profissional.
O cenário é a cidade de São Paulo do final do século XX; a vida operária, a agitação de noites trepidantes tornadas tensas e perigosas com o surgimento da AIDS e, decorrentes dessa realidade, as profundas mudanças e exigências impostas à sociedade. Revivendo esse momento, “Dois Meninos – Limbo” celebra a amizade e a solidariedade ante a adversidade, tanto quanto celebra a solidão e o amor.
Para adquirir, na loja acima.
Fragmentos: o vai e vem da memória

O que nos vem à mente quando recordamos algum fato, alguma pessoa? Certamente não é o todo. Há imagens “padrão” que identificam e nos levam para o Egito (Pirâmides) ou Salvador (Elevador Lacerda), ou qualquer outro lugar do planeta. Diante da lembrança de um ser humano, afirmam por aí, o mais difícil é recordar a voz. Parece que a voz é a primeira coisa que esquecemos das pessoas que se vão.
Uma cidade inteira, como São Paulo, possui infinitos pontos para se memorizar e, parece, conforme a época um ou outro assume preponderância. Quando cheguei por aqui o Viaduto do Chá mantinha sua importância, mas eu me orientava e dominava a cidade pelo “alto”. Se o Pico do Jaraguá me avisava que estava chegando, as torres da Paulista, o Edifício Itália e a torre do Banespa orientava meu ir e vir, descobrindo a metrópole.
Desejei, desde a primeira ideia, ilustrar meu livro com fotos de Uberaba. E, sem dúvida, me incomodava a “paisagem” enquanto composição tradicional que, apesar de reavivar a memória carregava em si um distanciamento, uma falta de foco. Busquei sanar minhas inquietações com visões bem particulares da cidade, com ângulos precisos, que deveriam revelar, estimular e, sobretudo, reativar a memória. E usei, sem medo de ser feliz, de imagens antigas, obtidas em momentos únicos, precisos, sem me preocupar com “altas definições”.
Um conjunto significativo das imagens publicadas no livro está exposto no Barroco Arte Café. São 20. Aquelas que, representativas, atingiriam o leitor de toda e qualquer idade.
Quando terminamos o livro, aí já entrando o trabalho de edição e diagramação de Flávio Monteiro, as discussões e debates orientando nossas decisões e algumas premissas foram adotadas.
Temos um único grupo de crianças, de muito longe no tempo, e apenas um cidadão atual parcialmente mostrado nas fotos. No mais, a cidade é quase deserta, devendo ser preenchida por quem a vê, pelas recordações e vivências do leitor. O preto e branco leva a que o receptor veja no tom que queira, com quietude esmaecida pelos anos ou com as cores da festa, do momento vivido.
Algumas “sutilezas” estão evidentes. O descaso para com prédios históricos, o desmatamento desnecessário, um arame farpado aqui, uma grade ali e, por aí vai. É o receptor que, disposto ou não, passará por cada detalhe detendo-se ou não diante do detalhe da imagem.
A exposição “Fragmentos: O vai e vem da memória” ficará no Barroco Arte Café até o dia 22 de dezembro. Os livros também podem ser adquiridos no local. Quem não pode ir até a cidade mineira pode ter uma ideia da exposição no velho casarão ocupado pelo espaço cultural. Para aquisição de livros e quadros (Sim, estão à venda) converse com o pessoal do local. São simpáticos e atenciosos.
Até mais!
Quase todos e + memórias
Um registro visual da maioria dos presentes nos eventos de lançamento de “O vai e vem da memória”. Até onde me recordo estão quase todos. Lamentavelmente faltam, além de alguns amigos, o pessoal do Barroco Arte Café, em Uberaba, e o pessoal do Portella Bar, aqui em São Paulo.
Foi uma novidade, na minha carreira e na de alguns amigos, fazer lançamento de livro em locais que não livraria. Deu tudo certo e foi muito bom. Em Uberaba desfrutamos do conforto de um antigo casarão com pé-direito alto e janelas, muitas janelas. Aqui em São Paulo ficamos prioritariamente no passeio, o que facilitou o distanciamento nesses tempos tão difíceis.

Agradeço profundamente aos colaboradores de última hora – Agostinho Ermes, Adryana Gabriela e Andréia Rezende, em Uberaba; e Neusa de Souza, aqui em Sampa -, e também aos parceiros neste trabalho: Sonia Kavantan, João Eurípedes Sabino, Simone Gonzalez, Fernando Brengel e um, especialíssimo, ao meu companheiro Flávio Monteiro.
O lançamento, em Uberaba, só foi possível com o apoio de Walcenis, minha irmã, e Carmen Veludo, fundamentais para que a logística pensada se tornasse realidade. Na terrinha, tivemos o apoio de Kiko Pessoa, do Barroco Arte Café, e aqui em São Paulo, Sérgio “Bahia”, no Portella, ambos nos acolhendo e facilitando-nos as ações pensadas.
A0s meus familiares, amigos, colegas, ex-alunos, conhecidos, meu muitíssimo obrigado. Um monte de coisas para mais memórias!

Agora é seguir em frente. A exposição, em Uberaba, permanece até dia 22. Os livros já estão disponíveis para venda neste blog e, em breve, anunciaremos os eventos previstos para prosseguimento deste trabalho.
Muito obrigado!
Valdo Resende / Dezembro de 2021
