Perpétuo, o significado perdido

Um post democrático, já que a morte vem para todos. Privatizados, os cemitérios de São Paulo são altamente rentáveis e acabam de realizar atualização cadastral.

Poderia ser o começo de um conto de Natal lembrando o tal recenseamento, que levou José e Maria para Belém, onde nasceu Jesus Cristo. Está descrito no Evangelho de São Lucas. Ocorre que o mais recente “recenseamento” veio a mando dos donos dos cemitérios de São Paulo. Especificamente um recadastramento para donos dos jazigos e ossuários de cinco cemitérios da capital paulista. Em não comparecimento a família pode perder o direito sobre a propriedade do jazigo perpétuo.

O capitalismo é insano e, caso consiga aprisionar o ar, deverá vendê-lo. Pobre de quem não puder pagar. Certamente é pela ânsia de servir ao mercado, esse monstro abstrato que subjuga o planeta, que resolveram privatizar os cemitérios. Nossas prefeituras, incapazes de quase tudo, não conseguem administrar nem mesmo os antigos campos santos, atualmente campos rentáveis. E a ideia de perpétuo se desvaneceu.

Recordo antigos parentes que se orgulhavam de ter um pedaço de terra para descansar eternamente, ou até que “Deus desça do céu a julgar os vivos e os mortos”. Como os faraós do antigo Egito que construíram suas pirâmides tumulares para aguardar possível retomada do corpo, os cristãos acreditando na “ressurreição da carne” inventaram o jazigo perpétuo. Deveriam permanecer por milhares de anos, como os monumentos egípcios à espera da vontade divina.

Sinto-me por demais ingênuo. Acreditei na conversa mole de que um minúsculo pedaço de terra não interessaria a ninguém. Acontece que o mercado, que vende até a própria mãe, descobriu o nicho tão rentável quanto o desequilíbrio de quem perde um ente querido. No desespero de honrar o morto, quem vai deixar de enterrá-lo com o mínimo possível de dignidade?

Há tempos descobri que nas imediações de hospitais estão vampiros atentos aos parentes de recém falecidos. Começa ali o assalto aos sobreviventes, na indicação da casa funerária. Nesta, um vendedor como outro qualquer, interessado em bater metas e garantir comissões, faz a pergunta inicial. É óbvio que ao comprador será oferecido uma urna conforme o grau de parentesco com o defunto. O exemplo óbvio é o quanto alguém quer gastar para enterrar um cunhado ou a própria mãe.

Anúncios em jornais, floriculturas e até “catering” – defunto não comerá, mas aqueles que forem prestar homenagens terão um rango à altura do status do morto. Em Minas e em boa parte do interior do país a gente não sabe que diabos é esse catering, mas oferecemos café e cachaça. Após o primeiro assalto já aparece gente interessada em marcar cerimônias: do corpo presente, levar o féretro até a capela mais próxima, já garantir o melhor horário e exclusividade na missa de sétimo dia.

Todo esse lero-lero dos parágrafos acima é para deixar claro e relembrar o Silvio Brito da canção que nos alertava que “tem que pagar pra nascer, tem que pagar pra viver e tem que pagar pra morrer”. Deveria acabar ali, uma vez você tendo garantido o seu jazigo perpétuo. Mas os capitalistas descobriram que poderiam ter no cemitério altas fontes de renda, e os restos mortais de muitos deverão ir para o lixo. A tabela de possíveis gastos é imensa e feita para confundir. Tive até que procurar o dicionário para saber o que é columbário (cremar não é solução, já que você tem que depositar as cinzas em algum lugar, o tal columbário).

Há pontos consideráveis. Se tem gente para pagar condomínio de cemitério – escrevi aqui sobre o local onde está Pelé – que paguem e garantam a eternidade até que os sobreviventes deixem de pagar a vultosa mensalidade. Também devemos considerar aqueles que garantiram singelos jazigos para os seus, como é o caso de minha família que mantém o mínimo de enfeites e adereços, já que esses são alvo de ladrões. E há outros que são enterrados conforme dever moral das instituições que nos governam e dos políticos que garantem seus túmulos com proventos advindos dos nossos impostos.

