Papai faz cem anos!

Mineiro daqueles que falam muito pouco, em seus últimos anos entre nós, em todo 20 de fevereiro papai permanecia ao lado do telefone. Valdonei ligava, eu também. Ele nos ouvia e passava o telefone adiante: Sua mãe quer falar com você. Ficava na dele, aguardando as filhas e os netos que no final da tarde estariam por lá, comemorando no “cantinho do fuxico”, conversando sem parar enquanto ele, já com o radinho de pilha em mãos, punha-se a ouvir modas caipiras.

Não fosse minha irmã Walcenis, eu não me daria conta dos cem anos que meu pai faria nesse recente 20 de fevereiro. Cem anos! Desses, papai viveu mais de oito décadas entre nós e certamente, se tivesse que destacar fatos marcantes ocorridos desde 1924, ele não se esqueceria do rádio. Papai cresceu junto com o rádio. Viu o apogeu da Rádio Nacional e acompanhou os fatos mais importantes durante sua juventude ouvindo as caixas enormes, depois, já adulto, os pequeninos radinhos a pilha.

Certamente vieram pelo rádio as notícias da Segunda Grande Guerra, iniciada quando meu pai estava com 15 anos. O que teria pensado o jovem sertanejo vivendo no pedaço de terra dos pais, lá em Araguari, nas Minas Gerais? Mais, ainda, por que deveria ele pegar em armas e ir para a Europa participar de uma contenda que, provavelmente, não tinha certeza nem mesmo de como começou?

Também foi pelo rádio que papai ouviu as vitórias da Seleção Brasileira. O Brasil campeão mundial de futebol em 1958, Bi em 1962. A televisão era uma geringonça cheia de chuviscos, muito distante do cinema. Então, o negócio era ouvir os jogos pelo rádio e, eventualmente, ver as imagens pelo cinema. Não que papai tivesse hábito de ir ao cinema; a única história que me ocorre era que, em tempos de quaresma, no parque de diversões onde trabalhava projetavam cotidianamente uma “fita”: A Paixão de Cristo. Minha irmã Waldênia, já em idade de ficar sentadinha vendo o filme, ficava indignada com aquele sujeito que vinha todo o dia para a cidade onde acabava apanhando muito.

Um Parque de Diversões entrou na nossa família em fatos que os detalhes se foram com os personagens, todos já falecidos. O certo é que um irmão mais velho de Papai, Tio João, se encantou com uma bela senhora e caiu no mundo com o Parque de Diversões onde a dita cuja trabalhava, deixando a tranquilidade da fazenda em Araguari para conhecer as praças do país. Lá pelas tantas, meu pai decidiu acompanhar o irmão.

Espírito livre, papai não devia curtir os limites da fazenda e da vida no campo. Não gostou também das imposições dos padres, tendo estudado em um seminário, coisa comum aos meninos de então. Em 1945 foi convocado para a II Grande Guerra. Estava com 21 anos e com boa sorte, já que aquele ano também foi o fim do conflito armado. Em seguida papai trabalhou por um tempo na Companhia Goiás de Estradas de Ferro e, até onde guardo as histórias todas, de lá saiu indo trabalhar com o irmão no parque de diversões.

Há notícias de Lorena, no Vale do Paraíba, onde minha mãe, Laura, foi aprender com o marido coisas que o pai não permitia. Subir em árvores, andar de bicicleta, atirar com arma de fogo. No tal parque papai cuidada de um stand de tiro ao alvo. Tiros de chumbo e de rolha, em busca do praticante contar vantagens e ganhar pequenos brindes. Houve uma passagem por Ribeirão Preto, já fora do parque e veio a decisão de morar em Uberaba.

Fiz as contas (nunca fui bom em matemática!): Papai chegou em Uberaba com 31 anos e cinco filhos. O quinto, euzinho, na barriga de minha mãe, nascendo em junho de 1955. O sexto, Wander, veio anos depois. Além da filharada, trouxe na bagagem uma barraca e as espingardas, desde então participando de festas e quermesses da cidade com a barraca de tiro ao alvo do Bino. Atividade insuficiente pra manter todo mundo, Papai montou uma oficina no quintal. Conhecimento adquirido na infância e nas oficinas da estrada de ferro, passou a fabricar ferraduras – colocando-as nos animais – portões, dobradiças e outras peças sob demanda.

Papai não gostava de patrões. Deu um duro danado para não se submeter a terceiros. Criativo, aproveitou o espaço do quintal e a oficina para criar seu próprio parque. Uma por uma foram criadas as barracas, a maioria delas pintadas pacientemente pela minha irmã caçula, Walderez. Na medida em que o quintal ficou pequeno com os brinquedos todos, papai utilizou o pátio da Paróquia de Nossa Senhora das Graças para a montagem final, em acordo com o vigário de então, Padre Nicola Ruggi. O homem já tinha pisado na lua quando o parque foi inaugurado em uma quermesse paroquial. De lá meu pai saiu para percorrer todos os bairros da cidade, todas as cidades da região.

