O porto, não.

Salles Tiné, Óleo sobre tela, 1992

Fosse Minas Gerais a Pasárgada do Bandeira, com todos os rios navegáveis e cheios de gente bonita nas beiras e a gente de Minas teria maiores afinidades com portos. Seriam locais de paradas pra namorar, como ensina o poeta sobre o tal paraíso. Por terras de Minas há rios grandes, como o Grande e não mais Doces, como o Doce, castigado pelo ser humano. Pelas Gerais caminham o Jequitinhonha, o São Francisco. Portos relevantes, não. Esses ficam nas vizinhanças.

Volta e meia vem alguém dizer que Minas não tem mar, como se mineiros não soubessem geografia. Pelas Gerais há rios, estradas reais e plebeias e vontade dos mineiros em ir longe. Muito longe! Nascidos em chapadas costumam ter desejo de ir além de onde elas terminam. Os que têm serras e montanhas pela frente vivem curiosos para saber o que há do outro lado. Os belíssimos horizontes mineiros se constituem em estímulos para que se possa alcançá-los e ir para o novo fim do mundo que se avizinha quando se chega ao fim do mundo. Já os portos… São portos.

Fosse fácil medir e veríamos a imensa carga de sentimentos que flutuam em estações, aeroportos, portos. Obviamente que essa energia – se há energia brotada dos afetos – vive em constante busca de equilíbrio entre os que chegam e os que partem. Alegrias, tristezas, saudade antecipada, ausência finda. A pluralidade de sensações em um porto, penso, são mais duradouras. Um ônibus vira a esquina e aquele que fica já se distrai ao voltar para casa. O trem ligeiro, últimos carros já em velocidade avançada, somem na curva e os aviões, rapidíssimos, levantam voo e somem entre as nuvens. Navios, não.

Os transatlânticos, imensas cidades flutuantes, recebem seus viajantes e, sinal de saída, apitam algumas vezes. Parece não haver um padrão. Tudo indica que, conforme a festa, apita-se uma ou mais vezes. Desatracando, saem muito lentamente, pesados e preguiçosos, percorrendo o estuário até atingir o oceano. E para quem tem a possibilidade e tempo para observá-los, esses navios gigantes demoram um tempão para atravessar o horizonte. Azar de quem, apaixonado, permanece ali olhando enquanto o ser amado vai embora.

Há barcos menores, transportando trabalhadores entre uma ilha e outra, dessas para o continente. Cheios de cotidiano com infinitos pequenos detalhes que diferenciam um dia do outro. Há outros, de pescadores esperançosos de bom trabalho, sem contratempos e tempestades. Saem em horários determinados pelo conhecimento do mar, da maré, das correntezas diferentes em cada tempo, época do ano. E há os imensos navios de carga que, à distância, pareciam objetos fantasmas sem viva alma à vista, não fosse a fumaça de chaminés indicadoras de alguém queimando não sei o que.

Quis o destino que eu, mineiro, viesse a morar próximo de um porto. Dá janela vejo o intenso movimento do porto, e pelo noticiário fico sabendo daquilo que meus olhos não alcançam. O transatlântico com a celebridade da hora, as exportações maiores que as importações e as drogas, muita apreensão de drogas. E a música de Caetano Veloso, inspirada no texto de Fernando Pessoa brinca em meu cérebro:

É imensurável o quanto de vida passa pelo porto. Esse vai e vem extraordinário, constante, que me faz voltar ao tempo de menino, lá em Minas, quando ver um rio era simultaneamente buscar a ponte para atravessá-lo. E se era um monte, achar a trilha para percorrê-lo e ir além. Os rios de Minas me trouxeram até aqui.  O porto é mais um lugar de passagem, que vou descobrindo aos poucos, reconhecendo a movimentação, percebendo os hábitos, desvendando os mistérios. Um local para ir além e, mesmo negando-o – o porto, não – ter a certeza de que o prazer da viagem é ter onde partir e aonde chegar.

