Quando começam as aulas?

Considero uma boa sorte ter ido para a escola aos sete anos. Os anos antecedentes me permitiram acordar com a casa em atividade, na cama chegando os sons e cheiros da cozinha, entremeados pelas vozes e canções vindas do rádio. Então caçula, dividia as manhãs com meus pais, os irmãos todos já estudando.

Mamãe tinha modo peculiar de me acordar, regulando o horário pelas novelas do rádio: “Cidinho! A novela das 10h já vai começar!” Acordar cedo, bem cedinho, só quando havia brinquedo novo, invariavelmente feito pelas mãos de meu pai. Papai, com espírito de professor Pardal, criava brinquedos. Guardo com precisão o olhar brilhante dele, satisfeito, vendo-me brincar com cada novidade.

Final da manhã voltavam da escola meu irmão mais velho mais as minhas três irmãs. A casa cheia, barulhenta, viva de atividades corriqueiras só quebradas no tempo de férias. Terminadas essas, começavam os preparativos para a escola. Uniformes, bolsas e mochilas, cadernos e livros. Um universo que precisei esperar para participar, o que veio a ocorrer só aos sete anos. Não tinha ideia do que eram férias, pois a vida era feita de tempo livre, visitas aos parentes, aos meus avós e viagens ocasionais. Única diferença era, nas férias, todos fazerem tudo juntos.

A rotina restaurada com o início do ano, em dia determinado e munida de listas enormes mamãe ia às compras. Voltava com um tesouro enorme, feito de canetas azuis e vermelhas, caixas de lápis de cor, compassos, esquadros, apontadores, cadernos de desenho e livros, muitos livros. Nada para o caçula que, com olhar invejoso, queria um caderno pra rabiscar, lápis coloridos para brincar. Ato contínuo, era de mamãe a tarefa de encapar os cadernos. Alguns com papel pardo, identificados em seguida pela letra de minha mãe, bonita e caprichada. Outros eram recobertos com plástico azul, transparente, bonitos de aumentar a inveja do caçula.

A escola era local cheio de histórias e aventuras. Surgiram nomes de professoras, primeiros amigos e desafetos dos irmãos. E os nomes das escolas iniciais: Guerra Junqueiro, Juscelino Kubitschek. Hoje me pergunto a razão para nomear uma escola no interior mineiro com o nome do poeta português… Vai saber! Juscelino era nome quase familiar. Em casa de mineiro era comum encontrar nas paredes retratos do governador, do presidente, todo pimpão e engalanado.

Desejei muito ir para a escola. Achava meu irmão muito bonito com seu uniforme, e queria uma pasta, de couro, com alça e fechos metálicos. Gostava dos casos trazidos por minhas irmãs e, único medo, receava ter que tomar vacina, já que eram dez agulhadas no braço da criança que voltava cheia de lágrimas para casa.  Ansioso, antes da escola rabisquei a primeira palavra no chão do quintal: Bino! E, foi assim que, aguardando com muita vontade, o dia chegou.

Os tempos são outros, as necessidades estão aí; as exigências de um mercado que absorveu pai e mãe também são realidade. Há um bom tempo que as crianças são colocadas, ainda bebês, em creches, pré-escolas. Nas grandes cidades os quintais são espaços de gente abastada. A escola, aquele lugar do sonho das crianças do meu tempo não existe mais. Parece que o prazer de aprender e fazer parte da escola foi substituído pela ânsia em formar, preparar para o mundo, garantir o futuro. Estar apto para concorrer!

Hoje sou capaz de perceber o quanto aprendi antes da pré-escola.  Poderia enumerar as atividades domésticas, plenas em aprendizado obtido na vivência, na observação. Por aqui, quero registrar exemplos de quando, ao lado do meu avô descobri o prazer de cultivar horta, cuidar de parreira, descobrir a origem do café comendo a fruta vermelha, porque madura, tirada do pé, muito doce e saborosa. Vi na oficina, papai criando dobradiças para porteiras, construindo portões para quintais e jardins, produzindo ferraduras e colocando-as nos cavalos, pacientes, bem ali no nosso quintal. Via com curiosidade a criação de porcos e galinhas, e recordo festas no trabalho conjunto de meus pais e vizinhos, quando um imenso porco era transformado em banha, linguiças e outros derivados do porquinho.