O parquinho fez meu pai conhecido em Uberaba. Pessoalmente, já morando fora, eu adorava descer de um ônibus na rodoviária, entrar em um taxi e pedir: me leva pra casa do Bino! Todos conheciam meu pai e a maioria foi gente amiga. Isto não implica ter sido ele obrigado a defender seu negócio, muitas vezes com os próprios braços, de arruaceiros e ladrões. Invariavelmente, quando ocorria algo do gênero, ele chegava em casa e, mesmo sendo altas horas, chamava todos os filhos e contava detalhadamente o ocorrido. Se o caso fosse engraçado, via-se lágrimas, pois meu pai era daqueles que chorava de tanto rir.

A parte do século vivida por meu pai nesse plano terreno ocorreu muita coisa. E o menino que nasceu na pequena Estrela do Sul, no Triangulo Mineiro, certamente não pensava em coisas como televisão ou mudança de capital. Papai gostava de Juscelino Kubitschek. Quando estava bem vestido se comparava ao líder político. Quanto aos demais políticos, tratava-os como mineiro, raposa que sorria para todos e raramente revelava o próprio voto.

Aos poucos papai foi mudando. Os filhos crescendo, os primeiros netos aparecendo, ele deixou a oficina pelo parque. Do fundo do quintal só surgia, sem que jamais soubéssemos de onde, forquilhas, borrachas e elásticos para papai fazer e premiar crianças visitantes com estilingues. Quieto, silencioso, a certeza de que ele gostara da criança estava naquele ato: fazer e presentear o brinquedo. Aos mais velhos, amigos meus e de meus irmãos, aparentemente sisudo, em pouco atribuía um apelido. Em dado momento, quando minha irmã apresentou o namorado, papai indagou sério: outro? E saia rindo, deixando que explicassem o jeito de ele ser.

Outras mudanças no século, a televisão acabando com os pequenos circos e parques, e papai vendeu o Parque Boa Vista, ficando apenas a barraca em ponto fixo, no Bairro da Abadia, da santa predileta do meu pai. Quando a procissão da Abadia, vindo do município de Água Suja passava por nossa rua papai era um dos que enfeitavam com arcos de bambu e bandeirolas, além de soltar fogos durante a passagem da santa, protetora do seu trabalho. E foi perto dela que trabalhou, até se aposentar.

Uma cachaça com os amigos, muita música no radinho de pilha e silêncio. Papai observava o mundo aos setenta, oitenta anos. Via noticiários, assistia ao futebol, mas creio que era difícil para ele acompanhar todas as mudanças que a virada do século estava impondo aos mais velhos. Os filhos formados, indo mais longe do que ele fora, as mulheres mais livres, assumindo o mercado de trabalho, a internet chegando e tornando tudo mais rápido, mais urgente. Às vezes rugia, lembrando o homem que usava os próprios braços, sempre armados para defender a família. Na maioria do tempo ficava quieto, sem nunca deixar de fazer peraltices, como prender um chapéu de palha na ponta de um bambu para colher frutas do quintal do vizinho ou, quando a cozinha vazia, invadir a geladeira para obter generosas porções de doce de leite. Após ser pego, ria. E no dia seguinte, mesmo tendo tomado a sobremesa, dizia para a Walcenis com a maior cara de pau:  Sua mãe não me deu doce!

Papai lutou pela vida à maneira dele. Nos aniversários dizia sempre, consegui mais um ano! Quando a doença chegou, lutou bravamente, incluindo nessa uma fuga do hospital, pois queria ir para casa. Viu a morte de Chico Xavier, em 2002, junto com a festa brasileira por mais uma Copa do Mundo. Um médico amigo conversava regularmente com ele sobre a doutrina espírita, que ele vira crescer em Uberaba, desde os tempos de trabalho conjunto de Waldo Vieira e Chico Xavier. Provavelmente essas conversas ajudaram-no em sua passagem, deixando com minha mãe o desejo de ter o velório feito na varanda, onde a família gostava de se reunir, com os portões abertos, para um adeus aos amigos.

Papai faleceu em 2005. Faria 100 anos em 2024. Tanta coisa tem acontecido nesse mundo. Desses 19 anos passados de sua morte, papai esteve e se mantém presente em nossas vidas, em nossos corações. E na vida de outros, amigos, conhecidos e, provável, seu nome anda até na boca de quem não sabe quem ele foi. Papai é nome de rua! Saber haver uma Rua Felisbino Francisco de Resende, o Bino, deve tê-lo feito feliz, honrado com as homenagens. Um momento em que, com certeza, ele deve ter sorrido e estufado o peito para dizer com a maior tranquilidade: Que nem o Juscelino Kubitschek!

Feliz centenário, Papai!

Vavá e o copo campeoníssimo

O que permanece na lembrança quando se tem três anos de idade? Será que a história fixada na nossa mente é real ou alimento oriundo de conversas alheias, registros diversos, ou de acontecimentos similares posteriores. O certo, certíssimo, é que em 1958 eu completei três anos.

