Neste ano o Troféu Nota 10, oferecido aos melhores sambistas de São Paulo pelo Diário de São Paulo. “O troféu incentiva as escolas. Não há quem não conheça. Todos querem ser reconhecidos”, foi o que eu disse na entrevista ao jornal, publicada ontem. Mais uma vez tenho a honra de estar entre os jurados do Carnaval de São Paulo. Agradeço ao Diário de São Paulo pelo convite, em especial ao Rafael Nascimento, Walkiria Silva e aos demais profissionais empenhados na organização do prêmio. Agora é carnaval. Que todos possam ter momentos de diversão e que nossas escolas tenham todo o sucesso que merecem.
Pensar sobre a função da arte tem sido uma preocupação desde os tempos de faculdade. Lá, a temperatura subia a extremos quando se acrescentava o “social” nas discussões. Qual a função social do artista e da arte? O mundo passou por imensas mudanças desde o final do século XIX e aspectos utilitários, didáticos, decorativos, entre outros, foram sobrepujados por uma estética filosófica colocando a própria arte como constante elemento a ser discutido tanto quanto o artista. Conversas, discussões e até bate-bocas em busca de um possível consenso.
A Galeria de Doug Aitken em postal do próprio Instituto Inhotim
O tempo… As dificuldades cotidianas minimizam certas preocupações, burocratizando até mesmo aquelas que nos são caras. Algumas reflexões são mantidas, todavia perdem a força se não há elementos suficientes para reascender assuntos que, sem a devida manutenção, tornam-se temas mornos. Surgem faíscas quando uma obra ou um artista vêm à tona. Há empolgação quando lembramo-nos de fatos históricos, mas são fatos, lembranças que tocam quem viu; quem estudou; aqueles que nutrem interesse específico. Melhor quando somos colocados frente a frente com situações, instalações, obras instigantes que suscitam e, praticamente exigem do receptor uma resposta.
Em Inhotim senti essa necessidade de resposta, o que me tirou da mera posição de receptor para levar-me à condição de participante do ato ali, pronto para ser vivenciado. O Instituto Inhotim, em si, já leva à atitude diferenciada posto que em sendo um lugar distante, único, com seus jardins encantadores, arquitetura diferenciada ainda tem… Obras de arte. Longe de fazer, aqui, um inventário de todas as obras do local. Meu desejo é registrar um pouco do quanto Inhotim instiga em termos de pensar arte e artistas.
A galeria de número 10 (Sonic Pavilion – Doug Aitken) , por exemplo, nos propicia uma experiência inesquecível. Doug Aitken é um artista dos EUA e idealizou uma obra para captar o som da terra. Inhotim tornou a ideia realidade através de um pavilhão de vidro e aço, com um poço de 202 m de profundidade onde microfones e amplificadores foram instalados para a captação. Os ruídos gerados no interior da terra e a reverberação dos mesmos resultam em som equalizado que conduz o espectador ao silencio imediato. Isso mais o ambiente, todo o entorno de uma paisagem única, eu diria conduz à meditação. Entre tantas circunstâncias que abalam e colocam o planeta em risco há o momento em que paramos para ouvi-lo… A pergunta é inevitável: O que faremos com isso; o que faremos diante disto?
Foto de Claudia Andujar em obra sobre os Yanomamis
Sempre gostei da ideia de que a arte deve olhar pelo e para aqueles que, por circunstâncias específicas vivenciam mazelas desse nosso mundo. Uns chamam de arte engajada. Eu reverencio aqueles que sensibilizam a partir da própria sensibilidade. A fotógrafa Claudia Andujar é parte dessa estirpe de artistas que revelam mundos dentro do nosso mundo. Na Galeria Claudia Andujar estão centenas de fotografias realizadas do povo Yanomami, na Amazônia Brasileira. A artista é de origem sueca e está no Brasil há muito tempo e seu trabalho foi utilizado para proteção dos índios, além de contribuir nas formas de tratamento e preservação dos Yanomamis. Construído especialmente para exibição da obra de Andujar, a galeria é uma obra arquitetônica ampla que exibe além das imagens, livros e um documentário sobre a artista.
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Poderia escrever, aqui, sobre a experiência de brincar na Galeria Cosmococa com os “quase-cinemas” idealizados por Helio Oiticica e Neville D’Almeida. Meus companheiros de viagem ficaram tão impressionados quanto eu diante das obras de Tunga. A obra Narcissus Garden, de Yayoi Kusama, é uma visão contemporânea do mito que leva-nos a brincar com as selfies cotidianas. Poderia escrever sobre Cildo Meireles, Doris Salcedo, John Ahearn e Rigoberto Torres… Escolhi, para concluir, registrar algumas impressões sobre a obra de Adriana Varejão.