Mais que aprender por observação sobre as etapas de uma “pamonhada”, ou do trivial arroz com feijão, a faxina da casa, a organização de armários, a maior dádiva de estar em casa foi o convívio com meus pais, minha família. Convivência! Essa necessidade humana de estar e viver preferencialmente em harmonia. Até onde a pré-escola consegue resolver a questão da harmonia em convivência forçada é outra história. Creio que o maior desafio seja tornar a escola um lugar de desejo, esse mesmo desejo que nos leva a amar e valorizar as etapas e conquistas das nossas vidas.

Bom início de aulas para alunos e professores!

O porto, não.

Salles Tiné, Óleo sobre tela, 1992

Fosse Minas Gerais a Pasárgada do Bandeira, com todos os rios navegáveis e cheios de gente bonita nas beiras e a gente de Minas teria maiores afinidades com portos. Seriam locais de paradas pra namorar, como ensina o poeta sobre o tal paraíso. Por terras de Minas há rios grandes, como o Grande e não mais Doces, como o Doce, castigado pelo ser humano. Pelas Gerais caminham o Jequitinhonha, o São Francisco. Portos relevantes, não. Esses ficam nas vizinhanças.

Volta e meia vem alguém dizer que Minas não tem mar, como se mineiros não soubessem geografia. Pelas Gerais há rios, estradas reais e plebeias e vontade dos mineiros em ir longe. Muito longe! Nascidos em chapadas costumam ter desejo de ir além de onde elas terminam. Os que têm serras e montanhas pela frente vivem curiosos para saber o que há do outro lado. Os belíssimos horizontes mineiros se constituem em estímulos para que se possa alcançá-los e ir para o novo fim do mundo que se avizinha quando se chega ao fim do mundo. Já os portos… São portos.

Fosse fácil medir e veríamos a imensa carga de sentimentos que flutuam em estações, aeroportos, portos. Obviamente que essa energia – se há energia brotada dos afetos – vive em constante busca de equilíbrio entre os que chegam e os que partem. Alegrias, tristezas, saudade antecipada, ausência finda. A pluralidade de sensações em um porto, penso, são mais duradouras. Um ônibus vira a esquina e aquele que fica já se distrai ao voltar para casa. O trem ligeiro, últimos carros já em velocidade avançada, somem na curva e os aviões, rapidíssimos, levantam voo e somem entre as nuvens. Navios, não.

Os transatlânticos, imensas cidades flutuantes, recebem seus viajantes e, sinal de saída, apitam algumas vezes. Parece não haver um padrão. Tudo indica que, conforme a festa, apita-se uma ou mais vezes. Desatracando, saem muito lentamente, pesados e preguiçosos, percorrendo o estuário até atingir o oceano. E para quem tem a possibilidade e tempo para observá-los, esses navios gigantes demoram um tempão para atravessar o horizonte. Azar de quem, apaixonado, permanece ali olhando enquanto o ser amado vai embora.

Há barcos menores, transportando trabalhadores entre uma ilha e outra, dessas para o continente. Cheios de cotidiano com infinitos pequenos detalhes que diferenciam um dia do outro. Há outros, de pescadores esperançosos de bom trabalho, sem contratempos e tempestades. Saem em horários determinados pelo conhecimento do mar, da maré, das correntezas diferentes em cada tempo, época do ano. E há os imensos navios de carga que, à distância, pareciam objetos fantasmas sem viva alma à vista, não fosse a fumaça de chaminés indicadoras de alguém queimando não sei o que.

