Varal de Poesia, Poemas de Amor e Liberdade

Momento de registrar neste blog o livro do Carlos Alberto Chicareli, o meu amigo Carlinhos. Delicado sem perder a firmeza, formal como lhe foi ensinado para momentos especiais, há tempos o poeta esteve aqui em casa trazendo-me junto com os originais do livro o convite para que fosse eu a apresentar o trabalho. Grande honra! O livro está publicado pela Edicon. O autor pode ser visto nas redes sociais declamando e conversando sobre suas poesias.

VARAL DE POESIA, POEMAS DE AMOR E LIBERDADE é uma oportunidade para ter em volume único os cinco primeiros livros do Chicareli. Individualmente esgotados, os livros Fôlego (1981), Feito à Mão (1983), Sentimento de Agora (1988), O infinito em oito partes (1989) e Olhos d’alma (1992) compõem a antologia publicada agora.

Conheci Chicareli em 1979, quando cheguei ao ABC paulista para morar em Santo André. Nos tornamos amigos e parceiros. O jovem Carlinhos já vivia entre versos e músicas. Um dia me veio com uma poesia que me sensibilizou bastante. Tornou-se a canção que se constituiu em intermezzo entre a cena de abertura e o ato único da peça Os Pintores, que escrevi, dirigi e ele atuou em um dos papeis.

Os Pintores foi nosso segundo trabalho. Já havíamos feito As Três Faces. Música e teatro em paralelo, participamos e fomos premiados em festivais da região. Lá pelo começo dos anos de 1980 cada um seguiu seu rumo e nos reencontramos recentemente, no final da pandemia. Um encontro entre amigos e escritores (e isso significa mensagens com muito “Textão”) que só fez reativar o que estava guardado, amizade e carinho mútuos.

Uma grande honra estar neste livro. Da apresentação escolhi pequenos trechos para estimular você, caro leitor, a transitar por esse “Varal de Poesias”:

O primeiro trabalho de Chicareli, longe de ser ingênuo e descompromissado, mostra claramente os possíveis caminhos do menino sonhador, manuseador de palavras e ideias… O poeta saia do bairro e enfrentava com disposição o mundo concorrido e duro da grande cidade (sobre Fôlego).

Os poemas apresentados em “Feito à Mão” revelam movimento, alternância de sensações e descobertas. O poeta sente no coletivo a possibilidade concreta do apoio mútuo, vislumbre de saídas, novas portas de acesso ao que não está facilitado à todos. Ao longo do livro há o claro exercício da forma, a criteriosa escolha da palavra, as expressões somando lirismo à dura realidade, nos facilitando o contato com o transeunte das grandes cidades.

Sem possibilidade de controvérsias: Carlos Alberto Chicarelli lançou “Sentimento de Agora” ao completar seis anos de idade! Nascido em ano bissexto ele comemora regularmente a cada ano mais um ciclo de vida, mas aniversário mesmo, só de quatro em quatro anos… A poesia segue caminhando como a própria vida.

Toda leitura deve ser cuidadosa, todavia “O Infinito em oito partes” carece dessa postura e um pouco mais: aguçar a percepção para ler nas entrelinhas, atentar para as figuras de linguagem, ir para além do aparente exposto nesse grande conjunto de poemas constituído nas anunciadas oito partes: Sete partes com sete poemas cada uma e a final, um poema com oito partes.

O quinto livro que encerra a antologia marca o fim de um ciclo que começou com livretos mimeografados e caminhou para uma carreira concreta no universo literário…Se há um percurso, este é o do menino sonhador, o do jovem decidido pronto para a luta, culminando no que, ouso dizer, no adulto à caminho da maturidade. O poeta dominando o seu ofício, senhor da carpintaria de seu trabalho.

Longe da ideia de antologia definitiva, com “VARAL DE POESIAS – Poemas de Amor e Liberdade” o homem e o poeta Chicareli comemora 60 anos de vida. Reafirma nesta publicação a parceria iniciada em 1988 com a EDICON, através de seu editor, Antônio Jayro da Fonseca Motta Fagundes. E mais, outros dois lançamentos estão à caminho: “GesTação”, uma coletânea em dois volumes, onde o poeta mergulha no universo da criação, indo muito além da mera ideia da gravidez. Também a caminho, prepara a trilogia “NA POESIA, NO AMOR E NA VIDA”, composta pelos livros: “Indeferidos”, “Emocionado” e “Atividade”.

Deixo aqui meu convite para os que amam poesia.

Para o Instagram de Chicareli CLIQUE AQUI.

Para adquirir o livro entre no SITE DA EDICON.

Bom domingo para todos!

“Um cãozinho abandonado”

imagem criada com IA

Vista ali, maquiada, bem vestida, recostada no parapeito do Viaduto Jacareí, olhando embaixo para a Avenida 9 de Julho não dava para imaginar seus motivos. Parecia uma senhora comum, uma transeunte distraída com a movimentada avenida vista ali do alto, com seu eterno vai e vem de carros, ônibus e motos.

