Poleiro de pato é no chão

Imagem criada com IA

Um sururu sempre rolava naquele boteco da Lapa. O grupo de frequentadores era quase fixo, amigos e conhecidos não se importando com o final de costumeiros bate-bocas, às vezes levado às vias de fato. Juvêncio, chegado a buscar remédio na cachaça, tinha por hábito desabafar com quem estivesse a seu lado. Belmiro, sempre que percebia tal situação, passava por ele e sussurrava: “Pato!” Pronto, estava iniciada a peleja.

Juvêncio se achava todo pimpão, poderoso. “Pato é a mãe!”. Em seus devaneios traçava a mulherada do pedaço. Quando no espelho, via-se como galã de cinema. Gostava de fazer pose de cantor de tango; às vezes de boxeador ou, ainda, de bom moço, romântico. Dobrando os braços para ressaltar os músculos, estufando o peitoral, via-se sobretudo como um belo e garboso galo. Ele morava na Lapa, o bairro boêmio do Rio de Janeiro, no andar de cima de um sobrado, bem ao lado do boteco frequentado por sambistas, por homens em busca de mulheres e estas em busca de amores, fregueses e patos.

“Essa gente de samba!”, dizia Juvêncio com desprezo. A indisposição vinha principalmente por conta de Belmiro, um afamado compositor, sujeito elegante e refinado em seus ternos de linho branco. Alardeando ter borogodó e ser do balacobaco, pagava bebida para todo mundo quando tinha samba gravado por Araci de Almeida ou Carmen Miranda. Contam que teve uma paixão por Dalva de Oliveira e, por tudo isso, Juvêncio se perguntava o que um cara cheio das coisas faria naquele boteco de samba? O fato é que Belmiro o chamava de Pato. E ele odiava ser chamado de Pato, assim como detestava lembrar quando surgiu o apelido.

Juvêncio viera de São João do Meriti para trabalhar no comércio da Lapa quando conheceu Aurora. Mulher de quadril bamboleante e seios empinados, a moça deixou-se namorar pelo jovem que pensou ter encontrado nela um grande amor. Após meses da aparente paixão, a moça não deu a mínima por ter sido flagrada com um marinheiro de passagem pelo Rio de Janeiro. Trocou o amor de Juvêncio por vidros de perfume contrabandeado. Sobraria para ele lembrar a situação sempre que ouvisse a marchinha carnavalesca que, ironicamente, poderia ser encarada como profecia: “Se você fosse sincera, oh, oh, oh, Aurora. Veja só que bom que era…”

O abandono de Aurora rendeu. Juvêncio bêbado, chorando no balcão, lamentando o fato. Em um desses dias de chororô, rolava uma roda de samba e Belmiro puxou uma marchinha, famosa na voz de Chico Alves, sendo acompanhado pelos animados participantes da roda.

Ai, ai, ai, o galo é que está com a razão
Ai, ai, ai, poleiro de pato é no chão…

Juvêncio achou que aquilo era para ele, ali, no chão dos abandonados. Um pato! Mesmo alcoolizado, o rapaz chamou o compositor pra briga. O segurança empurrou-os pra rua. Mais falação que briga, antes que a contenda estragasse a noite foram separados pela turma. Motivo da briga veio à tona, foi inevitável associar o sujeito ao apelido. Pato. Juvêncio tratou de bolar um jeito de calar a boca do bar.

Disposto a ir à luta, redescobriu-se vaidoso ao fazer a barba, cortar o cabelo. No espelho voltou a ver o galo que achava que era, aprumando-se para nova conquista. Sabia atrair uma mulher e, assim, a morena Aurora foi substituída por uma ruiva de idade indefinida, moradora do Rio Comprido, que trabalhava como copeira em Copacabana. Ele logo descobriu que a nova namorada fazia jus ao mito de que mulher ruiva tem um fogo só comparado à cor do cabelo. Após noites de intensa atividade, ele pensou ser já momento de levá-la ao boteco, mostrar para aqueles sambistas o galo em ação.

Gilda, a ruiva, tinha lá seu jeito de ser, sua forma de levar a vida. Não é por ser copeira que não filosofava. Cada namorado era sempre o um, o que o “um” não sabia é que havia o dois, o três, o quatro… Namorando um rapaz em cada esquina, se entregava com paixão e chegado o momento cantarolava para todos eles:

...Se o amor só nos causa sofrimento e dor

É melhor, bem melhor a ilusão do amor

Quando o casal entrou no Boteco, foi recebido efusivamente por Belmiro que, em andanças por Copacabana, já havia ido até ao Rio Comprido conhecer os lençóis de Gilda. Com desenvoltura, a moça saudou o encontro e, aproveitando a situação, esclareceu para Juvêncio sua forma de encarar a vida, o amor. Mostrando desenvoltura e afinação, juntou-se aos instrumentistas e cantou “Nada Além”, a música que tinha por filosofia de vida.

Eu não quero e não peço para o meu coração

Nada além de uma linda ilusão.

Naquela mesma noite, enquanto Gilda mostrava seus talentos aos sambistas da Lapa, Juvêncio bebia e, atônito, conhecia a liberdade da moça que, em momento de descanso da cantoria, segredou a ele gostar de fazer a dois, a três. O que ele achava de fazer uma brincadeira, ela, ele e o rapaz do cavaquinho, por quem ela revelou nascente tesão? Ele fugiu, escandalizado, deixando-a no bar.