Quis o destino que eu, mineiro, viesse a morar próximo de um porto. Dá janela vejo o intenso movimento do porto, e pelo noticiário fico sabendo daquilo que meus olhos não alcançam. O transatlântico com a celebridade da hora, as exportações maiores que as importações e as drogas, muita apreensão de drogas. E a música de Caetano Veloso, inspirada no texto de Fernando Pessoa brinca em meu cérebro:

É imensurável o quanto de vida passa pelo porto. Esse vai e vem extraordinário, constante, que me faz voltar ao tempo de menino, lá em Minas, quando ver um rio era simultaneamente buscar a ponte para atravessá-lo. E se era um monte, achar a trilha para percorrê-lo e ir além. Os rios de Minas me trouxeram até aqui.  O porto é mais um lugar de passagem, que vou descobrindo aos poucos, reconhecendo a movimentação, percebendo os hábitos, desvendando os mistérios. Um local para ir além e, mesmo negando-o – o porto, não – ter a certeza de que o prazer da viagem é ter onde partir e aonde chegar.

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Obs.:

Os Argonautas (1969), de Caetano Veloso foi inspirada nas “Palavras de pórtico” (primeira publicação, 1965), de Fernando Pessoa.

Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira, foi publicado no livro “Libertinagem”, de 1930.

Trens de Minas! Trem de São João Del Rei

Bons sujeitos sabem que, para um mineiro, trem é aquilo que ele resolve denominar trem. Pega aquele trem ali! Viu que trem doido? Larga desse trem, meu filho! Cuidado com esse trem, cara… e os exemplos são variados ao infinito. E, fora do contexto, tente adivinhar qual o trem de cada frase! Todavia, de todos os trens de Minas, o melhor é mesmo o Trem de Ferro. Aquele da Maria Fumaça conduzindo vagões que nos levam para as mais ternas lembranças.

Outro dia estive em São João Del Rei, lá para os lados do Campo das Vertentes. Confesso não ter dormido toda a noite durante a viagem, admirando os contornos vistos pela janela do ônibus. Silhuetas, luzes esparsas fazendo perceber os contornos da minha terra. Longas horas curtidas com prazer que cresce com o raiar do dia. Nas beiras da estrada, pequenas capelas pra Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora Aparecida; no centro de um micro trevo, uma escultura de São Sebastião. Estamos em Minas! E se há alguma dúvida de estar em Minas ela se acaba quando passamos sobre o Córrego Cala-Boca (que história levou a esse nome?) ou divisamos o anúncio de um boteco qualquer: “A legítima empada!” Creiam-me, todas as outras são falsas.

Já estava distante, em outro município, uma ponte sobre o Rio Grande quando passamos por uma casa suspeitíssima, a Casa da Maria Rosa. A dona da casa pode ser uma santa, mas o visual da propriedade remete aos velhos e bons bordéis de beira de estrada. Será? Ao longo da estrada corre outro rio, o das Mortes. Minas, que logo em seguida anuncia um Trem Margoso que, ao que tudo indica, jamais saberei do que se trata. Estava lá, a plaquinha: trem margoso. Tudo rapidamente deixado para trás quando, já na rodoviária, antes de qualquer coisa comem-se dois pães de queijo para começar o dia. Dois! Poderia ter sido dez.

Quem quiser saber sobre identidade brasileira deve visitar nossas velhas cidades. Pode ser Marechal Deodoro, a primeira capital das Alagoas; ou então, um pouco mais perto de onde estou, pode ser São Luís do Paraitinga, no Estado de São Paulo. Cidades como essas exalam brasilidade. E me senti assim, caminhando pelas ladeiras de São João Del Rei, com seu casario na beira da calçada, sua gente cordial sempre disposta a dar passagem ao transeunte, sua comida que coloca qualquer regime para escanteio e, entre outras boas coisas, o seu Museu Ferroviário.

As igrejas locais são belíssimas e encantadoras. Bons mineiros se calam observando as majestosas Basílica Catedral de Nossa Senhora do Pilar, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja de Nossa Senhora das Mercês. A beleza da Igreja de São Francisco é ímpar e nos impõe respeitoso silêncio e admiração. O Barroco, o Rococó, a arquitetura do século XVIII embelezam a cidade dividida pelo Rio das Mortes, unida por diversas pontes. Fui recebido na casa de D. Bárbara Heliodora, a Bárbara Bela do poeta que hoje, através de um delicado busto, recebe os visitantes da Biblioteca Municipal de São João Del Rei, todos muito bem tratados pela coordenadora local.

