A menina e um açude

O certo é que ninguém sabia de nada por inteiro. Um pouco daqui e uma história de trancoso dali; uma conversa ao pé do fogo e as coisas eram dadas como inteiras. Saber mesmo era vivido, e todos os mais velhos tinham muito o que contar. Volta e meia vinha a mesma questão. Como foram parar naquele pedaço de terra? Com tanto lugar de chuva farta, de chão bom para plantio logo ali, pararam por quê?

Perdeu-se no tempo as miudezas da viagem, o trajeto das mudanças. Tio Horácio gostava de apregoar que quando os portugueses chegaram por aqui não havia cartório. Se alguém se diz dono da terra, esse alguém tomou posse. Dos índios, primeiro. Depois de escravizado fugido que havia parado tentando se estabelecer. Deles mesmo, sabiam que tinham um pedacinho de terra, mas como chegaram… certamente vieram empurrados por alguém.

Dona Carolina, carola de tanto rezar, contava de quando tudo era da Igreja. “Toma conta desse pedaço!”, mandava o rei, lá em Portugal. E esse pedaço era destinado a um padroeiro! São João, Santo Antônio! Um moço sabido, de passagem, ensinou que os reis mandavam e desmandavam, nomeando bispos, cardeais, párocos. Isso era chamado padroado. Desde que os religiosos ficassem pianinho cuidando do povo, fazendo com que obedecessem ao rei. Quando resolveram colocar rei e rainha só em maracatu, fundando a República, isso tudo mudou.

“Os grandes brigam entre si, e se há guerras mandam pobres guerrear por eles. E os vencedores tomam tudo o que presta, e mandam os que antes ocupavam o território catar coquinho onde der”. Quem relatava revoluções e coquinhos era o velho Gaspar, preto velho, sabedor de coisas. “Só viemos parar aqui porque aqui não interessava para ninguém. Deixaram uns e outros pegarem um pedaço de chão seco, duro, mas bom quando chove. E a gente vai levando, dizia”.

Ela ainda hoje se lembra das histórias, dos casos e causos, tudo junto e misturado. Sem luz elétrica, as noites claras de lua cheia e calor intenso favoreciam a lerdeza sobre a rede, cada momento um tomando a palavra, lembrando um que morrera na luta, outro que fora embora. Retirante. Ela não queria ser retirante. O pedaço de chão que tinham era suficiente para a mandioca, o feijão. Também criavam um ou outro bicho útil para alimentar todo mundo. Salgavam a carne, durava mais tempo. Comiam com farofa.

Para a menina estava bem ter aquilo, para ela grande riqueza. Sendo mais velha de muitos irmãos a garota percebia as vantagens de ter algo que era da família, garantia de ter onde dormir, o que comer. Faltava água, a comida não era muita, mas a família era unida tanto na fartura quanto na fome. A menininha intuía naquilo uma grande força. Juntos trabalhavam, juntos colhiam, comiam e, às vezes, passavam forme. Vidas Secas, sabe ela agora, quando Graciliano contou a história dela, de toda gente como a família dela.

A escola chegou. Foi um mundo de coisas que D. Zilda, a primeira professora, contava. Quando terminou o primário não havia o que fazer, mas a menina queria mais, sentia que nos livros estava o mundo para ser descoberto, muito mais para ser desvendado. Se a boa vida era para os espertos, a escola ajudava na esperteza do conhecimento. Era preciso saber ler para fazer escritura, para saber-se realmente dono do que quer que fosse. Saber das novidades quando um jornal aparecia embrulhando coisas ou sob o sovaco de alguém.

Tio Horácio sacudia o jornal para o ar, feliz, apregoando o nome do governante que prometera e que agora iria cumprir. Iam construir um açude tão grande quanto a necessidade de todas as famílias, os donos de sítio, os meeiros e mesmo os ricos, que esses também têm sede. Viriam as máquinas para aprofundar o terreno, viriam os construtores para erguerem as barragens. Seria um açude imenso! E com a ajuda da Padroeira – tudo bem que fora imposta pelo padroado – nunca mais haveria de faltar água. Era deixar a chuva cair, encher o açude e rezar para que a cada estação de inverno o açude fosse abastecido.

O governo cumpriu a notícia e realizou a obra. Ela, bem menina ainda, não sabia que o dinheiro usado por todo e qualquer governo vinha de impostos da terra e do trabalho de gente como a família dela. Quando inauguraram o açude, coisa de Deus ou do Diabo, semanas antes choveu como nunca enchendo tudo, fazendo-a ter ideia do que seria o mar. O dia foi de festa com banda de música, benção de bispo, foguetório e comilança.