Dois detalhes do Narcissus garden – Yayoi Kusama
Se Yayoi Kusama faz emergir o narciso que há em cada um de nós é Adriana Varejão quem suscita velhas lembranças, indagações sobre identidade, memórias coloniais… O primeiro impacto vem com a obra “Celacanto Provoca Maremoto” com inequívocas referências ao barroco e aos azulejos portugueses. Em contraponto à referência história do grande painel ainda há outros cinco quadros, expostos no teto, com imagens de plantas carnívoras, ainda vistas do primeiro piso, antecedendo a visita – para quem faz o percurso sugerido pelo local – e “Linda do Rosário” – escultura que faz referência ao hotel de mesmo nome, no Rio de Janeiro, em 2002. Entre outras obras da galeria está “Passarinhos”, uma instalação que é pura delicadeza na lembrança de espécies de pássaros brasileiros.
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A obra de Adriana Varejão, bela e profunda por si, encontra-se em ambiente de inequívoca valorização: a galeria é obra arquitetônica impar, pois vai além do abrigar a obra para ser com ela. Um intenso diálogo entre dois criadores que estabelece e sugere um percurso onde arte e arquitetura são complementares. A sensação é de que o pavilhão de Rodrigo Cerviño Lopez, arquiteto paulista, desvela a obra de Adriana Varejão. O resultado é de puro encantamento. Uma entre muitas e intensas possibilidades de refletir sobre arte, artista e a função de ambos nesse nosso tempo.
Inhotim reúne botânica, arquitetura e arte contemporânea
Quem primeiro me falou sobre Inhotim? Será que li em alguma revista, jornal? Fica lá em Minas Gerais; “um grande museu a céu aberto” foi a expressão mais frequente e, obviamente, gerando possibilidades visionárias partindo-se do que entendemos por museu, por obras expostas em espaços abertos, públicos ou privados. Depois vieram outras informações: o local, imenso, tem a arte contemporânea como prioridade e jardins inspirados em ideias de Burle Marx.
Inhotim está no município de Brumadinho, a sessenta quilômetros de Belo Horizonte. A cidade é banhada pelo Rio Paraopeba, cujo vale serpenteia pela Serra do Rola Moça. Sim, a mesma Rola Moça imortalizada no poema de Mário de Andrade. Serra e rio são responsáveis pela bruma que deu origem ao nome do local. Tanto a cidade quanto Inhotim, volta e meia, estão envoltas em neblina suave. No verão, constatado, chove muito.
Detalhe da galeria Adriana Varejão
Ficou no tempo o motivo de não ter ido a Inhotim na primeira tentativa; na segunda, foram chuvas fortes por toda Minas Gerais, danificando as estradas e causando caos temporário. Neste janeiro foi possível visitar o Instituto Inhotim. Houve chuva no primeiro dia; um mero detalhe que contribuiu para deixar o local mais bonito.
Inhotim concretiza em um único espaço três áreas absolutamente distintas e totalmente entrelaçadas: Botânica (floresta e jardim), arquitetura e arte contemporânea ocupando uma área de 110 hectares. A beleza exuberante explode ao primeiro contato e a primeira constatação é que o tempo destinado à visitação do local deve ser grande.
Flores e folhagens, árvores de pequeno e grande porte, gramíneas e parasitas formam o entorno de obras, galerias e demais construções do Instituto. Brilhantes sob a chuva, as plantas exalam perfumes distintos, suaves e, sem chuva permitem a visão de pássaros, borboletas, entre outros, que colaboram para a beleza do lugar. Caminhando pelo meio da floresta ou percorrendo vias pavimentadas (a distância pode ser suavizada utilizando-se carros elétricos que transportam visitantes entre os principais pontos do local) chega-se a pavilhões cuja arquitetura harmoniza com o ambiente.
É possível caminhar livremente por todo o espaço ou, então, seguir o mapa fornecido pela instituição e percorrer, no mínimo, três eixos distintos: O eixo laranja é tão grande quanto o eixo rosa. No amarelo concentram-se serviços locais como restaurantes, lojas e outros. Tudo com uma atenciosa recepção dos funcionários que só faz valorizar a tradicional hospitalidade mineira.
Da série Portret ale Medeii, 1979, de Geta Bratescu
Nos próximos posts volto ao tema. Para falar de Tunga, Adriana Varejão, Cildo Meireles, Doug Aitken, Hélio Oiticica… E até do significado da palavra Inhotim. Por enquanto, quero terminar este texto homenageando Bernardo de Mello Paz, o idealizador de Inhotim. Um mineiro nascido em Belo Horizonte que transformou o próprio sonho em realidade. Minas Gerais, já reconhecida pela arte colonial de suas cidades históricas, pela literatura de Guimarães Rosa, a poesia de Drummond de Andrade ou pela música de Milton Nascimento, entrou, com Inhotim, para o seleto grupo dos grandes centros mundiais da arte contemporânea.
