Amor nas alturas

É certo que pouca gente da família sabia o que era pré-primário quando ele, arrumadinho no uniforme de calça azul e camisa branca, foi levado para a escola. No segundo dia de aula, outros tempos, já foi sozinho, o irmão mais velho indo até a esquina e apontando o rumo do Grupo Escolar. No terceiro dia nem isso, e ele encontrou Eliana, uma coleguinha linda, vestidinho verde e determinada: vamos ser namorados! E seguiram, mãozinhas dadas. Logo envolvidos na rígida divisão meninos e meninas se separaram.

Primeira paixão, de verdade, veio três anos depois. Já senhor de si, indo brincar em campos de várzea do bairro, em terrenos baldios. A turma da igreja era misturada e em um jogo de queimada ele acertou uma bola bem no rosto de Carolina. As lágrimas desceram de olhos negros, enormes, emoldurados por cabelo levemente ondulado, caindo suavemente sobre os ombros. Ele se apaixonou naquele momento e, culpa maior, ouviu de uma aprendiz de alcoviteira um “logo a Carolina, que gosta de você?”.

Seguiram-se dois, três anos de paquera, pequenas conversas, infinitos olhares. Ela era caçula de pais e irmãos rígidos, só iria namorar após os dezesseis anos. Flertavam de longe. Velhos tempos quando todos os estratagemas eram bem-vindos. De bicicleta ele corria da própria escola para a saída da outra, para ver Carolina. Nas missas chegava cedo para tentar sentar-se próximo, nunca um ao lado do outro. Durante quermesses trocavam correios-elegantes. Nas férias escolares, sem tolerar ficar tanto tempo sem ver a menina, ele “assentava praça” na esquina próxima de onde ela morava.

As coisas pioraram quando Carolina, aos quatorze, tornou-se babá de uma criança de gente rica, lá do centro da cidade. Vê-la passou a ser raridade, mas o afeto dele era alimentado em sonhos e devaneios de menino romântico, amores de outros aprendidos em novelas de rádio. Um dia ficariam juntos. Todavia, as coisas pioraram mais quando ele foi estudar em outra cidade, outro estado. O namoro, suspenso com o emprego da menina, tornou-se quimera, mera possibilidade futura.

Longe da família, dos amigos do bairro. cresceu taciturno, voltado para os estudos e nada mais. Um Werther tupiniquim, digno seguidor da personagem de Goethe, com o adendo da falta de contato e do total desconhecimento de como estava a vida de Carolina. Os ventos tomaram rumo de volta e ele retornou para a casa dos pais após dois transformadores anos. O final da adolescência fizera dele um rapaz esguio, um metro e sessenta de altura, os cabelos compridos e as roupas coloridas dos anos de 1970.

Foi a irmã que o atualizou: Carolina estava sozinha, de babá tornara-se dama de companhia da avó da criança, trabalhando e morando no mesmo endereço. Ele não previu que o reencontro seria em tão pouco tempo. O clube da cidade realizou uma reunião dançante, as baladas de então, e ao comparecer ele a viu de longe sentada junto a amigos. O coração acelerou, a boca ficou seca. Ele não era mais o menino que ficava distante. Tinha que mostrar maturidade, segurança. Precisava tirá-la para dançar, o que não foi possível momentaneamente, pois só se ouvia rock e um monte de gente fazendo a coreografia do momento.

Ele foi até ao bar. Um conhaque o ajudaria a conseguir falar, a língua presa na boca seca. Enquanto aguardava não tirava o olho de Carolina que decididamente o reconhecera, mas não apresentava o mesmo olhar de antigamente. Estaria com algum namorado? Teria se apaixonado por outro rapaz? Por que não sorria leve, como antes, indicando que ele poderia se aproximar, chegar até a ela?

Ah, aqueles bailes! Havia sempre momentos alternados em que o conjunto musical presente tocava ou música lenta, ou música dançante. Os apaixonados preferiam as seleções de músicas lentas, românticas, propícias para convidar uma garota e sentir a proximidade dos corpos, o perfume, a maciez do cabelo. E havia uma história, talvez lenda, que o casal precisa acertar sincronicamente os passos de dança, com naturalidade, sem atropelos. Se não dessem certo ao dançar, jamais dariam certo no amor. Ele matutava enquanto bebericava a bebida, a mão dentro do bolso segurando nervosamente uma bala de hortelã. Precisava de um hálito agradável ao se aproximar de Carolina. Quando essa música vai parar?

No intervalo o balcão do bar ficava lotado, os banheiros congestionados e o vozerio tomava conta do ambiente. Percebia-se uma rápida abertura do que poderia se chamar momento de caça. Os olhares buscando prováveis parceiros para a próxima seleção que, com certeza, seria de músicas lentas, românticas. Os mais ansiosos já se aproximavam de suas escolhidas, buscando manterem-se à frente de possíveis concorrentes. Ele, olhando Carolina lá de longe, preferiu esperar a música começar, ver o que aconteceria.