As autoridades foram embora e a menina, Luiza, percebeu a mudança brusca do dono do açude. Sim, do dono, pois o governo construíra o açude em latifúndio gigante, tudo terra de um único proprietário. E para poder usar a água, benção da terra e do céu, era como assinar promissória de dever favor ao “dono do açude”. Ai de quem não tocasse a música que ele mandasse! Aquilo não estava certo.

A consciência daquele momento, daquele instante, bateu forte no peito, no coração, no cérebro. De quem é a terra, senão de quem dela cuida e vive? De quem é a água, senão dos deuses das nascentes dos rios, córregos, das nuvens de chuva? Por que um governo constrói na terra de um único, fazendo todos os demais dependentes desse? Aquilo realmente e com certeza não estava certo. Ela iria brigar, dar trabalho para esses pretensos donos de tudo.

Décadas depois, agora com 89 anos, Luiza nos conta que esse fato deu origem à sua trajetória. Ali ela soube que iria lutar pela terra, pelo direito de todo ser humano em ter um pedaço de chão, poder beber e utilizar a água que é bem coletivo. “Começou ali”. Ela tem a memória lúcida, certa. Luiza nunca mais deixou de lutar.

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NOTA: Quase tudo acima é fictício, exceto a realidade das regiões do semiárido nordestino, a construção do açude em terras privadas e essa Luiza ser a Erundina, cujo fato narrado à Chico Pinheiro inspirou este texto. Para os que não a conhecem, começou ali a trajetória da mulher que veio a ser a primeira prefeita da cidade de São Paulo. Atualmente é deputada federal.

Salve, Luiza Erundina! Para ela minha humilde homenagem.

Artesão à beira-mar

A cidade é uma mistura de agitação e calmaria, talvez acompanhando o movimento das marés. O tempo e o mar, é Iemanjá quem sabe, conta o atendente da barraca que oferece cerveja, caipirinhas. “Vai ser o que ela quiser. E se ela quiser, ela acaba com tudo isso aqui” diz o rapaz que costuma ouvir os chamados que vem por entre as águas. E nada, indo o mais longe possível, independendo da hora. Prefere a noite, muito mais calma.

Nem tudo é idílico e há pontos do imenso jardim que limita praia e avenida. Há ratos, enormes, inúmeros. Alimentam-se de sobras de comida deixadas por frequentadores que nem sempre seguem regras de conduta coletivas. Deixam restos esparramados, nem esperam os garis terminarem o serviço e já estão jogando pedaços de coisas, ou lançando-as fora das lixeiras. Um vizinho, entre risos, lembrou quando a prefeitura arrumou um monte de gatos, deixando-os ao longo do jardim para acabarem com os ratos. Sumiram. Segundo o vizinho viraram espetinho.

Para os que podem durante os dias de semana desfrutar das tardes tranquilas à beira mar as histórias chegam; não tantas quanto as ondas, nem com a tranquilidade e leveza das nuvens. Às vezes vem leves, despretensiosas como pequenos barcos à vela. Também vêm com o peso dos imensos cargueiros, cheios de segredos e mistérios. Pode-se saber com certa facilidade o que trazem dentro dos pallets de diversas cores e tamanhos. Entre esses pode ter algo estranho, assim como é no casco que a polícia sempre encontra presas toneladas de cocaína.

Foi assim, com enorme preambulo, cheio de moralismo barato e de ordinária justiça divina que Wanderlei se aproximou. Nem sempre damos conversa aos transeuntes, principalmente quando visivelmente alterados por bebida, droga ou se, nunca saberemos, o aparente delírio de alguns ocorre por fome. Pedem dinheiro, cigarro, e são até desaforados, como aquele que pediu 20, 15, 10 reais e, exasperado, aceitaria 5. Quando disse não ter – pois raramente ando com dinheiro – ele foi embora me maldizendo, deixando claro que se arrumasse um tostão voltaria pra me dar, pois eu estava pior que ele.

Wanderlei chegou de mansinho, trazendo todos os seus pertences consigo. Uma sacola pendurada a tiracolo, uma mochila pesada, suja, nas costas. Falou de Deus, de como é bom ser respeitado como gente, que somos todos irmãos, que sonha ter uma casa. Queria voltar a dormir de conchinha com a companheira, mas precisa encontrar outra, pois tiveram que se separar. A mulher danou a usar cocaína, o que não foi legal.