Semanas depois, encheu a cara em estabelecimento vizinho para tomar coragem de voltar ao bar. Foi recebido por conhecidos e por Belmiro, que lembrou a ele o que já era sabido: poleiro de pato é no chão. Nesse dia não houve briga; o abandonado muito bêbado preferiu chorar as mágoas no ombro do inimigo. Destino triste esse que só colocava mulheres traiçoeiras na vida daquele cidadão. Será que era castigo por ele ter abandonado Amélia?

Muito jovem, Juvêncio segredou a Belmiro, ele queria conhecer os prazeres da vida. Amélia, jovem e bonita vizinha, facilitou a primeira experiência. Entusiasmado com os prazeres da convivência doméstica ele saiu da casa dos pais e foi morar com a moça.  De repente a libido acabou e ele, já se sentindo galo, queria mais. Tinha toda a vida e a cidade grande diante de si. Deixou a pacata São João do Meriti e veio para o Rio de Janeiro para, sabia agora, ser traído por uma, dividido com muitos pela outra.

…Ai, meu Deus, que saudade da Amélia

Aquilo sim é que era mulher…

Depois daquele desabafo não falou mais com Belmiro. Quando bêbado se lamentava com quem estivesse a seu lado no balcão. Sóbrio voltava ao espelho e, aprumado, saia pra vida, para buscar novos amores. A lista cresceu. Na roda de samba virou piada. Tantas namoradas sem segurar nenhuma? Volta e meia corneado ou simplesmente abandonado, amigavelmente dispensado, violentamente trocado… Belmiro sentenciava: – não é galo, é pato!

Uma noite Amélia reapareceu radiante. Madura ganhara formas fartas, bem proporcionadas. Portava joias, sapatos e bolsa de couro legítimo e a roupa era coisa para gente de fino trato. O boteco estranhou aquela grã-fina sempre de braço dado com um sujeito que só podia ser doutor. Terno bem cortado, cabelo engomado, disposto a beber e comer do bom e do melhor.  Ninguém entendeu o que fazia o casal passeando pela Lapa. O boteco era bom, mas a desconfiança cresceu quando Amélia voltou usando decotes ousados, fendas de saia que revelavam coxas perfeitas e, novidade para o local, calças compridas, apertadas, evidenciando a generosidade do tempo e da natureza.

Juvêncio conseguiu guardar por várias semanas ser aquela a Amélia de São João do Meriti, que ele conhecera e abandonara na juventude. Em dado momento ela começou a chegar sozinha no local, o companheiro aparecendo mais tarde. Ele notou que ela lhe lançava olhares, esboçava sorrisos. Ele, certo de que decotes e pernas de fora eram pra si, tomou coragem e foi atrás de uma alcoviteira a quem pagou para levar um bilhete marcando dia e hora para um encontro. Cansado de tantas aventuras mal sucedidas iria reconquistar Amélia.

Não demorou para que ela respondesse detalhando dia, hora e local. A porta estaria aberta. Não carecia de chamar a atenção dos vizinhos do mesmo andar. Ele caprichou diante do espelho, vestiu o melhor terno e, perfumado, o cabelo engomado, reconheceu-se o galo de outrora, do primeiro amor.

No local combinado, foi direto ao quarto. Na penumbra encontrou a antiga namorada nos braços de um homem. Amélia disse apenas, “meu filho, que se há de fazer?”. Ela acendeu a luz e ele reconheceu Belmiro, gargalhando com a situação. E ela, golpe de misericórdia, afastou os lençóis e nua pediu ao amante: Como é mesmo a música, querido? Belmiro acentuou cada palavra, para deleite de Amélia e desespero de Juvêncio: “… Pois diz ele que o terreiro é pro galo vadiar. Pato se quiser poleiro, peça à pata pra arranjar. Ai, ai, ai, poleiro de pato é no chão”.

Depois dessa última noite Juvêncio nunca mais foi visto na Lapa.

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Nota do autor:

Em meados de 2008, um site chamado Papolog foi pioneiro nos blogs de músicos no Brasil. Uma das maneiras de apresentar compositores da primeira metade do século XX ao público da Internet foi criar histórias onde, através da FICÇÃO, contextualizávamos as músicas e seus criadores. Assim, pessoas históricas citadas contextualizam o tema. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Dezenas de contos foram criados com a mesma finalidade. O destaque do conto acima é para as músicas do múltiplo Mário Lago. Compositor, ator e, entre outras atividades, advogado que encantou todos nós, Mário pode ser visto em novelas nos canais por assinatura. Nascido em 1911 e falecido em 2002, foi autor das canções citadas no conto acima, relacionadas a seguir e disponíveis na rede.

Aurora (Mário Lago e Roberto Roberti)

Nada Além (Custódio Mesquita e Mário Lago)

Ai, que saudades da Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago)

Poleiro de Pato é no chão (Mário Lago e Rubens Soares)

A caminhante do Embaré

Foto: Valdo Resende

Não era por vaidade, mas por absoluta necessidade. Ela almoçava regularmente às doze horas. Colocava os poucos talheres na máquina de lavar louças enquanto se arrumava para sair. Invariavelmente um collant preto, uma blusa de mangas longas também preta e um turbante cinza, colocado de forma a deixar algumas mexas de cabelo soltas, desalinhadas. Com dificuldade vestia meias e os tênis, únicos diferenciais coloridos do vestuário.