Quando o grupo musical atacou uma canção dos Bee Gees ele viu um sujeito aproximando-se, convidando e recebendo recusa de Carolina. Sentiu-se o mais feliz dos homens e tomou a direção da mesa onde estava aquela paixão de tantos anos. Chegou tímido, sem saber o que dizer e balbuciou: “Vamos dançar?” Ela sorriu com a suavidade dos primeiros tempos e respondeu: “Prefiro que você se sente aqui. Vamos conversar”.

Ele tremia ao tentar segurar a mão de Carolina que, com delicadeza e decisão o conteve. “Não vai dar certo, desculpe! Não posso aceitar. É impossível”. Ele olhou sem entender e aguardando ansiosamente uma explicação que veio sem rodeios. “Você não cresceu. Eu cresci demais! Vai ficar muito esquisito. Lamento. Se você me der licença, vou ao banheiro. Na volta, não gostaria de encontrá-lo aqui”. E ele, consciente de seus 1,60m de altura viu uma mulher enorme, elegante, que só então ele percebeu que ela se encolhera na cadeira. Atravessando o salão ia uma moça que poderia apoiar-se na cabeça dele para acertar o sapato, coçar o pé.

Naquela noite ele descobriu que Werther era só um personagem romântico. E que os amores distantes podem resultar em falsetas. Poderia beber, poderia chorar, poderia guardar aquela história e a lembrança do amor frustrado. Preferiu ir para o outro lado do salão. Encontrou e convidou uma garota para dançar. Para essa, ele até que era alto. Muito alto!

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Nota: imagem produzida com IA.

D. Maria, dos cachorros e dos parangolés

Era uma época boa, quando cachorros eram amigos do homem. Ninguém carecia de passear com eles catando cocô pelas ruas. Precisavam de carinho, de comida, não dessas rações, Deus me livre do que são feitas… Os cãezinhos viviam livres e felizes pelos quintais e vizinhança das casas. Na minha família atendiam por nomes como Sheik, Bilu, Japi. A maioria era vira-lata, os melhores para fazerem barulho quando alguém invadia a propriedade. Eram dois, no máximo, por residência, exceto pelas dezenas que viviam e acompanhavam D. Maria.

Era uma festa constante. D. Maria caminhando rumo à padaria, à venda, ou sabe-se lá para onde, acompanhada por cerca de duas dezenas de cachorros. De todos os tamanhos e diferentes raças. Ela conversava com todos e os múltiplos latidos, vários abanando os rabos, dificultavam a gente identificar a quem ela se dirigia. Ouvia-se de longe o barulho e crianças, como eu, corriam para a porta de casa para ver a passagem da Dona Maria dos Cachorros.

Uns a chamavam de Velha Suja, ou Porca; outros de Doida Varrida. O que a memória guarda é de longas saias, blusas largas e panos jogados sobre o corpo que, mais tarde, um artista chamou de parangolés. D. Maria dos Parangolés e seus cachorros, todos parados comportadamente na porta da padaria enquanto ela pegava seus pães. Na porta do açougue era uma algazarra, os bichos querendo entrar e a mulher impedindo-os e pedindo o que queria lá do meio da rua. Alguns clientes irritados com o avanço dos cachorros perante o cheiro de sangue eram ignorados, Dona Maria fazendo de conta que não os ouvia. Vez ou outra o açougueiro jogava um pedaço de carne no meio da rua. Os cãezinhos corriam alucinados. Junto com eles a Dona Maria, corria preocupada para o meio da rua, impedindo a passagem de carros e similares, protegendo a matilha.

Mamãe contava que aquela mulher escolheu viver com os cães. O marido era cachaceiro inveterado e judiava dela e dos filhos. Esses, cresceram e foram embora. Nunca voltaram e ela não teria ido atrás de nenhum deles. Um dia ela tomou coragem e, armada de um porrete, botou o marido pra correr, já então com o apoio de alguns cachorros que, defendendo a dona, partiram pra cima do homem. Foi quando passou a acolher todos os cães que apareciam por lá. Uns, levados pelos vizinhos, outros bem filhotinhos eram abandonados na porta da casa.

Vivendo entre os animais, conversando com eles, foi se afastando dos vizinhos, só se comunicando mesmo com fornecedores. O padeiro, o açougueiro; verduras, não. Cultivava em horta própria, assim como frutas vinham do pomar do fundo do quintal. De onde vinha a renda, não se cogitava. Talvez algum filho mandasse algum dinheiro; talvez ela possuísse alguma reserva proveniente de herança. O que era certo é que vivia tomando conta de si e dos cães, passeando alegremente com os bichinhos em meio a festa e cuidados. De sua passagem pelo passeio em frente da nossa casa ouvia-se os latidos e, acima desses, a voz da mulher chamando para perto de si aquele que descia para a rua.