Postada na mureta do lado oposto ao centro da cidade, o olhar permanecia fixo, sendo difícil saber exatamente qual ponto era observado. Ela apontava, com voz lacrimosa, olhar marejado, dirigindo-se para quem lhe desse atenção: “- Olha ali, está assim, amarrado o tempo todo. Tadinho! Sem comida, sem água. Nem se mexe!” Enquanto o interlocutor tentava entender o que estava acontecendo ela esclarecia, apontando para a paisagem próxima: “- Moro ali naquele edifício da 9 de Julho. De lá vejo ele, pobrezinho, amarrado, sem água, sem comida”.

O ato de repetir a situação do amarrado sem água e comida visava despertar a piedade sobre… o que mesmo? E ela virava-se para o novo “amigo” mostrando-se por inteira. Os olhos bem pintados, um batom acentuando os lábios, a blusa de manga comprida tinha um decote generoso e, caso o gajo descesse o olhar veria uma cintura bem marcada, saia justa sobre pernas longas, salto alto.

Com voz triste, cheia de piedade, insistia na cantilena do pobre sem comida, sem água; um cachorro preso em uma coluna de madeira no quintal ou pátio de estabelecimento da rua paralela à avenida. O quadro era real, o que não se podia era afirmar a autenticidade dele. Estar sobre o viaduto Jacareí e descer à rua verificar a situação demanda uma caminhada que carece de um sujeito apaixonado pelo ato de proteger todo e qualquer animal.

“- Moro ali, fico olhando pela janela. De lá tenho uma ótima visão e esse pobre animal está lá desde sexta-feira, ficou a noite toda e, veja bem, são quase cinco horas da tarde. Olha, não tem água, não há comida. Ele está tão fraco que pousam pombos bem próximo e ele não se mexe!” Era fácil constatar que o cão, já habituado ao espaço e às próprias condições nem se mexia com os pássaros por não poder alcançá-los. Uma observação mais demorada e percebia-se o movimento do animal, acomodado ao cativeiro. “- Eu não aguento vê-lo assim; fico muito triste!”, ela insistia.

A obviedade da questão seria a distinta procurar as autoridades competentes, fazer uma denúncia, salvar o bichinho!  “-Sou uma mulher sozinha, tenho receio, vai que sofra alguma retaliação! Se alguém me ajudasse…”

Nem sempre a conversa ia muito longe. Uns deixavam-na no vácuo, sem dar muita atenção. Um ou outro observava bem o local, indagava o nome da rua e prometia tomar uma atitude. Havia aqueles, mais raros, que observavam a maquiagem, o decote, a saia justa e, sondando possibilidades partiam para o apartamento da protetora dos animais buscando ter a mesma visão que ela. O encontro terminava em sexo e o cãozinho permanecia preso.

Uma solidão brutal. Juliana não nascera para viver assim. Fora moça linda e os traços estavam ali, bem marcantes, denunciando sobre a figura majestosa de uma idosa a mulher bonita de outros tempos. Casou-se uma vez, não deu certo. Os ciúmes do marido eram tóxicos. O divórcio foi inevitável. O segundo casamento terminou quinze anos depois em depressiva viuvez. A solidão não foi tão percebida enquanto o tempo foi tomado pelo trabalho. Veio a aposentadoria; os amigos tinham seus familiares, suas vidas. A dela era estar só.

Não se adaptou aos grupos de terceira idade. Eram frequentes as sensações de desespero, de um aproveitar a última oportunidade, de viver o que restava. Pintavam situações de permissividade, com argumentos do tipo “o que há para se perder”? A dignidade, respondia. E foi se afastando, abandonando reuniões, evitando encontros. Ficou só. Perdeu a noção de quanto tempo se passou até que se percebeu absolutamente isolada, olhando a vizinhança pela janela privilegiada do apartamento do sétimo andar.

Há poucos transeuntes pela Avenida 9 de Julho quase tomada exclusivamente por carros. Bem ali, ao lado do Viaduto Jacareí, o mais comum eram pessoas descendo ou subindo escadas rapidamente. Quando na Avenida iam para o ponto de ônibus, ou então, eram moradores, vizinhos. Os que subiam as escadas tinham a Câmara de Vereadores como destino, a Biblioteca Mário de Andrade, a Federação Espírita ou outro lugar qualquer.

Perdeu a conta dos assaltos vistos sobre o viaduto, os assaltantes fugindo calmos escada abaixo com a tranquilidade de quem sabe que não será seguido. Deixavam carteiras, bolsas vazias nos últimos degraus da escada. Em finais de semana, após finais de futebol ou em dias de carnaval, apreciava diferentes composições de seres humanos fazendo sexo na penumbra abaixo da rua. Não enxergava direito pelo movimento, a iluminação precária. Acabou comprando um potente binóculo.

Conheceu pela Internet as salas virtuais. Por pouco tempo, já certa de não ter nascido para tal tipo de faz de conta, trocou a sala por brinquedos eróticos que, para seu desespero, não incitaram sua imaginação, nem mesmo com o apoio de fotos, vídeos. Nascera para encontros reais, embora não tivesse coragem nem cara de pau para tomar iniciativas. Era necessário aguardar a sorte, o destino, o momento certo.