Uma observação desatenta e poderia se pensar que ela estava sempre com a mesma roupa. O rosto sem qualquer sinal de maquiagem, o olhar sempre firme, ela dava a impressão de alguém sem cuidados. As roupas escuras, às vezes desbotadas contribuíam para o aspecto desleixado, sem brilho. Não evidenciava preocupação com o vestuário. Precisava caminhar. Ficava satisfeita com uma meia vermelha, ou amarela, sempre em contraste com os tênis, também coloridos. Um azul, um verde, um branco. E caminhava olhando por onde pisava, interessada em cumprir os quatro quilômetros diários.

Treze horas e trinta minutos em ponto e ela abria a porta da sala, atravessava o alpendre do velho sobrado, ignorava o jardim de há muito sem flores e ouvia-se o barulho do portão, já enferrujado, rangendo com um som que parecia chaleira no fogo. De cabeça baixa, ignorando a vizinhança de muitos anos da Rua Oswaldo Cochrane, tomava o rumo da praia do Embaré andando tão rápido quanto possível, olhando para os lados só para evitar motoristas, ciclistas, tudo gente apta a atropelar distraídos.

“Como vai, Filomena?”, insistia alguma vizinha da qual já não se lembrava o nome. Levantando a cabeça levemente, fingindo olhar para a outra respondia: “Boa tarde!”, seguindo seu rumo. Antes de tomar distância sabia que essa, ou outra qualquer, comentaria com alguma tão desocupada quanto: “lá vai ela, orgulhosa, sempre orgulhosa! Pagando pecados!”. Filomena seguia fingindo não ouvir. Não se importava. Precisa caminhar e o fazia por necessidade.

Quatro quarteirões e atravessava a Avenida Bartholomeu de Gusmão, indo direto para o grande jardim à beira-mar. Chegando no passeio rente à areia, sem olhar o mar pela frente, entrava à direita, rumo ao Gonzaga, mas não chegava até à praia do mesmo nome. Caminhava até os limites impostos pelo Canal 4, quando retornava após se abençoar olhando com fé para a Basílica de Santo Antônio do Embaré. Evitava o passeio paralelo à grande e movimentada avenida, preferindo voltar por entre as flores, árvores e pássaros do jardim. Chegando ao ponto de origem repetia o trajeto já feito. Uma, duas, três vezes. Na quarta tomava rumo de casa. Tudo se repetiria no dia seguinte.

“Orgulhosa, pagando pecados”.  Certamente se referiam ao tempo em que o sobrado estava quase sempre em festa, sempre festivo, pintado com cores alegres que combinavam com o pequeno jardim repleto de roseiras. Nessa época Filomena era alegre e, sem as roupas pretas, tomava rumo da praia sempre com biquinis coloridos, cabelos soltos, óculos escuros. Vinham parentas e amigas de longe para Santos e a casa vivia sempre cheia, barulhentamente alegre. Os pais faziam-lhe as vontades, recebendo colegas da escola, do colégio, da universidade. Reclamavam de netos, mas a moça gostava mesmo é de praia e de namoro. “Casamento? Um dia, quem sabe!”, brincava às gargalhadas. Quando um rapaz vinha mais que uma semana, visivelmente insistindo em algo à mais que amizade, a moça tratava de cortar convites, o que era percebido por Gilberto, então proprietário de um bar na esquina, cheio de sorvetes à tarde e cervejas à noite.

O jovem empresário viera de longe, lá das bandas das Gerais. O sonho era estar e viver perto do mar. Reunindo economias para abrir o estabelecimento, mistura de bar e sorveteria. Ele teve êxito e não demorou a eleger a vizinha entre as moças que frequentavam o local. Era atraente, estava sempre bem vestida e tinha um largo sorriso, cativante. Gilberto interessou-se e tomou iniciativas nunca respondidas. Um convite para a praia, outro para passear de lancha, depois um cinema, um teatro. Nada. A moça era simpática e com evasivas dispensava os convites. “Orgulhosa, repetiam as vizinhas”.

Desistindo após tentativas que beiraram aos dois anos, Gilberto conheceu outra moça. Casaram-se, tiveram três filhos que, num piscar de olhos estavam crescidos, adultos e dando-lhes netos. Mesmo ocupado com o trabalho e a família, então numerosa, Gilberto nunca deixou de esticar os olhos para Filomena. Ela permaneceu sozinha, sem que ele entendesse os motivos. Assim como passara para ele, o tempo levou os pais e os amigos da bela vizinha que, tranquilamente solitária, raramente recebendo até mesmo os amigos da juventude.

Foi por conta de uma ameaça de briga com a esposa de Gilberto que Filomena deixou de cumprimentá-lo. A outra, que de boba tinha pouco, percebia os olhares demorados do marido para com a vizinha e convidou a “sirigaita” a tomar sorvete e beber cerveja “na puta que a pariu”. Filomena não gostou do exagero da outra, queixando-se ao rapaz e, castigando-o por ter se casado com uma estúpida, afirmou e cumpriu promessa de nunca mais frequentar o bar. Foi nessa ocasião que Filomena, chateada, com o falatório advindo do acontecimento deixou de falar com toda a vizinhança, Gilberto incluído na decisão.

Após a morte dos pais Filomena dedicou-se a cuidar da imobiliária da família, mas trabalhando apenas pelas manhãs. Era de seu temperamento a regularidade de horários. Saindo às 7 da manhã, voltava por volta das treze horas. Às quinze saia para a academia, ou para o salão de beleza, ou o shopping. Sempre nos mesmos horários. Voltava às dezenove horas. Percebia então os olhares vigilantes de Gilberto, sabedor desses horários. Mas, fingia não ver. Quando era impossível evitá-lo ela respondia com um leve aceno e um esboço de sorriso para, assim, não alimentar algo além.