Mantinha o olhar atento, esperando a deixa para dizer “não quero”, “não tenho”, e ao mesmo tempo a curiosidade veio. Como essa gente sem eira nem beira consegue o pó? Dizem que é caro. As conjecturas faríamos depois: pode ser como pagamento por aviãozinho, pode ser subproduto, tipo craque. Mantinha meu olhar fixo naquele homem magro, barba por fazer, suado e sujo. Sem deixar de sonhar insistia em um lugar para si, longe das inconstâncias do mar. Queria trabalhar! E resolveu nos mostrar o que sabia fazer, como ganhava a vida.

Ao abrir a sacola que estava a tiracolo vimos um monte de latas. E ele, orgulhoso, mostrou-nos um cinzeiro feito com o material reciclado. Embora interessante, o olhar do homem percebeu que não havia nos conquistado com o objeto um tanto fora de moda, destinado ao desprezo das gerações não fumantes. “Vou fazer uma para vocês verem como eu sei trabalhar! Só preciso ter um lugar pra trabalhar, vender e ter minha casa”.

Sem parar de falar, Wanderlei pegou uma latinha dessas que são vendidas aos montes em quiosques e barracas. Primeiro, com a ajuda de um canivete, tirou o adesivo que cobria a lata, deixando visível o alumínio, ou material que o valha. Sob nossos olhos, pegou uma tesoura, cortou aqui e ali, e aprontou a base do que pretendia. Outra lata, para utilizar partes específicas, e repetindo os procedimentos concluiu a panela, “Uma panela de pressão!”, apresentou ao final, orgulhoso.

São os turistas que compram, ele disse completando que um “gringo” chegou a dar R$ 100,00 reais por uma peça. A isca foi maior do que poderíamos abocanhar. Rindo, disse a ele que as peças, isqueiro e panela, tinham ficados ótimas, mas não tínhamos todo esse dinheiro. Resignado, ele sentenciou. “Aceito o que você tiver”. Ficamos, Flávio e eu, com a panela. Embora ele tenha insistido para que ficássemos com os dois objetos pelos R$ 20,00 reais que estavam conosco.

É certo que a foto não faz jus ao objeto. Fundamentalmente a panelinha não revela que foi feita de pé, seu criador falando calmamente, quase sem parar. Mãos sofridas e calejadas trabalharam com admirável rapidez o objeto, que resta dizer, Wanderlei aprendeu com um pessoal que “mora aí”, apontando-nos para moradores de praia sentados em bancos próximos. “Eu não! Eu vou ter minha casa, uma mulher para dormir de conchinha”.

A panelinha está entre os objetos que enfeitam nossa casa. Olho para ela e pretendo guardá-la para recordar que entre os moradores da praia há de tudo. Desde aqueles que é bom mantermos distância, como outros que ajudam a recolher cadeiras e barracas, empurrando enormes carrinhos no começo da noite, ou os que vendem balas e outros cacarecos. Essencialmente, que há gente como o Wanderlei que em qualquer circunstância terá como trunfo uma admirável habilidade artesanal. E um papo tranquilo para vender seus produtos.

Santos, primavera de 2024.

Série: Cacarecos, badulaques e bugigangas.

“Do mundo não se leva nada!” E os jingles ficam.

A morte de Silvio Santos trouxe várias facetas e questões levantadas pela mídia. Pessoalmente recordei uma antiga aula que ministrei na universidade sobre jingles, quando usei como guia o trabalho do compositor Archimedes Messina, o criador da abertura do programa do comunicador.

Archimedes Messina (foto reprodução da internet)

Jingle, no idioma de origem tem o significado de tilintar. Como no despertador, a função é chamar a atenção, acordar, fixando o som de tal forma que, disparado, já sabemos que é hora de sair da cama. Na propaganda, a ideia é similar: uma música que fique na nossa cabeça, seja fácil e cativante. E um grande exemplo vem das criações de Archimedes Messina. Mesmo não o conhecendo, você conhece e canta uma música desse compositor:

Archimedes Messina (1932-2017) criou o seu trabalho mais longevo em 1965 por encomenda do próprio Silvio Santos. Tecnicamente a “música do Silvio” é o que se denomina prefixo de um programa, algo surgido desde os primórdios do rádio e nem sempre uma criação específica. Às vezes usam outra canção, ou parte dela. O caso mais emblemático de prefixos que temos é o que usa os acordes da ópera O Guarani, de Carlos Gomes abrindo o programa A Hora do Brasil.