Lia muito. Leu e releu tudo o que havia acumulado ao longo de anos, comprou novos títulos, passou a frequentar as salas da Biblioteca Municipal. Um ou outro bar, jantar nas cantinas próximas, teatro, uma exposição. E ela sozinha, sem coragem de se aproximar, de tomar atitude e só muito raramente sendo abordada. Em sessões televisivas de autoajuda concluiu que precisava criar oportunidades, já que essas não apareciam.

Deve ter sido um gato, um rato, vai saber! Uma noite de sexta para sábado e ela teve o sono perturbado pelo latido distante, incessante do cachorro que, mal amanheceu o dia e ela conseguiu localizar o bichinho. Sol alto, visão boa, lá estava o cachorro no distante vizinho, amarrado e, como ela, solitário. Era um estacionamento, também lava rápido, sempre cheio de carros. Não era difícil concluir que o bichinho permanecia amarrado para não machucar nenhum freguês. Só a noite, estabelecimento fechado, o cachorro ficava solto. Quem sabia disso? O cãozinho. O dono e ela.

Gostava de rir quando lembrava que a ideia veio de um velho e bom conto de fadas. Se ela precisava de um Joãozinho para se alimentar, o jeito era atraí-lo tal qual a historinha, fisgando-o e arrumando um jeito de levá-lo para casa. Melhor não aguardar a presa crescer, engordar. Era resolver a fome, saciar o desejo e seguir em frente, rumo a outro João sem Maria. Um plano canhestro, quase sempre fadado ao fracasso. A aventura, no entanto, era real e a adrenalina subia dando-lhe sensações há muito esquecidas. E ela passou a frequentar o viaduto à cata de possíveis presas.

Quando o interfone tocou anunciando a visita de um vizinho que não conhecia, ela desceu para atendê-lo na portaria,  pois não iria abrir sua casa para gente enxerida. No pequeno hall o homem falou poucas e boas, identificando-se como o dono do estabelecimento onde o cachorro permanecia preso durante o dia. Ele contabilizou dezoito denúncias de diferentes homens e vários meses até descobrir de onde e como partiam tais acusações. Estava tendo um trabalhão para sair ileso de crime não cometido e exigia que ela parasse com aquilo. Enquanto ele falava ela o admirava.

Era um senhor bonito, forte, talvez um bom amante. Ela fingiu consertar um botão na blusa, abrindo essa com sutileza e olhar absolutamente cheio de intensões. “– Você, posso chamar o senhor de você, não é mesmo? Então, você precisa ver como eu vejo, da minha janela. Vai entender por que me vem a impressão de seu animalzinho ser mal tratado. Na verdade, eu gostaria de fazer algo por ele! Venha, vamos subir para que você veja. Como é mesmo seu nome?” João! Ela conteve o riso e, sem abrir totalmente a porta do elevador facilitou ao homem encostar-se em seu traseiro, arrebitado, para extinguir no outro qualquer dúvida sobre os motivos daquele convite.

Valdo Resende / São Paulo, nov / 2021

Coração de Cetim

“- É só mais uma no meio da multidão; Deixa de ser besta!”. Era falando desse jeito que Afrânio tentava fazer com que Eneida ficasse em casa. Falou uma vez, duas. De nada adiantou. A namorada deu de ombros, lembrando ao rapaz que se fosse para obedecer a alguém ela ainda tinha pai. O moço teve que engolir e ainda perder horas de dengo enquanto Eneida bordava a fantasia. Chegou o carnaval, ela foi desfilar e ele ficou amuado, bebendo no boteco com os companheiros de sempre. Nem terminada a quaresma e os dois já estavam de namorico, o desejo falando mais forte, esquecidos os anseios de mando do rapaz.

“- É só mais uma… Deixa de ser besta!” Repetiu o noivo no ano seguinte. A mãe de Eneida ficou calada evitando intrometer-se na vida da filha; o pai, simpatizante da batucada, não ia engolir desaforo para com a menina debaixo das próprias barbas. Fez o marmanjo engolir o mando e desculpar-se pela “besta”. Eneida foi, novamente sem aliança, e mais uma vez reatou namoro antes da sexta-feira da paixão.

Foram meses de conversas dos amigos, de conselhos dos familiares. Todos sugerindo que ela devia seguir a vida sem o rapaz. Eram diferentes; não daria certo. Eneida teimou porque amava Afrânio e acreditava poder dissuadir o homem já no primeiro carnaval, após o casamento. Lua de mel já distante, o que ela conseguiu foi tomar umas fortes bifas seguidas de ameaças maiores caso contasse para alguém. Antes de completar o primeiro ano do casamento Eneida escondeu a caixa de costura, cheia de miçangas e paetês. Junto o desenho do modelo da fantasia de sua ala, uma das mais animadas da escola.  O marido tentando consolar, sem mostrar-se arrependido: “- É só mais uma no meio da multidão; Deixa de ser besta!”.

