Viramundo

Viramundo virado! Nada mais, nada menos.  E se não encontro como dizer, como quero dizer, então o melhor é contar com a música,  poesia em forma de canção. É isso. De quebra, uma Maria Bethânia completamente entregue ao ato de cantar.

Quem sabe, algum dia, eu consiga transformar esse mundo em “festa, trabalho e pão”…

Até mais.

 

 

Acalanto para Caymmi

dorival caymmi

Há grandes compositores nesse nosso Brasil. Poucos mexem com todos os brasileiros e entre esses está Dorival Caymmi. Há tantos sucessos do compositor que permeiam a nossa vida! Quem tem ou teve “Saudade da Bahia” cantou Caymmi; quem já ficou enciumado com as namoradas maquiadas cantou “Marina” e reverenciou Caymmi. Quando um pai emocionado criou um “Acalanto” todo especial, feito pra Nana, o presente foi também para inúmeras crianças do país. Caymmi ensinou ao mundo “o que é que a baiana tem”, tornou nacionalmente popular a receita de vatapá e fez-nos filhos da mãe Menininha do Gantois.

Caymmi completa 100 anos na próxima quarta-feira, dia 30. Penso que todas as homenagens são justas e quero, humildemente, somar com os que amam o baiano de voz grave, matreiro, bonachão, suave no cantar, no modo de ser e viver. Escolhi lembrar algumas canções de Caymmi que sempre me deixam emocionado.

..Andei por andar, andei
E todo caminho deu no mar
Andei pelo mar, andei…

(Quem vem pra beira do mar – Dorival Caymmi)

O mar cantado por Caymmi, “é bonito, é bonito!”. O mar, as praias, a vida de marinheiros… Caymmi cantou as praias de Copacabana e de Itapoã. Da bela praia de Salvador o compositor sentia falta; deixou registrado em versos doloridos, intensos.

…Oh vento que faz cantiga nas folhas
No alto dos coqueirais
Oh vento que ondula as águas
Eu nunca tive saudade igual…

(Saudade de Itapoã – Dorival Caymmi)

Há, nas canções de Caymmi, momentos de entrega que revelam o homem e a sua gente. É o enamorado perdido, sofredor, repetindo “só louco, só louco” para um insensato coração. Todavia, é também o festeiro que precisa contar com Deus se o momento é de “baticum de samba”…

Cem barquinhos brancos

Nas ondas do mar

Uma galeota a Jesus levar

Meu Senhor dos Navegantes

Venha me valer

(Festa de Rua – Dorival Caymmi)

Caymmi foi o brasileiro migrante adulto que deixou Belém do Pará em “Peguei um Ita no Norte” tanto quanto foi a criança pedindo sol e “Santa Clara Clareou”. Foi rapaz apaixonado, pedindo perdão em “Desde Ontem” assim como foi o cronista da gente de Salvador em “A Preta do Acarajé” e de toda uma raça em “Retirantes”. Caymmi foi tantos! Tão baiano que retratou como poucos o homem brasileiro.

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Gosto da minha terra cantada por Caymmi. Sou fã incondicional das canções de Caymmi na voz do próprio e nas abençoadas vozes de seus filhos Nana, Dori e Danilo. Enfim, não sou valentão, mas sinto como a personagem de Caymmi e por isso concluo esta homenagem, como certo João Valentão, sonhando com as praias da Bahia.

…Deitar na areia da praia

Que acaba onde a vista não pode alcançar

E assim adormece esse homem

Que nunca precisa dormir pra sonhar

Porque não há sonho mais lindo

Do que sua terra, não há.

(João Valentão – Dorival Caymmi)

 

 

Até mais!

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Notas:

Dados biográficos de Dorival Caymmi estão em http://www.dicionariompb.com.br/dorival-caymmi

Ou também em

http://www.mpbnet.com.br/musicos/dorival.caymmi/

 

“O dia D” voltar para Minas

anhanguera/valdoresende

Todo aquele que é da minha geração, tendo saído da casa dos pais e vindo para longe, trouxe na bagagem da memória duas canções; uma que nos afasta das origens colocando-nos reféns do destino; desnudando vontades, anseios e escancarando uma felicidade como prêmio nos versos finais:

Eu por aqui vou indo muito bem, de vez em quando brinco Carnaval
E vou vivendo assim: felicidade na cidade que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim.