Archimedes Messina, nos conta Fábio Barbosa Dias, sonhava em trabalhar no rádio e chegou a ser radioator, também sendo locutor da Rádio São Paulo e da TV Record. Paralelamente, veio a criar marchinhas para o carnaval, quando atingiu o sucesso e chamou a atenção do publicitário Jorge Adib, da Multi Propaganda, que o chamou para criar os jingles. As criações de Messina entraram para a história e são sempre referência para historiadores da publicidade e criadores musicais.

Os Jingles da Varig

Quem foi criança e cresceu durante a década de 60 ouviu e se encantou com esse jingle, a partir do carnaval de 1967:

O sucesso foi imenso e o Seu Cabral foi parar no Carnaval. Em 1968, Messina popularizou entre nós a lenda japonesa de Urashima ( a tartaruga que premia seu Salvador), torna-se Urashima Taro, no Brasil:

Deu saudade, volta de Varig era a conclusão desses dois jingles.

Conheça o Brasil

O processo de criação de Archimedes Messina partia do leve batuque em uma caixinha de fósforos e contando história ou descrevendo situações, criava seus jingles geniais. Do extenso trabalho do compositor está a campanha Conheça o Brasil pela Varig. São 12 composições, cada uma sobre um estado brasileiro e, é lógico, o mineiro que vos escreve vai puxar a sardinha para Minas Gerais:

De 1974 em diante, um jingle sobre o Café Seleto entrou na nossa memória. Segundo consta, o dono da empresa, Manoel da Silva fez a encomenda, mas sem nenhum “briefing”, o resumo da solicitação do que é para ser feito. Messina associa hábitos do brasileiro ao produto; uma obra-prima, com a abertura na voz de uma criança:

Ao longo de toda a sua vida, Archimedes Messina criou e deixou mais de duas mil músicas compostas. Nos últimos anos, já afastado do mercado publicitário, dedicou-se a colocar melodia em letras que havia deixado de lado por conta do trabalho publicitário. Faleceu em julho de 2017 e, certamente, “não levou nada”, mas nos deixou um trabalho primoroso que será sempre base para os atuais e futuros criadores em propaganda e publicidade.

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Ouça, abaixo, alguns vídeos com os jingles citados acima, todos de Archimedes Messina:

Jarras e muitas porções de carinho

Guardo alguns objetos que pertenceram à minha avó materna. Tornaram-se enfeite após décadas de uso contínuo quando ela nos servia leite, café, chá. Gestos cotidianos de carinho e afeto fixados nas linhas curvas, na decoração suave das louças, no cheiro inconfundível do que nos era servido.

Vovó Maria foi singular em nossas vidas. Não há recordações de voz alterada, de desavenças rudes, de “disse-me-disse”. Ela foi serena e, a mais velha, sempre teve o respeito e o carinho das três irmãs e dos dois irmãos. Nasceu em Portugal e veio muito criança para o Brasil. Assimilou os costumes daqui no jeito de ser, de falar. O sotaque lusitano era mínimo e não alimentou sonhos de retorno, ou mesmo de passeio: “Tenho vontade é de conhecer Belo Horizonte! Deve ser uma cidade linda”, dizia ela, quando a paisagem da capital mineira fazia jus ao nome.

Muito pequeno, vejo-me logo cedo batendo à porta da cozinha da casa vizinha, os quintais ligados por um portão lateral. Vovó, com cara de sono, abrindo a porta para o neto que desconhecia cansaço, privacidade, hora de visita. E eu ficava tagarelando, tomando meu segundo café e esperando meu avô, José, para acompanhá-lo limpando a horta, o jardim. “Deixa seus avós em paz”, dizia minha mãe chamando para o almoço. Logo depois voltava eu para, segurando a mão de meu avô, partir para o passeio vespertino.

De Uberaba meus avós se mudaram para Campinas e não me recordo de ter tido sequilhos nos meus aniversários seguintes. A cidade paulista passou a ser nosso destino de férias quando tínhamos doce de figo, filhoses e frutas secas nas festas de fim de ano. Vovó capitaneando as atividades culinárias, em meio aos filhos e dez netos. Muito movimento para que eu pudesse realmente conhecê-la. Com 17 anos fui morar com meus avós e, já um pouco mais ciente do mundo, descobri facetas daquela mulher.