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Obs.:

Os Argonautas (1969), de Caetano Veloso foi inspirada nas “Palavras de pórtico” (primeira publicação, 1965), de Fernando Pessoa.

Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira, foi publicado no livro “Libertinagem”, de 1930.

Encontro na Pinacoteca Benedicto Calixto

Vista noturna da Pinacoteca. Arquivo pessoal.

Clipping do A Tribuna

Todos estão convidados!

Até lá.

Da memória, do amor, dos meninos*

*Nina Borges Amaral

A uma pedrada de mim é o limbo.

Manoel de Barros

dois meninos – limbo, romance de estreia de Valdo Resende, é uma obra que conta uma história de amor, cujo desfecho é antecipado logo nas primeiras páginas, sob a perspectiva de um narrador tão anônimo quanto os personagens com quem convive.

Dando mote à narrativa, o poema “Limbo” abre o livro e, desmembrado, nomeia cada um dos dez capítulos de Dois meninos. “In memoriam” corresponde ao primeiro capítulo e se nos apresenta como recurso ambivalente, que alude tanto à morte do companheiro do narrador – o pintor que conheceremos aos poucos -, quanto ao apelo à memória: o narrador escreve, segundo ele próprio, para não se esquecer dos fatos vividos. Mas somos também nós, leitores, que nos sentimos impelidos a não nos esquecermos dessa e de muitas outras histórias que têm como protagonistas tantos outros anônimos que se escondem por aí ou para os quais muitas vezes não temos olhos.

Nos capítulos que se seguem, vamos sendo conduzidos através do retrato da vida do narrador e do pintor e vamos nos familiarizando com esses desconhecidos que nos são apresentados com a delicadeza que pede uma relíquia, a ser descoberta com cuidado, e a fundo. Concomitantemente à narrativa que expõe o enredo, ao relato dos caminhos de duas vidas distintas que (finalmente!) se encontram, é estabelecido um inconcluso diálogo entre narrador e seu amado, em que a escrita se dirige ao companheiro ausente. Curiosamente, nós, leitores, acabamos por nos ver colocados no papel de receptores desse diálogo, a compartilharmos de uma intimidade que nos é alheia ao mesmo tempo que nos envolve e cativa.

Desde o início do livro, o desenlace da história de amor entre esses “dois meninos” está dado, e, quando passamos então a conhecê-los, já sofremos com o fim de sua relação, com a morte do pintor. A ingenuidade do espectador comum frente aos encantos e possibilidades de qualquer começo lhe é privada pela complacência do narrador em desenvolver uma cronologia embaralhada, começando pelo fim a narrativa que segue com algumas idas e voltas no tempo, até encontrarmos o narrador em um tempo presente, a fazer um balanço de toda essa experiência vivida.

Do romance de Valdo Resende, fica a triste constatação do preconceito e do descaso de toda uma sociedade em relação aos portadores do vírus HIV, mas também a promessa de um futuro em que as batalhas não mais sejam necessárias, valendo-me das palavras de Octavio Cariello no prefácio do livro. Do amor que entre esses personagens foi cultivado e que foi abruptamente interrompido – o “serei interrompido antes de terminar” que eventualmente os encontrou -, fica a inspiração dos amores sempre amáveis…

Futuros amantes, quiçá

Se amarão sem saber

Com o amor que eu um dia

Deixei pra você.

Chico Buarque

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Amanhã, dia 11 de Junho, acontecerá a 27ª Parada do Orgulho LGBT+ DE São Paulo, com o tema QUEREMOS POR INTEIRO, NÃO PELA METADE. A resenha de Nina Borges Amaral encerra essa pequena série dos primeiros textos sobre o romance “dois meninos – limbo”. Os trabalhos dos organizadores da Parada, sintetizados no Manifesto oficial do evento, mais as pesquisas e matérias jornalísticas comprovam a necessidade que as batalhas, infelizmente, ainda são necessárias. Vamos em frente! Registro aqui meus agradecimentos especiais para os redatores desses três posts: Vânia Maria Lourenço Sanches, Fernando Brengel e Nina Borges Amaral.

