Meus livros e leituras

Página do Instagram onde o autor se propõe a indicar livros e autores, “meuslivroseleituras” relata viagens literárias e expõe um diário de leituras. Meu e-book, A Sensitiva da Vila Mariana, foi lido e comentado.

Feliz com a iniciativa do Edson Benedito Taborda, o dono da página, agradeço sinceramente e compartilho com vocês, aqui do blog. Ao mesmo tempo deixo um convite neste link para seguir e conhecer as demais indicações em “Meuslivroseleituras”.

A Sensitiva da Vila Mariana – Valdo Resende

Acredito que já tenha deixado claro por aqui o meu gosto por contos, e logo que tive oportunidade quis conhecer os contos do Valdo, que foram publicados pelo autor em um blog a partir de 2008 e depois selecionados para esse livro, além do último que é extremamente atual, se passando nessa situação atual que passamos, e cara, o que falar desses contos?

Foram extremamente cativantes pra mim, com um humor refinado e do povão ao mesmo tempo, uma leitura rápida, divertida, interessante, terminei a leitura com um sorriso de satisfação, e com o sentimento de os personagens serem meus amigos, pessoas que eu poderia encontrar na rua hoje mesmo, pois senti as situações como reais, nada de absurdos.

Uma leitura eu diria bem realista (embora elas gostem de uma extravagância hahaha) tive o prazer de conhecer nesses contos três grandes amigos, Vanilda “a Tatuada”, Vadico que é também o narrador das situações, e Maria Aparecida com seus croquetes, que deveriam ser deliciosos e eram a porta de entrada dela em todos os lugares que desejasse, ao terminar bem gostaria de aumentar esse grupo me tornando um D’artagnan dessa equipe \o

Edson Benedito Taborda

Uma caneca de Natal

Chegando de Ribeirão Preto, Tia Olinda sempre levava presentes, constantes mimos de alguém que gostava de agradar. Chegava sorridente, falante, e assim me entregou a caneca – que está aí na foto. Uma caneca agora cinquentenária… ou mais, não sei. Eu nem estava na escola! Ou seja, meu mundo era a família e o quintal, posto que a rua, o bairro e a cidade vieram depois. Com a caneca vieram algumas bolas coloridas, de vidro.

– Para você fazer sua árvore de Natal!

Disse-me a tia ao entregar o precioso presente. Lembro de ficar olhando, encantado, para aquelas coisinhas coloridas, leves e… mortais. Quando quebradas eram um perigo considerável diante das infinitas partículas do vidro.

Primeira árvore de Natal de que tenho notícia, mamãe pegou um galho dos muitos que haviam de árvores, arbustos e similares nos terrenos baldios próximos. Enrolou todo o galho e suas ramificações com algodão, branquinho.

– É para lembrar neve!

Tia Olinda, com o presente, levou minha mãe a comprar outros enfeites. Bolas, guirlandas, estrelas, tudo para enfeitar nossa primeira árvore natalina. Criou-se um hábito, mas… Havia o presépio da casa de D. Castorina, reproduzindo uma Belém artesanal, cheia de casas de barro, montes feitos de papelão, sob uma gruta imensa, iluminada com pequenas lâmpadas coloridas, destacando-se entre as estrelas, de papel laminado, a mais importante, orientadora dos magos quanto ao local de nascimento do Menino. Demorei, mas um dia tive o meu presépio.

Durante essa infância, cada vez mais distante, eram raros os Natais em nossa casa. Tínhamos o privilégio de viajar nos finais de ano. Natal a gente passava na casa da Tia Olinda, lá em Ribeirão, em memoráveis férias na nascente Vila Abranches, cheia de chácaras por todos os lados, com sua pracinha onde, às tardes, colocavam músicas para alegrar todos os moradores.

Éramos nove crianças! Mamãe Laura e minha tia Olinda saiam para a cidade (naquela época a Vila Abranches ficava longe de Ribeirão Preto!) e, entre outras coisas, compravam brinquedos que “Papai Noel” nos deixaria para fazer nossas manhãs cheias de brincadeiras com os presentes trazidos pelo bom velhinho. Antes da noite, escrevíamos cartões para os avós, os tios todos, o pai, a mãe… E toca esperar o carteiro pra ver de quem receberíamos uma mensagem.