Ausência anunciada. Os amigos estranharam; a ala reclamou; até a escola assinalou a falta da moça, agora senhora casada. Foi difícil convencer os familiares de que tudo estava bem, que abdicara de desfilar pela agremiação que tanto amava. Teria algum problema? O casamento estava bem? Foi a própria Eneida a repetir, para satisfação vaidosa do marido, que estava cansada de ser só mais uma; tinha resolvido que deixaria de ser besta.

Ela tinha quinze anos quando desfilou pela primeira vez. Agora, dez anos e nove desfiles depois estava em casa, assistindo pela TV. O marido, esparramado pelo sofá, lembrava velhos babões toda vez que focalizam mulher bonita, seminua. Fungava e virava copos e mais copos enquanto passavam as alas, cheias de gente alegre e feliz.

O carnaval passou e a única atitude de Eneida foi alterar horários na academia, aumentando a carga de exercícios. Calada, resolveu que eliminaria todo e qualquer sinal de gordura, ganhando em alguns meses um corpão de estremecer qualquer homem e fazer rainha de bateria temer perder o posto. Nunca falou em samba, carnaval, escola, até que chegou o janeiro seguinte e, em uma tarde de domingo, anunciou tranquilamente para o marido: – Vou desfilar neste ano!

Antes que Afrânio a proibisse informou que já estava tudo acertado com a escola. Ele engoliu o riso sarcástico e iniciou a frase costumeira: – É só mais uma…  – Que vai desfilar em carro alegórico e de topless, interrompeu Eneida. O homem, lívido, repetiu todas as ameaças acrescidas de safanões, empurrões, afirmando que quebraria as pernas da esposa antes que ela saísse para o Sambódromo.

Chegou o carnaval e Afrânio estava acompanhado de dois guardas, bem longe do desfile. Eneida filmara a discussão e anexara ao processo fotos de hematomas da surra anterior. Uma vingança silenciosa, curtida na academia forjando um novo corpo para o desfile. Foi o próprio departamento jurídico da escola de samba que conseguira manter o valente à distância enquanto a moça, gostosa e enxuta, fazia a alegria da multidão ao dançar e sambar fantasiada de “coração solitário”; um minúsculo pedaço de cetim vermelho, bordado, escondendo apenas aquilo que a TV não poderia mostrar. Afrânio, besta, assistia de longe a única moça sobre o carro, nua e bela, o grande destaque do dia.

Valdo Resende (março/2015)

Jornal reverencia Monte Sião

O Jornal de Monte Sião presta homenagem aos habitantes pelo aniversário da cidade no próximo dia 29 de março. Todos os colunistas e colaboradores contam aspectos da vida e do povo mineiro, gente monte-sionense. Abaixo, imagens da abertura do Jornal e da minha participação neste número. Para ler todo o jornal entre NESTE LINK!

Parabéns, Monte Sião!

Até!

Primeiros passos (Glenda e Rogério)

Rogério era do tempo em que bastava um olhar da mãe para que, rabo entre as pernas feito cachorro sem dono, procurasse um canto para sossegar. A mãe tinha um olhar mais expressivo do que qualquer cineasta alemão. Havia o olhar de “cala essa boca”, ou outro, muito temido em dia de festa: “para de comer”. Alguns mais ameaçadores que os outros, tipo “em casa a gente conversa”, ou aquele, antecedendo tabefes, o “agora eu te pego”.

O tempo dos olhares maternos foi substituído por outros, mais interessantes, que ele julgava saber emitir para o ser observado: era um olhar pedinte, tipo “posso falar com você”, outro mais ousado, revelando um “quero te comer”. Em momentos de autoestima elevada arriscava um soslaio, informando um “aproveita que sou gostoso”, ou um “vem que estou disponível”. Não passava pela cabeça dele que os olhares só funcionavam quando correspondidos previamente, anteriormente ao olhar. Assim, um “posso falar com você” só era correspondido quando a vontade antecedia, e o mais desejado, o “quero te comer”, só resultava em concretude se o tesão já estivesse instalado.

Vieram outros tempos, aqueles em que é preciso trabalhar. Travou muitas batalhas com colegas de serviço, chefes, diretores, subalternos. Embates confusos onde era claro e cristalino que cada parte pensava emitir via olhar a mensagem correta: “sujeitinho estúpido”, “esse babaca não sabe nada”, “tá pensando que eu sou da tua turma?” Verbalizadas, as mensagens eram bem civilizadas. “Você não entendeu direito”, “vem cá que eu te ensino isso”, “não posso sair hoje, fica para outro dia”.

A fixação dele pelo olhar alheio, a certeza do olhar enquanto emissor de toda e qualquer mensagem prosseguiu ao longo da juventude e, sabia ele, só se casaria com alguém por quem se apaixonasse, evidentemente, pelo olhar. Castanhos, verdes ou azuis, não importaria, exceto pela expressão: o grande amor seria a dona de um olhar expressivamente avassalador! Não foi bem assim.