Começando pela esquerda, os irmãos de Vovó: Palmira, Aurora, Amélia, ela + Antônio e Manoel

Vovó permanecia ocupada o tempo todo. Entre as tarefas comuns da casa fazia crochê. Minha irmã mais velha ao fazer 15 anos foi presenteada com uma colcha tecida por vovó. O mesmo ocorreu com todas as netas. Cada colcha de uma cor e desenho diferente. A televisão era novidade na casa das pessoas. Sob forte temporal um raio partiu ao meio a casa de uma vizinha e descobriu-se que o aparelho de TV estava ligado. Desde então, bastavam nuvens pesadas para que o aparelho não fosse ligado, vovó com medo de raios e trovões.

Em tempos de estio, ela e eu éramos os únicos a assistir filmes, novelas, desfile de carnaval. Um dia ela me surpreendeu perguntando o que eram aquelas letras que corriam no início e no final dos capítulos. “O nome dos artistas!”, respondi. E percebi naquele dia um pouco mais das dificuldades de quem esperava cartas e alguém para lê-las. Vez em quando, segurando um envelope aberto ela voltava: “Leia de novo!”.

Para quem cresceu e viveu longo tempo em cidades pequenas, Campinas era grande demais. Vovó, analfabeta, transitava pela cidade com desenvoltura e guardava a imagem formada pelos nomes das linhas de ônibus. Visitávamos vários locais e ela jamais errava o destino. Ansiosa, ficava atenta em cada veículo que se aproximava, escolhendo até mesmo entre duas linhas diferentes. “Vamos neste mesmo”. Uma vez em companhia dos filhos, guardava o nome e a localização de lojas, escritórios e consultórios. Nesses, quando em edifícios ela encarava cinco, dez andares de escada sem que houvesse algo ou alguém que a fizesse usar elevador. Em compensação, o fôlego era ótimo.

Em Campinas vovó era solitária. O marido e o filho mais velho doentes, os outros dois que moravam na cidade estavam casados e cuidando da própria vida. Ela, que também teve um sério problema de varizes, sentia falta dos netos que estavam em Ribeirão Preto e Uberaba. Uma imensa e dolorida ferida na panturrilha a acompanhou dali para a frente. Ela alegava ser resquícios de uma picada de aranha quando ela, menina, trabalhava na roça. Na calada, vovó elaborou um plano logo para resolver, no mínimo, a solidão.

Buscando médicos por todas as cidades possíveis encontrou um em Uberaba. Ele teria dito ser necessário acompanhamento contínuo por cerca de seis meses. Meus pais mantinham uma edícula no fundo do quintal que, naquele momento, estava desalugada. Vovó então propôs que ela se mudasse para lá durante o tratamento. Todo mundo acreditou e concordou com a ideia. Mudança feita, Vovó chamou meus pais, e a todos nós, quando tudo já fora colocado em seus lugares: “Só saio daqui se o Bino quiser ou se eu morrer”. Papai então informou a todos que ela só sairia de lá quando viesse a falecer.

A ferida na perna piorou e foi dela a primeira vez que ouvi estar acostumada com a dor. Isso não a impedia de estar entre nós participando de cada detalhe de nossas vidas e, particularmente, fazendo com minha mãe um delicioso pãozinho que eu trazia para São Paulo. Do dia em que minha avó faleceu ficou-me um momento definidor sobre meu avô. Quando o corpo chegou e o velório foi montado em nossa sala, ele que raramente saia da cama pediu para meu pai levá-lo até a ela. Debruçado e acariciando o rosto de vovó chorou feito criança. Choramos todos com ele.

Não careço de cacarecos de louça para recordar minha avó. Também não consigo me desfazer dos antigos jarros. Talvez tomem rumo de algum antiquário quando eu não estiver por aqui. Por enquanto, permanecem junto a outros objetos que me exercitam cotidianamente a lembrança de diferentes momentos que vivi. Entre esses, os mais suaves foram vividos com os meus, quanto todos tínhamos Vovó Maria.

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Com este texto da série “cacarecos, badulaques e bugigangas” comemoro 13 anos deste blog. Demais textos da série estão nos links abaixo. Leia, curta e compartilhe.

Pote de lobisomem e um pouco mais

Vavá e o copo campeoníssimo

A carretilha e os nossos quintais

Um natalício 69!

Grandes prazeres: cantarolar Caymmi e caminhar pela orla, sentindo o mar acariciando os pés, ondas ligeiramente maiores roçando o calcanhar. Acompanhar com o olhar cada navio que parte, deixar o pensamento vagar enquanto o sol se põe. As nuvens nunca repetem o desenho e o mar varia de cores e formas, refletindo o céu. Os pássaros mergulham em busca de comida. Estou com 69 anos!