Não tenho lembranças de comidas. Essas coisas que dizem ser tradição, hábitos de muitas famílias. Penso que as pessoas, crescendo, trocam a satisfação dos brinquedos, das árvores e dos presépios pela comilança, pela bebedeira. É o lado que menos aprecio. Aquele almoço cheio de coisas, levando todos para o sono pesado da tarde do dia 25. Eram bem melhores os dias em que, rapidamente, tomávamos as refeições e voltávamos a explorar as possibilidades dos novos brinquedos.

Frutas natalinas eram o “must” da noite de ano novo, quando já longe de Ribeirão Preto, íamos todos para a casa de minha avó materna, em Campinas. Nozes, avelãs, amêndoas, castanhas e figos secos portugueses. Também uvas passas! As mesmas uvas passas que, nos últimos tempos, gente chata fica enchendo a paciência alheia. – É só não comer! (aqui está omitido um belo palavrão em função do espírito natalino).

Em Campinas, na mesma casa ficavam todos os irmãos de mamãe, meus irmãos e todos os primos. Éramos todos vivos, felizes, e por estarmos assim, lamento hoje, não percebíamos que meus avós já não tinham seus pais, seus tios… Esses mesmos pais e tios que todos temos e que, hoje, não tenho mais. Propiciando-nos noites de Natal e Ano Novo, esforçando-se para nos darem o máximo, deixavam de lado suas lembranças tristes, suas perdas irreparáveis. E, penso, é assim que deve ser!

Ontem comecei a brincar de Natal. Tirei do armário as velhas caixas e fui inventar nova maneira de dispor as coisas. Não espero crianças em casa, mas vai que apareça alguma. Ou mesmo algum adulto. Quem sabe meu presépio não desperte lembranças boas, ou mesmo crie outras. Mas, na real, meu presépio é para nós, que estamos aqui, neste ano tão complicado e diferente.

É linda a lembrança do primeiro Natal, aquele de 2020 anos atrás, quando nasceu uma criança, o Deus feito menino. São lindas as lembranças de todos nós; isso, se nos atermos às primeiras visões de um brinquedo, uma árvore cheia de cacarecos, um presépio pra lá de estilizado, as pessoas todas juntas abrindo presentes, trocando afetos.

Talvez escreva sobre os presentes de Natal que ganhei na infância. Era época em que o consumismo não determinava excessos e ganhei poucos, mas inesquecíveis brinquedos. Talvez!

Neste ano, é lamentável que a pandemia nos impossibilite grandes encontros. Cabe aqui uma postura, uma decisão: Podemos ter noites de reclamações, ou podemos dar graças por estarmos vivos. E se as reuniões forem precárias, limitadas, temos lembranças para preenchê-las. E objetos que nos suscitam lembranças, como a minha caneca, dada pela minha tia Olinda, que morava em Ribeirão Preto, onde passávamos os natais, esperávamos Papai Noel…

Nesta quinta tem Trem das Lives!

Em função do segundo turno das eleições, no próximo domingo, o Trem das Lives fará sua 11ª viagem nesta quinta-feira, 21h!

Paulo Tadeu é o convidado da semana para um papo com Fernando Brengel.

Publicitário e escritor, Paulo Tadeu é dono da Matrix Editora. Além disso, acumula os microfones de A Grande Verdade, Rádio Energia 97 FM, e da banda Saco de Gatos, em que é vocalista.

Esperamos você para se divertir com essa transmissão, que promete boas risadas.

Todos estão convidados!

instagram.com/tremdaslives

Quinta, 21h00

Meu livro, minha arte: Os vencedores!

De Uberaba recebi, e divulgo com prazer, o resultado da quinta edição do Concurso de Contos “Meu livro, minha arte”, promovido pela Academia de Letras do Triangulo Mineiro.

Os vencedores em frente à sede da ALTM (Foto: divulgação)

Ato solene revestido de todos os cuidados e distanciamentos prescritos para a prevenção da COVID-19, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro – ALTM – entregou, em sua sede, os prêmios aos vencedores do Concurso de Contos. Os três primeiros colocados receberam prêmios em dinheiro a saber: 1º lugar-Júlia Cardoso e Silva(R$ 2.000,00), 2º lugar- Raul Borges Puertas (R$ 1.500,00) e 3º lugar- Rebeca Nobre Torres Macena(R$ 1.000,00). Outros cinco participantes receberam Menções Honrosas por terem também apresentado trabalhos de excelente qualidade literária.