Quando jovem ostentamos uma coragem farsesca e somos portadores de grandes doses de petulância e autossuficiência. A canção acima começa assim:

Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu fui embora
Mamãe, mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu quero mesmo é isto aqui…

“Mamãe, coragem” é de Caetano Veloso e Torquato Neto. Este mesmo Torquato Neto escreveu os versos de “Todo dia é dia D”, praticamente antítese da primeira canção, também guardada na bagagem da memória. Os versos são fortes em contraponto com uma melodia suave, criada por Carlos Pinto:

Desde que saí de casa
trouxe a viagem da volta
gravada na minha mão
enterrada no umbigo
dentro e fora assim comigo
minha própria condução
todo dia é dia dela
pode não ser, pode ser
abro a porta e a janela
todo dia é dia D.

Saí de casa com 17 anos, 1972, mesmo ano em que Torquato Neto ligou o gás e suicidou-se. Ele estava com 28 anos. Eu já conhecia a música “Mamãe, coragem”, do disco “Tropicália ou panis et circensis”, de 1968. Um tempo depois de levar as primeiras aulas de “a vida como ela é”, ouvi “Todo dia é dia D”, música que saiu em um compacto simples, em 1973, junto com o livro “Os últimos dias de Paupéria”, coletânea de textos de Torquato Neto organizada por Waly Salomão e Ana Maria Duarte (essa foi esposa do compositor).

Eis que o tempo passou e continuei, sempre, cantarolando as duas canções. Sempre Gal Costa em “Mamãe, Coragem”, sempre Gilberto Gil em “Todo dia é dia D”. De repente, do inesperado vem uma proposta de trabalho e me chega um “dia D” voltar para Minas Gerais.

“…todo dia é dia dela
pode não ser, pode ser…”

Este 2014 é para muitos o ano que começa agora, depois do carnaval; o ano de Copa do Mundo, de eleições. Na minha história é o ano de voltar e realizar um trabalho em minha terra. E este é o x da questão: voltar e realizar um trabalho em Minas Gerais. Nos próximos meses estarei geminianamente dividindo-me entre lá e aqui. O que farei? Depois eu conto. Tenham paciência; a mesma que tive durante todos esses anos aguardando a hora de voltar.

Boa semana para todos.

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Troféu nota 10 para os sambistas de São Paulo

Começa hoje, oficialmente, o carnaval de São Paulo. Fui honrado mais uma vez com o convite de Rafael Nascimento para participar do juri do Troféu Nota 10, prêmio oferecido aos sambistas da cidade pelo jornal Diário de São Paulo.

Troféu nota 10 Juri

A edição de hoje do Diário traz uma simpática matéria assinada por Danilo Dainezi e fotos de Mario Palhares, apresentando uma síntese do trabalho que faremos, colaborando com o editor Carlos Alencar.

Juri do Troféu Nota 10 Diário de São Paulo

Com ou sem chuva estaremos lá. Agradeço ao Diário de São Paulo pela oportunidade. Os vencedores serão anunciados na edição do dia 4, terça-feira próxima.

Bom carnaval para todos!

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Boa música para começar o carnaval

Dalva de Oliveira e Marlene.
Dalva de Oliveira e Marlene.

“Hoje, eu não quero sofrer

Hoje eu não quero chorar

Deixei a tristeza lá fora

Mandei a saudade esperar…”

Penso em carnaval e recordo os versos de “O primeiro Clarim” , criação de Klécius Caldas e Rutinaldo Silva que tive o privilégio de ver Dircinha Batista cantar.  Dircinha foi uma cantora extraordinária, talentosa tanto quanto sua irmã, Linda Batista.

“… Hoje eu não quero sofrer

Quem quiser que sofra em meu lugar…”

Algumas músicas de carnaval tem esse poder de alimentar sonhos e, incrível, fazer com que grandes tristezas sejam transformadas em belíssimos versos. E é possível sair pelos salões, quando há salões, cantando e dançando uma triste sensação de rejeição, como esse Malmequer, composição de Newton Teixeira e Cristóvão de Alencar:

Eu perguntei a um malmequer

Se meu bem ainda me quer

E ele então me respondeu que não

Chorei, mas depois eu me lembrei

Que a flor também é uma mulher/

Que nunca teve coração…

Não é porque é carnaval que a gente perde o senso crítico. Algumas gravações para o carnaval de 2014 são no mínimo lamentáveis. Sabem-se lá quantas são as tramas dos negócios que permeiam “músicas para consumo”; todavia, na falta de algo que seja efetivamente bom, não seria legal regravar uma bela canção e fazê-la voltar na boca do povo?  João de Barro e Noel Rosa e tantos outros  merecem suas canções gravadas nas vozes de Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Claudia Leitte. Mais que músicas e atitudes autopromocionais, esperamos grandes canções dessas profissionais. E a propagar versos precários e medíocres, porque não cantar, por exemplo, Estrela-do-Mar, de Marino Pinto e Paulo Soledade? De quebra ainda homenageariam a grande Dalva de Oliveira:

Um pequenino grão de areia

Que era um pobre sonhador

Olhando o céu viu uma estrela

E imaginou coisas de amor ô-ô-ô/

Passaram anos, muitos anos

Ela no céu, ele no mar

Dizem que nunca o pobrezinho

Pode com ela encontrar.