Sem dar bola para os vizinhos, esses também se esqueciam dela, deixando-a em sossegada paz. Às vezes ela passava dias sem sair de casa, mas era vista cuidando do quintal, brincando com os bichos. Entrou para a história o dia em que se ouviu cachorros uivando, lamentando o corpo caído no meio da sala. Quem escutou disse que eram como um choro desesperado, dolorido. Quem viu, guardou a imagem de alguns cachorros lambendo a dona, como se tentando reanimá-la.

A notícia ruim se espalhou feito raio e como mágica o marido retornou. Tomou conta dos funerais e, anunciando a venda do imóvel, avisou aos curiosos que apareceram no velório que daria um fim na cachorrada. Alguns animais foram levados embora, adotados no mesmo dia. Outros foram vistos pelas ruas, dias depois. Sem os cuidados da dona trataram de dar rumo na vida. As ruas do bairro ficaram mais tristes e silenciosas.

De Dona Maria dos Cachorros ficou por muito tempo a lembrança. Diziam por lá pelo Boa Vista, em Uberaba, que quando malditos donos tiravam filhotes das mães e os jogavam em um canto qualquer, via-se nas noites um vulto de mulher, cheia de parangolés, alimentando-os e colocando-os no colo para ninar. Houve até gente que disse ter ouvido acalantos na voz da mulher, o que poucos acreditaram. É lenda, diziam. É bonito, mas é lenda. Deixem Dona Maria descansar em paz!

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Nota: Imagem criada com IA.

Não é só uma senhorinha com um jornal

Uma imagem comum, corriqueira, e de imediato nem me dou conta de que a dita cuja se constituiu em gatilho para um montão de coisas. A foto de uma senhorinha lendo o jornal. Certamente há inúmeras semelhantes não fosse esta particular, familiar, minha mãe. Laura.

Das coisas que emergiram a primeira foi a lembrança de cartas, inúmeras cartas. Um ritual certamente raríssimo nos dias de hoje. Os meios de comunicação facilitam gravar a mensagem e, fato, não é necessário saber escrever para se comunicar com os parentes distantes.

Frequentemente íamos à estação ferroviária ver se havia chegado encomenda. Oriundas de Campinas, onde residiam meus avós, ou de Ribeirão Preto, onde morava tia Olinda. Cestas de vime, cobertas com tecido branco costurado às bordas, e papel colado nesta com os dados do destinatário. Trazida a cesta para a casa havia certamente boas surpresas. Um presente de aniversário, bolo ou doce de ocasião, e a carta. Mamãe se sentava, nós os filhos em volta, e ela lia em voz alta, a gente sentindo a entonação do autor da missiva.

Leitura meio complicada para meus poucos anos eram revistinhas semanais com a publicação de capítulos da novela O Direito de Nascer. Revistas de rádio teatro. Com fotos de moças ou casais bonitos na capa e, na quarta capa, a foto de gente como Cléa Simões, Ézio Ramos ou Gilmara Sanches, que eu guardo na memória como as vozes mais bonitas das radionovelas.

“Textão”, como dizem hoje, era o enorme livreto com a Hora de Adoração. Membro da Congregação do Sagrado Coração, mamãe se obrigava a ir mensalmente à Igreja da Adoração Perpétua onde rezava todo o livrinho, que deveria somar uma hora de reza que, para o menino ansioso, era uma eternidade. Mamãe sussurrando e o garoto só sentindo alívio com o sinal da cruz final.

Havia fotonovelas, gibis e os livros. O primeiro livro, que mamãe guardava com certo ciúme, foi por ela utilizado no primário: “Os companheiros”, que depois me foi presenteado. Entre as páginas, inúmeros cartões de lembranças dos colegas de escola, além de “santinhos” de todas as datas e matizes.

E veio José de Alencar, que meu irmão Valdonei deveria fazer trabalho para a escola. Encarei o livro imenso, O Guarani, o primeiro grande livro que li. Depois vieram outros, como uma coleção do Jorge Amado, de minha irmã Walcenis e, da minha irmã Waldênia, a obra completa de Fernando Pessoa, os livros sobre o ator, de Stanislavski e a antologia de Mário de Andrade. Li tudo! E mais um monte de outros.