É bom registrar que na cidade, durante a semana em que lá estive, aconteceu o XXXIII Congresso da Anppom – Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música. Um monte de gente fera no setor transitando e trocando conhecimento sobre a área. Música sacra na igreja, batucada na esquina, e outras tantas discussões e oficinas pela cidade, viva e atual. Só que cidades históricas nos levam para outros tempos, nossa ancestralidade. Parece que fantasmas ou espíritos, como queiram, estão ali ao nosso lado, contando de tudo quanto o que passaram antes de chegarmos ao século XXI. E, experiência muito pessoal, a cidade me propiciou revisitar um trem. Trem mesmo, sobre trilhos e puxado por uma Maria Fumaça.

Aqueles que conhecem a história da minha família sabem da importância da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, onde meu avô trabalhou por 45 anos. Tio João Batista outro tanto e mais outros tios e primos trabalharam como maquinistas, telegrafistas, chefes de trem, mestres de linha. A composição de São João Del Rei é outra, reminiscências da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas. Na inauguração da estrada, em 1858, a cidade se orgulha de ter recebido a visita de D. Pedro II. Quem é que se lembra disso ao iniciar uma nova viagem?

Com certeza, entrou no trem, rumo a Tiradentes, o menino que um dia eu fui. O garoto que corria apressado para uma janela, abrindo-a e se debruçando aguardando a partida e, de lá, voltando-se apenas para o lado, saudando o chefe do trem que verificava a passagem – normalmente um conhecido que conversava com minha mãe pedindo notícias do meu avô. Outro momento de grata memória era a vinda do garçom vendendo refrigerantes, sanduíches, geleia de mocotó. E as cidades, as turmas de estrada, os postos todos do percurso de Uberaba a Campinas, rumo à casa da avó materna, ou de Uberaba a Araguari, para visitar a avó paterna.

Eu e Flávio Monteiro nessa viagem que mistura passado e presente

Foi comovente ver a mudança de postura nos viajantes, meus companheiros no Trem de São João Del Rei. Feito crianças, alegres como tal, logo estavam acenando para estranhos que, com simpatia, respondiam da rua, das portas de suas casas, das janelas. “Adeus, adeus, vou me embora para Catende, vou me embora pra Catende…” Era o tempo voltando e ao mesmo tempo alertando para a possibilidade de convivência harmoniosa, mesmo que da janela de um trem. Pura poesia. E vieram pontes sobre rios e córregos, lagos, pastos com vaquinhas tranquilas, pássaros em revoada… E o trem apitando, a fumaça traçando outros rumos pelo céu. Foram apenas 45 minutos! Outro tanto para voltar. A eternidade das lembranças e dos afetos.

Quanto custa esse trem? Não tem preço. E não é caro o suficiente para que não haja outros. Lá em Uberaba, onde nasci, há uma linda Maria Fumaça na Praça da Mogiana, certamente “doidinha” para sair apitando por aí. Certamente também há muitas outras disponíveis para tornar a vida das pessoas mais felizes, através de passeios agradáveis e tranquilos. Que bom ter estado em São João Del Rei! Que bom voltar para Santos, onde bondes, esses “trens sem vagões” trafegam pelo centro da cidade. Que outras cidades sigam o exemplo de Santos e São João Del Rei, propiciando felicidade, revivendo lembranças e criando recordações para todos nós.

Até mais!

Todos os lados

Foto: Flávio Monteiro

É cansativo ligar a tv ou qualquer outro meio de comunicação e perceber a quantidade de “informação” unilateral. Na atual linha adotada pelas redes de TV tem-se a predominância do que Boni, o pai, chama de jornalismo hard. No caso, hard é eufemismo para “mundo cão”, uma expressão utilizada em tempos idos para caracterizar emissoras que se chafurdavam na miséria alheia para ganhar audiência. Usando a palavra em inglês parece sofisticado, mas é só para camuflar a ideia que caracteriza o jornalismo hard: vamos noticiar violência em todos os níveis! É o que dá audiência.

Obviamente que uma guerra é de interesse geral. Um conflito entre dois ou mais países nos afeta direta, ou indiretamente. O que nós, pobres mortais, precisamos de nos atentar é para o fato de não haver em tais contendas santos e demônios. Há diferentes lados e, sobretudo, há motivos para que um conflito chegue a uma guerra. E além de um conflito, também há assuntos tão contundentes quanto! É só ver o tratamento dado pela nossa mídia ao terremoto no Afeganistão comparando com a guerra envolvendo Israel e Palestina.

