Grande poder

Está nas nossas mãos,

No gesto de digitar alguns números

Acionar um teclado.

Olho para minhas envelhecidas mãos,

Sem o vigor e o viço de antes,

Com menos força física, mas com um poder imensurável.

Está nas nossas mãos,

Na minha mão!

Posso muito!

Escolher a inclusão dos necessitados

Dividir o que temos com equidade

Garantir nossa liberdade de ir, vir, crer!

Manter nossa Constituição

Reforçar a fé na ciência

Escancarar o potencial do artista

Somar com as forças constituídas…

Posso tudo!

Todos os meus direitos

Partindo de um dever básico:

Votar.

Esse texto é para lembrar

Da imensa força das nossas escolhas.

Nem branco, nem nulo!

Bora votar.

Ponto de honra, de Monahyr Campos

Nosso convidado do Trem das Lives, Monahyr Campos lançou recentemente, pela Editora Patuá, o livro de contos COLO. Conheça abaixo um dos textos da obra, Ponto de Honra. Neste conto Monahyr entra no universo de uma violência presente, ignorada por muitos, preocupação de outros, evidenciada e caracterizada em uma linguagem peculiar, aproximando o leitor do ambiente, cenário e modo de vida das personagens envolvidas.

O link para a aquisição do livro está no final do conto. O Trem das Lives, com Monahyr Campos será no próximo domingo, dia 8, 18h, no instagram.com/tremdaslives.

PONTO DE HONRA

Acordei de madrugada com o sistema nervoso, pregado na intuição: o Travoso, comandante da ala ia me pedir antes da visita, daqui a dois dias! Acabou que eu tava mordido, na fissura de ficar bicudaço, mas careta que tava, num parava num pensamento. Mil fita na cabeça, mil treta. Todo o falatório por causa de uma brizola miúda, mó merreca, e agora, os perdigão aprontando a bicuda e eu no fim do carretel.

Precisando dar um pino, precisando dar um pino, psôr. Tá ligado? Eu jurado só porque num entrei na fita e deu zica. Aí, do nada aparece uns passarinho e assopra meu nome. Aê, psor, o senhor tem que por um pano! O senhor tem deus no coração, num vai quebrar a perna!

Eu sentindo toda aquela aflição, sabia que tinha que me manter a uma distância segura. Por outro lado, como ignorar um pedido de alguém naquela condição?

Eu não posso entrar na frente, entende? Se der pra conversar, lógico que eu faço um corre, mas não dá pra garantir. Cê tá ligado que se eu firmar contigo, viro adubo na mesma lampiana que você. Quando eu for lá no xis eu dou a letra. Segura a onda, aí.

Dois anos e dois meses de trabalho aqui na penitenciária e já estou quase insensível a essas confusões. A princípio, era pra ser apenas seis meses de trabalho forçado, mas fui me meter a besta de dar minha contrapartida social, de fazer a minha parte. Agora sou refém de mim mesmo, dentro de um episódio do Hannibal, visto com desconfiança pelos presos; com desdém pelos funcionários; como louco por meus colegas de profissão; e nunca mais fui visto de forma nenhuma por minha mulher, nem meu filho… A mulher é ex, mas o filho é pra sempre.

No começo eu ficava desesperado, achava que tinha obrigação de ajudar esses coitados. Só aos poucos fui me dando conta de que, se bobear, muitos deles nem sabem o que é esse sentimento de empatia – apelam por minha intersecção justamente por saberem que eu prezo por meu sentimento de humanidade, que eu os vejo a todos como meus iguais, mas eles sabem porque estão aqui – eu não.

Hoje é o Carqueja. Semana passada, foi o coitado do Apendicite. Antes, o Buti. Teve também o caso do Timba, do Sprite. A lista é infinita… Tudo história mal contada, diz-que-me-disse; um, porque dizem que talaricou a feinha do outro; aquele porque era jacaré… Pessoas com problemas seríssimos em lidar com autoridade e, de repente, condenadas a viver sob um regramento extremamente rígido.

Aqui a vida é no limite o tempo todo. É no limiar do julgamento que o mais forte organiza a convivência, verbalizando as regras, que são invariavelmente aceitas por consenso. Não faria sentido questionar qualquer lei, simplesmente porque cada norma num ambiente primitivo é a consagração de um modo de viver, é sempre ponto de honra!