Ressalta João Eurípedes Sabino, Presidente da Academia que o nível do certame não ficou a dever a nenhum outro do gênero, uma vez que apresentaram 167 concorrentes, alunos do 8º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio das escolas públicas e particulares de Uberaba. Esse é um alto índice para a modalidade da escrita, qual seja, conto literário.

A sede da ALTM em foto de arquivo pessoal.

Para Gilberto de Andrade Rezende, tesoureiro, acadêmico e membro da Comissão Julgadora também presente, os jovens participantes do Concurso têm um futuro promissor diante do pendor literário demonstrado em todos os trabalhos.

A ALTM irá publicar uma coletânea dos contos vencedores e apoiará os jovens escritores na materialização de seus projetos literários.O ato solene foi revestido de todos os cuidados e distanciamentos prescritos para a prevenção da COVID-19.

Parabéns aos vencedores e aos organizadores.

Um trio para A Sensitiva

Tempos bicudos de economia fragilizada, conseguir três clientes de uma só vez é bom demais, pensaria A Sensitiva da Vila Mariana. Só que não! São convidados, não clientes. Três convidados que dividirão comigo, Valdo Resende, e Fernando Brengel o Trem das Lives, excepcionalmente nesta quinta-feira, 21h, no instagram.com/tremdaslives.

Lançado no dia 16 de outubro, a coletânea de contos A Sensitiva da Vila Mariana tem uma história que começa há 12 anos, em 2008, quando o rapaz aí acima, Rafael Mendes, criou o Papolog, um site composto por blogs direcionados ao mercado musical. Empreendedor porreta, uniu-se a sócios e investidores no então nascente mercado virtual. É bom lembrar aqui que o Orkut – um dos fatores de popularização da rede – surgiu em 2004 e, no Brasil, o Facebook foi lançado em 2007.

Fui convidado e contratado como diretor de conteúdo do Papolog, atuando junto a uma equipe jovem, feita basicamente por “ratos de computador”, daqueles que manjam tudo dessa maquininha infernal. Eu, escrevia textos, sugeria temas, direcionava alguns outros. Em um site de blogs era óbvio ter o meu e, neste, surgiu Vanilda, a Tatuada, personagem que permeiam os contos do livro agora lançado.

Vanilda nasceu timidamente; uma personagem que me facilitou contar fatos, narrar histórias, dar notícias, divulgar shows e artistas. Cresceu de tal forma que ganhou vida própria . Volta e meia me inspirava em uma pessoa concreta – Vânia Maria Lourenço Sanches – para contar as loucuras da Vanilda que estavam na minha cabeça. Pra divulgar tudo isso foi fundamental a participação de Walcenis, a moça de verde aí da foto.

Walcenis Vinagreiro de Rezende foi minha principal incentivadora e divulgadora naquele momento. É minha irmã! E eu tenho a sorte de ter três irmãs, Waldênia e Walderez completam o trio, que valorizam e me dão força naquilo que faço. Circunstâncias dessas que popularmente a gente usa para dizer que “o universo conspira”, fizeram com que Walcenis assumisse o papel de divulgadora do meu trabalho (o Brengel, chic, diz que é “influencer”). Invariavelmente, os primeiros comentários vinham dela e, não satisfeita em comentar, imprimia – vou repetir – IMPRIMIA À CORES todos os meus posts, mostrando-os aos demais familiares, vizinhos, amigos. Isso em 2008, certo, sem whattsap. Tinha mensagens via orkut, as páginas, os depoimentos…

Vânia e Walcenis, com o tempo, assumiram pra si as personagens. Vânia comentava meus posts como se fosse a própria Vanilda e, Walcenis, brincava de ser Méri e também a Maria Aparecida. As duas protagonizaram embates enormes, outras pessoas entrando no meio, à favor de uma ou de outra, alimentando polêmicas divertidas, algumas surreais.