Glenda era de origem libanesa, alta, corpo esguio recoberto por pele macia, morena. O cabelo farto, longo, descia pelos ombros em ondas suaves, caindo sobre o colo após emoldurar o rosto. Uma boca carnuda prometia palavras doces, beijos carinhosos. O olhar, esse não era visto, já que Glenda só aparecia publicamente durante o dia e usando imensos óculos escuros. Pelo menos foi o que disseram dela, depois que Rogério a conheceu,

Glenda e Rogério. Os nomes combinavam, pensou o rapaz desde o primeiro encontro quando, passeando no Ibirapuera com amigos comuns, foram apresentados. Poucos centímetros mais baixa que o moço, Glenda levantou o rosto com firmeza, apertando-lhe a mão esboçando um leve sorriso. Quis o destino que mais pessoas se aproximassem do grupo que, assim, deixou o casal à sós. Rogério não resistiu:

– Posso ver seus olhos? Quero muito!

Glenda, ao longo da vida, habituara-se a ouvir e discernir cuidadosamente a intensão contida na fala. Isso começou quando, muito pequena, percebeu nuances na voz materna que não condiziam com a realidade. A mãe dizia “coma, está uma delícia” para qualquer gororoba que a menina mal conseguia engolir. Também ficou clara a real afeição que a mãe tinha pela avó paterna. A sogra chegava e a mãe, com uma sutil frieza, sugeria “você não vai beijar sua avó?”.

Bem novinha, Glenda descobriu o ódio na fala da empregada, cansada de recolher roupas e outros objetos fora dos seus lugares. Também percebeu, sem sair do quarto, quando os irmãos mentiam dizendo estar estudando ou que já estavam prontos para dormir. Ironia, falsidade, mentira, tudo era transparente no grupo que a mãe recebia para o chá, fazendo com que a menina ficasse avessa a reuniões e, crescendo, preferia ficar sozinha.

Conhecia a pessoa pela voz. Reconhecia a segurança dos professores que dominavam o que ensinavam tanto quanto o leve tremor na voz dos inseguros. Percebeu o blefe na arrogância do primeiro chefe, que ladrava com poucas possibilidades de ataque, tanto quanto a maldade e a inveja de colegas de trabalho, concorrentes ou não ao cargo em que ela atuava.

– Sua voz não esconde seu desejo – ela respondeu ao novo conhecido.

Rogério afirmou querer muito. Repetiu, reiterou. Precisava ver o olhar da moça. Ela sorriu e limitou-se a balbuciar, antes de ir embora: – Outro dia!

Sem deixar telefone, e-mail, ou qualquer contato, Glenda desapareceu pelas alamedas do parque, rindo e conversando com os amigos. Só aí ele percebeu que os amigos que ficaram com ele não conheciam a moça. Buscou o telefone e começou a vasculhar as redes sociais dos conhecidos. Logo encontrou uma página de Glenda onde, em poucas fotos disponíveis, ela estava com óculos escuros.  Seria cega de um olho, ou estrábica? Teria fotofobia? Nada disso, informou um conhecido da moça, aliviando os iniciais temores do rapaz:

 – É mania! Já estivemos juntos em uma festa em uma chácara. Havia piscina. Ela tirou os óculos para nadar. Normais!

O que seria normal para o sujeito? Rogério ficou impaciente. O conhecido não dizia nada além do subjetivo “normal”. Ele precisava ver, conhecer o olhar de Glenda. Vasculhou as redes sociais e, com as fotos todas restritas, fechadas para desconhecidos, foi adicionando, curtindo, comentando, pedindo amizade…

– Não compartilhou nada, confidenciou Glenda à prima, Dulce. – Isso bem diz o que a voz insinua, um egoísta que quer tudo para si.

Dulce argumentou apontando exageros nas suposições da prima, já que seria preconceito afirmar qualquer coisa do rapaz. Até então, ele falara pouco mais que o “quero ver seus olhos”. Tudo o que Dulce gostaria era de ter uma voz cheia de desejo lhe pedindo para ver muito mais que os olhos. Não entendia a postura da prima quanto ao rapaz tanto quanto também não se conformava com a mania da moça de usar óculos escuros.

Foi na casa da bisavó, já bem velhinha, que Glenda descobriu revistas antigas, quando então se apaixonou pelo visual de estrelas de Hollywood e seus óculos escuros, chapéus de grandes abas, vestidos coloridos. Foi a primeira de sua turma a introduzir a mania que, tempos depois, tomaria conta de muitas meninas: tornou-se “cosplay”, passando então a vestir-se como as grandes atrizes dos anos 50.

Glenda poderia estar vestindo saias rodadas de tecido estampado, ou sóbria, dentro de conjuntos justos, deixando evidentes as formas generosas, torneadas, herança de sua mãe. Com “fantasias” mais sutis que heroínas de filmes fantásticos, Glenda era bem aceita em qualquer ambiente. Gostava de ser identificada como mulher elegante, refinada, misteriosa. Para Rogério não sobrou nada além da indignação do primeiro encontro.

– O babaca não percebeu que eu estava vestida como Katherine Hepburn nos anos 40!