Somos dois, somos muitos*

*Fernando Brengel

“O sonho vai sobre o tempo qual veleiro que flutua”

Assim que passem cinco anos, Federico García Lorca

– Como esse menino lê bem!

– Ele é ótimo!

– Já fez alguma montagem?

– Acho que sim. E estuda jornalismo.

dois meninos, mas poderiam ser duas meninas, um menino e uma menina, um transex e um menino ou menina, poderiam ser muitos, todos juntos e misturados, desde que fossem seres repletos de amor à procura daquilo que só o amor é capaz: unir almas que passam a dividir sonhos, construir futuros.

– Ele não vai almoçar?

– Disse que tá enjoado … não quer.

– Tá meio pálido né?

– Um pouco. Vou pegar um sal de frutas.

dois meninos é um retrato bem acabado do que somos, das vísceras e vicissitudes do amor. das entranhas do desejo. da alegria efêmera e da dor que, graças a Deus, não se eterniza. das possibilidades de ser o que somos, da urgência de sairmos das penumbras de nossas vontades e dizer ao mundo: “sou pleno! tenho alguém!”

– Ele não veio. Será que não curtiu a gente?

– Não gostou do texto?

– O cara é genial!

– O que houve?

dois meninos é fúria, línguas, gozos, corpos que se completam, papos-cabeça, sorrisos, questionamentos, trajetórias que se passam na ribalta e no limbo da existência. destinos. sorte… sorte de quem lê dois meninos. de quem agora pode compreender melhor o tempo que ceifava sonhos de uma hora para outra.

– Não veio de novo!

– Gente, ele foi internado!

– O que ele tem?

– Não sei, vou no hospital.

dois meninos resgata as noites longas e os dias curtos, desnuda os contraditórios, expõe as várias faces do comportamento. uma viagem à liberdade respirada no instante em que se redescobria o Brasil, o sexo, a loucura, a cultura. caminhada esta que começa a perder a graça quando a aids dá as caras. im-pla-cá-vel.

– Emílio Ribas.

– Não é possível.

– É o quinto caso no Brasil.

– Quatro homens e uma mulher isolados.

dois meninos é obra de texto primoroso, de construção indireta, como a refletir o contrafluxo da vida. narrativa que deixa claro que só os navegantes mais corajosos são capazes de vencer a maré. prosa inteligente e bem costurada, pura poesia.

– Acabou.

– 22 anos.

– E agora?

– …

dois meninos é valdo resende. dono de imenso talento e incrível habilidade com os meandros do escrever, brinda-nos com descrições capazes de nos fazer flutuar, transportando-nos ao universo de tantos meninos, dos que estão e dos que se foram, em um romance de estreia que não deixa pergunta alguma no ar: sim!, vale a pena pena viver, de preferência, como um menino. uma menina. ou melhor, como gostamos de viver.

FB

nota: os diálogos incidentais foram reconstruídos a partir de fatos presenciados por mim.

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Fernando Brengel foi um dos primeiros leitores de “dois meninos- limbo”. Colaborou com as primeiras e últimas revisões. Escreveu textos carinhosos divulgando o lançamento e este, acima, foi publicado após o evento. O universo das artes foi bastante afetado e principalmente o teatro sofreu as primeiras perdas em decorrência da AIDS. Depois, vieram nomes que chamaram a atenção da mídia. O Hospital Emílio Ribas foi sinônimo de morte e desespero para aqueles que, com sintomas, recebiam diagnóstico positivo. A situação hoje, 2023 é outra, mas muitos problemas continuam. A ideia ao rememorar essas questões surgiu por conta da 27ª Parada do Orgulho LGBT+ DE São Paulo, com o tema QUEREMOS POR INTEIRO, NÃO PELA METADE, que acontecerá no próximo domingo, 11 de junho.