A expressão perpétua ligada ao jazigo certamente já era. Pelo menos enquanto o capitalismo dominar nossa economia. Aqui, um aparte que acaba de me ocorrer: sempre me diverti com a ideia de que comunistas comem criancinhas. E agora me dei conta de que capitalistas querem até os corpos – temporariamente – das pessoas. E espero que tão transitório quanto a ideia de perpétuo, que seja o capitalismo e os capitalistas. Eles também terão fim.

Que alguns valores humanos foram para as cucuias é fato, mas o que é fundamental é lutar e brigar por ideias simples e fundamentais: transporte público não é para lucro, é para garantir o direito de ir e vir. Saúde é direito, assim como educação; o Estado deve prover meios para a sobrevivência e a formação dos cidadãos que, nada mais justo, garantirão a sobrevivência do próprio Estado. E cemitério, a despeito de sentimentos e religiões, é questão sanitária. Carecemos de um lugar seguro e adequadamente cuidado para os nossos corpos, ou as nossas cinzas, seja lá que destino darão ao nosso cadáver.

Feliz natal, é a expressão máxima do mês. Espero que você, paulistano, tenha feito o seu recadastramento tumular. Nada mórbido; pense na grana, que é o que norteia atualmente os nossos campos santos. O metro quadrado está pela hora da morte, é só consultar as tabelas disponíveis. No final das contas, perpétuo a gente agora sabe, é só enquanto a grana de taxas de manutenção entrarem nos cofres da concessionárias.

Nota: a imagem que ilustra este post é uma foto que fiz em Salvador, visitando o ossuário da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, em Salvador. Belíssimo lugar para guardar os ossos, felizmente ainda não privatizado.

Valdo Resende

Dona Assunta, a soprano

Quem frequentava a paróquia já sabia de algumas regras que regiam o local. Havia uma certa hierarquia entre as carolas e os candidatos a beatos. Na ânsia de ganhar o céu, já aqui na terra, havia aqueles que tratavam de marcar presença de maneira inequívoca nas cerimônias litúrgicas e nos festejos adjacentes.

O decoro era fundamental, então nada de roupas justas e curtas para ambos os sexos; que ninguém se atrevesse a incitar o outro com volumes insinuados por debaixo dos panos. Dona Ednéa tratava de garantir a compostura das beatas. Portava sempre uma enorme bolsa e, dentro desta, lenços, véus e até mantilhas. Tudo de cor leve e neutra. Ela não gostava de decotes, saias curtas, peitos exuberantes. Sem pedir licença tirava o necessário da bolsa e limitava-se a dizer, ao colocar o tecido cobrindo a parte evidente: “É preciso estar bem composta!”. Fim da missa recuperava o tecido e passava um sermão nas desinibidas.

Seu Lázaro, já na casa dos setenta, estava sempre vestido com um paletó preto cheio de medalhas de santas e santos. Faria inveja aos militares folclóricos de ditaduras sul-americanas. No pescoço pendurava três fitas com as preferências de sua devoção. Uma, azul, ostentava imensa medalha que parecia um pires com a imagem do sagrado coração de Maria. Outra, vermelha, com o Cristo, o coração sangrando e exposto. A terceira, amarela, tinha uma imagem de São Mateus, o padroeiro dos banqueiros.

Encarregado de receber as ofertas em cada missa, Seu Lázaro tinha comportamento inequívoco conforme a data em cada mês. No primeiro domingo após o quinto dia útil, quando supostamente todos os paroquianos já haviam recebido o salário ele ia, de banco em banco, oferecendo a sacola aberta e olhando firmemente para a cédula dada. Nessa data não aceitava menos que dez reais de um, cinquenta reais de outro. Conhecedor de cada fiel, sabia quem podia dar o quanto ele estipulava. Chegava na frente da “vítima” e sussurrava: “50”! Menos que isso, insistia levantando a voz. Quem iria passar tal vergonha?

Pessoa notória e alvo da inveja de muitos era Dona Assunta. A preferida do pároco, de nome Domênico. Ele havia estipulado lugar fixo para a mulher, no quinto banco, na extrema esquerda do assento, pois de acordo com ele era o local ideal para que Dona Assunta puxasse o canto, segurando ritmo e afinação. Quando ela faltava ele subia ao altar com cara fechada, mal humorado e, sem pestanejar, reclamava quando o cântico não saia bom: “Vocês estão desafinadas!”.