Com o tempo o rádio foi substituído gradativamente pela televisão. Mamãe, já idosa, assistia novelas e “interagia” com as personagens, guardando ressentimentos e mágoas de “vagabundas traidoras”, às vezes sofrendo um bocado por não saber se deveria amar ou odiar Eva Wilma, com a primeira dupla Ruth e Raquel de que se tem notícia. Nas sextas-feiras, mamãe viajava com o Globo Repórter, preferindo sempre os programas sobre o que apelidávamos de “mundo animal”.

Sempre que se fala em educação penso em D. Laura, a minha mãe. Ela tinha amor pelo conhecimento e sabia do poder deste. Fez das tripas coração para facilitar, junto com meu pai, educação formal para os seis filhos. E dentro de nossa casa o silêncio era sagrado quando alguém precisava estudar. Comprar cadernos e livros eram dias de festa e ler, uma enorme satisfação.

As fotos “oficiais” são ótimas. A família registrou as conclusões de curso, as formaturas, os bailes. Papai e mamãe orgulhosos ao lado dos filhos “estudados”. Todavia, é esse registro dessa senhoria lendo jornal que mais me comove. É o momento cotidiano e comum dentro do nosso lar. Mamãe atenta ao jornal, lido de cabo a rabo.

Sinto não ter registrado minha mãe lendo os livros que escrevi. Tenho as informações de minha irmã, mamãe no mesmo cantinho, sentada lendo os textos de jornais em que trabalhei, dos livros que li. E os elogios de minha mãe que, sem dúvidas, os que mais me importaram receber. Hoje, 03 de novembro de 2024, mamãe estaria completando 97 anos. Que chegue a ela as orações dos filhos e dos entes queridos. Em especial, nossa gratidão pelo conhecimento facilitado a nós, seus filhos.

A menina e um açude

O certo é que ninguém sabia de nada por inteiro. Um pouco daqui e uma história de trancoso dali; uma conversa ao pé do fogo e as coisas eram dadas como inteiras. Saber mesmo era vivido, e todos os mais velhos tinham muito o que contar. Volta e meia vinha a mesma questão. Como foram parar naquele pedaço de terra? Com tanto lugar de chuva farta, de chão bom para plantio logo ali, pararam por quê?

Perdeu-se no tempo as miudezas da viagem, o trajeto das mudanças. Tio Horácio gostava de apregoar que quando os portugueses chegaram por aqui não havia cartório. Se alguém se diz dono da terra, esse alguém tomou posse. Dos índios, primeiro. Depois de escravizado fugido que havia parado tentando se estabelecer. Deles mesmo, sabiam que tinham um pedacinho de terra, mas como chegaram… certamente vieram empurrados por alguém.

Dona Carolina, carola de tanto rezar, contava de quando tudo era da Igreja. “Toma conta desse pedaço!”, mandava o rei, lá em Portugal. E esse pedaço era destinado a um padroeiro! São João, Santo Antônio! Um moço sabido, de passagem, ensinou que os reis mandavam e desmandavam, nomeando bispos, cardeais, párocos. Isso era chamado padroado. Desde que os religiosos ficassem pianinho cuidando do povo, fazendo com que obedecessem ao rei. Quando resolveram colocar rei e rainha só em maracatu, fundando a República, isso tudo mudou.

“Os grandes brigam entre si, e se há guerras mandam pobres guerrear por eles. E os vencedores tomam tudo o que presta, e mandam os que antes ocupavam o território catar coquinho onde der”. Quem relatava revoluções e coquinhos era o velho Gaspar, preto velho, sabedor de coisas. “Só viemos parar aqui porque aqui não interessava para ninguém. Deixaram uns e outros pegarem um pedaço de chão seco, duro, mas bom quando chove. E a gente vai levando, dizia”.

Ela ainda hoje se lembra das histórias, dos casos e causos, tudo junto e misturado. Sem luz elétrica, as noites claras de lua cheia e calor intenso favoreciam a lerdeza sobre a rede, cada momento um tomando a palavra, lembrando um que morrera na luta, outro que fora embora. Retirante. Ela não queria ser retirante. O pedaço de chão que tinham era suficiente para a mandioca, o feijão. Também criavam um ou outro bicho útil para alimentar todo mundo. Salgavam a carne, durava mais tempo. Comiam com farofa.

Para a menina estava bem ter aquilo, para ela grande riqueza. Sendo mais velha de muitos irmãos a garota percebia as vantagens de ter algo que era da família, garantia de ter onde dormir, o que comer. Faltava água, a comida não era muita, mas a família era unida tanto na fartura quanto na fome. A menininha intuía naquilo uma grande força. Juntos trabalhavam, juntos colhiam, comiam e, às vezes, passavam forme. Vidas Secas, sabe ela agora, quando Graciliano contou a história dela, de toda gente como a família dela.