Devagar, tentando ouvir o que o mar tem pra dizer, sonho com Dona Yemanjá emergindo bela, doce e, do céu espero o disco voador que tarda em vir dar um oi. É só o que quero: um oi! Dela e dele. Não tenho paciência pra vagar de bolota em bolota por entre galáxias desconhecidas e ainda não sei nadar, quanto mais mergulhar. Será que farei 70?

Em devaneios de décadas passadas pensava que morreria aos 35 anos. Não tinha nenhuma marca externa, nenhum trauma desses que os anos nos presenteiam. Vivi além do limite pensado e carrego lembranças e dores. Essas últimas brincam, aqui e ali, doendo cada dia um pouco e em pontos distintos, fazendo-me ter certeza de estar vivo. O coração palpita, o fôlego está longe de suportar uma corrida. São 69 anos!

Outro dia uma amiga, aos 77, me disse, referindo-se também à irmã de 75: “Quando a gente ficar velha, a gente vê o que faz. Por enquanto vamos levando, né!”. Como ela, também não sinto o peso e o limite que a idade impõe. Em mim está um ser que não é aquele da adolescência, nem o mesmo da juventude, da idade adulta. São “eus” retidos em imagens. Eu, eu mesmo, abstração da linguagem, não tem idade e, óbvio, se penso no porvir espero que venha sem mais cicatrizes e nenhum parafuso pelo corpo – cinco me são suficientes. O pensamento, ágil, com pretensa lucidez e com a força dos sonhos não contabiliza nada, precisando de maquininha até pra somar boletos. Vai-se vivendo e deixo pra quem me lê as piadas com as possibilidades imaginadas para um 69.

Das habilidades adquiridas com o tempo ressalto o fato de recolher o que cai com a força do meu hálux. Uma folha de papel, um garfo, qualquer peça de roupa, tudo sai do chão suspenso pela precisão do Dedão. Ops, tamanha habilidade não carece de ser chamado de dedão, é Hálux. No cotidiano o hálux, junto ao segundo dedo, recolhe coisas de diferentes tipos e tamanhos que as mãos deixam cair. Nessa tarefa me autodenominei “Macaca da Bela Vista” e sigo feliz sem precisar abaixar a cabeça e cair de cara no chão. Já pensei em campeonato de catar coisas com os dedos do pé. Quem pegar mais objetos em um minuto ganha um café.

Estou mais rueiro que antes. É que o mundo é tão belo, Santos é tão bonita que não dá pra ficar dentro de casa sem ver os jardins floridos, os pássaros voando pelos canais, o sol coroando o céu azul, ou o horizonte pleno de nuvens carregadas, com vento ou calor intenso, ou chuva. Em casa, não perco a oportunidade de olhar para a Serra, os navios, as pombinhas nos telhados, as rolinhas buscando comida nos passeios públicos. É bom estar com 69 anos!

Continuo amando muito! E Deus me deu um grande amor na maturidade. Tenho muitos amigos e, vez ou outra, sempre chega mais gente. Tenho lembranças e saudade porque fui agraciado com memória e reconhecimento. Até aqui eu vivi um bocado! E danem-se as ideias de jerico de achar que morreria aos 35! Danem-se as dores e os incômodos, meros sinais de que, ainda vivo, devo aproveitar o tempo que me foi dado. Que venham outros dias, outros anos, vários natalícios. Afinal, o que são 69 comparados com a idade da terra?

Qual é o nome do “mercado”?

As “movimentações do mercado” de D. Lo Prete nunca são sobre o ir e vir dos vendedores de pipoca…

Quem mais se irrita quando apresentadores de telejornal dizem que “o mercado reagiu” a determinada situação? O mercado oscila, sobe, desce como ser vivo absolutamente dotado de vontade e determinação. O mesmo pode ser dito sobre a bolsa; não aquela da vovozinha querida que carrega doces e balas, mas uma outra, tenebrosa, que é domínio de investidores e economistas. O mercado, a bolsa, são expressões utilizadas pelo jornalismo que esconde os reais autores das altas da gasolina, do arroz, de tudo o mais.

Quis o destino que eu trabalhasse com um expoente do mercado e daí, toda vez que Dona Lo Prete me aparece com as condutas do “mercado”, recordo antigo patrão que tive lá pelos anos 80 do século passado. Era um sujeito interessantíssimo! Chegava bem cedo ao local de trabalho, munido de uma escova de dentes sem creme, sem nada. Passava uma hora ou mais escovando nervosamente os dentes, ritual repetido após o almoço. Era dono de dentes espetaculares e de uma garganta poderosa. Nunca usou interfone; gritava de sua sala para todo e qualquer setor da empresa.