A peleja entre a inocência e a culpa*

*Vânia Maria Lourenço Sanches

João tinha acabado de nascer. Dependia de todos para sua sobrevivência, porque não podia andar, nem comer sozinho, não falava – nada. João era um pedacinho de gente, bochechas rosadas, olhar cativante era, enfim, um bebe feliz. Ainda não precisava fazer escolhas, ainda não precisava fazer nada. Não sabia o que esperar, ou melhor, sabia – a vida. Essa vinha com uma certeza contagiante em cada sorriso, em cada som balbuciado, em cada carinha que derretia a todos que o via com o mais profundo amor. João tinha a vida pela frente, sonhos, projetos, esperança, um mundo para conhecer, uma vida para viver. João era só sorrisos e alegria. João simbolizava o que a vida tem de melhor – o novo, a oportunidade,todas as possibilidades por vir.

João, outro João, tinha acabado de receber a notícia, ia depender de todos para sua sobrevivência, porque não poderia lidar com aquela nova realidade sozinho, talvez não pudesse andar, talvez não pudesse comer, talvez sua comunicação com o mundo ficasse comprometida. Mas, o que mais afetava João era a dor da culpa por suas escolhas, agora não podia fazer mais nada – era fato consumado – o exame positivo, o fantasma tinha virado algoz e dali para adiante ele não sabia o que esperar, ou melhor, sabia – a morte. Essa vinha com uma certeza contundente em cada olhar vazio, em cada palavra não dita, em cada expressão de desespero que apunhalava a todos que o via. João tinha a morte pela frente, encarando, acuando, tirando-lhe a esperança, apagando seus sonhos, interrompendo seus projetos. João era só dor e desespero. João simbolizava o que o ser humano tem de pior – o preconceito, a incompreensão, o fim de todas as possibilidades.

Um dia, por um desses momentos breves da vida, João encontrou João. João, o outro João, estava tão fragilizado que pensou não poder segurar João, que havia acabado de nascer, em seus braços; afinal ele era soro positivo e isso poderia macular aquela “alma pura”, ele se culpava tão ou mais que os outros, ele se punia tão ou mais que os outros que não admitia a possibilidade de qualquer contato com aquele pequeno ser tão limpo das maldades do mundo. Mas João na sua inocência apenas olhava para João e fazia carinhas, fazia barulhinhos, fazia gracinhas e não se importava de ficar no colo de João, porque, para João, eram apenas braços que ainda passavam amor, calor, ele não via a dor, ele não via a culpa, ele não via.

João tinha acabado de nascer e foi entregue aos braços de João, o outro. Por um daqueles momentos breves da vida, esse João teve paz, sentiu que ainda havia esperança, esqueceu-se da culpa e acalentou o João que, em seus braços, adormeceu feliz. Esses dois meninos voltaram ao meu pensamento quando li “Dois Meninos – Limbo”. Fiquei pensando em tantos meninos por aí, pelejando entre a inocência e a culpa.

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*O texto “A peleja entre a inocência e a culpa” foi escrito por Vânia Maria Lourenço Sanches e publicado aqui em 2014. O romance “dois meninos -limbo” havia sido lançado pouco tempo antes. Hoje, 2023, as mudanças e avanços da medicina propiciam maior sobrevida aos portadores do HIV. Todavia, o silêncio é praticamente uma condição para que possam transitar pela vida. Nesse aspecto, o texto aborda uma situação difícil que deve ser combatida. A ideia ao rememorar essas questões surgiu por conta da 27ª Parada do Orgulho LGBT+ DE São Paulo, com o tema QUEREMOS POR INTEIRO, NÃO PELA METADE, que acontecerá no próximo domingo, 11 de junho.

Um limbo longe do fim

Lançamento em São Paulo. Foto: Fátima Borges

Decidi escrever o romance “dois meninos – limbo” no início de 1999. Um imenso embate em como relatar, denunciar, divulgar enfim o que está cotidianamente ao nosso lado, às nossas vistas, nos locais onde vivemos. A AIDS havia chegado no Brasil em 1982 e em 1999 já se contabilizava 155.590 casos. Grande tragédia para quem foi jovem nos anos de 1980, quando o tesão passou a ser risco de vida, como disse Cazuza em versos.