A escola chegou. Foi um mundo de coisas que D. Zilda, a primeira professora, contava. Quando terminou o primário não havia o que fazer, mas a menina queria mais, sentia que nos livros estava o mundo para ser descoberto, muito mais para ser desvendado. Se a boa vida era para os espertos, a escola ajudava na esperteza do conhecimento. Era preciso saber ler para fazer escritura, para saber-se realmente dono do que quer que fosse. Saber das novidades quando um jornal aparecia embrulhando coisas ou sob o sovaco de alguém.

Tio Horácio sacudia o jornal para o ar, feliz, apregoando o nome do governante que prometera e que agora iria cumprir. Iam construir um açude tão grande quanto a necessidade de todas as famílias, os donos de sítio, os meeiros e mesmo os ricos, que esses também têm sede. Viriam as máquinas para aprofundar o terreno, viriam os construtores para erguerem as barragens. Seria um açude imenso! E com a ajuda da Padroeira – tudo bem que fora imposta pelo padroado – nunca mais haveria de faltar água. Era deixar a chuva cair, encher o açude e rezar para que a cada estação de inverno o açude fosse abastecido.

O governo cumpriu a notícia e realizou a obra. Ela, bem menina ainda, não sabia que o dinheiro usado por todo e qualquer governo vinha de impostos da terra e do trabalho de gente como a família dela. Quando inauguraram o açude, coisa de Deus ou do Diabo, semanas antes choveu como nunca enchendo tudo, fazendo-a ter ideia do que seria o mar. O dia foi de festa com banda de música, benção de bispo, foguetório e comilança.

As autoridades foram embora e a menina, Luiza, percebeu a mudança brusca do dono do açude. Sim, do dono, pois o governo construíra o açude em latifúndio gigante, tudo terra de um único proprietário. E para poder usar a água, benção da terra e do céu, era como assinar promissória de dever favor ao “dono do açude”. Ai de quem não tocasse a música que ele mandasse! Aquilo não estava certo.

A consciência daquele momento, daquele instante, bateu forte no peito, no coração, no cérebro. De quem é a terra, senão de quem dela cuida e vive? De quem é a água, senão dos deuses das nascentes dos rios, córregos, das nuvens de chuva? Por que um governo constrói na terra de um único, fazendo todos os demais dependentes desse? Aquilo realmente e com certeza não estava certo. Ela iria brigar, dar trabalho para esses pretensos donos de tudo.

Décadas depois, agora com 89 anos, Luiza nos conta que esse fato deu origem à sua trajetória. Ali ela soube que iria lutar pela terra, pelo direito de todo ser humano em ter um pedaço de chão, poder beber e utilizar a água que é bem coletivo. “Começou ali”. Ela tem a memória lúcida, certa. Luiza nunca mais deixou de lutar.

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NOTA: Quase tudo acima é fictício, exceto a realidade das regiões do semiárido nordestino, a construção do açude em terras privadas e essa Luiza ser a Erundina, cujo fato narrado à Chico Pinheiro inspirou este texto. Para os que não a conhecem, começou ali a trajetória da mulher que veio a ser a primeira prefeita da cidade de São Paulo. Atualmente é deputada federal.

Salve, Luiza Erundina! Para ela minha humilde homenagem.

Artesão à beira-mar

A cidade é uma mistura de agitação e calmaria, talvez acompanhando o movimento das marés. O tempo e o mar, é Iemanjá quem sabe, conta o atendente da barraca que oferece cerveja, caipirinhas. “Vai ser o que ela quiser. E se ela quiser, ela acaba com tudo isso aqui” diz o rapaz que costuma ouvir os chamados que vem por entre as águas. E nada, indo o mais longe possível, independendo da hora. Prefere a noite, muito mais calma.

Nem tudo é idílico e há pontos do imenso jardim que limita praia e avenida. Há ratos, enormes, inúmeros. Alimentam-se de sobras de comida deixadas por frequentadores que nem sempre seguem regras de conduta coletivas. Deixam restos esparramados, nem esperam os garis terminarem o serviço e já estão jogando pedaços de coisas, ou lançando-as fora das lixeiras. Um vizinho, entre risos, lembrou quando a prefeitura arrumou um monte de gatos, deixando-os ao longo do jardim para acabarem com os ratos. Sumiram. Segundo o vizinho viraram espetinho.

Para os que podem durante os dias de semana desfrutar das tardes tranquilas à beira mar as histórias chegam; não tantas quanto as ondas, nem com a tranquilidade e leveza das nuvens. Às vezes vem leves, despretensiosas como pequenos barcos à vela. Também vêm com o peso dos imensos cargueiros, cheios de segredos e mistérios. Pode-se saber com certa facilidade o que trazem dentro dos pallets de diversas cores e tamanhos. Entre esses pode ter algo estranho, assim como é no casco que a polícia sempre encontra presas toneladas de cocaína.