A terceira convidada desse Trem das Lives é nossa parceira Simone Gonzalez, toda sorridente aí acima, de vermelho. Simone foi chamada para acentuar, com suas análises, os aspectos literários em A Sensitiva da Vila Mariana. Ela já escreveu sobre o livro (leia clicando aqui), e agora vai abordar pontos específicos em papo com o Fernando Brengel.

Então é isso! Mais que isso, só no Trem das Lives. Todos estão convidados e eu, que estarei lá, já vou adiantar: Mesmo triste pela ausência de Vânia que, desta vez não poderá entrar na live, estou muito feliz e grato aos quatro amigos, Fernando, Simone, Rafael e Walcenis por esse encontro onde, como poderia ser dito pela Sensitiva, “tudo será revelado”.

Até lá!

Grande poder

Está nas nossas mãos,

No gesto de digitar alguns números

Acionar um teclado.

Olho para minhas envelhecidas mãos,

Sem o vigor e o viço de antes,

Com menos força física, mas com um poder imensurável.

Está nas nossas mãos,

Na minha mão!

Posso muito!

Escolher a inclusão dos necessitados

Dividir o que temos com equidade

Garantir nossa liberdade de ir, vir, crer!

Manter nossa Constituição

Reforçar a fé na ciência

Escancarar o potencial do artista

Somar com as forças constituídas…

Posso tudo!

Todos os meus direitos

Partindo de um dever básico:

Votar.

Esse texto é para lembrar

Da imensa força das nossas escolhas.

Nem branco, nem nulo!

Bora votar.

Ponto de honra, de Monahyr Campos

Nosso convidado do Trem das Lives, Monahyr Campos lançou recentemente, pela Editora Patuá, o livro de contos COLO. Conheça abaixo um dos textos da obra, Ponto de Honra. Neste conto Monahyr entra no universo de uma violência presente, ignorada por muitos, preocupação de outros, evidenciada e caracterizada em uma linguagem peculiar, aproximando o leitor do ambiente, cenário e modo de vida das personagens envolvidas.

O link para a aquisição do livro está no final do conto. O Trem das Lives, com Monahyr Campos será no próximo domingo, dia 8, 18h, no instagram.com/tremdaslives.

PONTO DE HONRA

Acordei de madrugada com o sistema nervoso, pregado na intuição: o Travoso, comandante da ala ia me pedir antes da visita, daqui a dois dias! Acabou que eu tava mordido, na fissura de ficar bicudaço, mas careta que tava, num parava num pensamento. Mil fita na cabeça, mil treta. Todo o falatório por causa de uma brizola miúda, mó merreca, e agora, os perdigão aprontando a bicuda e eu no fim do carretel.

Precisando dar um pino, precisando dar um pino, psôr. Tá ligado? Eu jurado só porque num entrei na fita e deu zica. Aí, do nada aparece uns passarinho e assopra meu nome. Aê, psor, o senhor tem que por um pano! O senhor tem deus no coração, num vai quebrar a perna!

Eu sentindo toda aquela aflição, sabia que tinha que me manter a uma distância segura. Por outro lado, como ignorar um pedido de alguém naquela condição?

Eu não posso entrar na frente, entende? Se der pra conversar, lógico que eu faço um corre, mas não dá pra garantir. Cê tá ligado que se eu firmar contigo, viro adubo na mesma lampiana que você. Quando eu for lá no xis eu dou a letra. Segura a onda, aí.

Dois anos e dois meses de trabalho aqui na penitenciária e já estou quase insensível a essas confusões. A princípio, era pra ser apenas seis meses de trabalho forçado, mas fui me meter a besta de dar minha contrapartida social, de fazer a minha parte. Agora sou refém de mim mesmo, dentro de um episódio do Hannibal, visto com desconfiança pelos presos; com desdém pelos funcionários; como louco por meus colegas de profissão; e nunca mais fui visto de forma nenhuma por minha mulher, nem meu filho… A mulher é ex, mas o filho é pra sempre.

No começo eu ficava desesperado, achava que tinha obrigação de ajudar esses coitados. Só aos poucos fui me dando conta de que, se bobear, muitos deles nem sabem o que é esse sentimento de empatia – apelam por minha intersecção justamente por saberem que eu prezo por meu sentimento de humanidade, que eu os vejo a todos como meus iguais, mas eles sabem porque estão aqui – eu não.