O mercado, no caso: Uma imensa companhia, de uma única família que detinha uma das principais atacadistas brasileiras de tecidos, além de roupas e enxoval de cama, mesa e banho. Centrada em São Paulo, a empresa era dona de inúmeros prédios na região da Rua 25 de Março e possuía filiais em todas as regiões do país. Eu era funcionário do departamento de faturamento, um setor que, na real, controlava o sobe, nunca o desce, dos preços praticados pela empresa. O setor controlava é eufemismo, já que era o patrão quem cotidianamente subia os preços das mercadorias disponíveis.

Com mais três pessoas no setor tínhamos em arquivos uma quantidade imensa de fichas, cada uma destinada a um produto específico, com a quantidade disponível e o histórico dele dentro das lojas. Uma, às vezes duas vezes por semana, éramos chamados pelo patrão para remarcar os preços de uma categoria ou mais de produtos. Sempre para cima! Alterava-se dois, três centavos no metro do tecido ou da peça industrializada.  Um trabalho insano, pois os responsáveis pelas vendas e pela elaboração das notas fiscais careciam de atenção máxima o tempo todo.

Vai saber o motivo das altas determinadas pelo patrão! Poderia ser algo no Oriente Médio, por exemplo. Um fato hilário: De origem síria, houve lá para aquelas bandas um quiproquó que carecia de manifestação da raça. O patrão não titubeou em descer as portas das lojas da empresa POR UM MINUTO, em protesto pelo problema de lá. Demorou-se mais para o fechar e abrir que o protesto em si. Mas foi uma reação do mercado, concordam? Tanto é que nesse dia, alterado e tenso, o patrão tratou de remarcar os preços de todos os produtos da empresa.

Outra manifestação do “mercado” ocorreu em consequência de uma mudança no trânsito. Quem anda pela região da 25 de Março sabe que a grande maioria das lojas são de “porta na rua”, sem estacionamentos ou pátios para carga e descarga. Nas ruas paralelas à famosa via que nomina a região utiliza-se a própria rua como estacionamento para as manobras necessárias. Até que um dia, pela madrugada, vieram funcionários do departamento de trânsito mudando tudo. Inverteram o sentido da rua e colocaram placas proibindo o estacionamento. O “mercado” reagiria violentamente!

Enlouquecido, a escova de dentes largada sobre a mesa, o mercado, ops, o patrão gritava ao telefone feito possesso. Sem perder tempo com arraia miúda – leia-se diretoria de trânsito e prefeitura – a ligação foi direta para o governador do Estado: “Escuta aqui, seu moleque, vagabundo! Quem mandou você fazer isso? Quem você pensa que é para mudar a minha rua? Vagabundo, ordinário, quem foi que te colocou aí? Quem paga a tua campanha?” Lembro-me bem que o moleque vagabundo, caso não estivesse informado, não tinha chance de saber que a chamada ocorria por conta da mudança no trânsito da rua.

Foi divertido ouvir o achincalhamento do governador e tivemos a certeza do real poder na situação quando, menos de uma hora depois, placas eram retiradas e tudo o mais voltando ao que estava antes. Já desconfiávamos que o “mercado” fazia o que bem entendia em toda e qualquer situação. Por exemplo: evitando pagar modelos profissionais, eu e uma colega, Neusa, magros e altos, éramos chamados para vestir as roupas que tentavam colocar no catálogo da companhia. Nós, sem atentar para o desvio de função, achávamos ótimo brincar de modelo, vestindo e nos exibindo para o fulano decidir se comprava ou não.

Bom salientar que o mercado nunca está só. No nosso caso eram três irmãos. O mais velho, o dos dentes perfeitos, decidia compras, vendas, preços. O segundo cuidava do dinheiro. Certamente estava entre os que fazem a “bolsa” rebolar sem o som da bateria de uma escola de samba. O terceiro, caçula da família cujas irmãs não apareciam por lá, era responsável pelas ações sociais da empresa, no caso, alugando apartamentos para os funcionários por valores bem acima do que recebiam, mas com a certeza de ter o olho da rua como resultado de inadimplência.