Foi assim, com enorme preambulo, cheio de moralismo barato e de ordinária justiça divina que Wanderlei se aproximou. Nem sempre damos conversa aos transeuntes, principalmente quando visivelmente alterados por bebida, droga ou se, nunca saberemos, o aparente delírio de alguns ocorre por fome. Pedem dinheiro, cigarro, e são até desaforados, como aquele que pediu 20, 15, 10 reais e, exasperado, aceitaria 5. Quando disse não ter – pois raramente ando com dinheiro – ele foi embora me maldizendo, deixando claro que se arrumasse um tostão voltaria pra me dar, pois eu estava pior que ele.

Wanderlei chegou de mansinho, trazendo todos os seus pertences consigo. Uma sacola pendurada a tiracolo, uma mochila pesada, suja, nas costas. Falou de Deus, de como é bom ser respeitado como gente, que somos todos irmãos, que sonha ter uma casa. Queria voltar a dormir de conchinha com a companheira, mas precisa encontrar outra, pois tiveram que se separar. A mulher danou a usar cocaína, o que não foi legal.

Mantinha o olhar atento, esperando a deixa para dizer “não quero”, “não tenho”, e ao mesmo tempo a curiosidade veio. Como essa gente sem eira nem beira consegue o pó? Dizem que é caro. As conjecturas faríamos depois: pode ser como pagamento por aviãozinho, pode ser subproduto, tipo craque. Mantinha meu olhar fixo naquele homem magro, barba por fazer, suado e sujo. Sem deixar de sonhar insistia em um lugar para si, longe das inconstâncias do mar. Queria trabalhar! E resolveu nos mostrar o que sabia fazer, como ganhava a vida.

Ao abrir a sacola que estava a tiracolo vimos um monte de latas. E ele, orgulhoso, mostrou-nos um cinzeiro feito com o material reciclado. Embora interessante, o olhar do homem percebeu que não havia nos conquistado com o objeto um tanto fora de moda, destinado ao desprezo das gerações não fumantes. “Vou fazer uma para vocês verem como eu sei trabalhar! Só preciso ter um lugar pra trabalhar, vender e ter minha casa”.

Sem parar de falar, Wanderlei pegou uma latinha dessas que são vendidas aos montes em quiosques e barracas. Primeiro, com a ajuda de um canivete, tirou o adesivo que cobria a lata, deixando visível o alumínio, ou material que o valha. Sob nossos olhos, pegou uma tesoura, cortou aqui e ali, e aprontou a base do que pretendia. Outra lata, para utilizar partes específicas, e repetindo os procedimentos concluiu a panela, “Uma panela de pressão!”, apresentou ao final, orgulhoso.

São os turistas que compram, ele disse completando que um “gringo” chegou a dar R$ 100,00 reais por uma peça. A isca foi maior do que poderíamos abocanhar. Rindo, disse a ele que as peças, isqueiro e panela, tinham ficados ótimas, mas não tínhamos todo esse dinheiro. Resignado, ele sentenciou. “Aceito o que você tiver”. Ficamos, Flávio e eu, com a panela. Embora ele tenha insistido para que ficássemos com os dois objetos pelos R$ 20,00 reais que estavam conosco.

É certo que a foto não faz jus ao objeto. Fundamentalmente a panelinha não revela que foi feita de pé, seu criador falando calmamente, quase sem parar. Mãos sofridas e calejadas trabalharam com admirável rapidez o objeto, que resta dizer, Wanderlei aprendeu com um pessoal que “mora aí”, apontando-nos para moradores de praia sentados em bancos próximos. “Eu não! Eu vou ter minha casa, uma mulher para dormir de conchinha”.

A panelinha está entre os objetos que enfeitam nossa casa. Olho para ela e pretendo guardá-la para recordar que entre os moradores da praia há de tudo. Desde aqueles que é bom mantermos distância, como outros que ajudam a recolher cadeiras e barracas, empurrando enormes carrinhos no começo da noite, ou os que vendem balas e outros cacarecos. Essencialmente, que há gente como o Wanderlei que em qualquer circunstância terá como trunfo uma admirável habilidade artesanal. E um papo tranquilo para vender seus produtos.

Santos, primavera de 2024.

Série: Cacarecos, badulaques e bugigangas.

“Do mundo não se leva nada!” E os jingles ficam.

A morte de Silvio Santos trouxe várias facetas e questões levantadas pela mídia. Pessoalmente recordei uma antiga aula que ministrei na universidade sobre jingles, quando usei como guia o trabalho do compositor Archimedes Messina, o criador da abertura do programa do comunicador.