Quando o Brasil começou a trajetória rumo à primeira Copa do Mundo, ganhando de 3 x 0 da Áustria no dia 08 de junho, ainda faltavam dez dias pra que eu completasse meus três aninhos. O fato é que essa data lembra um hábito lá em casa, meu pai indo para o quintal soltar fogos à cada gol brasileiro. Sem foguetório no dia 11/06, quando o Brasil empatou com a Inglaterra e duas sessões de estrondos no quintal pelos 2 x 0 contra a União Soviética no jogo seguinte, dia 15.

Para uma criança prestes a completar três anos deveria ser, no mínimo, uma situação intrigante. “Onde vim parar?”, pensaria o pequerrucho vendo um monte de gente aboletada em volta de uma caixa, de onde saia a voz de um sujeito falando “feito louco, alucinado e criança” e, num dado momento, todos berrando “gol” e o chefe da casa correndo para o quintal e, junto à vizinhança, enchendo o céu de estrondos festivos.

Será que festejaram meu aniversário em 18 de junho de 1958? Ou deixaram de lado, já que dia seguinte, o Brasil jogaria com o País de Gales? E ganhou, de 1 x 0 como ganhou em seguida os dois últimos jogos, fazendo 5 gols na França e outros 5 na Suécia. Que fartura! Bom lembrar que fazíamos 5 gols nos adversários.

Daquela Copa na minha vida permaneceu um copo! De todos os cacarecos de ocasião para consumo de torcedores, herdei um copo autêntico, virgem – relíquia que veio a ser – desde quando o Brasil se sagrou Campeão Mundial de Futebol. Não recordo bulhufas sobre quem adquiriu, quem era o verdadeiro dono, quanto custou, onde foi comprado. Estava entre os objetos pertencente aos meus avós, Maria e José, e tendo o Vavá no “plantel canarinho”, pedi e recebi como herança.

Provavelmente minhas recordações da Copa do Mundo sejam mais as de 1962, quando euzinho completei 7 anos e ganhei de véspera o Bicampeonato, no Chile. Véspera, pois o jogo final foi no dia 17 de Junho! (lembra, faço no dia 18!). O Brasil fez três gols na Tchecoslováquia. O primeiro gol do Amarildo, o segundo do Zito e o terceiro foi de quem? De quem? Do Vavá! Viva o Vavá!

Dessa segunda Copa guardei e alimento carinho por Garrincha, Amarildo, Vavá e o fabuloso Gilmar! Já escrevi por aí que foram os primeiros jogos que vi pela televisão. Um vizinho colocava um aparelho na porta do bar e no começo da noite a vizinhança corria para ver a exibição dos jogos. Na minha cabeça de menino, sem qualquer informação sobre os recursos de repetição, achava que o Brasil jogava duas vezes no mesmo dia. E, melhor, ganhava nos dois jogos! Naquela tela cheia de chuviscos, a figura de Gilmar se sobressaia e eu aprendi a amar os dribles de Garrincha.

Meu copo amarelinho guarda lembranças dos melhores anos da minha infância. Aos quinze anos, novamente na véspera do meu aniversário, vi com olhar adolescente o Brasil vencer a Itália obtendo o tricampeonato de 1970. Havia o burburinho de coisas acontecendo no país do “ame-o ou deixe-o” que não couberam no meu copo. Assim como foi com outro olhar, mesmo sem conter a alegria, que vi o país vencer em 1994 e em 2002. Outros tempos, outros esquemas muito distantes dos dois primeiros campeonatos.

Olhando para o copo, escolhendo melhores imagens para compartilhá-lo com quem me honra lendo esse blog, sinto-me obrigado a encarar o tempo, a vida: No quesito esporte sempre fui um perna de pau, como dizem daqueles que não jogam bem o futebol. E, para ser honesto, quando criança ninguém lá em casa me chamava por Vavá. Era Cido, Cidinho e, por ser um ranzinza precoce ganhei o apelido de Jiló.

Selma da Matta, uma querida amiga, foi a primeira a me fazer gostar de ser chamado de Vavá. Tinha resistência ao apelido, provavelmente por não me ver como o Vavá da nossa seleção. Fiz as pazes com o apelido já adulto. Já sabia então o motivo de, ao dizer meu nome, perguntarem se eu me chamava Edvaldo. Era por conta do Vavá, Edvaldo Izídio Neto. Marcou cinco gols em 1958 e mais quatro em 1962. Bicampeão! O Leão da Copa, como foi chamado, está entre poucos que marcaram gols em final de Copa do Mundo. Ah, e também jogou no Palmeiras, onde deixou a lembrança de 71 gols!  

Morando atualmente em Santos, estou bem perto do Canal 5 e volta e meia passo pela estátua em homenagem ao Pelé. Infelizmente, o primeiro grande evento que presenciei na cidade foi o cortejo para o enterro do Rei do Futebol.  Momento somado aos primeiros, simbolicamente registrados no interior do meu copo canarinho.  Um copo que, “sorry, brothers!”, cacareco, bugiganga ou relíquia histórica não vendo, não troco, não dou. É meu, bem guardadinho esperando ver, antes que a morte nos separe, o Brasil ser hexa, hepta, octo…

Até mais!