Velho hábito, passo os olhos por todo o jornal, revista ou site antes de parar para ler. Seja qual notícia for. E no final de semana os primeiros números já davam a dimensão da tragédia: na mesma passada de olhos soube que morreram 260 pessoas em Israel e cerca de 1.200 em um terremoto no Afeganistão. Sabia que esses números cresceriam e neste momento, paro de escrever para tentar atualizar perdas humanas: Subiram para mais de 2.500 mortos no Afeganistão. No conflito Israel/Palestina entra a já conhecida “guerra de informação”: o tenente-coronel Richard Hecht, informa o UOL, contou que os corpos de 1.500 terroristas foram localizados no sul de Israel. Ou seja, o dito cujo, em meio aos acontecimentos dos últimos quatro dias é capaz de afirmar que todos os mortos são terroristas? Desisto temporariamente de atualizar perdas.

Livre pensar, é só pensar, dizia Millôr Fernandes. E como não pensar? Resolvi assistir ao Fantástico nesse último domingo, 8 de outubro. Ingênuo (irritantemente ainda sou!), resolvi ver o programa na esperança de saber o que acontecia no Afeganistão. O programa teceu todo um rosário de histórias contadas por vítimas israelenses. As vítimas importam, mas qual é o motivo do conflito? O que provocou atitudes tão extremas? Ações dos dois adversários são interessantes, mas qual é o motivo do conflito, devemos insistir. Rasteiro, após consequências do ataque o programa optou por mostrar a bela Sabrina Sato na Fontana de Trevi e, depois, ao lado da Ilze Scamparini, escondida atrás de imensos óculos escuros. Em seguida, mais um tempo de trivialidades para o programa limitar-se ao que todos já sabiam: Um terremoto mata mais de 1000 pessoas no Afeganistão.

Parece que a guerra é mais importante que o terremoto. E na tal guerra, recebemos mais relatos de Israel do que de Palestinos. Nada de novo. Na guerra entre Rússia e Ucrânia só recebemos notícias dos mortos e feridos ucranianos, embora recebamos também notícias de ataques à Rússia. Assim como pendem para o lado Ucraniano, agora pendem para Israel. E eu, que sou apenas um mineiro curioso, gostaria de ter informações do que chamam “jornalismo neutro” (uma voz interior está aqui às gargalhadas murmurando: Bobinho!). Quero saber os motivos. Conhecer a história!

O “bobinho” aqui ainda é teimoso feito jumento. Irei espernear enquanto tiver vivo. O planeta é redondo e, portanto, não existe um lado. Os ventos sopram para norte e sul, leste e oeste. O sol nos ilumina enquanto giramos recebendo todas as possibilidades de temperatura ao longo do ano. As águas parecem correr para uma única direção, mas no meio do caminho evaporam para depois, em forma de chuva regar o mesmo espaço por onde passaram. E se algo impede essa normalidade da natureza, cabe identificar o motivo! Também nas guerras! Nos conflitos. Ninguém é santo, ninguém é demônio. Assim vale a expressão batida, mas absolutamente verdadeira: Nada é por acaso. Resta continuar mineiro e como tal, cismado olhar para jornais, revistas, sites, emissoras de tv com aquele olhar desconfiado, que pede mais que uma mera história para boi dormir. Qual é mesmo o outro lado?

Usuários ou otários?

Com certeza não sou o único no planeta que, ao ligar o computador, o infeliz emperra exigindo que eu faça uma atualização não solicitada. Ocorre também com o telefone, com sites, apps e o escambau. Atualização! E dá-lhe sabe-se lá qual novidade, pois quando a máquina volta a funcionar nada acontece. Só uma certeza: não é para minimizar os custos dos programas, das assinaturas, das licenças de utilização. Outra certeza é a que, com um tempo muito curto, nossos aparelhos ficam incapazes por não comportarem tanta novidade tornando-se obsoletos e obrigando-nos a comprar um novo.