Gilberto vigiava os dias de Filomena. Lembrava-se que ela um dia lhe dissera que não se casaria por uma única razão. “Estou bem. Gosto só de namorar”. E a razão por não namorar com ele bateu pesado, quando a moça antecedeu o “não bateu!”. Ele guardou um pouco de mágoa, outro tanto de amor-próprio ferido, tudo muito bem equilibrado com um tesão que nunca passou. Olhar a vizinha passou a ser fetiche aliviado em costumeiras sessões de masturbação praticadas no banheiro superior do bar, no exato momento em que ela ia para a praia com os biquinis que estimulavam o ato solitário do rapaz.

Foi por constatar ao longo dos anos a constante vigilância de Gilberto que Filomena, ao passar mal, levantou-se do sofá e saiu até o portão. Não precisou gritar, acenar. Bastou olhar e o outro, percebendo algo errado correu em direção à vizinha que, entregando-se aos braços do homem, pediu: “Acho que é derrame. Por favor, me socorra!”. Era visível o cuidado e o carinho de Gilberto, principalmente para a esposa. Esta resolveu mostrar à vizinhança o tamanho da sua indignação traduzida em palavrões. Ignorando a chuva de impropérios, Gilberto pegou o carro e levou Filomena para o hospital. A pedido da vizinha, ele ainda chamou uma prima que veio cuidar da doente.

Todo o lado esquerdo afetado. Filomena reapareceu com a boca torta ao sorrir. A perna enrijecida, a mão paralisada. Novos hábitos seriam necessários e ela adotou as caminhadas vespertinas, as vestes escuras. Em casa só recebia semanalmente uma faxineira. A prima passou a vir duas vezes por semana. Um dia para a feira, outro para o supermercado. Também essa não falava com a vizinhança e ninguém sabia qual doença tinha sido a causa de tanto. “Orgulhosa, nem a doença melhorou esse jeito. Orgulhosa”. Filomena fingia não ouvir enquanto saia ou voltava dos exercícios que lhe garantiam sobrevida com melhor qualidade.

Caminhando cabisbaixa, raramente levantando o olhar para um cumprimento, Filomena repetiu ao longo do tempo os exercícios cotidianos, quando começou a perceber com frequência indesejada a presença de Gilberto, sentado de frente para o mar em um ponto por onde ela passava. Mesmo mudando horário e itinerário não teve resultado. Lá estava o homem. Em uma tarde, surpreendendo-o, sentou-se ao lado dele, sorrindo levemente e limitando-se a um “Diga!”. Ele contou da viuvez e da certeza de ela não ter percebido, do contrário teria dado as condolências. “Com certeza. E?”. O velho Gilberto reuniu coragem para enunciar um “Quero ficar com você!”. E ela, controlando a dificuldade no falar decorrente da doença sentenciou: “E eu gosto de estar só. De caminhar só. Adeus, Gilberto!”.

Dia seguinte, aliviada, Filomena percebeu o banco vazio. Prosseguiu seu exercício, cabeça baixa para evitar uma queda, mas ainda assim olhando o céu, o mar, ouvindo os pássaros, observando de soslaio as cores das flores e folhagens do jardim. Dizia um breve boa tarde para outros frequentadores da praia. A perna estava cada vez melhor, a mão esquerda já dava sinais do retorno das principais articulações. Em breve ela arriscaria a nadar. Não por vaidade, nem só por necessidade: Tinha um encontro com o mar, com o bronzeado do corpo, com a saúde possível e com a vida que sempre quis.

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Fernanda Torres, uma melhor.

Fernanda Torres em Ainda estou aqui. Foto divulgação.

A iminência de um Oscar para Fernanda Torres tem causado barulho por aí. A campanha levada em frente pela atriz é parte do negócio – sim, o filme “Ainda Estou aqui”, de Walter Salles, carece de retorno financeiro – e evidencia mais que o habitual trabalho de produtores e artistas na busca da visibilidade e de conquistas para garantir novos investimentos.

Um trabalho insano, se considerarmos as distâncias geográficas percorridas semanalmente pela atriz. A gente nunca sabe onde Fernanda está. Isso implica em horas de cansativos voos, mudanças climáticas absurdas e, como se não bastasse cabelo e maquiagem no eterno tira e põe, há que se manter o astral e o bom humor. Fernanda tem tirado de letra e, tudo indica, angariado afetos por onde passa. Não há como resistir à espontaneidade, ao sorriso franco, à elegância sem ostentação, ao rosto limpo e sem os procedimentos que causam ruídos estéticos em algumas de suas concorrentes do momento.

Antunes Filho, também da categoria “um melhor”, no caso, diretor de teatro, afirmava sobre a absoluta necessidade de conhecimento e inteligência para atores e atrizes. Fernanda Torres (que poderia ser apenas bem articulada, a origem lhe facilitaria o trânsito no meio artístico) confirma a premissa de Antunes e mais: domina a linguagem escrita em textos inteligentes em carreira literária paralela, domina idiomas como o inglês e o italiano e esbanja repertório sobre o que faz e sobre o mundo em que vive. E, para coroar toda essa gama de talentos, é das raras atrizes que transitam com inegável competência entre o drama e a comédia.

O mundo está conhecendo Fernanda Torres. Já deveria ter dado atenção similar quando ela, jovem, foi melhor atriz em Cannes. Naquele momento, 1986, a Rede Globo não liberou a atriz das gravações de Selva de Pedra e ela não esteve no festival em que foi premiada. Certamente a visibilidade obtida com a Palma de Ouro teria sido outra. Pelo sim, pelo não, Fernanda Torres abandonou as novelas. Abdicou do destino de “mocinha” ou “vilã” e seguiu os passos da mãe ao tomar as rédeas da própria carreira, iniciada anos antes no teatro quando registrou êxitos como em Rei Lear.