Talvez nossos cantores de agora não cantem esse tipo de música pela impossibilidade de enfiar um “tira o pé do chão” no meio da letra. Ou então, imaginem só Elizeth Cardoso dizendo um “Levanta o braço ai!” entre os versos de “As Pastorinhas”!

A estrela d’alva

No céu desponta

E a lua anda tonta

Com tamanho esplendor

E as pastorinhas

Pra consolo da lua

Vão cantando na rua

Lindos versos de amor

João de Barro e Noel Rosa sempre tiraram o pé do chão. As canções de carnaval ou são marchinhas, ou marcha-ranchos… E são tão geniais que não carecem de um “Quem gostou faça barulho”, porque é impossível ficar calado quando a música é boa. Lá pelas tantas, o coro é geral e fortíssimo em versos como esses:

Linda criança

Tu não me sais da lembrança

Meu coração não se cansa

De sempre e sempre te amar.

Emilinha Borba, Elizeth Cardoso e, abaixo,as irmãs Dircinha e Linda Batista
Emilinha Borba, Elizeth Cardoso e, abaixo,as irmãs Dircinha e Linda Batista

Tenho certeza de que as primeiras músicas de carnaval que me fizeram a cabeça foram cantadas por Marlene e Emilinha Borba. Esta última era extremamente popular com sua Chiquita Bacana e, na minha infância eu gostava da ideia de um “tomara que chova três dias sem parar”. Aliás, bem propícia para esse ano, quando estamos na eminência cantar com muita verdade que  “a minha grande mágoa é lá em casa não ter água e eu preciso me lavar…”. Já Marlene, era a melhor. A mais bonita e a grande intérprete com seu “Apito no samba, “Lata d’água” e tantos outros. Mas, há sempre um mas… A primeira paixão musical de carnaval veio com Dalva de Oliveira, uma das maiores cantoras deste país. Depois de “Máscara Negra  (Zé Kéti/Hildebrando Matos), o carnaval, marchinhas e marchas-rancho entraram definitivamente na minha vida. Há quem resista a esses versos?

Tanto riso

Oh, quanta alegria

Mais de mil palhaços no salão

Arlequim está chorando pelo amor da Colombina

No meio da multidão…

Se estiver difícil ouvir “bagunceiras” e outras bobagens, tente isso: Ao clicar nos títulos das canções abrirá um link para ouvir a música no Youtube. Há alguns vídeos com cenas interessantes. Divirtam-se!

E bom final de semana!

Até!

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A volta de “Florilégio Musical II, Nas Ondas do Rádio”

Florilégio II

Eu gosto de rádio. De um rádio que é difícil encontrar. Rádio com música brasileira de qualidade, sem imposição de gravadoras para artistas de ocasião. Incomoda-me, bastante, alguns locutores e locutoras da atualidade que falam como se estivessem narrando uma corrida de cavalos, confundindo ritmo com velocidade. Um programa de rádio “ao vivo”, daquele dos bons, volta aos palcos, agora no Teatro Eva Herz.

Carlos Moreno, Mira Haar e Patrícia Gasppar são estrelas de um show que poderia estar na Rádio Nacional, na Mairink Veiga, na Rádio Record ou em outra qualquer, entre tantas emissoras que reinaram nos anos de 1930, 1940 e 1950. Os atores-cantores brincam com um repertório vasto, passando pela nata dos nossos compositores (Pixinguinha, Noel Rosa, Joubert de Carvalho, Ary Barroso), com ênfase em intérpretes como Marlene, Emilinha Borba, Nelson Gonçalves e muitos outros.

Vi este trabalho em dezembro, quando em cartaz no Museu da Casa Brasileira. O espetáculo é envolvente não só para quem gosta e conhece um pouco da história do período, mas para quem aprecia a música brasileira, boa o suficiente para atravessar qualquer barreira temporal.

Há formas de ver e maneiras de perceber esse Florilégio Musical. Parece saudosista com o vestuário que remete aos reis e rainhas do rádio; pode ser visto como um espetáculo conservador, somando-se as boas interpretações aos arranjos e direção musical de Jonatan Harold. O diretor geral, Elias Andreato, realizou um espetáculo com leveza que, em dado momento, brinca com o momento em que vivemos. E é aqui que percebo outro espetáculo: aquele que deixa evidente o quanto estamos distantes – nas emissoras de rádio e TV – dos bons musicais que tornaram populares nossos grandes cantores e compositores e fizeram da música brasileira uma das mais importantes no mundo.