Não possuindo um computador que “canta Babalu em grego” e não tendo internet poderosa como a da ONU, as coisas demoram mais um pouco aqui em casa. Isto é: ontem, por exemplo, foram HORAS aguardando as atualizações “exigidas” e baixadas sem terem sido pedidas. A razão do tempo maior, é a lenda, foi por ter ficado mais de uma semana sem ligar o computador, daí terem acumulados novidades que, após as malditas esperas, não são minimamente percebidas.

Uma maquininha das boas está pelos olhos da cara. Algo que vai de 8 a 10 mil reais para quem pode pagar e há outras, por volta de 2 a 3 mil reais para serem adquiridas em 10 prestações sem juros, como é o caso do meu objeto, como comprova a imagem. Aqui está o x da coisa e a razão do ódio. PAGO E O OBJETO NÃO É MEU. O fabricante me cede um “espião” para vigiar meus desejos, vontades, necessidades e só não envia meus nus para o espaço porque não os faço. Compro um objeto que, para ser usado, careço de comprar programas e pagar sites e pagar, e pagar e pagar… Ganhar mesmo, só os malditos vírus.

Será que sou o único a me descabelar de raiva dessa situação? Será que mais alguém sonha com autonomia sobre um mero aparelho de uso pessoal? Nossos governantes não deveriam atuar para impedir essas enormes extorsões camufladas em “atualizações”? Para usar este word acabo de pagar R$ 449,00 mais impostos. Ao invés de um “obrigado”, os canalhas me enviaram um e-mail informando a data da nova cobrança em 2024. Ou seja, é como se a velha Remington ou sua contemporânea Olivetti me cobrassem aluguel pelo uso das teclas datilográficas.

Considero como a primeira grande aquisição da minha vida uma máquina de escrever Olivetti Studio 46. Leve, útil, pequena o bastante para não se tornar um estorvo. Uma paixão que me acompanhou por muitos e muitos anos. Cuidadoso, nunca precisei encaminhá-la ao conserto e tinha um único problema: a fita com tinta nas cores preta e vermelha um dia acabava. Como bom produto que era, avisava na medida em que ia perdendo nitidez, o preto virando cinza, o vermelho um rosinha vagabundo. Às vezes uma cor terminava primeiro. A gente usava a outra, acionando apenas uma tecla.

Não tenho a menor intenção em voltar ao século XX para reviver as dores e as delícias da datilografia. A questão é que já perdi as contas de quantos computadores tive, e maior ainda a quantidade de telefones celulares descartados por “incompatibilidade” com novidades não desejadas. E assim vou indo: De um lado, me sinto superior perante, por exemplo, a indústria automobilística, e gosto de me gabar por não ter sucumbido ao desejo de comprar um “carro do ano”, cuja maior novidade costuma ser coisas do tipo maçaneta diferentona. De outro lado, sou o otário que contribui para o lixo eletrônico com aparelhos em bom estado, mas tornados inúteis pelos seus malditos fabricantes ou que é obrigado a esperar por uma “atualização” que não fará absoluta diferença no meu cotidiano.

Minha arma é a escrita. Quem sabe um dia, ainda nesta encarnação, consiga ver esse quadro modificado. Me resta escrever e provocar: você, caro leitor, que se acha o máximo por comprar carro do ano, o último celular, o computador mais poderoso! Tu é tão otário quanto eu, mesmo sobrando a grana para pagar todas as contas de despesas desnecessárias. Portanto, deixe de ser otário e faça sua parte nessa contenda. Vamos formar um clube da luta contra essa joça toda?

Os aviões do fim do mundo

Até!

O ser humano é complicado, insensato. Consegue gastar US$ 223,2 milhões para construir um único avião para, supostamente, garantir a segurança de alguns sujeitos em caso de guerra nuclear. O valor acima, é de um aparelho pertencente aos Estados Unidos, com capacidade de permanência de 12 horas voando sem ser reabastecido, com capacidade para levar 112 passageiros. No caso, os distintos seriam o presidente do país e alguns comparsas.