Obs. Este post é parte dois da série “Cacarecos, badulaques e bugigangas”, que teve início com o post “Pote de Lobisomem e um pouco mais”.

A panacota e a perereca

O que ele aprendeu desde muito cedo é que não é fácil entender algumas mulheres. Irmãs, primas, amigas, colegas, cada uma tinha um jeito de ser e, vez em quando, mudanças de humor que ele demorou para compreender. Nunca sabia ao certo o que elas queriam! O certo é que, tímido, buscou “ficar na sua”, como dizem por aí. Essa postura acabou por torná-lo um garoto solitário, adolescente taciturno e fechado. Sem turminha da rua, da escola, do trabalho.

Foi uma vizinha que descobriu o potencial do jovem sempre fechado, mas aberto ao amor e ao sexo, não necessariamente nessa ordem. Distante em reuniões, era após as refeições, ou durante festinhas que Afrânio se entusiasmava com doces e sobremesas. Numa dessas ocasiões, quando já adepto de natação e de longas corridas matinais, as coxas do rapaz chamaram a atenção da vizinha já adulta e fogosa. Entre as pernas grossas do moço havia sugestão de algo a mais e a vizinha, vendo o entusiasmo dele por doces durante um aniversário, se aproximou decidida: “Você gosta de panacota, Afrânio? Tenho uma deliciosa” E piscou apenas com o olhar esquerdo.

Falsa loira de cabeleira farta e seios volumosos, Afrânio não entendeu a busca de intimidade e isolamento contida no convite da vizinha Marlene que, rápida no gatilho, percebeu a virgindade do moço no olhar, no gaguejar e em uma inequívoca ereção quando sentiu o braço dela roçando-lhe as pernas. Ela resolveu insistir: Minha panacota é doce, suave, boa de ser comida va-ga-ro-sa-men-te! Antes da última sílaba piscou novamente o olho, abrindo um sorriso que mesmo o virgem Afrânio entendeu. Marlene marcou a tarde do dia seguinte para que ele experimentasse a iguaria.

Ao voltar desse primeiro encontro, já proprietário da panacota da vizinha, um alegre e viril Afrânio foi procurar em livros, revistas e dicionários o significado de panacota. Devia ser uma novidade no universo do sexo, já que não encontrou o doce entre as múltiplas denominações para a vagina. Ele, de cara, preferiu panacota à xoxota. Sem nenhum texto, nenhuma referência à iguaria que acabara de experimentar, entendeu o motivo de Marlene ter sido enfática ao murmurar em seu ouvido: “Minha panacota é única e você jamais irá esquecê-la”.

Décadas passadas, Afrânio já é homem solitário, divorciado e sem filhos. Mantém-se distante das redes sociais e só busca a internet quando muito necessário. Continua nadando, correndo nos finais de semana e, vez ou outra frequenta um conhecido bar onde, eventualmente, conhece mulheres como ele, dispostas à encontros intensos, mas sem maiores envolvimentos. O amante ideal para interessadas em momentos furtivos. Homens como ele não contam vantagens em grupos de amigos, tornando-se até mesmo indiscretos e, por isso, dispensáveis.

Analista de dados, sempre fechado às voltas com documentos, arquivos, contas, riscos, processos, foi durante um almoço comum de quarta-feira, na fila do caixa do restaurante que Afrânio ouviu uma confidência entre duas moças, uma morena espetacular, dizendo para a amiga: “Hoje vou experimentar minha perereca de dentes!”

Ele percebeu no primeiro minuto a semelhança entre a moça ali, bem perto de si, e Marlene, a antiga vizinha dona da inesquecível panacota. Afrânio sentiu-se novamente menino, sem conter a incômoda e inesperada ereção bem ali, na fila do caixa, imaginando como seria uma perereca de dentes. Consultou o próprio relógio e viu que ainda dava tempo para uma tentativa de aproximação. Pediu licença, se apresentou e convidou as duas para um café ali, agora. “Para que esperar?”. Sua postura evidenciou interesse inequívoco em Tereza. A amiga se foi deixando que os dois se conhecessem.

Afrânio foi direto. Estava diante de uma mulher bonita, interessante e, esperava, livre! Ela confirmou estar só. Ele continuou: Ela era por demais interessante, fizera-o voltar no tempo, nas primeiras paixões e gostaria muito de poder intensificar esse encontro e ir além. Tereza ficou assustada com a pressa, o repentino interesse de um cara que nunca havia visto. Refreou as intenções do homem com firmeza e foi direta ao ponto: “Somos adultos, Afrânio. Vá devagar e diga exatamente o que você quer de mim!” E ele, sem a menor possibilidade de conseguir se conter murmurou, cheio de tesão: “Eu quero a sua perereca de dentes!”.