As paralelas encontram-se no infinito. Na teoria funciona muito bem essa afirmação, mas aqui, vivo diariamente a experiência de estar numa realidade paralela, beirando o absurdo pelo lado de dentro. Qual a vantagem de poder sair, se a sensação de desconforto levo comigo: a minha e a deles? “Aqui a vida é no limite o tempo todo”. O refrão do MC Louva-a-Deus não me dá descanso, vinte e quatro horas por dia martelando a britadeira nos neurônios.

Lembro de ter lido, há um bom tempo, num livro bastante badalado, que para se constatar se uma pessoa está viva, o meio mais fácil é colocar um espelho em suas narinas e observar: enquanto estiver respirando, a superfície ficará embaçada, sempre. Se a imagem refletida permanecer límpida, é porque não há mais vida. Sabedoria dos antigos que eu tive que aprender nos livros.

Feliz de quem vive “pregado na intuição”, como diria o Carqueja, mas eu, preciso de livros pra aprender até o que a vida ensina. E eu sei que estou vivo, eu existo, porque em minha vida, sempre vejo tudo embaçado. Visão límpida, só quando a gente encara a morte de perto, no susto, no choque! Quando a pancada te arranca do confortável e te empurra pro precipício, você enxerga longe, o fundo do poço fica cristalino, mesmo se a água for turva.

E eu sobrevivendo neste inferno, como se existir me bastasse, como se a satisfação fosse duradoura cada vez que tenho notícias de algum ex-interno recuperado. Como se a gratidão fosse uma qualidade que se possa esperar de quem teve sua humanidade arrancada junto com a placenta, como se…

  • Tá morgando, fessor?! O senhor é o maior responsa, mas num dá brecha. O Carqueja vai cair e é hoje! O presidente já deu a letra, aqui mancoso num tem vez. O senhor num sabe de nada, né não? Fica pianinho que a gente dá a letra quando for chacoalhar o colégio. Lembra quando o ganso falou pro senhor faltar? Ninguém avisou o otário do nervosinho… agora ele tá o maior groselha.

Eles me avisaram quando teve rebelião. Simplesmente faltei. O Alemão não teve a mesma sorte, agora não é nem de longe o arrogante de tempos atrás. Tiraram toda a petulância dele aos berros. Passou mais de duas horas, pendurado, de ponta-cabeça, no telhado do presídio, sendo ameaçado, correndo o risco de escapar das mãos daquela gente ensandecida, completamente animalizada.

Infelizmente o Carqueja vai ser triturado. Perdeu.

A cada vez que tentava dormir, me vinha a imagem daqueles olhos estatelados feito jaca madura, caindo no terreno baldio de minha insônia, me pedindo socorro. Coitado. Eu era sua derradeira esperança. Eu, de mãos completamente imobilizadas, totalmente impotente. Disposto a resgatar algumas individualidades através do conhecimento, percebi que nem mesmo o meu melhor, nem minha dedicação ao máximo grau pode interferir na dinâmica daquele lugar.

Qualquer texto, poema ou discurso que lhes apresento, sempre vai transitar na possibilidade de se tornar uma extrema unção. “Pra morrer, basta estar vivo”, nunca minha mãe teve tanta razão! E quem me garante que a qualquer hora, não vai aparecer um “passarinho” para assoprar o meu nome?

MONAHYR CAMPOS

PARA ADQUIRIR “COLO acesse aqui o site da editora.

Monahyr Campos no Trem das Lives

Mestre em Linguística, professor e compositor. Monahyr Campos é criativo e combativo. Coloca seus múltiplos talentos a serviço de preservar a cultura negra, da luta contra o racismo, para fazer desse um mundo mais harmônico, humano e bonito.

Escritor, é autor de Negros e Alvos – A exceção não pode servir para exemplo, publicado pela Ed. Giostri; e Colo – Contos e Novelas, em 2020, pela editora Patuá (SOBRE ESTE LANÇAMENTO LEIA AQUI).

Nesse domingo, dia 8, Monahyr dividirá conosco um pouco da sua carreira e das suas lutas. O encontro será às 18h no Instagram.com/tremdaslives.