A quantia, convertida em reais seria algo tipo R$ 1,11 bilhão. Está lá na notícia que li. Eu gostaria de ser capaz de calcular quantos quilos de arroz, ou de feijão daria para comprar com toda essa grana. Um montão, diriam meus conterrâneos mineiros. Em conta rasa, mais de 125.000.000 de sacos de arroz à R$ 8,00 cada. Daria para uma bela comilança!

O diferencial desses aviõezinhos norte-americanos e russos – sim, os russos também possuem os seus! – é o de serem capazes de resistir à um ataque nuclear. E de estarem em condições de detonar bombas e mais bombas pra cima da gente lá de cima. Coordenar esforços de terra, é o eufemismo. No pior cenário, guerra em curso, esses coisos não teriam onde aterrizar, o que seria um belo sinal de justiça divina.

Justiça é um caso sério, já que não há quem consiga impedir o armamentismo no planeta. Se há alguém que ganhe com a indústria bélica, com certeza não é o cidadão comum. Em nome de garantir a segurança, alguns sujeitos recebem fortunas faraônicas para a fabricação de ogivas nucleares, aviões, drones e todo o arsenal que, somados os investimentos para tal produção, alimentariam o planeta.

Tais aeronaves são apelidadas de “aviões do juízo final”. Pense na arrogância de tal apelido! Como se a tripulação fosse um corpo de jurados capitaneados pelo próprio Deus. Na real, são aviões do fim do mundo, pois é difícil acreditar que o mundo, tal qual o conhecemos continue o mesmo após uma guerra nuclear. Será outro mundo e, com certeza, muito pior.

Foi imposto a todos nós a ideia de que lutar contra tudo isso seria ingenuidade. Pior, fazem-nos acreditar na necessidade vital de cada país produzir, comprar e usar armas, uns contra os outros que, no frigir dos ovos são o nosso próximo, tão humanos quanto! Aqueles que acreditam que esse tipo de coisa resolve, deveriam olhar para trás. Desde o arco e flecha, passando por punhais e outra centena de tipos de armas, sabemos que a violência não resolve nem muda o ser humano. O problema é acreditar no que dizem aqueles interessados em, de uma forma ou outra, ganhar com a guerra. Muita grana!

Tomara que nunca vejamos um avião desses sobrevoando qual país seja. Nem para demonstração, muito menos para exercício. Os dois lados mais letais do planeta – aqueles dois que controlam o arsenal atômico do mundo – não estão interessados no bem de seus próprios cidadãos, enviando-os para as guerras que os “comandantes” de tais aviões arranjam. São incapazes de resolver o desemprego, a fome, a educação e a saúde de seus habitantes, pois preferem munição à alimentação.

Nota: O avião norte-americano é o E-4B Nihtwatch, da Boeing, um 747 adaptado para a guerra. Existem quatro aeronaves prontas para o combate. O modelo russo é o II-80 Maxdone, fabricado pela United Aircraft Corporation. Os russos não divulgam muito sobre o aparelho, mas sabe-se que estão construindo novos e mais potentes modelos

Outros versos para uma velha canção

Cantei no Pará… em O casamento do Pará com o Maranhão.

A letra de um samba de 1930, autoria de Vicente Paiva e Anibal Cruz tem esses versos na música gravada por Carmen Miranda: “Cantei em São Paulo, cantei no Pará / Tomei chimarrão, comi vatapá…”. Numa tacada são quatro citações de quatro regiões brasileiras que, penso, deveriam estar entre possíveis destinos de todos nós. Longe de um ufanismo fora de hora, a questão mesmo é a beleza e a diversidade ambiental da nossa terra que, infelizmente, valorizamos pouco, conhecemos menos ainda e, talvez por isso, mal cuidamos. Essa introdução se justifica no fato de a Amazônia estar em foco neste momento.

Em Belém, a capital do Pará, se discute na Cúpula da Amazônia os problemas e o futuro da região visada pelo mundo inteiro. Uma mega floresta, imensos recursos hídricos, outro tanto de possibilidades em extração mineral, uma rica fauna… E, da maior importância, a presença dos donos da terra, os povos originários em constante ameaça pela ganância dos ditos civilizados. Há que se cuidar da Amazônia! Para além das nossas fronteiras, toda a Amazônia. E para o desenvolvimento sustentável da região é preciso considerar a estrutura necessária para que seus 50 milhões de habitantes tenham uma vida digna.