O café parou para observar a gargalhada imensa da mulher. Quando conseguiu refrear o riso, Tereza desancou com Afrânio: “Já vi muita tara, por aí, meu caro! Como escreveu Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, mas tudo tem medida!”. O homem sabia que havia feito algo errado. Lembrou-se da infância, da dificuldade em entender algumas mulheres. Queria que ela falasse baixo, que parasse de rir, os presentes no café olhando, rindo e gargalhando ainda mais quando ela elevou a voz: “Porra, meu caro, o que você quer fazer com a minha perereca de dentes?”

Tereza saiu e deixou Afrânio só, enfrentando os olhares dos presentes. O garçom veio com a conta e, voz baixa, com cumplicidade duvidosa informou: “Eu também tenho perereca de dentes. Podemos combinar alguma coisa, se você quiser!” Afrânio deixou o dinheiro sobre a mesa e saiu, direto para o escritório onde poderia engolir a raiva e digerir a frustração. Abriu o computador, entrou na internet à procura de uma perereca dentada. Viu fotos precisas de próteses de resina, meias dentaduras a preços módicos. Desligou o aparelho e ficou sonhando com Marlene, com a doce e suave panacota e amaldiçoando todas as pererecas de dente do planeta.

São Paulo: Terra de quem tem fôlego*

by Fernando Brengel

Nasci na Rua Barata Ribeiro, que desemboca na Praça 14 Bis, Bela Vista, Centro de São Paulo. Ao lado o bairro do Bixiga. Território de Adoniran Barbosa, Agostinho dos Santos, Vai-Vai. No apartamento acima do meu morava Benito di Paula. Minha rua era frequentada por Wilson Simonal e pelo pessoal da TV Record dos anos 60 e 70. Barata Ribeiro da minha infância. Bela Vista dos meus sonhos. São Paulo do meu coração. Aqui nasci, dessa vida me despedirei desse ponto do planeta. Uma existência, que agora, em luzes e cores esmaecidas, lembram-me de uma infância feliz, de uma existência bela e repleta das recordações integrantes de minha história. A Copa de 70. O Homem pisando na lua. A Guerra Fria. Os senhores de terno. As meninas do pensionato. Os jogos de taco. Os primeiros bailinhos – as primeiras e inexplicáveis ereções, quando corpos e testosterona em formação apontavam para um feliz porvir. Os amigos da rua. A família reunida. Os Natais em que Papai Noel não aparecia, mas deixava presentes – alguns não funcionavam direito como o Pega-Pega Troll. Os embates de rojão nas Festas Juninas – sim, a gente mirava o rojão um no outro, mas a uma boa distância, ufa!. O drible, o único da minha vida, no malandro do bairro, que não gostou e saiu atrás de mim para me socar. A Praça Roosevelt, em que ficava o Porto Seguro, minha escola. A Offner, que nasceu na Barata Ribeiro. 5 da tarde, aquele cheiro de chocolate a inundar a rua e fazer garotos como eu salivarem. Meus avós, pais e tia, meus parentes. O Zé do 45, dono da maior discoteca do pedaço. O bairro repleto de imigrantes italianos, mas também de outras tantas nacionalidades; de migrantes de todo o país; de gente que aprendeu a amar São Paulo como é. De enxergá-la em sua essência. De com ela se relacionar por inteiro. De amá-la de alma. De dizer: viva os 470 anos de Sampa! Que nada tem de “túmulo do samba” – Vinícius, você falou bobagem Poetinha; sem problemas, te amo mesmo assim. São Paulo é samba, rock, blues, pagode, MPB, punk e do que mais vier. São Paulo recebe e faz questão que aqui fiquem baianos, peruanos, alagoanos, franceses, portugueses, espanhóis, sul-americanos, paraibanos, alemães, riograndenses e toda a gente, preta, branca, amarela e vermelha; hétero, homo, bi, tri, poli, trans; esquerda, direita, centro ou muito pelo contrário; altos, baixos, gordos, magros e quem mais venha a ser o que é e o que será. São Paulo, te amo! 470 anos são só para começar. Porque aqui é Terra de quem tem fôlego como esse texto, que de um fôlego só não diz tudo, mas resume um pouco do meu grande amor por você, minha eterna cidade.

* Hoje, aniversário de São Paulo, Fernando Brengel nos brinda com esse belíssimo texto que, muito feliz e agradecido tenho a honra de publicar neste blog. Grato, Brother!

Pote de lobisomem e um pouco mais

É só um aparente cacareco, entre tantos outros que guardo. Um potinho de louça ordinária, presente de Dona Antônia. Ela e Cesarino, o marido, foram inquilinos de meus pais e tinham origem espanhola. A frágil cerca que dividia nossos quintais não foi suficiente para isolar-nos e logo após o jantar, enquanto mamãe ultimava tarefas do dia, Dona Antônia vinha papear, contar histórias.

Na fazenda tal, onde moraram, apareciam mulas sem cabeça. Vinham em disparada, cabeças em chamas, perseguindo caminhantes noturnos. Às vezes era uma única, de outras vezes várias em tropel ensurdecedor. Parece que alguém foi pisoteado; houve quem perdeu a fala e até outra pessoa ficou com marcas de queimadura.