Logo depois da novela vieram as peças Orlando, The flash and crash days e, entre outras, 5 x comédia (1996), que marca o encontro profissional entre a atriz e Luiz Fernando Guimarães, com quem contracenou em Os Normais. Em 2001 o Brasil conheceu Vani, e Fernanda Torres se tornou definitivamente uma atriz popular. Amada e respeitada pela imensa capacidade de, literalmente, se jogar na personagem. O casal cometia insanidades, extrapolava neuroses, se metia em confusões imensas e o público ria, como riu anos depois, 2011, quando Fernanda se tornou Fátima, formando dupla impagável com Andréa Beltrão.

O filme do Walter Salles que catapultou Fernanda Torres ao estrelato mundial é certamente um marco do cinema nacional e da carreira da atriz. Mas os fãs não se esquecem, entre outras, da Carula, de Marvada Carne, ou da Maria, de O que é isso companheiro. Há uma hierarquia entre essas personagens e Eunice Paiva? Certamente que sim, principalmente sendo Eunice personagem real, de importância histórica ao enfrentar a ditadura militar. Fernanda Torres foi a caipira ingênua, a urbana neurótica, a suburbana desinibida e atirada e por aí caminhou, sempre com um grau de humanidade que leva o público a se identificar, a se apaixonar. Ao se deparar com Eunice, Fernanda não economizou ao mostrar, em minúcias, a grande mulher que Eunice foi. Isso é trabalho de atriz. Melhor atriz. Uma melhor que, em dado momento divide com a mãe, Eunice já doente. Dona Fernanda, uma melhor.

Fernanda Torres em A casa dos Budas Ditosos. Foto Luciana Prezia/divulgação.

Enfim, quis escrever este texto antes do Globo de Ouro, antes do Oscar. Prêmios são bons porque reconhecem publicamente a atuação profissional de artistas. Mas, em qualquer instância, com ou sem prêmios há os melhores. Não comparativamente. Os melhores pelo fato de serem os melhores no que fazem. Tão melhores quanto Fernanda Torres, que já alertou para todo mundo baixar a bola. Um pouco de bom senso e a gente pode se balizar pelo prêmio que não veio para Fernanda Montenegro. Se vier para a filha, melhor, se não vier, ambas estão nesta categoria, são as melhores. A tal Gwyneth Paltrow não está. Cate Blanchett e Meryl Streep estão. O tempo e os filmes garantem quem é melhor.

Quero concluir este registro sobre meu afeto por Fernanda Torres relembrando quando a vi, menina, no final da peça estrelada por Fernanda Montenegro “As Lágrimas amargas de Petro Von Kant”. Enquanto a mãe nos atendia nos camarins, ela se despediu educadamente anunciando que ia para o hotel. Era só uma menina se despedindo da mãe que estava trabalhando. Depois a vi no palco, já dona do ofício, deixando para registrar por último “A casa dos Budas Ditosos”, quando literalmente passei mal de tanto rir. Como não amar quem nos faz rir tanto e tão gostoso quanto Fernanda Torres? Eunice Paiva é um grande personagem por si, mostrado ao mundo por uma melhor atriz. A melhor atriz, Fernanda! Sem sobrenome, pois as duas Fernandas de “Ainda estou aqui” são as melhores.

Notas:

As lágrimas amargas de Petra Von Kant – 1982, Peça de Rainer Werner Fassbinder, direção de Celso Nunes. É desta peça que Fernanda Torres viralizou com um meme: “minha mãe deitada no chão, bêbada, apaixonada pela Renata Sorrah. Pensei: minha mãe é muito louca”.

– 5 x Comédia, (1996), adaptação de Marcus Alvisi e direção de Hamilton Vaz Pereira, Marcus Alvisi, Mauro Rasi, Pedro Cardoso.

– A casa dos Budas Ditosos (2003), baseado no livro de João Ubaldo Ribeiro, direção de Domingos de Oliveira.

– A Marvada Carne (1985), de André Klotzel.

– Em Cannes, o filme foi “Eu sei que vou te amar” (1986), de Arnaldo Jabor.

– O que é isso companheiro (1997), baseado no livro de Fernando Gabeira, dir. de Bruno Barreto.

– Orlando (1989), baseado na biografia de Virginia Woolf dir. Bia Lessa

– Rei Lear (1983), de W. Shakespeare, direção de Celso Nunes.

– The flash and crash days (1991) de Gerald Thomas.

Perpétuo, o significado perdido

Um post democrático, já que a morte vem para todos. Privatizados, os cemitérios de São Paulo são altamente rentáveis e acabam de realizar atualização cadastral.

Poderia ser o começo de um conto de Natal lembrando o tal recenseamento, que levou José e Maria para Belém, onde nasceu Jesus Cristo. Está descrito no Evangelho de São Lucas. Ocorre que o mais recente “recenseamento” veio a mando dos donos dos cemitérios de São Paulo. Especificamente um recadastramento para donos dos jazigos e ossuários de cinco cemitérios da capital paulista. Em não comparecimento a família pode perder o direito sobre a propriedade do jazigo perpétuo.

O capitalismo é insano e, caso consiga aprisionar o ar, deverá vendê-lo. Pobre de quem não puder pagar. Certamente é pela ânsia de servir ao mercado, esse monstro abstrato que subjuga o planeta, que resolveram privatizar os cemitérios. Nossas prefeituras, incapazes de quase tudo, não conseguem administrar nem mesmo os antigos campos santos, atualmente campos rentáveis. E a ideia de perpétuo se desvaneceu.