Em um dia de 1982 morreu Elis Regina. Soubemos durante o horário de almoço e voltamos ao trabalho consternados e tristes. O patrão, sabe-se lá por qual motivo, terminou o dia com mais uma remarcação de preços. Naquela noite nossa imprensa se esbaldou nos prováveis motivos que causaram a morte de Elis. Uma profundidade que nunca chega perto da “instabilidade na Argentina” levando o “mercado” à uma alta dos preços.

Ah, para concluir, se Dona Lo Prete não dá nome ao “mercado”, por que eu diria o nome do meu patrão? Mas, saibam, tem nome e sobrenome aqueles que sobem os preços, os juros e o que mais ferra a vida do trabalhador.

Até mais!

A carretilha e os nossos quintais

Os quintais já foram lugares mágicos. Cheios de vida e movimento, ensaiando-nos para o que viria a ser a rua, o bairro, a cidade e o mundo todo. Uma colmeia aqui, uma casa de marimbondos ali, um formigueiro que teimava em aparecer acolá, a riqueza de acontecimentos de um quintal era imensa. Território de Shakespeare, nosso cãozinho vira-lata que defendia seu espaço dos gatos da vizinhança. Variados pássaros visitavam pés de frutas e canários e curiós eram tratados com desvelo pelo meu irmão.

Além do nosso quintal, outros também permanecem na memória. Na casa de uma tia, em Ribeirão Preto, havia um chiqueiro onde presenciamos o milagre da vida quando da chegada de vários porquinhos nascidos em uma única tarde. Em outro quintal, em Campinas, a magia era de frutas raras lá em Uberaba: maçã verde e romã. Uma pequena mostra se comparada com a imensa variedade de verduras e frutas da horta e do pomar de meu avô, ou do vizinho ao lado, com amoras, goiabeiras, mamoeiros.

Acima dos limites do quintal havia o céu. E a gente achava que estava nas alturas quando, escondidos dos adultos, brincávamos sobre os telhados. Dali se via longe, muito longe para nossos primeiros anos. Abaixo, sob nossos pés, tínhamos a certeza de mistérios. Até poderia ser algum tesouro, desses dos contos de fadas. Com certeza, a terra recebia nossas fezes e urinas, feitas em “casinha” separada do corpo da casa. E de outro lado do quintal retirávamos de um profundo poço água, ação facilitada com o uso de uma carretilha.

Puxar um balde cheio de água é tarefa árdua, facilitada por essa peça comum que, hoje, tornada peso de papel em minha mesa guarda histórias e a lembrança de meu pai. Nunca soube que a invenção da nossa carretilha foi de um tal Arquimedes, lá na Grécia. A nossa foi feita pelo meu pai, que era craque em pegar coisas e transformá-las, fazendo outras coisas. Quando necessário, ligava a forja e após aquecer o metal, dava-lhe a forma desejada com muitas marteladas e um esmeril.

Não tenho a noção da distância entre o poço de onde extraíamos nossa água  e a fossa onde fazíamos necessidades. Graças aos céus crescemos com saúde e, em pouco a água veio canalizada, assim como o sistema de esgotos chegou até o nosso bairro. Com essas novidades foram embora os medos de cair nos dois profundos buracos do nosso quintal. Cair em um deles era a sorte entre morrer afogado na água ou, literalmente, cair na merda.

Hoje entendo a diferença entre poço e cisterna, esta feita para reservar água da chuva. Chamávamos de cisterna, o buraco revestido com uma camada de tijolos, o que impedia deslizamento de terra tornando a água barrenta. Puxando água com apoio da carretilha vinha água para o banho de todos, para que nossas roupas fossem lavadas, e após fervida, ser utilizada para a comida, refrescada em filtro ou pote de barro para nosso consumo.

Depois foram sumindo as árvores frutíferas, os canteiros de verduras, os jardins. Tudo em favor de cimento e de uma duvidosa “limpeza”. É mais higiênico, dizem. O calor aumentou e sobra, para quase todo mundo, esconder-se dentro de casa e apelar para o ar-condicionado. Nos quintais, vasos tentam substituir a terra e só fazem mesmo é dar vida limitadas pelo espaço restrito, pela pouca e rasa terra.

Do quintal da minha antiga casa guardo uma carretilha. Pesada e, bem feita, ainda em perfeito funcionamento, embora eu não tenha nada a puxar, exceto as lembranças. Essas, não carecem de esforço nenhum para virem à tona. Fluem com um mero olhar, intensificam-se no tato, no cheiro característico do ferro, no peso do tempo incapaz de causar esquecimento.

Valdo Resende ( Este texto é da série “Cacarecos, badulaques e bugigangas”. )