Se cantora de ópera, Dona Assunta seria páreo para Jessie Norman, Maria Callas. Cantava com a força necessária para garantir a audição de todos não só nas cerimônias internas, mas nas procissões onde reinava absoluta. Podia atrasar o quanto fosse – e contam que em algumas ocasiões atrasou para mostrar seu poder – que o padre não tirava o pé do lugar, chamando por ela com seu megafone. “Dona Assunta já chegou? Quando ela chegar a procissão sai”. O recorde de atraso da beata foi de uma hora e dez minutos.

Dona Assunta tinha uma inimiga não declarada, Dona Tereza. Com voz miúda e sem graça, ela ardia de inveja da outra, fato confessado por ela, o que deixava o Padre Domênico irritado. Era sagrado, uma vez por semana lá estava Dona Tereza ajoelhada no confessionário contando desejar que a outra ficasse rouca, engasgasse, ficasse muda. Após cada confissão de Tereza era o padre quem sentia necessidade de também se confessar, cheio de raiva da pecadora reincidente.

Noite de Natal, a paróquia de Santa Luzia resolveu reativar a velha tradição da missa do galo, à meia-noite. Tudo deveria correr bem! As mulheres bem compostas com seus trajes noturnos, os homens com as notas separadas conforme o aviso de Lázaro, que não queria demora na recolha do dindim. Todavia, na hora da missa, Dona Tereza não escondia ser aquela a sua noite feliz. Dona Assunta não chegou. Marcada para iniciar às 23h00, passados trinta minutos da meia-noite o burburinho aumentou, a pressão venceu e o padre iniciou a missa sem sua cantora preferida.

Dez quadras dali, Dona Assunta havia enfrentado um entrevero com o marido que, sonolento, se recusou a sair de casa. Ela o deixou, ciente de sua importância na cerimônia de gala. Caminhando pela rua com seu porte volumoso, italiana que era cheia de dotes, foi abordada por um gatuno querendo levar-lhe a bolsa. Nesta estava um escapulário, presente do padre, e uma medalha benta pelo próprio Papa, ela acreditava. Entrou em luta com o assaltante e levou a melhor, mantendo a bolsa, mas ficando com o vestido rasgado, o cabelo desgrenhado, o rosto arranhado.

Após a comunhão era hábito do padre pedir uma canção à Dona Assunta. Sem esconder a frustração, ele informou que faria a benção final dada à ausência da cantora. E iniciou a benção quando, lá de fora se ouviu um poderoso “noite feliz, noite feliz”. E Dona Assunta entrou, recomposta, poderosa feito a soprano Montserrat Caballé. Só justificaria ao padre o motivo do atraso. Ao passar por Dona Teresa respondeu com desdém ao olhar de inveja da outra. E seguiu até seu lugar, de onde ordenou ao menino Deus: “Dorme em paz, ó Jesus!”.

Valdo Resende

Dez/2024

Nota: imagem criada com IA.

“Es Sudamérica mi voz”

Neste último sábado formamos um enorme grupo sobre o palco do Teatro Sesc-Santos. Foi o encerramento da série Concertos Ibero-Americanos. O Maestro Ricardo Cardim, regente e idealizador da série (veja mais aqui), reservou para o concerto final a Misa Creolla, do argentino Ariel Ramirez.

“Meninos, eu estava lá!”. E aqui estão dois registros afetivos, ou seja, não são vídeos profissionais: são da perspectiva de quem estava na plateia e, assim, temos uma ideia de como fomos vistos e ouvidos. E queremos compartilhar com amigos, pessoas queridas e todos os interessados em música. Nas páginas sociais dos participantes estão outros momentos do concerto.

No primeiro vídeo, o Madrigal Ars Viva canta Niño Dios d’amor herido. É o grupo do qual faço parte e estou feliz e orgulhoso com o resultado.

No segundo vídeo, ápice do concerto, estão dois coros: O Ars Viva e o Coro Livre da Baixada, mais um grupo de músicos e solistas convidados cantam a Misa Creolla em cinco movimentos: Kyrie, Glória, Credo, Sanctus, concluindo com o Agnus Dei.

