Quatro anos: Carta a Lorenzo

Um acontecimento pode ser comum e, ao mesmo tempo único, pelo fato de assim o ser na vida das pessoas envolvidas. Um aniversário que não pude comparecer acendeu uma luzinha sobre o tempo perdido e as consequências disso na vida das pessoas. Um aniversário revela o tamanho de uma vida. Daí minha carta ao aniversariante que, espero, venha a ser tão meu amigo quanto seus familiares.

Carta a Lorenzo.

Santos, 23 de Julho de 2023

Quanto tempo, Lorenzo! Já se foram quatro anos.

Cheguei à maternidade um ou dois dias após você ter nascido, naquele julho de 2019. Terminando a amamentação sua mãe te colocou, confiante, em meus braços. Estávamos felizes, teus pais e eu, falando baixinho como convinha ao momento.

Eu já sabia desse nome, Lorenzo, embora tivesse sugerido para que o batizassem Francisco, o Chiquinho de Assis. Sua avó, Regina, quem me passou a informação: Lorenzo! Os pais escolheram! Nome bonito! Deixa o Chiquinho para outra oportunidade.

Você ficou quietinho no meu colo. Acredito que seja esse um sinal de amizade se estabelecendo. E assim, logo vieram os primeiros meses. Luciana sendo a mãe que a gente esperava e Regina adorando a ideia de ser avó. Todo mês durante o primeiro ano rolou uma foto via internet, uma mensagem; os amigos acompanhando seu crescimento.

De repente o planeta entrou em caos. Você teve a boa sorte de ignorar tudo aquilo e de estar longe do burburinho de São Paulo, protegido na pacata Araçariguama. Tua família obedecendo aos protocolos todos para que a epidemia não chegasse até você. Foram tempos difíceis que, espero, não voltem a se repetir.

Embora raramente nos tenhamos visto, sempre soube de você. Nos vimos muito rapidamente no lançamento do meu livro, O vai e vem da memória. Isso ainda em tempos de máscaras escondendo e ao mesmo tempo protegendo o rosto das pessoas. Fora essa rápida passagem, acompanhei teu crescimento via contato com sua avó. Fase por fase. E fico feliz sabendo que você está em meio a muito verde, muitas frutas, flores, pássaros, cachorros. Provavelmente, em breve será você a cultivar a horta, cuidar do pomar.

Lá se foram 4 anos! Restabelecida a normalidade, outras tantas mudanças se concretizaram. Agora, por exemplo, moro em outra cidade, vivo outra vida. O que me dificultou nesse momento e acabou que não consegui comparecer às comemorações de seu quarto aniversário, aumentando mais um pouco esse tempo desde seus primeiros dias. Todavia, tenho certeza, foi uma linda festa e você esteve em companhia de muita gente querida. E deve ter sido tudo muito divertido!

Quatro anos! Quantas coisas passaram por todo o planeta desde então. Você, Lorenzo, é um dos símbolos de esperança, de luta e de vitória. A certeza de que tudo passa e, de que, o que vale são esses momentos de alegria ao lado dos familiares. De que tudo o que foi preservado, de tudo o que merece ser preservado. A vida segue! Que Nossa Senhora da Saúde, tão cara à sua avó, cuide de você e o proteja por toda a vida.

Feliz aniversário. Grande abraço!
Valdo

Chico solitário em manhã de domingo

Uma rápida saída e caminho pela Praça Rui Barbosa, nesse domingo ensolarado de Uberaba. O céu azul desse dia brilhante tem, no alto da torre da catedral metropolitana, a imagem de Cristo soberano, vigilante, tomando conta de tudo que sempre foi dele. Me sinto solitário caminhando pela praça vazia, com um ou outro veículo subindo ou descendo indiferente à beleza das árvores, ao canto dos pássaros. Os automóveis estão com vidros escuros, fechados, escondendo passageiros.