Nuvens densas, sinal de chuva certa e, de repente, o avião sobrevoa a cidade. No mar de cimento sobressaem edifícios, pedras de impreciso e caótico dominó. Será que iremos parar? A pista será suficiente? A reversão assusta e a nave, impassível, desliza até o ponto de parada.
Amanhã é dia de festa. Aniversário da cidade. 462 anos de São Paulo. Quantos milhares de paulistanos e outros, que moram aqui, saíram no primeiro feriado prolongado do ano? Interessa mais saber que voltarão. E os que aqui permaneceram festejarão comendo bolo no Bexiga, passeando no Ibirapuera, andando de bicicleta na Paulista…
No hall de Congonhas um embate entre o taxista oficial e o clandestino. Voltamos. Estamos em casa. Na cidade que abriga o mundo, todo tipo de gente. Nossa casa é São Paulo. E a cidade, grande mãe, administrando tudo e todos segue seu curso indiferente ao tempo, vencendo-o e renovando-se, ignorando o próprio aniversário.
Vinte e cinco de janeiro. Dia de acordar mais tarde, permanecer tranquilo. Dia de presentear São Paulo: Um pouco mais de verde; outro tanto de higiene; todas as cores de flores e, daqueles que por aqui transitam infinitas gentilezas; para com a cidade, para com seus habitantes. Simples assim! Como um desejo de criança.
Ouvir Elis Regina é um grande privilégio. Os meios de reprodução do som garantem a qualidade e a sobrevivência da arte daquela que está entre as maiores cantoras de todos os tempos. Hoje, 19 de janeiro, lembramos a morte da cantora, em 1982, e no dia 17 de março o seu nascimento (1945).
É difícil escolher qual a melhor interpretação de Elis. Optei por fazer uma pequena homenagem através da gravação que ela fez, cantando com Milton Nascimento, de “O Que Foi Feito Deverá” (Milton Nascimento e Fernando Brant).
Ao invés de propagar que o Brasil não tem memória, sugiro e peço aos que por aqui passam que escolham e postem uma canção, entre tantas gravadas por Elis para manter viva a memória dessa grande cantora brasileira.
Um ano inteirinho pra todo mundo e a data “pra festejar”…
Gosto dessa ideia que paira no ar durante o mês de janeiro: começar de novo! Não comungo com aqueles que afirmam que o ano, no Brasil, começa realmente depois do carnaval. Primeiro porque carnaval é coisa séria e conheço de perto o trabalhão daqueles que fazem a festa de Momo; segundo, porque a grande maioria dos brasileiros volta ao trabalho no primeiro dia útil de janeiro e apenas uma parcela está de férias ou em período de recesso.
Desconfio que essa ideia do “começar depois do carnaval” é própria de quem não gosta de trabalhar durante o ano inteiro, ou de quem não está satisfeito com o que faz e protela sempre que possível. Vou deixar esses de lado, como também esquecerei aqueles que semeiam desânimo com posturas negativas sobre o que vem por aí. Tenho desligado a TV, cujos telejornais sugerem um mundo tão horroroso conotando que só nos resta o suicídio; prefiro Gonzaguinha, na voz eterna de Elis Regina “e ver, se dessa vez, faço um final feliz”.
O “ritual da agenda” é um dos que mais curto em cada janeiro. Há muito que, pacientemente, passo a limpo telefones, aniversários, ignorando os arquivos eletrônicos, já que ao escrever lembro cada pessoa, os que se foram neste mundo mesmo e, também e infelizmente, excluindo os que não estão mais por aqui; acho salutar passar folha por folha da agenda anterior e refletir sobre tudo e todos que estiveram em minha vida recente. Sobretudo ver quem chegou; perceber e apostar no que pode permanecer; o que terei na agenda nos próximos anos? Não sendo de ferro assinalo e destaco cada feriado prolongado, cada data em que a festa é garantida.
Encaro arrumar armário, em janeiro, como exercício de desapego. Abrir espaços, mandar um monte de coisas para o lixo, arejar armários e gavetas. É outra forma de revisar a vida, o ano que passou. Há remédios que recordam doença já esquecida e roupas que insistem em nos fazer lembrar o tamanho que um dia tivemos. Obviamente que, emagrecendo, vou querer roupa nova pra desfilar meu contentamento; e remédio, bom, o melhor é encaminhar aqueles com data por vencer para quem realmente precisa. Mantê-los é como se estivéssemos esperando a volta da doença e, desta, é bom manter toda a distância do mundo.