Entusiasmada com a atenção das crianças, olhos arregalados, sinais de medo ao encolherem-se umas nas outras, Dona Antônia emendava causos, como um lobisomem que caminhava em noites de lua cheia por entre as casas dos camponeses. Ouvia-se o bater do rabo que o bicho, ao andar, movimentava com força, para espantar um imenso enxame de moscas. Se percebia a luz vinda de alguma lamparina no interior das cabanas, o lobisomem batia com força em portas e janelas, tentando entrar.

Últimas brincadeiras noturnas, era comum ter os pés empoeirados e restava lavá-los antes de ir para a cama. A bacia utilizada tinha de ficar seca, sem água nenhuma, ou o próprio Diabo viria lavar-se, ou refrescar-se do calor do inferno, vai saber! E vinham histórias de gente que sofreu nas mãos do Demo por conta de água suja deixada de um dia para outro.

Impressionado, eu estava entre os irmãos que perdia o sono, chamando a mãe no meio da noite com medo de algum ser fantástico. Mamãe não perdoava: “Para de acreditar nas coisas dessa velha mentirosa! Amanhã vou cortar as conversas dela. Não acredite em nada disso!” Minha impressão era que mamãe, cansada, desacreditava Dona Antônia pra poder ir logo para a cama. Todavia, as histórias pararam.

Um dia, aproveitando a companhia de minha mãe que foi comigo para Araguari, em visita aos meus avós paternos, Dona Antônia foi conosco. O trem da Mogiana saia bem cedo de Uberaba e era puxado por uma Maria Fumaça. Uma aventura! Lá pelas imediações do Rio das Velhas, os trilhos molhados, a velha máquina patinava e Dona Antônia rezava com receio de que a composição descesse de costas, sem controle. Um foguista, munido de vasilha com areia, ia despejando essa sobre os trilhos, a máquina andando um pouquinho, ele despejando outro tanto e assim foi até ultrapassar aquele trecho.

Foi naquela viagem que descobri outra Dona Antônia. Normalmente era uma senhoria que tinha murchos a parte superior dos lábios. Para viajar ela usava dentadura. Imensa, com um dente de ouro incrustado entre os outros, enormes, que a impedia de ficar com a boca fechada. Que coisa era aquela que eu nunca tinha visto? Onde ela guardava os dentes quando não estava passeando? Fui informado que o objeto ficava em um copo com água, ao lado da cama, para ser usado só em momentos especiais. Lembro de um beliscão de minha mãe, para eu parar de me meter na dentadura alheia.

Do velho Cesarino guardo momentos tensos que nossas famílias tiveram por conta de uma colmeia, instalada na laranjeira que estava na divisa dos nossos quintais. O caixote, abrigo das abelhas, já estava pequeno e ameaçava cair. Papai e o vizinho Cesarino resolveram que iriam mudar a colmeia para outro lugar. Munidos de muitas folhas de erva-cidreira, esfregada nos objetos e nos braços de ambos, o que deveria acalmar as bichinhas que, segundo o Cesarino, atendiam por nome “Mariinha”. Era só repetir o nome e pedir calma que elas obedeceriam e ficariam tranquilas com a mudança.

Um enxame no quintal atacando dois incautos e algumas crianças, a casa trancada e, logo, a vizinhança tomada por uma tenebrosa nuvem de abelhas. Minha irmã Walderez, com os cabelos longos e fartos, foi picada pelas bichinhas embaraçadas nos cabelos e depois retiradas por mamãe com ajuda de um pente. Papai, feito criança peralta, tinha crises de riso e o velho Cesarino foi quem mais sofreu pelo excesso de picadas ou por alguma alergia. Ninguém foi para Pronto Socorro. Fomos, sim, visitá-lo quando tudo se acalmou e, confesso, o que guardei da visita foi a visão do copo com a dentadura da minha amiga. Estava no local antes informado.

A cama de Dona Antônia também ficou na lembrança por conta de um incêndio, por um ferro elétrico ligado e esquecido. Tenho guardado os gritos desesperados da pobre senhora por conta do dinheiro do filho, Agostinho, guardado sob o colchão. Esse filho, ao se casar, levou os pais para morarem com ele, e antes de irem embora fui presenteado com o potinho de louça onde ela sempre me servia algum doce. Era para que eu não a esquecesse. E ao rearrumar minhas coisas na casa nova, me vem lembranças de seres folclóricos, viagens de Maria Fumaça, ataques de abelha e a velha amiga, Dona Antônia. O pote cumpriu sua missão.

Até mais!

Um glossário pra mineiro viajar

Veja abaixo o link para acessar os textos de Ivan Mariano Silva, no Jornal de MOnte

Nas poucas vezes que estive fora do país chegava um determinado momento em que me dava um faniquito doido! A única coisa que sentia era a vontade de pegar mala e cuia e voltar ligeiro pra casa. É claro que chegar em um aeroporto de São Paulo já dava um certo alívio, aqueles sons múltiplos da diversidade paulistana. A questão é que quando se fala em “casa”, “a minha casa”, a gente está querendo é a infância, pai, mãe, os irmãos e, no meu caso, a casa é lá em Uberaba, Minas Gerais.