Passo por Chico Xavier, cuja escultura aparenta ser como as tantas que há por aí, as cidades homenageando pessoas ilustres. O médium está sentado no lado esquerdo do banco, usando paletó e boné, calças e sapatos simples. No colo, sobre as pernas unidas segura um livro transformado em suporte para livros reais, flores murchas e uma enorme, artificial. Na capa do livro que está na frente lê-se o título: O caso dos exploradores de cavernas. Não guardei o nome do autor e, registrando o momento em foto, não consigo decifrar o sujeito. Com certeza, não é da autoria de Chico.

Desço pelo calçadão da Rua Artur Machado que, nessa manhã, tem uma única loja aberta, dois vendedores ávidos oferecendo bolsas, mochilas, carteiras. Entro à esquerda na Avenida Leopoldino de Oliveira. Feia, sem charme algum. Não consigo ver graça em asfalto e corredor de ônibus onde um dia houve um córrego, muretas baixas que nos serviam de acento sob árvores que ofereciam sombra refrescante. A avenida está vazia de gente, cheia de carros que correm para não sei onde.

Após sair da farmácia caminho até ao Mercado Municipal. Estou tão solitário quanto o Chico. Ele, parado enquanto ocupantes de veículos passam indiferentes. Tento me dominar, evitando a irritação diante do Cine Metrópole abandonado. É preciso preservar o humor nesse dia bonito. Ainda assim acho a gente de hoje meio besta. Deixar um cinema bonito como o Metrópole foi destinado ao nada…

Há gente, muita gente no Mercado. Quase todas sem portar sacolas com compras. Queijo, doces, pinga! A moça me oferece cachaça para provar. Brinco com ela: Me parece que, por aqui, vem um para comprar e dez para aplaudir! Ela ri, concordando e completando: Falam muito, não compram nada. Volto feliz portando duas pratas da casa, pinga e queijo, mais mexericas, que sempre preferi ao Zebu.

De volta à praça, reencontro o Chico. A praça continua vazia e tento uma telepatia básica com o médico: Oi, Chico! Cadê o povo? Eles se isolam dentro de seus carros, correm de um esconderijo para outro como se as ruas fossem perigosas! Mas, não há ninguém, pelo menos no plano em que consigo ver! Vai ver têm medo de encontrar espíritos, ou a si mesmos. O senhor não acha que é isso?

O médium não responde e gosto da ideia de que quem cala consente. Tento materializar o barulho do passado, quando a praça era tomada por humanos. Gente que ia ao cinema, ao clube, aos bares, à banca de revista. Agora correm em seus carros, assumindo um individualismo motorizado, correndo direto de suas garagens para shoppings, ou para o mercado, para aplaudir quem compra queijos e outras delícias.

Solitário humano, temporariamente dono da praça, saco meu celular para fotografar o Chico em sua singela humildade, sentadinho em um banco comum na parte baixa da praça. Há sutilezas outras, além dessa simplicidade em contraste com a imponência da catedral católica. Chico está de costas para o prédio antigo da Prefeitura Municipal, onde hoje está a Câmara dos Vereadores. Educado demais para dar uma banana para o poder e seus representantes temporários, Chico dá as costas.

Enquanto me distancio da representação em bronze do médium não deixo de pensar em suas caminhadas pela região, presenciadas quando fui jovem. Ele nunca ficava sozinho por um único minuto. Jogava conversa fora com todo mundo, sempre atento, sorridente e, qualidade incomparável: falando baixinho!

Sem olhar para trás, vim-me embora, certo de que nas outras esferas, também sendo domingo, Chico deve estar rodeado de amigos, de pessoas queridas, feliz da vida por não precisar psicografar nada para aqueles que estão com ele. Há um lado bom em tudo. Bom domingo, Chico Xavier! Meus respeitos! E para que o senhor não se livre de pidões, peço: dê lembranças aos meus.

Obrigado!

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Nota: A escultura em bronze de Chico Xavier é obra de Vânia Braga, inaugurada em 2020, por ocasião dos 110 anos do médium espírita.