Quando penso na Amazônia me vem outras regiões, outros ecossistemas. Penso nos Pampas gaúchos, no Pantanal mato-grossense, na Caatinga nordestina, no Cerrado do centro-oeste e, guardando milhares de quilômetros da nossa costa, a diversa paisagem litorânea da Mata Atlântica, além das nossas belíssimas praias. Tanta riqueza merece pelo menos uma visitinha ao longo da vida.  O planeta é maravilhoso e é lícito querer conhecer o deserto do Saara, as montanhas do Himalaia, descer o Danúbio, caminhar pela Muralha da China. Mas, seria possível incluir nos roteiros de futuras férias esse Brasil, rico e diverso? Antes que ele acabe.

Parece exagero afirmar o risco do fim. Mas não é. Uma cidade como São Paulo, para exemplificar, não conta com um único córrego despoluído. Esses mesmos córregos que contribuíram para poluir os principais rios que cortam a capital, o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí. As margens plácidas do Ipiranga, cantadas cotidianamente em nosso hino, ficaram na história. E assim como o riacho histórico, carece cuidar para que no futuro não estejam somente na história nossa fauna e flora. Se o caro leitor acha que estou exagerando solicito ao distinto que enumere quantos pés de pau-brasil já teve oportunidade de ver? Poderia colocar nessa solicitação também alguns outros “pés”: Jequitibá-branco, Ipê, Araucária, Mogno… Já perdemos tanta coisa!

Nossa diversidade sofre por ações de gente ignorante e inconsequente, algo que herdamos de quando o país foi invadido pelos portugueses. O desmatamento desenfreado começou com a exploração do pau-brasil, assim como a monocultura que empobrece a terra teve início com os canaviais do período colonial. A exploração mineral, desde o ouro encontrado em Minas Gerais, segue rumo a outros países que enriquecem seus cofres e, por exemplo, com o ferro, importam o minério para nos vender produtos industrializados. Hoje sofremos o avanço indiscriminado do tal Agro que repete erros já conhecidos. Se as pessoas buscassem o motivo de a China não plantar soja descobriria que o cultivo indiscriminado não paga o prejuízo que temos e teremos por conta da água potável necessária para tal cultivo. Quanto ao desmatamento e às queimadas, o calor vigente responde já sobre as consequências que, a ciência alerta, irão piorar.

Para tudo há conserto, diziam nossos avós. Sai caro! Além do que já foi gasto para despoluir o Tietê, o governo de São Paulo promete investir R$ 5,6 bilhões para despoluir o rio. Essa promessa vem de outros governos e nada nos garante que será cumprida. Assim, deve levar algumas décadas para que paulistanos possam voltar a pescar, navegar e nadar em seus rios. Quanto nos custaria recuperar a Mata Atlântica? E se for necessário recuperar o Cerrado, o Pantanal, a floresta Amazônica? Haja imposto para tanto! E resta saber se haverá vida e saúde para isso.

“Cantei em São Paulo, cantei no Pará / Tomei chimarrão, comi vatapá…” são os versos da canção e sugiro outros mais: nos deliciarmos com as cachaças das montanhas de Minas, o sol de Ipanema e, se a gente fizer tudo direitinho com nosso país, poderemos até caminhar novamente sob a garoa paulistana. Mais, muito mais! Dançar com as prendas do sul e sambar o samba de roda do recôncavo baiano. Comer arroz com pequi em Goiás, arroz de cuxá ouvindo os tambores de crioula do Maranhão, arroz de carreteiro no Pantanal… Arrematar tudo com uma caldeirada de tucunaré com a paçoca de Tocantins. E para que toda essa possível festa tenha razão de ser é necessário que cada região esteja bem cuidada, inteira, nos propiciando o que há de melhor.

Nas próximas férias, que tal programar conhecer ou visitar uma das nossas reservas ambientais? Enquanto as férias não chegam, que tal nos mantermos alertas para agir em prol da diversidade brasileira? Um apoio necessário para que esse país “lindo e trigueiro” continue sendo abençoado por Deus.