Imagina ganhar um presente que te leva de volta para essa casa! De quando você é criança e vai crescendo, ouvindo e gravando na memória a voz de seus pais, seus irmãos, os parentes todos, os vizinhos e as palavras que eles usavam. Você abre o presente, um livro, e o que você lê e a memória te traz é o som da voz da sua mãe que criou eufemismos pra saber se você limpou o butico direito, ou as risadas do seu pai, quando sua mãe ameaçava te dar uma surra: chama nas tabinhas, bobo! E foi assim, lendo e lembrando que fiz uma viagem ao mais profundo daquilo que nos traduz para a história: a nossa língua.

A mágica do livro, o “Glossário Monte-Sionês da Língua Portuguesa”, é imensa! A gente lê um verbete e se lembra de muitos outros. Só para clarear, butico e tabinhas é coisa dos meus pais, lá em Uberaba. Já o glossário é claro e específico da comunidade de Monte Sião, no sul de Minas. O livro recebi de presente do amigo Luiz Antônio Genghini. Um baita trabalho com mineirices reunidas por Ivan Mariano Silva, falecido em 2020. Do autor também recebi e estou lendo “Crônicas da minha gente”.

Ivan, que é como o escritor assinava seus textos no jornal, elaborou o “Glossário Monte-Sionês da Língua Portuguesa”, com a familiaridade de quem viveu na e com a comunidade enriquecida por inúmeros descendentes de italiano que nos legaram palavras deliciosas como carcamano, maledeto, impiasto! Tudo muito bom de dizer, de usar.

Essas expressões oriundas do italiano não conheci na infância. Meu pessoal, lá em Uberaba, tinha proximidade com portugueses, árabes, alguns espanhóis e poucos italianos. O trabalho localizado do Ivan nos dá a importância da pesquisa do autor e, simultaneamente, nos abre coração e memória para as possíveis expressões de cada uma das diversas regiões das Gerais.

A viagem linguística do Glossário é imensa. Tanto nos remete à infância, quando batíamos bafo ou quando nossa mãe nos advertia: “Lave direito esse pé, moleque, tá cheio de macuco!”, quanto nos faz lembrar momentos muito específicos, já na adolescência, quando a necessidade nos fez chapear a mão na cara do desafeto. E assim vai; leio as expressões e percebo palavras que já não uso, outras que me lembram pessoas, momentos, lugares. Não é um simples glossário, é um baú de falas, da nossa fala. A língua, que é culta, só se enriquece quando um sabereta se põe a usá-la.

Todo aquele que escreve tem amor pela palavra. Não basta saber escrevê-la, seu significado, os diferentes contextos em que podemos usá-la. Há que se pensar também na composição textual, no local preciso onde iremos colocá-la no parágrafo e, assim, atingirmos o efeito desejado. Dicionários são fontes inesgotáveis de relações, pois lemos uma palavra e nos vem à mente as diversas possibilidades de seu significado. Um trabalho que busca especificações de um determinado grupo social enriquece a língua, caso do Glossário Monte-Sionês, leva-nos imediatamente ao nosso grupo, ficando difícil não ocorrer envolvimento emocional.

Deus me permitiu andar por aí e conhecer gente de cá e de lá, de cima e de baixo, do meio, dos cafundós e outros, mais de perto. Uma vez funcionário de aeroporto me deliciava com os sons do mundo. Não só identificar o que estava sendo comunicado, mas reconhecer a melodia do som de cada língua, dos gestos do falante. Morando e andando por toda a grande São Paulo aprendi a identificar sotaques de todas as regiões do nosso país. Aquelas peculiaridades que diferenciam pernambucanos, cearenses, paranaenses, goianos, baianos, capixabas… e toda essa imensa variedade da nossa fala, tanto em som quanto em significado, nos dá a exata dimensão da riqueza da nossa língua.

O presente de Genghini (Obrigado!) e o trabalho do Ivan (Obrigado!) me permitiu recuperar, recordar, reviver faces da minha origem. Somos mineiros, e porque amamos Minas sabemos a diferença do sertanejo com o caipira, dos sujeitos todos das demais regiões não porque exigimos identidade ou outro documento qualquer. A gente começa por um “Tá bão?”, continuamos com um “d’onde que ocê é”, e após um “Cê é fio de quem?” já nos sentimos em casa. E se o sujeito tiver dificuldade em nos entender, tai o Glossário Monte-Sionês! Um ótimo começo para trilhar as imensas veredas do linguajar mineiro.

Notas:

1 – Ivan Mariano Silva (*1935 / +2020) tem seus trabalhos publicados no Jornal de Monte Sião, cujos números podem ser lidos clicando aqui.