Manifesto dos 68 ou ser velho é…

Considerando a sensação comprovável de que 68 não significa nada além da distância entre o momento em que alguém nasce e agora,

Filosofando ao sabor da cerveja que um número é apenas um dado entre o anterior e o próximo,

Aceitando o fato de transformarem o número em data, a data em efeméride, popularizada como aniversário propõe-se reflexões, ponderações e decisões:

– A terra, Novinha da Silva, tem bilhões de anos, 68 ou 78, ou 88, ou 98 da vida de um sujeito são apenas o “é da coisa” e, reiterando D. Clarice, “que de tão fugidio já não é mais”.

– Substituamos aniversário por natalício. A etimologia do primeiro tem um falso cognato – annus – que nos ajuda a trocar por natalício, nos leva a nascer de novo. Nasça de novo sempre que quiser!

– Distancie-se do espelho, cuide para desaparecer com incômodos físicos e exercite a memória, ou aguente o tranco:

– Diante dos espelhos que nos são impostos por uma arquitetura tosca perceba que, como grande quantidade de bebês, os de 68 anos ou mais também tem rugas. Nesses momentos recorde sua mãe (Lindo da mamãe!) e suas tias (que gracinha!).

– Ao pensar em harmonização – um direito! – considere harmonizar cabeça, tronco e membros. Parece que mãos e pescoço só obedecem a luvas e cachecol, ou essas golas altas mesmo. Caso pretenda a harmonização para coisas do sexo, considere o impacto da luz do amanhecer sobre todo o corpo em contraste com o rosto harmonizado.

– Ainda frente ao espelho encare: a pele sem viço, o cabelo nevado ou pintado e, caso o dito cujo exponha uma barriga em formato de chimpanzé lembre-se: Tais fatos são manifestação divina para que não esqueçamos nossas origens e nosso fim.

– Emocionalmente, deite e role na astrologia. Não sei quem na quarta casa, o ascendente em qual planeta e gêmeos, escrevo no meu lugar de fala (coisa chata, essa coisa de lugar de fala), os 68 não levam o geminiano a deixar de ser instável. Às vezes bem, às vezes mal, com tempos variáveis de duração e muita rapidez nas mudanças. Um saco!

– Jamais confunda emoções com paixões, afetos e amores e assim, postula-se:

– Seja fiel às suas paixões. As primeiras te formaram, as que vieram em seguida consolidaram e fizeram de você o ser presente. Neste aspecto, preste atenção e recorra à revistas, sites e similares: até o Roberto Carlos mudou de penteado no decorrer do tempo. Só use o corte de cabelo da sua paixão de décadas passadas com a consciência de ser “vintage” ou “sessentage” ou “setentage”. E seja feliz assim, se possível.

– Afeto nunca é demais. Aos amigos, aos vizinhos, aos parentes, aos familiares, aos gatos, aos passarinhos, aos cachorros, aos peixes, ao planeta. Atenção: Alguns pequenos ódios dão equilíbrio à vida. Pequenos! Considere sublimar seus ódios na literatura descrevendo as possíveis maldades que farias para maltratar o ser odioso.

– Sobre amores, o lema está expresso em verso da música “Ah, Sweet Mystery of Life”: For it is love that rules for evermore. E siga o conselho da versão cantada por D. Maria Bethânia, a moça da Academia de Letras da Bahia: “A ninguém revelarei o meu segredo e nem direi quem é o meu amor!”. Um tratado sobre as vantagens dessa postura está no repertório de D. Maricotinha. Se você prefere outra cantora, não posso fazer nada; cante e chore como Marília Mendonça.

– Sobre ser velho, primeiramente lembre-se da cantora Cher: “É uma merda!” E sobre as vantagens, a sabedoria e o escambau da velhice, a sábia Cher determina: “Foda-se isto também”. Assim posto, aposente-se logo e sempre que possível. É maravilhoso vagabundar com salário garantido no final do mês.

– Dedique-se a fazer o que gosta, e àquilo que te faça sentir bem, como euzinho lindo aos 68, escrevendo meu primeiro manifesto, que finalizo deixando bem claro que não respondo por nada escrito acima. Estou só me divertindo e tentando fazer graça com os amigos.