Archimedes Messina (foto reprodução da internet)

Jingle, no idioma de origem tem o significado de tilintar. Como no despertador, a função é chamar a atenção, acordar, fixando o som de tal forma que, disparado, já sabemos que é hora de sair da cama. Na propaganda, a ideia é similar: uma música que fique na nossa cabeça, seja fácil e cativante. E um grande exemplo vem das criações de Archimedes Messina. Mesmo não o conhecendo, você conhece e canta uma música desse compositor:

Archimedes Messina (1932-2017) criou o seu trabalho mais longevo em 1965 por encomenda do próprio Silvio Santos. Tecnicamente a “música do Silvio” é o que se denomina prefixo de um programa, algo surgido desde os primórdios do rádio e nem sempre uma criação específica. Às vezes usam outra canção, ou parte dela. O caso mais emblemático de prefixos que temos é o que usa os acordes da ópera O Guarani, de Carlos Gomes abrindo o programa A Hora do Brasil.

Archimedes Messina, nos conta Fábio Barbosa Dias, sonhava em trabalhar no rádio e chegou a ser radioator, também sendo locutor da Rádio São Paulo e da TV Record. Paralelamente, veio a criar marchinhas para o carnaval, quando atingiu o sucesso e chamou a atenção do publicitário Jorge Adib, da Multi Propaganda, que o chamou para criar os jingles. As criações de Messina entraram para a história e são sempre referência para historiadores da publicidade e criadores musicais.

Os Jingles da Varig

Quem foi criança e cresceu durante a década de 60 ouviu e se encantou com esse jingle, a partir do carnaval de 1967:

O sucesso foi imenso e o Seu Cabral foi parar no Carnaval. Em 1968, Messina popularizou entre nós a lenda japonesa de Urashima ( a tartaruga que premia seu Salvador), torna-se Urashima Taro, no Brasil:

Deu saudade, volta de Varig era a conclusão desses dois jingles.

Conheça o Brasil

O processo de criação de Archimedes Messina partia do leve batuque em uma caixinha de fósforos e contando história ou descrevendo situações, criava seus jingles geniais. Do extenso trabalho do compositor está a campanha Conheça o Brasil pela Varig. São 12 composições, cada uma sobre um estado brasileiro e, é lógico, o mineiro que vos escreve vai puxar a sardinha para Minas Gerais:

De 1974 em diante, um jingle sobre o Café Seleto entrou na nossa memória. Segundo consta, o dono da empresa, Manoel da Silva fez a encomenda, mas sem nenhum “briefing”, o resumo da solicitação do que é para ser feito. Messina associa hábitos do brasileiro ao produto; uma obra-prima, com a abertura na voz de uma criança:

Ao longo de toda a sua vida, Archimedes Messina criou e deixou mais de duas mil músicas compostas. Nos últimos anos, já afastado do mercado publicitário, dedicou-se a colocar melodia em letras que havia deixado de lado por conta do trabalho publicitário. Faleceu em julho de 2017 e, certamente, “não levou nada”, mas nos deixou um trabalho primoroso que será sempre base para os atuais e futuros criadores em propaganda e publicidade.

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Ouça, abaixo, alguns vídeos com os jingles citados acima, todos de Archimedes Messina:

Jarras e muitas porções de carinho

Guardo alguns objetos que pertenceram à minha avó materna. Tornaram-se enfeite após décadas de uso contínuo quando ela nos servia leite, café, chá. Gestos cotidianos de carinho e afeto fixados nas linhas curvas, na decoração suave das louças, no cheiro inconfundível do que nos era servido.

Vovó Maria foi singular em nossas vidas. Não há recordações de voz alterada, de desavenças rudes, de “disse-me-disse”. Ela foi serena e, a mais velha, sempre teve o respeito e o carinho das três irmãs e dos dois irmãos. Nasceu em Portugal e veio muito criança para o Brasil. Assimilou os costumes daqui no jeito de ser, de falar. O sotaque lusitano era mínimo e não alimentou sonhos de retorno, ou mesmo de passeio: “Tenho vontade é de conhecer Belo Horizonte! Deve ser uma cidade linda”, dizia ela, quando a paisagem da capital mineira fazia jus ao nome.

Muito pequeno, vejo-me logo cedo batendo à porta da cozinha da casa vizinha, os quintais ligados por um portão lateral. Vovó, com cara de sono, abrindo a porta para o neto que desconhecia cansaço, privacidade, hora de visita. E eu ficava tagarelando, tomando meu segundo café e esperando meu avô, José, para acompanhá-lo limpando a horta, o jardim. “Deixa seus avós em paz”, dizia minha mãe chamando para o almoço. Logo depois voltava eu para, segurando a mão de meu avô, partir para o passeio vespertino.