Rogério não sabia quem foi Katherine Hepburn, muito menos reconheceu outra Hepburn, Audrey, quando viu Glenda pela segunda vez, caracterizada como a jovem Audrey em Charade, usando um conjunto vermelho, luvas brancas e chapéu também branco. Avisada por Dulce da chegada de Rogério, em plena noite, dentro de uma choperia, Glenda resolveu brincar, sacando os óculos escuros, mesmo se sentindo mal por quebrar o estilo da estrela americana. O rapaz percebeu a intenção dela em não permitir que ele conhecesse seu olhar. Reagiu com ironia:

– Que sol quente, não! Ou você é maconheira?

Glenda mostrou seu lado Betty Davis, a estrela que tinha tanto talento quanto língua afiada, mostrando ao rapaz o que aprendera ouvindo, analisando e refletindo sobre a voz humana.

– Sua voz me diz que você é um babaca, que tem medo de se envolver, que acha que pode impor às pessoas a sua vontade e, sobretudo, dono de uma inexperiência brutal em relação ao sexo oposto, em suma, inseguro!

E tirando os óculos, encarou com altivez um embasbacado Rogério que, olhando-a firmemente, emudeceu.

Ela nunca gostou da voz dele.

Ele não gostou dos olhos dela.

Terminou ali o que nunca havia começado. Seguiram em frente, sozinhos e infelizes, até que os céus se compadeceram de ambos. Glenda se apaixonou por Diego, o mudo. Rogério se casou com Manuela, cega, olhar esgazeado e sem vida.

Ambos estão felizes…dizem.

Voltaram a se encontrar e, para não darem um ao outro o braço a torcer, antes que ele a visse ela já havia retirado os óculos escuros da bolsa. Ele limitou-se a sinalizar um cumprimento com a cabeça, sem nada dizer.

(Valdo Resende / Primavera de 2020)

Ilustração: Detalhe/Mural do Centro de Arte Popular – Cemig Belo Horizonte – MG. Foto: Flávio Monteiro

Nota: Título original, Glenda e Rogério, modificado na republicação deste conto.

Salve o Corinthians!

Habituada, a vizinhança ignora o ser estranho em que ele se tornou. Convive com o jeito robótico de andar, os pés mal se elevando do chão e raspando pesado como um avião descendo sem rodas. Monótono e em ritmo regular ele caminha sem olhar para a frente, para os lados, ignorando o mundo à sua volta. O olhar permanece fixo a um ou dois metros à frente. Se visualiza algum empecilho contorna, à vista do final da calçada para, e só então olha instintiva e rapidamente para os lados antes de atravessar.

Bermudas e camisetas pretas, meias e tênis da mesma cor sugerem uniforme. Resquícios do que foi um dia ele recusa qualquer outra cor, principalmente o verde. Já ouviram-no vociferar contra o Palmeiras e aclamar o Corinthians. Não consta que levante a cabeça para ver os jogos de futebol pela televisão; assiste as partidas pela pequena tela de um aparelho celular sem outra serventia, exceto sintonizar o canal local. Durante os jogos permanece estático, olhar fixo sem manifestar grandes reações quando perde ou vence o time do coração. Apenas levanta ligeiramente o braço na hora do gol. Nada mais.

Ele faz caminhadas matutinas e vespertinas. O suor corre livremente pelo rosto, pelos braços manchando a camiseta, a bermuda. Sugere excessos, falta de higiene e talvez seja esse mais um dos motivos para que o ignorem. Houve um curto período em que puxava um cãozinho vira-lata pela coleira. Serviu de admiração para as pessoas notarem que em breve o animal caminhava no mesmo ritmo, as passadas espelhadas no andar do dono. Quando aguardavam passagem nas esquinas o cãozinho permanecia também imóvel e de cabeça baixa.

Durou pouco. O ser andando cabisbaixo puxando o cão que, por imitar o tutor, não percebeu o ciclista e morreu atropelado. O homem sentou-se no passeio e chorou copiosamente por horas. Não dava atenção a quem passava e nem mesmo falou com os policiais que pararam ao ver a situação inusitada. Ao insistirem para tirá-lo do local ele resistia e chorava mais alto, desesperado. A situação só se resolveu quando um vizinho passou e o identificou, orientando os policiais sobre o endereço dos familiares.

O pequeno grupo de curiosos ao redor do homem e do cachorrinho morto se calou com a chegada de uma mulher, altiva, séria, ignorando totalmente os olhares dos presentes. “Adriano, levante-se! Pegue seu cachorro e vamos para casa”. Ele atendeu prontamente e, de pé, seguiu na mesma toada, na mesma postura. A mãe foi sem olhar para trás certa de ser obedecida. Só quando chegaram ao portão de onde moram ela se manifestou. “Não entre com esse cachorro morto dentro de casa. Fique aqui que vou buscar o saco de lixo. Já liguei para uma empresa, virão buscar e dar um fim nisso”. Ele intensificou o choro. Ela concluiu: “Você é um homem. Para de chorar”. Ele obedeceu.