Santos, 18 de Junho de 2023

Valdo Resende

Um limbo longe do fim

Lançamento em São Paulo. Foto: Fátima Borges

Decidi escrever o romance “dois meninos – limbo” no início de 1999. Um imenso embate em como relatar, denunciar, divulgar enfim o que está cotidianamente ao nosso lado, às nossas vistas, nos locais onde vivemos. A AIDS havia chegado no Brasil em 1982 e em 1999 já se contabilizava 155.590 casos. Grande tragédia para quem foi jovem nos anos de 1980, quando o tesão passou a ser risco de vida, como disse Cazuza em versos.

Sentença de morte para todos os infectados, a doença também impunha forte segregação social. Não bastando estar infectados, os indivíduos sofriam pelo preconceito, pelo descaso, pela desinformação de quem temia contágio pelo mero toque de mãos. Os doentes perdiam empregos, amores, família e, para uma sobrevida minimamente digna, assumiam um anonimato.

O livro foi lançado em 2014. Não, não levei quinze anos para escrevê-lo. Quatro ou cinco, com certeza, mais revisões, leituras feitas por amigos e uma reescrita exigida por entrar em vigor o novo acordo ortográfico, em 2009. Pior mesmo foi a peregrinação por editoras. Nenhuma interessada em lançar um novo autor com um romance que tinha a AIDS norteando a prosa. Lançamento feito, o anonimato das personagens recebeu a companhia de muitos outros, entre os que adquiriram o livro, que me brindaram com o silêncio. Bem provável, caso já fosse moda “cancelar” naquele ano, eu teria sido cancelado por um monte de gente.

O mundo caminhou e a diversidade assumiu outras cores, dando visibilidade de tal forma que até mudanças na linguagem passaram a ser pauta e objetivo de luta. Inegavelmente há avanços e conquistas, mas que ninguém se engane, os anônimos continuam por aí, excluídos e sem uma vida plena em dignidade. Daí o tema da 27ª Parada do Orgulho LGBT+ de SP: QUEREMOS POR INTEIRO, NÃO PELA METADE. São pouco mais de dois minutos para você, leitor, tomar consciência da questão:

Quem quiser se aprofundar um pouco mais pode ler o Manifesto dos organizadores da Parada do próximo dia 11, clicando neste link.

Nos próximos posts retomarei textos escritos sobre o livro “Dois meninos – limbo”. A ideia é lembrar que questões fundamentais ali relatadas, infelizmente, continuam atuais. Dados de 2019 (atualização dificultada pela pandemia da COVID), a AIDS já causou 32 milhões de mortes no planeta. A absoluta maioria: anônimos.

Ladrões de bicicleta

Poderia escrever sobre o filme Ladrões de Bicicleta, do premiado diretor Vittorio De Sica. Mesmo porque não sei se eram ciclistas ou ladrões do veículo os dois garotos presos hoje, pela manhã, aqui bem próximo de casa, em Santos. O aparato policial era escandalosamente desproporcional. Cinco viaturas para dois garotos. Cinco! No cruzamento, fazendo o entorno do canal 4 estavam os veículos, os policiais e sentados no passeio, como se tomando sol, dois adolescentes.

Ladrões de bicicleta (1948) – Divulgação

Eram dois garotos desses muitos que pedalam pela cidade. De bermuda, camiseta, pele e cabelos queimados de sol. Sem os dez guardas no entorno e seriam dois adolescentes passando o tempo sob o sol de outono. Observando mais atentamente via-se que estavam um tanto sérios, aparentando calma, mas com os braços cruzados de forma tensa, as pernas retesadas. Sabe-se lá que destino teriam enquanto os policiais, não sei o motivo, esperavam um não sei o quê.