Não perca!

“High Hitler”, de Norman Ohler

Conhecer história! E evitar a repetição de determinadas situações. “High Hitler”, de Norman Ohler, é um livro fundamental para refletir sobre os dias em que vivemos. O subtítulo na tradução brasileira, trabalho de Silvia Bittencourt, é instigante: Como o uso de drogas pelo Führer e pelos nazistas ditou o ritmo do Terceiro Reich.

O melhor jornalismo é o investigativo, que pode partir de um dado aparentemente aleatório. Segundo consta, um amigo contou a Norman Ohler que Hitler e seus comandados usavam drogas. Ponto de partida para a pesquisa que resultou no livro que narra a dependência do führer, que consumiu 74 drogas diferentes. O autor também revela documentos que mostram que os soldados alemães recebiam doses de estimulantes em ações que resultaram nas invasões da Polônia e da França.

Silvia Bittencourt, a escritora e jornalista convidada do próximo Trem das Lives, mora na Alemanha. Investigou e publicou “A Cozinha Venenosa”, livro a respeito do “Münchener Post”, jornal de resistência ao nazismo. Assina a tradução de “High Hitler” com o respaldo de quem domina o tema e a forma, o livro reportagem.

O Trem das Lives desse próximo domingo, dia 1, será mais cedo, às 17:00. Um momento para, via bom papo, refletir sobre esses dois livros que abordam temas consideráveis para nosso presente. Temos indivíduos no poder com posturas que lembram o infeliz líder alemão, assim como precisamos valorizar a imprensa que, tal como o “Münchener Post”, denuncia as irregularidades de nossos governantes.

Serviço:

Trem das Lives com Silvia Bittencourt e Fernando Brengel.

Domingo, 01/11, 17h

instagram.com/tremdaslives

A cozinha venenosa: um jornal contra Hitler

Silvia Bittencourt, nossa convidada do próximo domingo no Trem das Lives, é a autora do livro que destacamos neste post. O texto é do catálogo da editora Três Estrelas:

A cozinha venenosa é a história da corajosa guerra de um pequeno jornal de Munique contra Hitler.

Durante mais de dez anos, o Münchener Post empreendeu uma batalha sem tréguas contra o líder nazista e seus fanáticos, denunciando os perigos de sua ideologia, noticiando seus crimes e alertando, já em 1932, sobre a monstruosa “solução final” que eles reservavam aos judeus.

Os combates não se limitaram às páginas do jornal e aos tribunais. Os nazistas chegaram a atacar os redatores nas ruas e depredaram duas vezes a redação do Post, a última delas em 1933, quando Hitler chegou ao poder e ordenou a destruição total do detestado diário.

A cozinha venenosa é o primeiro livro inteiramente dedicado à história ainda pouco conhecida do Post. A jornalista brasileira Silvia Bittencourt – radicada na Alemanha – reconstitui, a partir de cuidadosa pesquisa e por meio de uma emocionante narrativa, todos os momentos de uma das lutas mais importantes de resistência ao nazismo antes da Segunda Guerra e uma das mais audaciosas campanhas da imprensa no século XX.

Confira um trecho do livro acessando AQUI!

Silvia Bittencourt

Silvia Bittencourt (1965) é jornalista. Entre 1985 e 1990, foi coordenadora de artigos, repórter e correspondente da Folha de S. Paulo em Frankfurt. Vive desde 1991 na Alemanha, onde trabalhou, nos primeiros anos, para a Deutsche Welle e a Rádio França Internacional. Atualmente, é colaboradora da Folha, tradutora e docente do Laboratório de Línguas da Universidade de Heidelberg.

Silvia Bittencourt no Trem das lives

Direto da Alemanha, onde reside e trabalha, Silvia Bittencourt divide conosco sua vasta experiência no jornalismo.

Além disso, fala da sua obra “A Cozinha Venenosa”, a respeito do Münchener Post, jornal de resistência ao nazismo. E da tradução para o português de “Heigh Hitler”, sucesso internacional.

É nesse domingo, 01.11, em horário especial: 17h00. Página do Instagram. com/tremdaslives. Agende-se.

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Liberdade

Pra hoje, um poema de Fernando Pessoa:

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…