Tudo continuaria como dantes no quartel de Abrantes se não entrasse o Bento na vida de Adriano. Seu Bento, como é conhecido o dono da pequena frutaria que se estabeleceu no quarteirão adjacente à moradia do rapaz. Dono de simpatia profissional, carecendo de garantir freguesia, Bento cumprimenta alegremente aos passantes, insistindo mesmo aos taciturnos, aos mal-humorados ou apressados. Comenta o dia, a roupa, o sol ou a chuva e quando bem recebido já emenda: “Esse sol pede um suco de caju, venha ver como estão bonitos”. Fez muito conhecidos e até amigos, incluindo nesses Adriano.

Nada fazia com que o rapaz respondesse às investidas de Bento. Bom dia, ou boa tarde eram tão ignorados quanto um “que sol gostoso”, ou “que chuva chata!”. Sábio comerciante, Bento evitava perguntar aos amigos já feitos sobre o estranho rapaz. Ninguém gosta de bisbilhotice, de fofoca. Há que se respeitar as diferenças, sem refrear a curiosidade. O meio de atingir o rapaz era tão óbvio que Bento assumiu-se momentaneamente burro antes de soltar o primeiro “Fala, corintiano!”.

Adriano alterou visivelmente o passo, voltando rapidamente ao ritmo de sempre com o primeiro cumprimento. Isso não passou desapercebido a Bento que, dia seguinte, durante a passagem do rapaz soltou um “Vai, Corinthians!”. Certamente o rapaz ouviu, pois parou por dois, três segundos antes de continuar a caminhar. Bento resolveu apelar para métodos visuais. Dia seguinte, quarta-feira, vestiu a camisa do time para trabalhar. Quando Adriano se aproximou Bento foi direto ao ponto: “De quanto vamos ganhar hoje?”.

Aos sessenta e quatro anos, quarenta de frutaria, Bento estava habituado aos olhares de fregueses, de transeuntes. Vindo lá do sudeste do Piauí, passou por temporada no Rio de Janeiro antes de uma mudança para São Paulo e a mais recente, para Santos. Sabia distinguir os interessados em seus produtos, os mal-amados em eterna indisposição. Aprendera a quem oferecer algo à mais, e aos que podia insistir mesmo que estivessem com as mãos carregadas de sacolas. Não era de criança gulosa nem de trabalhador cansado o olhar que Adriano lhe dirigiu. Não era um olhar simpático, nem antipático e, só mesmo uma percepção aguçada notaria algo além da mera indiferença. Um mínimo de curiosidade estava naquele olhar aparentemente opaco, sem vida. Era o olhar de quem encontrara um ser humano.

Adriano parou ao ouvir a pergunta do vizinho. Demorou alguns instantes para roboticamente virar-se, a cabeça baixa, fixa na posição costumeira. Levantando a cabeça vagarosamente olhou para seu interlocutor como se há muito tempo não visse ninguém. Viu o homem moreno diferente do que se lembrava do pai, dos tios, todos muito brancos, cabelos loiros ou grisalhos. Percebeu o sorriso tranquilo e recordou o jeito simpático de um antigo professor. Sorriu ao ver a camiseta preta e branca, o distintivo do time amado. Com dificuldade balbuciou, dando ao outro a certeza de que falar era algo raro para o rapaz. “2 a zero tá bom!”.

Sem mudanças drásticas. Foi apenas o começo de uma amizade. Adriano continua o mesmo, caminhando duas vezes pelas ruas do entorno de sua casa. Quando chove não caminha, mas vai até a frutaria de Bento, parada obrigatória de todos os dias. Ao chegar conversa alegre e fluentemente com o amigo. Prioritariamente falam de futebol. Volta e meia surge um ou outro tema qualquer. Conversam sobre tudo e às vezes até uma terceira pessoa entra no assunto. Adriano é simpático e atencioso. Bento, sempre sorridente, gosta de oferecer frutas verdes ao amigo que, tenaz, recusa veementemente. Só aceita maçã, tomate, laranjas maduras, uvas. Nada verde, nunca! Ele é fiel às cores do seu time. No bairro, Adriano deixou de ser o estranho. Ele é o amigo de Bento. São corintianos, do time “mais brasileiro”.

Santos, verão de 2025.

Nota: Imagem criada com IA.

Depois da tempestade

Ela chegou àquela altura da vida em que nada havia a perder; mesmo querendo perder o que guardara para um possível príncipe que nunca chegou. Desconfiava que ninguém mais manifestaria interesse pela coisa. “Coisa, coisa, que palavra feia”, pensava Dadinha. A idade chegou e a flor intacta, o símbolo máximo de pureza, a comprovação física da castidade havia se transformado em coisa. “Triste fim da borboleta! Melhor não pensar”, pensava Dadinha.

O apelido veio na infância; Dadinha completou os primeiros quatro anos articulando uma única sílaba “Dá!” Repetia, ensaiava entonações, praticava incríveis variações sorrindo, chorando, séria, ensimesmada, ao som gaguejante: “Dá!” E virou Dadinha. Desconfiava da criatividade familiar a partir do primeiro apelido. E não contabilizaria, ao longo de toda a vida, outros acontecimentos que pudessem desfazer a certeza aumentada ano após ano. Criatividade não era característica familiar e, pior, Dadinha veio com a mesma sina.