Teriam roubado alguém ou alguma bicicleta? No filme italiano de 1948 um pobre desempregado recupera sua bicicleta que estava “pendurada” ao conseguir um emprego. Logo em seguida é roubado, privado do veículo que seria essencial para o trabalho. Esse é o filme de De Sica. Os ladrões daqui são bem distintos. Aqui em Santos e na vizinha São Vicente há um modus operandi de garotos ladrões que usam bicicletas para aproximação e fuga rápidas. Atacam turistas ou pessoas mais velhas, distraídas e sós. Um vem e faz uma curva em volta do pedestre e o segundo completa o ato, roubando carteira, telefone, bolsa ou qualquer outro objeto que possa ter valor.

Sem saber se roubaram uma bicicleta ou se eram ladrões de outra coisa segui meu rumo, sem antes ouvir mesmo sem querer algumas falas do tribunal popular já instalado no lado oposto. “Daqui a pouco estarão soltos, guardem a cara! Logo voltarão por aqui” disse um senhor. Ao que uma mulher ponderou: “Poderiam estar trabalhando, não é? A gente, nessa idade já trabalhava. Hoje, não pode trabalhar”. E eu segui, sem atentar para outros bochichos ou comentários. Fiquei pensando nos meninos, ladrões, que poderiam ser aqueles outros, famosos da literatura de Jorge Amado, os Capitães da Areia.

Capitães da Areia – Imagem divulgação do filme de 2009

Os meninos relatados por Amado perambulam pelas praias da Bahia, são os donos da cidade de São Salvador. O escritor nos faz ver o quão há de humano em cada personagem fazendo emergir o modo de ser, a história, a índole de cada um. Com os Capitães da Areia aprendi a olhar meninos que, por diferentes circunstâncias estão nas ruas. Não são meninos de rua. Estão lá por algum problema social que, sendo social, é nosso. Confesso ter tido mais tranquilidade no passado, quando minha juventude facilitava o distanciamento dessas personagens que, percebo com clareza, não me olham, mas me examinam. Mantenho-me atento e esta é a única defesa possível.

Sendo alvo dessas personagens, ou seja, velhote andando sozinho pela rua ou pela calçada da praia, não me sinto confortável, embora não me passe pela cabeça ficar longe do mar. Deixando cartões e carteira em casa estou certo de, sendo roubado, não perder lá grande coisa; o que não me impedirá de levar uns sopapos que, imagino, venham acompanhados de palavrões e desaforos: “Tem vergonha não, tio! Tá mais pobre que a gente!”. Outro dia no ponto de ônibus um me pediu 10 reais. Eu não tinha. Deixou por 5, eu também não tinha. Pelo menos 2, disse ele, exasperado! E eu, já meio sem jeito, disse estar apenas com a Identidade para usar como passagem. E ele se foi, irritado, me desaforando: “Se eu tivesse juro que te daria”. Eu ri, pensando que receberia sem pestanejar.

Há uma série de moradores nos jardins da praia e já conheço muitos deles. São gente boa. Vivem de bicos, tipo levar mesas e cadeiras de praia para locais próximos. Trabalho pesado. A maioria deles tem cachorro, o Caramelo é famoso, e já conheço uma senhora, boa alma, que os visita, trás remédios, leva para socorro médico. Estão invariavelmente limpos, pois água é o que não falta. Falta comida e, parece, sobra bebida. Volta e meia estão discutindo, uns afanando coisas dos outros. “Cadê meu celular?”, “Você bebeu tudo enquanto eu estava dormindo”. No mais, o máximo que podem nos fazer é pedir cigarro, um trocado, ou comida. Parece haver um acordo tácito: eles não nos incomodam e assim convivemos. Tenho medo mesmo é dos que andam em bicicletas.

Santos possui uma extensa rede de ciclovias, todavia os ciclistas deixam muito a desejar na cidade. Andam sobre os passeios, na contramão, não respeitam semáforos e muito menos pedestres. A velocidade é daquela do velho ditado – tão indo tirar alguém da forca. Na imensa orla que mal permite aos desavisados distinguir Santos de São Vicente há ciclovia em mão dupla. No entanto, mesmo com avisos de proibição, os ciclistas invadem os jardins e a calçada rente à praia. Nunca sabemos se são só cidadãos desobedientes ou se são os já temidos ladrões, notícias frequentes nos jornais.