Sentença de morte para todos os infectados, a doença também impunha forte segregação social. Não bastando estar infectados, os indivíduos sofriam pelo preconceito, pelo descaso, pela desinformação de quem temia contágio pelo mero toque de mãos. Os doentes perdiam empregos, amores, família e, para uma sobrevida minimamente digna, assumiam um anonimato.

O livro foi lançado em 2014. Não, não levei quinze anos para escrevê-lo. Quatro ou cinco, com certeza, mais revisões, leituras feitas por amigos e uma reescrita exigida por entrar em vigor o novo acordo ortográfico, em 2009. Pior mesmo foi a peregrinação por editoras. Nenhuma interessada em lançar um novo autor com um romance que tinha a AIDS norteando a prosa. Lançamento feito, o anonimato das personagens recebeu a companhia de muitos outros, entre os que adquiriram o livro, que me brindaram com o silêncio. Bem provável, caso já fosse moda “cancelar” naquele ano, eu teria sido cancelado por um monte de gente.

O mundo caminhou e a diversidade assumiu outras cores, dando visibilidade de tal forma que até mudanças na linguagem passaram a ser pauta e objetivo de luta. Inegavelmente há avanços e conquistas, mas que ninguém se engane, os anônimos continuam por aí, excluídos e sem uma vida plena em dignidade. Daí o tema da 27ª Parada do Orgulho LGBT+ de SP: QUEREMOS POR INTEIRO, NÃO PELA METADE. São pouco mais de dois minutos para você, leitor, tomar consciência da questão:

Quem quiser se aprofundar um pouco mais pode ler o Manifesto dos organizadores da Parada do próximo dia 11, clicando neste link.

Nos próximos posts retomarei textos escritos sobre o livro “Dois meninos – limbo”. A ideia é lembrar que questões fundamentais ali relatadas, infelizmente, continuam atuais. Dados de 2019 (atualização dificultada pela pandemia da COVID), a AIDS já causou 32 milhões de mortes no planeta. A absoluta maioria: anônimos.

Ladrões de bicicleta

Poderia escrever sobre o filme Ladrões de Bicicleta, do premiado diretor Vittorio De Sica. Mesmo porque não sei se eram ciclistas ou ladrões do veículo os dois garotos presos hoje, pela manhã, aqui bem próximo de casa, em Santos. O aparato policial era escandalosamente desproporcional. Cinco viaturas para dois garotos. Cinco! No cruzamento, fazendo o entorno do canal 4 estavam os veículos, os policiais e sentados no passeio, como se tomando sol, dois adolescentes.

Ladrões de bicicleta (1948) – Divulgação

Eram dois garotos desses muitos que pedalam pela cidade. De bermuda, camiseta, pele e cabelos queimados de sol. Sem os dez guardas no entorno e seriam dois adolescentes passando o tempo sob o sol de outono. Observando mais atentamente via-se que estavam um tanto sérios, aparentando calma, mas com os braços cruzados de forma tensa, as pernas retesadas. Sabe-se lá que destino teriam enquanto os policiais, não sei o motivo, esperavam um não sei o quê.

Teriam roubado alguém ou alguma bicicleta? No filme italiano de 1948 um pobre desempregado recupera sua bicicleta que estava “pendurada” ao conseguir um emprego. Logo em seguida é roubado, privado do veículo que seria essencial para o trabalho. Esse é o filme de De Sica. Os ladrões daqui são bem distintos. Aqui em Santos e na vizinha São Vicente há um modus operandi de garotos ladrões que usam bicicletas para aproximação e fuga rápidas. Atacam turistas ou pessoas mais velhas, distraídas e sós. Um vem e faz uma curva em volta do pedestre e o segundo completa o ato, roubando carteira, telefone, bolsa ou qualquer outro objeto que possa ter valor.