Recordo antigos parentes que se orgulhavam de ter um pedaço de terra para descansar eternamente, ou até que “Deus desça do céu a julgar os vivos e os mortos”. Como os faraós do antigo Egito que construíram suas pirâmides tumulares para aguardar possível retomada do corpo, os cristãos acreditando na “ressurreição da carne” inventaram o jazigo perpétuo. Deveriam permanecer por milhares de anos, como os monumentos egípcios à espera da vontade divina.

Sinto-me por demais ingênuo. Acreditei na conversa mole de que um minúsculo pedaço de terra não interessaria a ninguém. Acontece que o mercado, que vende até a própria mãe, descobriu o nicho tão rentável quanto o desequilíbrio de quem perde um ente querido. No desespero de honrar o morto, quem vai deixar de enterrá-lo com o mínimo possível de dignidade?

Há tempos descobri que nas imediações de hospitais estão vampiros atentos aos parentes de recém falecidos. Começa ali o assalto aos sobreviventes, na indicação da casa funerária. Nesta, um vendedor como outro qualquer, interessado em bater metas e garantir comissões, faz a pergunta inicial. É óbvio que ao comprador será oferecido uma urna conforme o grau de parentesco com o defunto. O exemplo óbvio é o quanto alguém quer gastar para enterrar um cunhado ou a própria mãe.

Anúncios em jornais, floriculturas e até “catering” – defunto não comerá, mas aqueles que forem prestar homenagens terão um rango à altura do status do morto. Em Minas e em boa parte do interior do país a gente não sabe que diabos é esse catering, mas oferecemos café e cachaça. Após o primeiro assalto já aparece gente interessada em marcar cerimônias: do corpo presente, levar o féretro até a capela mais próxima, já garantir o melhor horário e exclusividade na missa de sétimo dia.

Todo esse lero-lero dos parágrafos acima é para deixar claro e relembrar o Silvio Brito da canção que nos alertava que “tem que pagar pra nascer, tem que pagar pra viver e tem que pagar pra morrer”. Deveria acabar ali, uma vez você tendo garantido o seu jazigo perpétuo. Mas os capitalistas descobriram que poderiam ter no cemitério altas fontes de renda, e os restos mortais de muitos deverão ir para o lixo. A tabela de possíveis gastos é imensa e feita para confundir. Tive até que procurar o dicionário para saber o que é columbário (cremar não é solução, já que você tem que depositar as cinzas em algum lugar, o tal columbário).

Há pontos consideráveis. Se tem gente para pagar condomínio de cemitério – escrevi aqui sobre o local onde está Pelé – que paguem e garantam a eternidade até que os sobreviventes deixem de pagar a vultosa mensalidade. Também devemos considerar aqueles que garantiram singelos jazigos para os seus, como é o caso de minha família que mantém o mínimo de enfeites e adereços, já que esses são alvo de ladrões. E há outros que são enterrados conforme dever moral das instituições que nos governam e dos políticos que garantem seus túmulos com proventos advindos dos nossos impostos.

A expressão perpétua ligada ao jazigo certamente já era. Pelo menos enquanto o capitalismo dominar nossa economia. Aqui, um aparte que acaba de me ocorrer: sempre me diverti com a ideia de que comunistas comem criancinhas. E agora me dei conta de que capitalistas querem até os corpos – temporariamente – das pessoas. E espero que tão transitório quanto a ideia de perpétuo, que seja o capitalismo e os capitalistas. Eles também terão fim.

Que alguns valores humanos foram para as cucuias é fato, mas o que é fundamental é lutar e brigar por ideias simples e fundamentais: transporte público não é para lucro, é para garantir o direito de ir e vir. Saúde é direito, assim como educação; o Estado deve prover meios para a sobrevivência e a formação dos cidadãos que, nada mais justo, garantirão a sobrevivência do próprio Estado. E cemitério, a despeito de sentimentos e religiões, é questão sanitária. Carecemos de um lugar seguro e adequadamente cuidado para os nossos corpos, ou as nossas cinzas, seja lá que destino darão ao nosso cadáver.

Feliz natal, é a expressão máxima do mês. Espero que você, paulistano, tenha feito o seu recadastramento tumular. Nada mórbido; pense na grana, que é o que norteia atualmente os nossos campos santos. O metro quadrado está pela hora da morte, é só consultar as tabelas disponíveis. No final das contas, perpétuo a gente agora sabe, é só enquanto a grana de taxas de manutenção entrarem nos cofres da concessionárias.

Nota: a imagem que ilustra este post é uma foto que fiz em Salvador, visitando o ossuário da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, em Salvador. Belíssimo lugar para guardar os ossos, felizmente ainda não privatizado.

Valdo Resende

Dona Assunta, a soprano

Quem frequentava a paróquia já sabia de algumas regras que regiam o local. Havia uma certa hierarquia entre as carolas e os candidatos a beatos. Na ânsia de ganhar o céu, já aqui na terra, havia aqueles que tratavam de marcar presença de maneira inequívoca nas cerimônias litúrgicas e nos festejos adjacentes.