De Uberaba meus avós se mudaram para Campinas e não me recordo de ter tido sequilhos nos meus aniversários seguintes. A cidade paulista passou a ser nosso destino de férias quando tínhamos doce de figo, filhoses e frutas secas nas festas de fim de ano. Vovó capitaneando as atividades culinárias, em meio aos filhos e dez netos. Muito movimento para que eu pudesse realmente conhecê-la. Com 17 anos fui morar com meus avós e, já um pouco mais ciente do mundo, descobri facetas daquela mulher.

Começando pela esquerda, os irmãos de Vovó: Palmira, Aurora, Amélia, ela + Antônio e Manoel

Vovó permanecia ocupada o tempo todo. Entre as tarefas comuns da casa fazia crochê. Minha irmã mais velha ao fazer 15 anos foi presenteada com uma colcha tecida por vovó. O mesmo ocorreu com todas as netas. Cada colcha de uma cor e desenho diferente. A televisão era novidade na casa das pessoas. Sob forte temporal um raio partiu ao meio a casa de uma vizinha e descobriu-se que o aparelho de TV estava ligado. Desde então, bastavam nuvens pesadas para que o aparelho não fosse ligado, vovó com medo de raios e trovões.

Em tempos de estio, ela e eu éramos os únicos a assistir filmes, novelas, desfile de carnaval. Um dia ela me surpreendeu perguntando o que eram aquelas letras que corriam no início e no final dos capítulos. “O nome dos artistas!”, respondi. E percebi naquele dia um pouco mais das dificuldades de quem esperava cartas e alguém para lê-las. Vez em quando, segurando um envelope aberto ela voltava: “Leia de novo!”.

Para quem cresceu e viveu longo tempo em cidades pequenas, Campinas era grande demais. Vovó, analfabeta, transitava pela cidade com desenvoltura e guardava a imagem formada pelos nomes das linhas de ônibus. Visitávamos vários locais e ela jamais errava o destino. Ansiosa, ficava atenta em cada veículo que se aproximava, escolhendo até mesmo entre duas linhas diferentes. “Vamos neste mesmo”. Uma vez em companhia dos filhos, guardava o nome e a localização de lojas, escritórios e consultórios. Nesses, quando em edifícios ela encarava cinco, dez andares de escada sem que houvesse algo ou alguém que a fizesse usar elevador. Em compensação, o fôlego era ótimo.

Em Campinas vovó era solitária. O marido e o filho mais velho doentes, os outros dois que moravam na cidade estavam casados e cuidando da própria vida. Ela, que também teve um sério problema de varizes, sentia falta dos netos que estavam em Ribeirão Preto e Uberaba. Uma imensa e dolorida ferida na panturrilha a acompanhou dali para a frente. Ela alegava ser resquícios de uma picada de aranha quando ela, menina, trabalhava na roça. Na calada, vovó elaborou um plano logo para resolver, no mínimo, a solidão.

Buscando médicos por todas as cidades possíveis encontrou um em Uberaba. Ele teria dito ser necessário acompanhamento contínuo por cerca de seis meses. Meus pais mantinham uma edícula no fundo do quintal que, naquele momento, estava desalugada. Vovó então propôs que ela se mudasse para lá durante o tratamento. Todo mundo acreditou e concordou com a ideia. Mudança feita, Vovó chamou meus pais, e a todos nós, quando tudo já fora colocado em seus lugares: “Só saio daqui se o Bino quiser ou se eu morrer”. Papai então informou a todos que ela só sairia de lá quando viesse a falecer.

A ferida na perna piorou e foi dela a primeira vez que ouvi estar acostumada com a dor. Isso não a impedia de estar entre nós participando de cada detalhe de nossas vidas e, particularmente, fazendo com minha mãe um delicioso pãozinho que eu trazia para São Paulo. Do dia em que minha avó faleceu ficou-me um momento definidor sobre meu avô. Quando o corpo chegou e o velório foi montado em nossa sala, ele que raramente saia da cama pediu para meu pai levá-lo até a ela. Debruçado e acariciando o rosto de vovó chorou feito criança. Choramos todos com ele.

Não careço de cacarecos de louça para recordar minha avó. Também não consigo me desfazer dos antigos jarros. Talvez tomem rumo de algum antiquário quando eu não estiver por aqui. Por enquanto, permanecem junto a outros objetos que me exercitam cotidianamente a lembrança de diferentes momentos que vivi. Entre esses, os mais suaves foram vividos com os meus, quanto todos tínhamos Vovó Maria.

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Com este texto da série “cacarecos, badulaques e bugigangas” comemoro 13 anos deste blog. Demais textos da série estão nos links abaixo. Leia, curta e compartilhe.

Pote de lobisomem e um pouco mais

Vavá e o copo campeoníssimo

A carretilha e os nossos quintais