Vejam! Vale a pena.

Florilégio Musical II: Nas Ondas do Rádio, está no Teatro Eva Herz, começa nesta sexta-feira, 31 de janeiro, às 21h. Fica em cartaz até 30 de março. Informações sobre horários e valores dos ingressos pela bilheteria do teatro: 3170 4059.

Até!

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O Samba do Crioulo Doido

A obra e o autor
A obra e o autor

Contam que JAMELÃO era ranzinza. Não escondia o humor ácido em diversas circunstâncias. Todavia, quando o samba era ruim, o velho e eterno puxador de samba da Mangueira soltava todos os cachorros e aí sim, mostrava-se irritado. JAMELÃO não gostava de “sambas de crioulo doido”. Entenda-se aqui esse tipo de samba como samba ruim. Certamente, apenas um “Samba do Crioulo Doido” mereceu a admiração de Jamelão:

Foi em Diamantina,

Onde nasceu JK

Que a Princesa Leopoldina

“Arresolveu” se casar

Mas Chica da Silva,

Tinha outros pretendentes

E obrigou a princesa

A se casar com Tiradentes…

A expressão “samba do crioulo doido” é do memorável SERGIO PORTO, também conhecido como STANISLAW PONTE PRETA. Homem de diversas profissões (jornalista, escritor, compositor, radialista), morreu cedo, com apenas 45 anos.

Deixou-nos uma obra precisa, contendo uma crítica hilária e corrosiva do período em que viveu. As histórias de Tia Zulmira ou do Primo Altamirando estão registradas em livro, assim como os FEBEAPÁS (Festival de Besteira que Assola o País) em três volumes de puro humor nonsense, deitando e rolando sobre a tresloucada realidade brasileira.

Joaquim José, que também é da Silva Xavier

Queria ser dono do mundo

E se elegeu Pedro II…

Em um país onde os colunistas sociais elegiam, anualmente, as mulheres mais bem vestidas, STANISLAW PONTE PRETA lançou as “mais despidas”, criando as CERTINHAS DO LALAU. Grandes vedetes, mulheres lindíssimas, ficaram na mente dos brasileiros, símbolos de uma época. Um exemplo, CARMEM VERÔNICA, ainda hoje atuando na TV.

Na história dos sambas-enredo sabemos que, no início do século passado, as Escolas de Samba escolhiam um tema, um refrão que seria cantado na avenida, cabendo a improvisação, posteriormente proibida. Vieram os enredos propriamente ditos, uma “história” para ser contada na avenida. A frágil educação formal dos compositores e as regras impostas pelos organizadores de desfiles seriam, na visão de SERGIO PORTO, o STANISLAW, responsáveis pelas confusões nos versos musicais.

Das estradas de Minas

Seguiu pra São Paulo

E falou com Anchieta

O vigário dos índios

Aliou-se a D. Pedro

E acabou com a falseta…

Em 1968, ano fatídico para a história política brasileira, com os mandos e desmandos dos militares no poder, STANISLAW PONTE PRETA lançou, em livro, “NA TERRA DO CRIOULO DOIDO – FEBEAPÁ 3 –A MÁQUINA DE FAZER DOIDO”. Em disco, o QUARTETO EM CY lançava “O Samba do Crioulo Doido”, sucesso imediato e absoluto em todo o território nacional. Foram seus últimos trabalhos, pois SERGIO PORTO faleceu em setembro do mesmo ano.

Tantos anos depois, a safra de sambas-enredo para o carnaval continua impregnada de “sambas do crioulo doido”.  Há que se matricular em cursinho, fazer pesquisa, estudar a fundo para entender o que algumas escolas estão querendo contar na avenida. Versos maiores que a frase melódica, frase soltas e desconexas garantindo a existência de uma ala e por aí vai. Daí a atualidade de SERGIO PORTO que através de seu pseudônimo, STANISLAW PONTE PRETA, estaria escrevendo mais um FEBEAPÁ!

E assim se conta essa história

Que é dos dois a maior glória

A Leopoldina virou trem

E D. Pedro, é uma estação também…

Para lembrar a música vejam o vídeo com o registro do “Samba do Crioulo Doido”, na deliciosa interpretação das meninas do QUARTETO EM CY. E vamos todos começar a semana com bom humor.

Até!

Notas:

 Samba do Crioulo Doido – Stanislaw Ponte Preta.

 Sérgio Porto adotou este nome,Stanislaw Ponte Preta, tirando-o do livro Serafim Ponte Grande, de Oswald deAndrade.