Janeiro é tempo de colocar em andamento o que já vem sendo pensado no ano todo; ou seja, toca a planejar tudo e mais um pouco. Alguns itens se sobressaem nos projetos durante este mês: um é o trabalho; por exemplo, além de manter tarefas na universidade penso sempre no que vem por aí e fico antecipadamente excitado e feliz com as possibilidades. Quem tem um trabalho contínuo sugiro experimentar a criação: um jardim, um livro, música, teatro. A tal “mesmice” é massacrante e cabe exercitar a cachola pra dar uma nova cor ao cotidiano.
Viagens, em janeiro, são frutos do tal planejamento aí de cima. Só ocorrerão e serão realmente legais, produtivas, se bem pensadas. Quem não vai sair de casa pode ter outra atitude: Em janeiro, com ou sem chuva, vale viajar pela cidade – São Paulo propicia viagens incríveis – e, de preferência, pensar nos passeios mais distantes para outras cidades, outros países. Do sonho de conhecer outros lugares parte-se para o planejamento de como fazer isso acontecer.
Dos rituais de janeiro priorizo aquilo que concretiza a ideia do novo, do recomeçar. É por isso que este blog está de cara nova, com outras páginas que indicam caminhos que insistirei em 2016. A agenda também tem que ser nova (insisto em recusar as eletrônicas); este ano caminharei com uma agenda linda, presente de Victor Olszenski (Obrigado!) e o apartamento, que aos olhos incautos sugere hecatombe, está apenas em transição nas tais arrumações.
O ano de 2016 está começando. E o que posso adiantar, além da cara nova do blog? Estarei dando aulas; vou trabalhar no carnaval; continuarei divulgando “Dois Meninos – Limbo”, além de muitos outros livros, como Tueris, do Octavio Cariello, que colocarei no Instagram ainda hoje. No mais, são apenas planos. Muitos! E a atitude fundamental de cada janeiro e de todo o ano: rezar para que tudo, comigo e com aqueles que amo, corra bem!
Domingo passado fui, pela primeira vez, caminhar na Avenida Paulista. Estava cheio de gente, contrariando o político que fotografou o local em dia de chuva. Um passeio simples, barato e que humaniza a região.
Para quem não é de São Paulo: a prefeitura municipal, após criar espaços específicos para ciclistas na Avenida Paulista, resolveu suspender o tráfego de veículos no local durante os domingos. Celeumas à parte, o morador da região agradece. E, parece, também estão contentes muitos habitantes de toda a cidade e os turistas, interessados em visitar o Masp, o Instituto Cultural Itaú, entre outras atrações disponíveis na Paulista. Todo mundo pode passear por lá passeiam com filhos e animais de estimação.
Lanchonetes e restaurantes estão cheios, mesmo com os preços altíssimos. O entra e sai dos shoppings é intenso e eu me dei conta que ainda não entrei no mais recente templo do consumo da Paulista. Passando pelo local recordei o palacete dos Matarazzo, Maysa e toda uma São Paulo que só a história conta. Meu consumo é outro e, aproveitando o momento, fui atrás de livrarias…
Dois dos mais celebrados locais de comércio de livros, a Livraria Cultura e a FNAC estavam movimentados e em ambos uma frustração. Os atendentes com quem falei desconhecem que Maria Bethânia lançou um Caderno de Poesias. Você solicita e os atendentes, que parecem não distinguir Bethânia de Anitta voltam com um DVD em mãos. “– Querido, te pedi o livro, não o DVD!” Resumo da ópera: As duas livrarias mais concorridas da Avenida Paulista não têm o livro de Bethânia para vender.
Maria Bethânia tem alguns milhões de fãs, um público fiel que frequenta seus shows além de comprar CDs e DVDs. Os profissionais de compra das livrarias citadas não sabem disso? Se tais empresas deixam de oferecer um livro elaborado por uma cantora reconhecida internacionalmente pela divulgação da poesia em língua portuguesa, o que pode esperar um autor desconhecido como este, aqui, redigindo este texto?
Com muito trabalho consegui disponibilizar “Dois Meninos – Limbo” em algumas livrarias (Saraiva e Martins Fontes). Infelizmente já recebi reclamações de pessoas que foram procurar o romance nesses locais e vendedores disseram que não havia tal livro… Fiquei irritado, quis brigar, mas neste domingo, na verdade, achei graça e saí rindo pela avenida, imaginando Maria Bethânia entrar na Cultura e encontrar o rapaz com expressão de imbecil, questionando a cantora: – livro de quem, mesmo?
Até mais!
Observações:
1 – O livro “Caderno de Poesias” de Maria Bethânia é parte da comemoração dos 50 anos de carreira da cantora; contém textos da própria e outros, escolhidos e interpretados em shows por todo o Brasil e no exterior.
Entre os autores selecionados por Bethânia estão Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e Castro Alves. O lançamento é da editora UFMG.
2- Passeio virtual: O blog está de cara nova. Além dos posts habituais, outras páginas estão disponíveis. Faça um tour e deixe sua opinião. Muito obrigado. Valdo Resende.