Não só nesse concerto, mas no cotidiano, o Maestro Ricardo Cardim é o regente dos dois coros e, certamente, todos os participantes agradecem-no pela atenção e infinita paciência em ensaios durante meses e meses.

Valeu, Maestro! Parabéns! Para todos os participantes!

Nota: o título deste post é de música de Ariel Ramirez e Félix Luna, que abre o disco Cantata Sudamericana, de Mercedes Sosa. Parceira de vários trabalhos com esses compositores, Mercedes é uma das intérpretes da Misa Creolla.

Boa semana para todos!

“Misa Criolla” Encerra Concertos Ibero-Americanos

O Teatro do Sesc-Santos recebe grupo coral formado pelo Madrigal Ars Viva, o Coro Livre da Baixada, mais solistas e instrumentistas convidados.

Detalhe do programa do projeto

Em junho deste 2024 teve início uma série de concertos e palestras, com destaque para a música sacra criada no período colonial por compositores que viveram no litoral paulista. Também foram lembrados compositores que atuaram na América do Sul ao longo dos últimos cinco séculos, culminando com obras feitas no século XX. No próximo sábado, às 15h, ocorrerá o encerramento com um grande concerto no Teatro do Sesc-Santos.

O Maestro Ricardo Cardim fez a curadoria de toda a série “Concertos Ibero-Americanos – Uma jornada musical pelos templos religiosos de Santos e São Vicente”. O projeto percorreu locais de importância histórica que remetem ao motivo primeiro do surgimento do repertório sacro, acompanhando os atos litúrgicos no período colonial. Além das obras corais, o projeto contemplou a música de câmara e as composições feitas para conjuntos instrumentais.

Maestro Ricardo Cardim em uma das palestras da Jornada Musical

Antecedendo cada concerto, palestras foram realizadas aprofundando os temas e conectando o público com o repertório de cada concerto. Nesta quinta-feira, 28, haverá um bate-papo sobre “As perspectivas da música latino-americana”, quando Cardim relembrará os principais compositores do continente.

Ao levar os concertos para os templos foi possível estabelecer diretamente as relações entre compositor, local e obra, como por exemplo, no Convento de Nossa Senhora do Carmo.  O Conjunto do Carmo guarda telas de Frei Jesuíno do Monte Carmelo, que também foi compositor. No concerto realizado em junho, abrindo a série, foram apresentadas duas composições do Frade: o “Cântico da Verônica” e a “Procissão das Palmas”.

Não só a história colonial foi enfatizada nos templos visitados. Na Paróquia da Sagrada Família, construída na década de 1970, o público visitante pode conhecer uma imagem de Santa Tereza de Calcutá, a primeira instalada em altar-mor. Foi lá que um santista, Marcílio Haddad Andrino, recebeu um milagre reconhecido pelo Vaticano e, após confirmação, houve a canonização da freira indiana.

Neste sábado, o encerramento da série

Maestro Cardim prepara o Madrigal Ars Viva para o concerto

O concerto que encerra a série será o único não realizado em igreja, mas no palco do Teatro do Sesc Santos. Ricardo Cardim preparou uma grande celebração com dezenas de pessoas, entre cantores, instrumentistas e solistas, que apresentarão neste 30 de novembro, às 15h, um repertório que sintetiza toda a jornada musical do projeto. O destaque é para a Misa Criolla, do compositor argentino Ariel Ramirez.

O Madrigal Ars Viva e o Coro Livre da Baixada formam um grande coral que acompanhará os solistas, os tenores Marcus Vinícius Moura Loureiro e Silas Silva; um conjunto de instrumentistas convidados para o evento completam o grupo, com a regência de Ricardo Cardim. Idealizado no primeiro semestre, os preparativos concretos dos dois coros ocorreram nos últimos três meses. Colaboram com o Maestro Cardim em todo o processo de ensaios a preparadora vocal Denise Yamaoka e a pianista Sônia Domenighi.