Ainda em fase de transição de governos, ainda sob efeitos da pandemia e todas as mazelas econômicas penso ser óbvio que o roubo vem de algum problema concreto. Não pretendendo um tratado de sociologia me resta permanecer atento e, quando possível, fazer e exigir dos responsáveis algo pela educação e formação de crianças e adolescentes. Sem escola, os pais desempregados ou com salários irrisórios, há aqueles que não pedirão, roubarão. Simples assim.

Ou tomamos atitude, ou somos cúmplices!

Uma cena grotesca e absurda: um rapaz enfrenta a multidão que vocifera e expõe sentimentos torpes, baixos, indignos de seres humanos. Vini Jr está em uma arena onde deveria ser no mínimo respeitado por quem não o consegue vencer. Este é o triste motivo do crime cometido pela torcida adversária: o atleta do Real Madri, junto a seus pares, subjuga o Real Valência. Impotentes diante da superioridade de quem lhes impõe uma derrota, para a torcida covarde sobra a estupidez e a ofensa criminosa.

Um resultado imediato revela outro absurdo. Vini Jr. é expulso. Os criminosos não são autuados, nem sofrem sansão flagrante. A vítima sai de cena sem que seus colegas tomem seu partido. Sim, um fato que evidencia a individualidade em um esporte que deveria ser coletivo. O ataque da torcida covarde é contra um atleta. Os europeus do Real Madri não são ofendidos e nem saem do campo em apoio ao colega ofendido. O dirigente do Real Madri demorou para se manifestar e o dirigente da “La Liga” criticou o jogador. Infeliz atleta que tem por sina a excelente qualidade do seu futebol!

Certamente não há nada de novo a ser dito sobre o que acontece com o jogador de futebol Vini Jr. na Espanha. Por isso mesmo devemos repercutir, insistir, denunciar à exaustão. Por isso devemos expor patrocinadores dessa cena grotesca. Os patrocinadores dos dois times e da Liga. E devemos exigir das autoridades espanholas ações enérgicas e eficazes visando punir os criminosos. E que ninguém venha dizer que é impossível identificar cada criminoso, posto que pelo mundo afora sobram exemplos de que é possível buscar cada manifestante no meio de uma torcida, de uma multidão.

Torcedores inflamados costumam perder o controle em uma partida importante. Se desesperam, gritam, choram. Conversam com a televisão amaldiçoando o juiz, o treinador e, dentro de um estádio de futebol, essas sensações se multiplicam e explodem no ato coletivo, na cumplicidade entre iguais. Nesses momentos conhecemos o verdadeiro caráter de muitos em meio a uma torcida. Em algumas ocasiões extrapolam o limite entre o civilizado e o irracional expondo, sobremaneira, uma imensa covardia. Será que cada criminoso, entre os muitos naquele estádio, teria a coragem de agir da mesma forma quando só? O corajoso que esbraveja com apoio de iguais usaria as mesmas ofensas em um cara a cara com o ofendido? Covardes.

Vini Jr. é um atleta. Um ser humano! Foi vergonhosamente ofendido por espanhóis, dentro de um estádio espanhol, em território espanhol. Que todas as medidas judiciais cabíveis sejam tomadas e, enquanto isso não ocorrer, só podemos lamentar e denominá-los cúmplices. Os dois times, La Liga, as autoridades espanholas. Se a Espanha apresenta neste momento os melhor futebol do mundo, que este não tenha por base o crime e a barbárie.

Palmiras

D. Palmira, a Tia acima e Palmirinha.

Por um bom período moramos lado a lado. A proximidade de relações entre nossas famílias facilitou a ausência de muros e são lembranças muito fortes quando, pela manhã, vinham mães com crianças doentias, algumas bem choronas. Sem muita conversa, D. Palmira caminhava pelo quintal colhendo pequenas porções de ervas; arruda era a mais comum. Sem tirar a criança do colo da mãe, D. Palmira fazia o sinal da cruz em si e na doentinha. Iniciava o benzimento falando bem baixinho; a mais frequente ação era para tirar o quebranto.