O decoro era fundamental, então nada de roupas justas e curtas para ambos os sexos; que ninguém se atrevesse a incitar o outro com volumes insinuados por debaixo dos panos. Dona Ednéa tratava de garantir a compostura das beatas. Portava sempre uma enorme bolsa e, dentro desta, lenços, véus e até mantilhas. Tudo de cor leve e neutra. Ela não gostava de decotes, saias curtas, peitos exuberantes. Sem pedir licença tirava o necessário da bolsa e limitava-se a dizer, ao colocar o tecido cobrindo a parte evidente: “É preciso estar bem composta!”. Fim da missa recuperava o tecido e passava um sermão nas desinibidas.

Seu Lázaro, já na casa dos setenta, estava sempre vestido com um paletó preto cheio de medalhas de santas e santos. Faria inveja aos militares folclóricos de ditaduras sul-americanas. No pescoço pendurava três fitas com as preferências de sua devoção. Uma, azul, ostentava imensa medalha que parecia um pires com a imagem do sagrado coração de Maria. Outra, vermelha, com o Cristo, o coração sangrando e exposto. A terceira, amarela, tinha uma imagem de São Mateus, o padroeiro dos banqueiros.

Encarregado de receber as ofertas em cada missa, Seu Lázaro tinha comportamento inequívoco conforme a data em cada mês. No primeiro domingo após o quinto dia útil, quando supostamente todos os paroquianos já haviam recebido o salário ele ia, de banco em banco, oferecendo a sacola aberta e olhando firmemente para a cédula dada. Nessa data não aceitava menos que dez reais de um, cinquenta reais de outro. Conhecedor de cada fiel, sabia quem podia dar o quanto ele estipulava. Chegava na frente da “vítima” e sussurrava: “50”! Menos que isso, insistia levantando a voz. Quem iria passar tal vergonha?

Pessoa notória e alvo da inveja de muitos era Dona Assunta. A preferida do pároco, de nome Domênico. Ele havia estipulado lugar fixo para a mulher, no quinto banco, na extrema esquerda do assento, pois de acordo com ele era o local ideal para que Dona Assunta puxasse o canto, segurando ritmo e afinação. Quando ela faltava ele subia ao altar com cara fechada, mal humorado e, sem pestanejar, reclamava quando o cântico não saia bom: “Vocês estão desafinadas!”.

Se cantora de ópera, Dona Assunta seria páreo para Jessie Norman, Maria Callas. Cantava com a força necessária para garantir a audição de todos não só nas cerimônias internas, mas nas procissões onde reinava absoluta. Podia atrasar o quanto fosse – e contam que em algumas ocasiões atrasou para mostrar seu poder – que o padre não tirava o pé do lugar, chamando por ela com seu megafone. “Dona Assunta já chegou? Quando ela chegar a procissão sai”. O recorde de atraso da beata foi de uma hora e dez minutos.

Dona Assunta tinha uma inimiga não declarada, Dona Tereza. Com voz miúda e sem graça, ela ardia de inveja da outra, fato confessado por ela, o que deixava o Padre Domênico irritado. Era sagrado, uma vez por semana lá estava Dona Tereza ajoelhada no confessionário contando desejar que a outra ficasse rouca, engasgasse, ficasse muda. Após cada confissão de Tereza era o padre quem sentia necessidade de também se confessar, cheio de raiva da pecadora reincidente.

Noite de Natal, a paróquia de Santa Luzia resolveu reativar a velha tradição da missa do galo, à meia-noite. Tudo deveria correr bem! As mulheres bem compostas com seus trajes noturnos, os homens com as notas separadas conforme o aviso de Lázaro, que não queria demora na recolha do dindim. Todavia, na hora da missa, Dona Tereza não escondia ser aquela a sua noite feliz. Dona Assunta não chegou. Marcada para iniciar às 23h00, passados trinta minutos da meia-noite o burburinho aumentou, a pressão venceu e o padre iniciou a missa sem sua cantora preferida.

Dez quadras dali, Dona Assunta havia enfrentado um entrevero com o marido que, sonolento, se recusou a sair de casa. Ela o deixou, ciente de sua importância na cerimônia de gala. Caminhando pela rua com seu porte volumoso, italiana que era cheia de dotes, foi abordada por um gatuno querendo levar-lhe a bolsa. Nesta estava um escapulário, presente do padre, e uma medalha benta pelo próprio Papa, ela acreditava. Entrou em luta com o assaltante e levou a melhor, mantendo a bolsa, mas ficando com o vestido rasgado, o cabelo desgrenhado, o rosto arranhado.

Após a comunhão era hábito do padre pedir uma canção à Dona Assunta. Sem esconder a frustração, ele informou que faria a benção final dada à ausência da cantora. E iniciou a benção quando, lá de fora se ouviu um poderoso “noite feliz, noite feliz”. E Dona Assunta entrou, recomposta, poderosa feito a soprano Montserrat Caballé. Só justificaria ao padre o motivo do atraso. Ao passar por Dona Teresa respondeu com desdém ao olhar de inveja da outra. E seguiu até seu lugar, de onde ordenou ao menino Deus: “Dorme em paz, ó Jesus!”.

Valdo Resende

Dez/2024

Nota: imagem criada com IA.

“Es Sudamérica mi voz”

Neste último sábado formamos um enorme grupo sobre o palco do Teatro Sesc-Santos. Foi o encerramento da série Concertos Ibero-Americanos. O Maestro Ricardo Cardim, regente e idealizador da série (veja mais aqui), reservou para o concerto final a Misa Creolla, do argentino Ariel Ramirez.

“Meninos, eu estava lá!”. E aqui estão dois registros afetivos, ou seja, não são vídeos profissionais: são da perspectiva de quem estava na plateia e, assim, temos uma ideia de como fomos vistos e ouvidos. E queremos compartilhar com amigos, pessoas queridas e todos os interessados em música. Nas páginas sociais dos participantes estão outros momentos do concerto.