A pianista Sônia Domenighi acompanha todos os ensaios e estará no Concerto

Além de Ariel Ramirez, entre outros, farão parte do repertório do concerto Alberto Ginastera e Leo Brouwer. O conjunto instrumental convidado para o evento é formado por Fábio Ferreira (contrabaixo), Felipe Ramos (violão), Guilherme Nascimento (Percussão), Gustavo Albuquerque (alaúde, violão) Rafael y Castro (percussão), Sônia Domenighi (piano), Tadeu Romano (bandoneon), Wilson Melo (flauta) e Júlio Cesar (percussão).

Serviço:

Dia 28, Quinta 19h
Bate-papo – As Perspectivas da música latino-americana. Com o Maestro Ricardo Cardim.
Sala 1 do Sesc Santos – Grátis

Dia 30, sábado, 15h
Concerto obras corais (Encerramento da série Concertos Ibero-americanos)
Teatro Sesc-Santos
Inteira R$ 50,00, Meia R 25,00 e portadores de credencial plena do Sesc, R$ 15,00

Amor nas alturas

É certo que pouca gente da família sabia o que era pré-primário quando ele, arrumadinho no uniforme de calça azul e camisa branca, foi levado para a escola. No segundo dia de aula, outros tempos, já foi sozinho, o irmão mais velho indo até a esquina e apontando o rumo do Grupo Escolar. No terceiro dia nem isso, e ele encontrou Eliana, uma coleguinha linda, vestidinho verde e determinada: vamos ser namorados! E seguiram, mãozinhas dadas. Logo envolvidos na rígida divisão meninos e meninas se separaram.

Primeira paixão, de verdade, veio três anos depois. Já senhor de si, indo brincar em campos de várzea do bairro, em terrenos baldios. A turma da igreja era misturada e em um jogo de queimada ele acertou uma bola bem no rosto de Carolina. As lágrimas desceram de olhos negros, enormes, emoldurados por cabelo levemente ondulado, caindo suavemente sobre os ombros. Ele se apaixonou naquele momento e, culpa maior, ouviu de uma aprendiz de alcoviteira um “logo a Carolina, que gosta de você?”.

Seguiram-se dois, três anos de paquera, pequenas conversas, infinitos olhares. Ela era caçula de pais e irmãos rígidos, só iria namorar após os dezesseis anos. Flertavam de longe. Velhos tempos quando todos os estratagemas eram bem-vindos. De bicicleta ele corria da própria escola para a saída da outra, para ver Carolina. Nas missas chegava cedo para tentar sentar-se próximo, nunca um ao lado do outro. Durante quermesses trocavam correios-elegantes. Nas férias escolares, sem tolerar ficar tanto tempo sem ver a menina, ele “assentava praça” na esquina próxima de onde ela morava.

As coisas pioraram quando Carolina, aos quatorze, tornou-se babá de uma criança de gente rica, lá do centro da cidade. Vê-la passou a ser raridade, mas o afeto dele era alimentado em sonhos e devaneios de menino romântico, amores de outros aprendidos em novelas de rádio. Um dia ficariam juntos. Todavia, as coisas pioraram mais quando ele foi estudar em outra cidade, outro estado. O namoro, suspenso com o emprego da menina, tornou-se quimera, mera possibilidade futura.

Longe da família, dos amigos do bairro. cresceu taciturno, voltado para os estudos e nada mais. Um Werther tupiniquim, digno seguidor da personagem de Goethe, com o adendo da falta de contato e do total desconhecimento de como estava a vida de Carolina. Os ventos tomaram rumo de volta e ele retornou para a casa dos pais após dois transformadores anos. O final da adolescência fizera dele um rapaz esguio, um metro e sessenta de altura, os cabelos compridos e as roupas coloridas dos anos de 1970.

Foi a irmã que o atualizou: Carolina estava sozinha, de babá tornara-se dama de companhia da avó da criança, trabalhando e morando no mesmo endereço. Ele não previu que o reencontro seria em tão pouco tempo. O clube da cidade realizou uma reunião dançante, as baladas de então, e ao comparecer ele a viu de longe sentada junto a amigos. O coração acelerou, a boca ficou seca. Ele não era mais o menino que ficava distante. Tinha que mostrar maturidade, segurança. Precisava tirá-la para dançar, o que não foi possível momentaneamente, pois só se ouvia rock e um monte de gente fazendo a coreografia do momento.