“Tu tens quebranto, dois te puseram, três hão de tirar… em nome das três pessoas da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Outros tempos quando para qualquer mal o primeiro socorro era o benzimento. De crianças perebentas tirava-se o “cobreiro brabo” e cabia ao paciente responder três vezes à pergunta da benzedeira: “O que é que eu tiro?” E ouvia-se a voz débil, “cobreiro brabo!”. D. Palmira para uns, Madrinha Bia para outros, era mulher risonha, adorava um bom prato e estava sempre disposta ao trabalho, ajudando a filha a cuidar de nove crianças, seus netos. Creio que a maioria das crianças do bairro e outro tanto de adultos receberam as bençãos daquela mulher, viúva simples e pobre, que jamais cobrou um tostão pelo trabalho.

Minhas recordações de Tia Palmira são distintas. Irmã caçula de minha avó, tinha um rosto alvo, sempre muito bonita e sorridente. Recordo a tia lutando pela saúde do marido, Tio Alcides. Ela não mediu esforços buscando a cura para a doença que, penso eu, devia ser desses males difíceis. Foi a primeira vez que ouvi falar em Zé Arigó, o famoso médium que recebia o espírito do Dr. Fritz. A Tia Palmira levou o marido até Congonhas do Campo, em Minas Gerais, para que este fosse operado espiritualmente. O médium foi honesto e afirmou que a ação seria paliativa, pois não haveria cura. Todavia, maior poder tem Deus e Tia Palmira continuou. Em Uberaba procurou Chico Xavier e lá também frequentava o Sr. Eduardo, ou Eduardinho, que trabalhava com ervas, beberagens, garrafadas.

À morte inevitável do marido ocorreu longo período de luto. Dez anos vestindo-se com roupas pretas. Cabe ressaltar que esse fato ocorreu bem antes do vestido “pretinho básico” das elegantes de ocasião. Tia Palmira não se preocupava com moda, mas com o respeito que achava que devia ao falecido. Passado o luto, voltou a sorrir, a usar joias e a se maquiar. Sendo bonita, logo reencontrou antigo afeto com quem se casou e foi feliz. A última vez que nos encontramos foi no velório de minha avó e Tia Palmira, com boa dose de humor macabro, afirmava entre risos contidos ser a próxima. “Estou tão ruim! Logo, logo vou eu!”.

Não tendo hábito de assistir programas de culinária vi poucas vezes a simpática Palmirinha, mas quando a vi estava sempre cozinhando com bom humor e afeto. Tive tempo de perceber a relação da cozinheira para com seu trabalho. Um aprendizado necessário: cozinhar com alegria e afeto, uma tarefa primordial para a relação que se estabelece entre as pessoas. Cozinhar para si e para o outro! Algo a ser estimulado posto que hoje em dia é comum encontrar pessoas que rejeitam o fazer uma refeição como se essa não fosse fundamental para qualquer ser humano.

A história de Palmirinha, descobri nos obituários, é bastante densa, com uma infância e juventude sofridas. Embora todo o passado conturbado e difícil, tornou-se a mulher doce, a apresentadora simpática e a cozinheira amorosa. Deixou-nos a lição fundamental do bom humor e da alegria no ato de transformar ingredientes em refeições deliciosas. Ensinou-nos, como alguns de seus pares ensinam, que cozinhar é uma arte, um terreno de criação e transformação.

D. Palmira, Tia Palmira, D. Palmirinha! Três mulheres tão distintas e, percebo agora, tão próximas no sorriso, nas relações com a vida, com o trabalho, com o outro. São mulheres que deixaram lembranças doces. Para elas destinamos vibrações carinhosas, desejando-lhes em dobro o que por nós aqui fizeram.