Hoje é o Carqueja. Semana passada, foi o coitado do Apendicite. Antes, o Buti. Teve também o caso do Timba, do Sprite. A lista é infinita… Tudo história mal contada, diz-que-me-disse; um, porque dizem que talaricou a feinha do outro; aquele porque era jacaré… Pessoas com problemas seríssimos em lidar com autoridade e, de repente, condenadas a viver sob um regramento extremamente rígido.

Aqui a vida é no limite o tempo todo. É no limiar do julgamento que o mais forte organiza a convivência, verbalizando as regras, que são invariavelmente aceitas por consenso. Não faria sentido questionar qualquer lei, simplesmente porque cada norma num ambiente primitivo é a consagração de um modo de viver, é sempre ponto de honra!

As paralelas encontram-se no infinito. Na teoria funciona muito bem essa afirmação, mas aqui, vivo diariamente a experiência de estar numa realidade paralela, beirando o absurdo pelo lado de dentro. Qual a vantagem de poder sair, se a sensação de desconforto levo comigo: a minha e a deles? “Aqui a vida é no limite o tempo todo”. O refrão do MC Louva-a-Deus não me dá descanso, vinte e quatro horas por dia martelando a britadeira nos neurônios.

Lembro de ter lido, há um bom tempo, num livro bastante badalado, que para se constatar se uma pessoa está viva, o meio mais fácil é colocar um espelho em suas narinas e observar: enquanto estiver respirando, a superfície ficará embaçada, sempre. Se a imagem refletida permanecer límpida, é porque não há mais vida. Sabedoria dos antigos que eu tive que aprender nos livros.

Feliz de quem vive “pregado na intuição”, como diria o Carqueja, mas eu, preciso de livros pra aprender até o que a vida ensina. E eu sei que estou vivo, eu existo, porque em minha vida, sempre vejo tudo embaçado. Visão límpida, só quando a gente encara a morte de perto, no susto, no choque! Quando a pancada te arranca do confortável e te empurra pro precipício, você enxerga longe, o fundo do poço fica cristalino, mesmo se a água for turva.

E eu sobrevivendo neste inferno, como se existir me bastasse, como se a satisfação fosse duradoura cada vez que tenho notícias de algum ex-interno recuperado. Como se a gratidão fosse uma qualidade que se possa esperar de quem teve sua humanidade arrancada junto com a placenta, como se…

  • Tá morgando, fessor?! O senhor é o maior responsa, mas num dá brecha. O Carqueja vai cair e é hoje! O presidente já deu a letra, aqui mancoso num tem vez. O senhor num sabe de nada, né não? Fica pianinho que a gente dá a letra quando for chacoalhar o colégio. Lembra quando o ganso falou pro senhor faltar? Ninguém avisou o otário do nervosinho… agora ele tá o maior groselha.

Eles me avisaram quando teve rebelião. Simplesmente faltei. O Alemão não teve a mesma sorte, agora não é nem de longe o arrogante de tempos atrás. Tiraram toda a petulância dele aos berros. Passou mais de duas horas, pendurado, de ponta-cabeça, no telhado do presídio, sendo ameaçado, correndo o risco de escapar das mãos daquela gente ensandecida, completamente animalizada.

Infelizmente o Carqueja vai ser triturado. Perdeu.

A cada vez que tentava dormir, me vinha a imagem daqueles olhos estatelados feito jaca madura, caindo no terreno baldio de minha insônia, me pedindo socorro. Coitado. Eu era sua derradeira esperança. Eu, de mãos completamente imobilizadas, totalmente impotente. Disposto a resgatar algumas individualidades através do conhecimento, percebi que nem mesmo o meu melhor, nem minha dedicação ao máximo grau pode interferir na dinâmica daquele lugar.

Qualquer texto, poema ou discurso que lhes apresento, sempre vai transitar na possibilidade de se tornar uma extrema unção. “Pra morrer, basta estar vivo”, nunca minha mãe teve tanta razão! E quem me garante que a qualquer hora, não vai aparecer um “passarinho” para assoprar o meu nome?

MONAHYR CAMPOS

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