Ele foi até ao bar. Um conhaque o ajudaria a conseguir falar, a língua presa na boca seca. Enquanto aguardava não tirava o olho de Carolina que decididamente o reconhecera, mas não apresentava o mesmo olhar de antigamente. Estaria com algum namorado? Teria se apaixonado por outro rapaz? Por que não sorria leve, como antes, indicando que ele poderia se aproximar, chegar até a ela?

Ah, aqueles bailes! Havia sempre momentos alternados em que o conjunto musical presente tocava ou música lenta, ou música dançante. Os apaixonados preferiam as seleções de músicas lentas, românticas, propícias para convidar uma garota e sentir a proximidade dos corpos, o perfume, a maciez do cabelo. E havia uma história, talvez lenda, que o casal precisa acertar sincronicamente os passos de dança, com naturalidade, sem atropelos. Se não dessem certo ao dançar, jamais dariam certo no amor. Ele matutava enquanto bebericava a bebida, a mão dentro do bolso segurando nervosamente uma bala de hortelã. Precisava de um hálito agradável ao se aproximar de Carolina. Quando essa música vai parar?

No intervalo o balcão do bar ficava lotado, os banheiros congestionados e o vozerio tomava conta do ambiente. Percebia-se uma rápida abertura do que poderia se chamar momento de caça. Os olhares buscando prováveis parceiros para a próxima seleção que, com certeza, seria de músicas lentas, românticas. Os mais ansiosos já se aproximavam de suas escolhidas, buscando manterem-se à frente de possíveis concorrentes. Ele, olhando Carolina lá de longe, preferiu esperar a música começar, ver o que aconteceria.

Quando o grupo musical atacou uma canção dos Bee Gees ele viu um sujeito aproximando-se, convidando e recebendo recusa de Carolina. Sentiu-se o mais feliz dos homens e tomou a direção da mesa onde estava aquela paixão de tantos anos. Chegou tímido, sem saber o que dizer e balbuciou: “Vamos dançar?” Ela sorriu com a suavidade dos primeiros tempos e respondeu: “Prefiro que você se sente aqui. Vamos conversar”.

Ele tremia ao tentar segurar a mão de Carolina que, com delicadeza e decisão o conteve. “Não vai dar certo, desculpe! Não posso aceitar. É impossível”. Ele olhou sem entender e aguardando ansiosamente uma explicação que veio sem rodeios. “Você não cresceu. Eu cresci demais! Vai ficar muito esquisito. Lamento. Se você me der licença, vou ao banheiro. Na volta, não gostaria de encontrá-lo aqui”. E ele, consciente de seus 1,60m de altura viu uma mulher enorme, elegante, que só então ele percebeu que ela se encolhera na cadeira. Atravessando o salão ia uma moça que poderia apoiar-se na cabeça dele para acertar o sapato, coçar o pé.

Naquela noite ele descobriu que Werther era só um personagem romântico. E que os amores distantes podem resultar em falsetas. Poderia beber, poderia chorar, poderia guardar aquela história e a lembrança do amor frustrado. Preferiu ir para o outro lado do salão. Encontrou e convidou uma garota para dançar. Para essa, ele até que era alto. Muito alto!

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Nota: imagem produzida com IA.

D. Maria, dos cachorros e dos parangolés

Era uma época boa, quando cachorros eram amigos do homem. Ninguém carecia de passear com eles catando cocô pelas ruas. Precisavam de carinho, de comida, não dessas rações, Deus me livre do que são feitas… Os cãezinhos viviam livres e felizes pelos quintais e vizinhança das casas. Na minha família atendiam por nomes como Sheik, Bilu, Japi. A maioria era vira-lata, os melhores para fazerem barulho quando alguém invadia a propriedade. Eram dois, no máximo, por residência, exceto pelas dezenas que viviam e acompanhavam D. Maria.

Era uma festa constante. D. Maria caminhando rumo à padaria, à venda, ou sabe-se lá para onde, acompanhada por cerca de duas dezenas de cachorros. De todos os tamanhos e diferentes raças. Ela conversava com todos e os múltiplos latidos, vários abanando os rabos, dificultavam a gente identificar a quem ela se dirigia. Ouvia-se de longe o barulho e crianças, como eu, corriam para a porta de casa para ver a passagem da Dona Maria dos Cachorros.