Sem saber se roubaram uma bicicleta ou se eram ladrões de outra coisa segui meu rumo, sem antes ouvir mesmo sem querer algumas falas do tribunal popular já instalado no lado oposto. “Daqui a pouco estarão soltos, guardem a cara! Logo voltarão por aqui” disse um senhor. Ao que uma mulher ponderou: “Poderiam estar trabalhando, não é? A gente, nessa idade já trabalhava. Hoje, não pode trabalhar”. E eu segui, sem atentar para outros bochichos ou comentários. Fiquei pensando nos meninos, ladrões, que poderiam ser aqueles outros, famosos da literatura de Jorge Amado, os Capitães da Areia.

Capitães da Areia – Imagem divulgação do filme de 2009

Os meninos relatados por Amado perambulam pelas praias da Bahia, são os donos da cidade de São Salvador. O escritor nos faz ver o quão há de humano em cada personagem fazendo emergir o modo de ser, a história, a índole de cada um. Com os Capitães da Areia aprendi a olhar meninos que, por diferentes circunstâncias estão nas ruas. Não são meninos de rua. Estão lá por algum problema social que, sendo social, é nosso. Confesso ter tido mais tranquilidade no passado, quando minha juventude facilitava o distanciamento dessas personagens que, percebo com clareza, não me olham, mas me examinam. Mantenho-me atento e esta é a única defesa possível.

Sendo alvo dessas personagens, ou seja, velhote andando sozinho pela rua ou pela calçada da praia, não me sinto confortável, embora não me passe pela cabeça ficar longe do mar. Deixando cartões e carteira em casa estou certo de, sendo roubado, não perder lá grande coisa; o que não me impedirá de levar uns sopapos que, imagino, venham acompanhados de palavrões e desaforos: “Tem vergonha não, tio! Tá mais pobre que a gente!”. Outro dia no ponto de ônibus um me pediu 10 reais. Eu não tinha. Deixou por 5, eu também não tinha. Pelo menos 2, disse ele, exasperado! E eu, já meio sem jeito, disse estar apenas com a Identidade para usar como passagem. E ele se foi, irritado, me desaforando: “Se eu tivesse juro que te daria”. Eu ri, pensando que receberia sem pestanejar.

Há uma série de moradores nos jardins da praia e já conheço muitos deles. São gente boa. Vivem de bicos, tipo levar mesas e cadeiras de praia para locais próximos. Trabalho pesado. A maioria deles tem cachorro, o Caramelo é famoso, e já conheço uma senhora, boa alma, que os visita, trás remédios, leva para socorro médico. Estão invariavelmente limpos, pois água é o que não falta. Falta comida e, parece, sobra bebida. Volta e meia estão discutindo, uns afanando coisas dos outros. “Cadê meu celular?”, “Você bebeu tudo enquanto eu estava dormindo”. No mais, o máximo que podem nos fazer é pedir cigarro, um trocado, ou comida. Parece haver um acordo tácito: eles não nos incomodam e assim convivemos. Tenho medo mesmo é dos que andam em bicicletas.

Santos possui uma extensa rede de ciclovias, todavia os ciclistas deixam muito a desejar na cidade. Andam sobre os passeios, na contramão, não respeitam semáforos e muito menos pedestres. A velocidade é daquela do velho ditado – tão indo tirar alguém da forca. Na imensa orla que mal permite aos desavisados distinguir Santos de São Vicente há ciclovia em mão dupla. No entanto, mesmo com avisos de proibição, os ciclistas invadem os jardins e a calçada rente à praia. Nunca sabemos se são só cidadãos desobedientes ou se são os já temidos ladrões, notícias frequentes nos jornais.

Ainda em fase de transição de governos, ainda sob efeitos da pandemia e todas as mazelas econômicas penso ser óbvio que o roubo vem de algum problema concreto. Não pretendendo um tratado de sociologia me resta permanecer atento e, quando possível, fazer e exigir dos responsáveis algo pela educação e formação de crianças e adolescentes. Sem escola, os pais desempregados ou com salários irrisórios, há aqueles que não pedirão, roubarão. Simples assim.