No primeiro vídeo, o Madrigal Ars Viva canta Niño Dios d’amor herido. É o grupo do qual faço parte e estou feliz e orgulhoso com o resultado.

No segundo vídeo, ápice do concerto, estão dois coros: O Ars Viva e o Coro Livre da Baixada, mais um grupo de músicos e solistas convidados cantam a Misa Creolla em cinco movimentos: Kyrie, Glória, Credo, Sanctus, concluindo com o Agnus Dei.

Não só nesse concerto, mas no cotidiano, o Maestro Ricardo Cardim é o regente dos dois coros e, certamente, todos os participantes agradecem-no pela atenção e infinita paciência em ensaios durante meses e meses.

Valeu, Maestro! Parabéns! Para todos os participantes!

Nota: o título deste post é de música de Ariel Ramirez e Félix Luna, que abre o disco Cantata Sudamericana, de Mercedes Sosa. Parceira de vários trabalhos com esses compositores, Mercedes é uma das intérpretes da Misa Creolla.

Boa semana para todos!

“Misa Criolla” Encerra Concertos Ibero-Americanos

O Teatro do Sesc-Santos recebe grupo coral formado pelo Madrigal Ars Viva, o Coro Livre da Baixada, mais solistas e instrumentistas convidados.

Detalhe do programa do projeto

Em junho deste 2024 teve início uma série de concertos e palestras, com destaque para a música sacra criada no período colonial por compositores que viveram no litoral paulista. Também foram lembrados compositores que atuaram na América do Sul ao longo dos últimos cinco séculos, culminando com obras feitas no século XX. No próximo sábado, às 15h, ocorrerá o encerramento com um grande concerto no Teatro do Sesc-Santos.

O Maestro Ricardo Cardim fez a curadoria de toda a série “Concertos Ibero-Americanos – Uma jornada musical pelos templos religiosos de Santos e São Vicente”. O projeto percorreu locais de importância histórica que remetem ao motivo primeiro do surgimento do repertório sacro, acompanhando os atos litúrgicos no período colonial. Além das obras corais, o projeto contemplou a música de câmara e as composições feitas para conjuntos instrumentais.

Maestro Ricardo Cardim em uma das palestras da Jornada Musical

Antecedendo cada concerto, palestras foram realizadas aprofundando os temas e conectando o público com o repertório de cada concerto. Nesta quinta-feira, 28, haverá um bate-papo sobre “As perspectivas da música latino-americana”, quando Cardim relembrará os principais compositores do continente.

Ao levar os concertos para os templos foi possível estabelecer diretamente as relações entre compositor, local e obra, como por exemplo, no Convento de Nossa Senhora do Carmo.  O Conjunto do Carmo guarda telas de Frei Jesuíno do Monte Carmelo, que também foi compositor. No concerto realizado em junho, abrindo a série, foram apresentadas duas composições do Frade: o “Cântico da Verônica” e a “Procissão das Palmas”.

Não só a história colonial foi enfatizada nos templos visitados. Na Paróquia da Sagrada Família, construída na década de 1970, o público visitante pode conhecer uma imagem de Santa Tereza de Calcutá, a primeira instalada em altar-mor. Foi lá que um santista, Marcílio Haddad Andrino, recebeu um milagre reconhecido pelo Vaticano e, após confirmação, houve a canonização da freira indiana.

Neste sábado, o encerramento da série

Maestro Cardim prepara o Madrigal Ars Viva para o concerto

O concerto que encerra a série será o único não realizado em igreja, mas no palco do Teatro do Sesc Santos. Ricardo Cardim preparou uma grande celebração com dezenas de pessoas, entre cantores, instrumentistas e solistas, que apresentarão neste 30 de novembro, às 15h, um repertório que sintetiza toda a jornada musical do projeto. O destaque é para a Misa Criolla, do compositor argentino Ariel Ramirez.

O Madrigal Ars Viva e o Coro Livre da Baixada formam um grande coral que acompanhará os solistas, os tenores Marcus Vinícius Moura Loureiro e Silas Silva; um conjunto de instrumentistas convidados para o evento completam o grupo, com a regência de Ricardo Cardim. Idealizado no primeiro semestre, os preparativos concretos dos dois coros ocorreram nos últimos três meses. Colaboram com o Maestro Cardim em todo o processo de ensaios a preparadora vocal Denise Yamaoka e a pianista Sônia Domenighi.

A pianista Sônia Domenighi acompanha todos os ensaios e estará no Concerto

Além de Ariel Ramirez, entre outros, farão parte do repertório do concerto Alberto Ginastera e Leo Brouwer. O conjunto instrumental convidado para o evento é formado por Fábio Ferreira (contrabaixo), Felipe Ramos (violão), Guilherme Nascimento (Percussão), Gustavo Albuquerque (alaúde, violão) Rafael y Castro (percussão), Sônia Domenighi (piano), Tadeu Romano (bandoneon), Wilson Melo (flauta) e Júlio Cesar (percussão).

Serviço:

Dia 28, Quinta 19h
Bate-papo – As Perspectivas da música latino-americana. Com o Maestro Ricardo Cardim.
Sala 1 do Sesc Santos – Grátis

Dia 30, sábado, 15h
Concerto obras corais (Encerramento da série Concertos Ibero-americanos)
Teatro Sesc-Santos
Inteira R$ 50,00, Meia R 25,00 e portadores de credencial plena do Sesc, R$ 15,00