Uns a chamavam de Velha Suja, ou Porca; outros de Doida Varrida. O que a memória guarda é de longas saias, blusas largas e panos jogados sobre o corpo que, mais tarde, um artista chamou de parangolés. D. Maria dos Parangolés e seus cachorros, todos parados comportadamente na porta da padaria enquanto ela pegava seus pães. Na porta do açougue era uma algazarra, os bichos querendo entrar e a mulher impedindo-os e pedindo o que queria lá do meio da rua. Alguns clientes irritados com o avanço dos cachorros perante o cheiro de sangue eram ignorados, Dona Maria fazendo de conta que não os ouvia. Vez ou outra o açougueiro jogava um pedaço de carne no meio da rua. Os cãezinhos corriam alucinados. Junto com eles a Dona Maria, corria preocupada para o meio da rua, impedindo a passagem de carros e similares, protegendo a matilha.

Mamãe contava que aquela mulher escolheu viver com os cães. O marido era cachaceiro inveterado e judiava dela e dos filhos. Esses, cresceram e foram embora. Nunca voltaram e ela não teria ido atrás de nenhum deles. Um dia ela tomou coragem e, armada de um porrete, botou o marido pra correr, já então com o apoio de alguns cachorros que, defendendo a dona, partiram pra cima do homem. Foi quando passou a acolher todos os cães que apareciam por lá. Uns, levados pelos vizinhos, outros bem filhotinhos eram abandonados na porta da casa.

Vivendo entre os animais, conversando com eles, foi se afastando dos vizinhos, só se comunicando mesmo com fornecedores. O padeiro, o açougueiro; verduras, não. Cultivava em horta própria, assim como frutas vinham do pomar do fundo do quintal. De onde vinha a renda, não se cogitava. Talvez algum filho mandasse algum dinheiro; talvez ela possuísse alguma reserva proveniente de herança. O que era certo é que vivia tomando conta de si e dos cães, passeando alegremente com os bichinhos em meio a festa e cuidados. De sua passagem pelo passeio em frente da nossa casa ouvia-se os latidos e, acima desses, a voz da mulher chamando para perto de si aquele que descia para a rua.

Sem dar bola para os vizinhos, esses também se esqueciam dela, deixando-a em sossegada paz. Às vezes ela passava dias sem sair de casa, mas era vista cuidando do quintal, brincando com os bichos. Entrou para a história o dia em que se ouviu cachorros uivando, lamentando o corpo caído no meio da sala. Quem escutou disse que eram como um choro desesperado, dolorido. Quem viu, guardou a imagem de alguns cachorros lambendo a dona, como se tentando reanimá-la.

A notícia ruim se espalhou feito raio e como mágica o marido retornou. Tomou conta dos funerais e, anunciando a venda do imóvel, avisou aos curiosos que apareceram no velório que daria um fim na cachorrada. Alguns animais foram levados embora, adotados no mesmo dia. Outros foram vistos pelas ruas, dias depois. Sem os cuidados da dona trataram de dar rumo na vida. As ruas do bairro ficaram mais tristes e silenciosas.

De Dona Maria dos Cachorros ficou por muito tempo a lembrança. Diziam por lá pelo Boa Vista, em Uberaba, que quando malditos donos tiravam filhotes das mães e os jogavam em um canto qualquer, via-se nas noites um vulto de mulher, cheia de parangolés, alimentando-os e colocando-os no colo para ninar. Houve até gente que disse ter ouvido acalantos na voz da mulher, o que poucos acreditaram. É lenda, diziam. É bonito, mas é lenda. Deixem Dona Maria descansar em paz!

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Nota: Imagem criada com IA.

Não é só uma senhorinha com um jornal

Uma imagem comum, corriqueira, e de imediato nem me dou conta de que a dita cuja se constituiu em gatilho para um montão de coisas. A foto de uma senhorinha lendo o jornal. Certamente há inúmeras semelhantes não fosse esta particular, familiar, minha mãe. Laura.