Sem conseguir grandes feitos na vida, Dadinha culpava a família pela falta de brilho, pela ausência de algo que a fizesse notável. Cansada de passar o tempo em branco, houve um momento em que se permitiu ser encaminhada para uma espanhola, autodenominada terapeuta alternativa. Esta conseguiu dois feitos notáveis: fez com que Dadinha acreditasse que sofria de complexo de inferioridade e, segundo, que o processo de cura começaria trocando-se o apelido da moça. Assim surgiu Da! Apenas e tão somente Da.

O resultado da terapia foi que Da ganhou olhares incrédulos, sorrisos de espanto e mais solidão. Uma única amiga consentiu em apresentá-la pelo novo nome: “Jurandir, esta é a minha amiga Da!”. O rapaz, olhando-a profundamente procurou esclarecer: “Dalva? Darlene? Dulce? Dilma!”. Da apenas balançava a cabeça negando as possibilidades e o rapaz, percebendo a presa fácil concluiu: “Da?” E ela docemente confirmou: “Sim”.

Jurandir, mineiro das antigas, levou o sim de Da ao pé da letra, arrastando-a para uma rua deserta no começo da noite. Lá em Minas Gerais, dadeira ou dadona era quem dava muito. Acho que ainda é, embora com outros adjetivos. O rapaz ganhou bofetões de uma indignada e ofendida Da que, mediante o ocorrido, reassumiu-se Dadinha.

Décadas depois, já em São Paulo, morando no mesmo edifício nos tornamos amigos em campanha contra uma síndica. Acabamos bebericando em tardes de sábado, quando em ocasiões de excessos alcoólicos Dadinha passou a me confidenciar: “Bem que deveria ter aceitado as investidas de Jurandir. Pelo menos teria alguma lembrança do que é sentir um corpo por cima, por baixo… ou seria de lado?” Ficava com raiva de nem poder expressar uma preferência e achava a vida muito sem sentido. E tomava mais uma dose até que, alta, reclamava não ser ela a mulher da minha vida, despedindo-se e tomando rumo de casa.

Dadinha, vinda desse Brasil tão brasileiro, acreditava em santos, milagres, despachos, patuás, promessas, simpatias. Num já distante junho, bem próximo do dia de Santo Antônio e acreditando que nada mais havia a merecer do santo, deixou todas as crenças de lado. Estava certa de que seu caso pendia mais para Santa Rita dos Impossíveis do que para o santo casamenteiro, mas o que uma santa, chegada à castidade, poderia fazer por ela? Chegou a desancar com o santo chamando-o inútil, imprestável. Foi na mesma noite após o destempero que o raio caiu.

Aquele 11 de junho surpreendeu São Paulo com uma tempestade tenebrosa. Raios caíram sobre a cidade e um, barulhento e forte, bem sobre nosso edifício, na Bela Vista. Em nosso prédio foram muitos os apartamentos com vários eletrodomésticos queimados. Dona Jovelina, vizinha de andar e confidente de Dadinha espalhou a notícia: “Vingança de Santo Antônio! Ela desdenhou do Santo, blasfemou, ele queimou a casa dela e ela, de susto, está lá mais tonta do que antes repetindo dá, dá, dá…”

Todos se compadeceram com pena de Dadinha. Era verdade! Estava repetindo a sílaba indefinidamente, olhar esgazeado, andar cambaleante. Assustada e em choque com o raio seguido do barulho ensurdecedor do trovão, reverberando pelas paredes dos edifícios vizinhos, Dadinha fora condenada a retornar ao dá, dá, dá infantil. Fiquei penalizado por pouco tempo. Três dias depois, chegando da faculdade, encontrei Dadinha toda produzida, jovial, com um sorriso escancarado, eufórica ao ponto de não se conter, me dizendo sem rodeios: “Eu dei, professor! Eu dei!”

Sem conter o riso quis saber o outro ator de tal ato. “Jurandir! Reencontrei o Jurandir. Há muito que está em São Paulo e é eletricista, veio chamado pela síndica. Pra alguma coisa aquela presta. Ele veio consertar os relógios avariados e eu lá, só dizendo dá, dá, dá, ele achou que eu queria, aí, veio me pegando, me cutucando, me beliscando, me bolinando… Ah, seu Valdo, como eu pude viver sem isso?”

Quem não ficaria feliz com tanta felicidade? Que bom que não havia vingança nenhuma, comentei com Dadinha. Comentamos sobre os caminhos tortos dos santos; o simpático Santo Antônio jamais se vingaria; pelo contrário, mostrou sua força nesse quase milagre. Olhando os brilhos e o batom acentuado de Dadinha, toda aquela produção em plena quinta-feira, indaguei se ela estava saindo para novo encontro com o mineiro Jurandir. “Que nada, vizinho. Vou pro boteco da Dinorah, vou recuperar o tempo perdido. Já marquei com o garçom” E saiu piscando com uma safadeza que jamais imaginei ver naquela Dadinha renascida, jovial, cheia de vontades, senhora de si, do seu corpo e do direito de ser feliz.

Valdo Resende (Publicado originalmente em 2011. Revisado em Santos, janeiro de 2025)

Obs. Ilustração criada com IA