2 – Glossário Monte-Sionês da Língua Portuguesa, reunido por Ivan Mariano Silva, com ilustrações de José Carlos Grossi. A capa é de Felipe C.P. Grossi. Monte Sião: Acervo Edições, 2010.

Quando começam as aulas?

Considero uma boa sorte ter ido para a escola aos sete anos. Os anos antecedentes me permitiram acordar com a casa em atividade, na cama chegando os sons e cheiros da cozinha, entremeados pelas vozes e canções vindas do rádio. Então caçula, dividia as manhãs com meus pais, os irmãos todos já estudando.

Mamãe tinha modo peculiar de me acordar, regulando o horário pelas novelas do rádio: “Cidinho! A novela das 10h já vai começar!” Acordar cedo, bem cedinho, só quando havia brinquedo novo, invariavelmente feito pelas mãos de meu pai. Papai, com espírito de professor Pardal, criava brinquedos. Guardo com precisão o olhar brilhante dele, satisfeito, vendo-me brincar com cada novidade.

Final da manhã voltavam da escola meu irmão mais velho mais as minhas três irmãs. A casa cheia, barulhenta, viva de atividades corriqueiras só quebradas no tempo de férias. Terminadas essas, começavam os preparativos para a escola. Uniformes, bolsas e mochilas, cadernos e livros. Um universo que precisei esperar para participar, o que veio a ocorrer só aos sete anos. Não tinha ideia do que eram férias, pois a vida era feita de tempo livre, visitas aos parentes, aos meus avós e viagens ocasionais. Única diferença era, nas férias, todos fazerem tudo juntos.

A rotina restaurada com o início do ano, em dia determinado e munida de listas enormes mamãe ia às compras. Voltava com um tesouro enorme, feito de canetas azuis e vermelhas, caixas de lápis de cor, compassos, esquadros, apontadores, cadernos de desenho e livros, muitos livros. Nada para o caçula que, com olhar invejoso, queria um caderno pra rabiscar, lápis coloridos para brincar. Ato contínuo, era de mamãe a tarefa de encapar os cadernos. Alguns com papel pardo, identificados em seguida pela letra de minha mãe, bonita e caprichada. Outros eram recobertos com plástico azul, transparente, bonitos de aumentar a inveja do caçula.

A escola era local cheio de histórias e aventuras. Surgiram nomes de professoras, primeiros amigos e desafetos dos irmãos. E os nomes das escolas iniciais: Guerra Junqueiro, Juscelino Kubitschek. Hoje me pergunto a razão para nomear uma escola no interior mineiro com o nome do poeta português… Vai saber! Juscelino era nome quase familiar. Em casa de mineiro era comum encontrar nas paredes retratos do governador, do presidente, todo pimpão e engalanado.

Desejei muito ir para a escola. Achava meu irmão muito bonito com seu uniforme, e queria uma pasta, de couro, com alça e fechos metálicos. Gostava dos casos trazidos por minhas irmãs e, único medo, receava ter que tomar vacina, já que eram dez agulhadas no braço da criança que voltava cheia de lágrimas para casa.  Ansioso, antes da escola rabisquei a primeira palavra no chão do quintal: Bino! E, foi assim que, aguardando com muita vontade, o dia chegou.

Os tempos são outros, as necessidades estão aí; as exigências de um mercado que absorveu pai e mãe também são realidade. Há um bom tempo que as crianças são colocadas, ainda bebês, em creches, pré-escolas. Nas grandes cidades os quintais são espaços de gente abastada. A escola, aquele lugar do sonho das crianças do meu tempo não existe mais. Parece que o prazer de aprender e fazer parte da escola foi substituído pela ânsia em formar, preparar para o mundo, garantir o futuro. Estar apto para concorrer!

Hoje sou capaz de perceber o quanto aprendi antes da pré-escola.  Poderia enumerar as atividades domésticas, plenas em aprendizado obtido na vivência, na observação. Por aqui, quero registrar exemplos de quando, ao lado do meu avô descobri o prazer de cultivar horta, cuidar de parreira, descobrir a origem do café comendo a fruta vermelha, porque madura, tirada do pé, muito doce e saborosa. Vi na oficina, papai criando dobradiças para porteiras, construindo portões para quintais e jardins, produzindo ferraduras e colocando-as nos cavalos, pacientes, bem ali no nosso quintal. Via com curiosidade a criação de porcos e galinhas, e recordo festas no trabalho conjunto de meus pais e vizinhos, quando um imenso porco era transformado em banha, linguiças e outros derivados do porquinho.

Mais que aprender por observação sobre as etapas de uma “pamonhada”, ou do trivial arroz com feijão, a faxina da casa, a organização de armários, a maior dádiva de estar em casa foi o convívio com meus pais, minha família. Convivência! Essa necessidade humana de estar e viver preferencialmente em harmonia. Até onde a pré-escola consegue resolver a questão da harmonia em convivência forçada é outra história. Creio que o maior desafio seja tornar a escola um lugar de desejo, esse mesmo desejo que nos leva a amar e valorizar as etapas e conquistas das nossas vidas.

Bom início de aulas para alunos e professores!