Das coisas que emergiram a primeira foi a lembrança de cartas, inúmeras cartas. Um ritual certamente raríssimo nos dias de hoje. Os meios de comunicação facilitam gravar a mensagem e, fato, não é necessário saber escrever para se comunicar com os parentes distantes.

Frequentemente íamos à estação ferroviária ver se havia chegado encomenda. Oriundas de Campinas, onde residiam meus avós, ou de Ribeirão Preto, onde morava tia Olinda. Cestas de vime, cobertas com tecido branco costurado às bordas, e papel colado nesta com os dados do destinatário. Trazida a cesta para a casa havia certamente boas surpresas. Um presente de aniversário, bolo ou doce de ocasião, e a carta. Mamãe se sentava, nós os filhos em volta, e ela lia em voz alta, a gente sentindo a entonação do autor da missiva.

Leitura meio complicada para meus poucos anos eram revistinhas semanais com a publicação de capítulos da novela O Direito de Nascer. Revistas de rádio teatro. Com fotos de moças ou casais bonitos na capa e, na quarta capa, a foto de gente como Cléa Simões, Ézio Ramos ou Gilmara Sanches, que eu guardo na memória como as vozes mais bonitas das radionovelas.

“Textão”, como dizem hoje, era o enorme livreto com a Hora de Adoração. Membro da Congregação do Sagrado Coração, mamãe se obrigava a ir mensalmente à Igreja da Adoração Perpétua onde rezava todo o livrinho, que deveria somar uma hora de reza que, para o menino ansioso, era uma eternidade. Mamãe sussurrando e o garoto só sentindo alívio com o sinal da cruz final.

Havia fotonovelas, gibis e os livros. O primeiro livro, que mamãe guardava com certo ciúme, foi por ela utilizado no primário: “Os companheiros”, que depois me foi presenteado. Entre as páginas, inúmeros cartões de lembranças dos colegas de escola, além de “santinhos” de todas as datas e matizes.

E veio José de Alencar, que meu irmão Valdonei deveria fazer trabalho para a escola. Encarei o livro imenso, O Guarani, o primeiro grande livro que li. Depois vieram outros, como uma coleção do Jorge Amado, de minha irmã Walcenis e, da minha irmã Waldênia, a obra completa de Fernando Pessoa, os livros sobre o ator, de Stanislavski e a antologia de Mário de Andrade. Li tudo! E mais um monte de outros.

Com o tempo o rádio foi substituído gradativamente pela televisão. Mamãe, já idosa, assistia novelas e “interagia” com as personagens, guardando ressentimentos e mágoas de “vagabundas traidoras”, às vezes sofrendo um bocado por não saber se deveria amar ou odiar Eva Wilma, com a primeira dupla Ruth e Raquel de que se tem notícia. Nas sextas-feiras, mamãe viajava com o Globo Repórter, preferindo sempre os programas sobre o que apelidávamos de “mundo animal”.

Sempre que se fala em educação penso em D. Laura, a minha mãe. Ela tinha amor pelo conhecimento e sabia do poder deste. Fez das tripas coração para facilitar, junto com meu pai, educação formal para os seis filhos. E dentro de nossa casa o silêncio era sagrado quando alguém precisava estudar. Comprar cadernos e livros eram dias de festa e ler, uma enorme satisfação.

As fotos “oficiais” são ótimas. A família registrou as conclusões de curso, as formaturas, os bailes. Papai e mamãe orgulhosos ao lado dos filhos “estudados”. Todavia, é esse registro dessa senhoria lendo jornal que mais me comove. É o momento cotidiano e comum dentro do nosso lar. Mamãe atenta ao jornal, lido de cabo a rabo.

Sinto não ter registrado minha mãe lendo os livros que escrevi. Tenho as informações de minha irmã, mamãe no mesmo cantinho, sentada lendo os textos de jornais em que trabalhei, dos livros que li. E os elogios de minha mãe que, sem dúvidas, os que mais me importaram receber. Hoje, 03 de novembro de 2024, mamãe estaria completando 97 anos. Que chegue a ela as orações dos filhos e dos entes queridos. Em especial, nossa gratidão pelo conhecimento facilitado a nós, seus filhos.