A caminhante do Embaré

Foto: Valdo Resende

Não era por vaidade, mas por absoluta necessidade. Ela almoçava regularmente às doze horas. Colocava os poucos talheres na máquina de lavar louças enquanto se arrumava para sair. Invariavelmente um collant preto, uma blusa de mangas longas também preta e um turbante cinza, colocado de forma a deixar algumas mexas de cabelo soltas, desalinhadas. Com dificuldade vestia meias e os tênis, únicos diferenciais coloridos do vestuário.

Uma observação desatenta e poderia se pensar que ela estava sempre com a mesma roupa. O rosto sem qualquer sinal de maquiagem, o olhar sempre firme, ela dava a impressão de alguém sem cuidados. As roupas escuras, às vezes desbotadas contribuíam para o aspecto desleixado, sem brilho. Não evidenciava preocupação com o vestuário. Precisava caminhar. Ficava satisfeita com uma meia vermelha, ou amarela, sempre em contraste com os tênis, também coloridos. Um azul, um verde, um branco. E caminhava olhando por onde pisava, interessada em cumprir os quatro quilômetros diários.

Treze horas e trinta minutos em ponto e ela abria a porta da sala, atravessava o alpendre do velho sobrado, ignorava o jardim de há muito sem flores e ouvia-se o barulho do portão, já enferrujado, rangendo com um som que parecia chaleira no fogo. De cabeça baixa, ignorando a vizinhança de muitos anos da Rua Oswaldo Cochrane, tomava o rumo da praia do Embaré andando tão rápido quanto possível, olhando para os lados só para evitar motoristas, ciclistas, tudo gente apta a atropelar distraídos.

“Como vai, Filomena?”, insistia alguma vizinha da qual já não se lembrava o nome. Levantando a cabeça levemente, fingindo olhar para a outra respondia: “Boa tarde!”, seguindo seu rumo. Antes de tomar distância sabia que essa, ou outra qualquer, comentaria com alguma tão desocupada quanto: “lá vai ela, orgulhosa, sempre orgulhosa! Pagando pecados!”. Filomena seguia fingindo não ouvir. Não se importava. Precisa caminhar e o fazia por necessidade.

Quatro quarteirões e atravessava a Avenida Bartholomeu de Gusmão, indo direto para o grande jardim à beira-mar. Chegando no passeio rente à areia, sem olhar o mar pela frente, entrava à direita, rumo ao Gonzaga, mas não chegava até à praia do mesmo nome. Caminhava até os limites impostos pelo Canal 4, quando retornava após se abençoar olhando com fé para a Basílica de Santo Antônio do Embaré. Evitava o passeio paralelo à grande e movimentada avenida, preferindo voltar por entre as flores, árvores e pássaros do jardim. Chegando ao ponto de origem repetia o trajeto já feito. Uma, duas, três vezes. Na quarta tomava rumo de casa. Tudo se repetiria no dia seguinte.

“Orgulhosa, pagando pecados”.  Certamente se referiam ao tempo em que o sobrado estava quase sempre em festa, sempre festivo, pintado com cores alegres que combinavam com o pequeno jardim repleto de roseiras. Nessa época Filomena era alegre e, sem as roupas pretas, tomava rumo da praia sempre com biquinis coloridos, cabelos soltos, óculos escuros. Vinham parentas e amigas de longe para Santos e a casa vivia sempre cheia, barulhentamente alegre. Os pais faziam-lhe as vontades, recebendo colegas da escola, do colégio, da universidade. Reclamavam de netos, mas a moça gostava mesmo é de praia e de namoro. “Casamento? Um dia, quem sabe!”, brincava às gargalhadas. Quando um rapaz vinha mais que uma semana, visivelmente insistindo em algo à mais que amizade, a moça tratava de cortar convites, o que era percebido por Gilberto, então proprietário de um bar na esquina, cheio de sorvetes à tarde e cervejas à noite.

O jovem empresário viera de longe, lá das bandas das Gerais. O sonho era estar e viver perto do mar. Reunindo economias para abrir o estabelecimento, mistura de bar e sorveteria. Ele teve êxito e não demorou a eleger a vizinha entre as moças que frequentavam o local. Era atraente, estava sempre bem vestida e tinha um largo sorriso, cativante. Gilberto interessou-se e tomou iniciativas nunca respondidas. Um convite para a praia, outro para passear de lancha, depois um cinema, um teatro. Nada. A moça era simpática e com evasivas dispensava os convites. “Orgulhosa, repetiam as vizinhas”.

Desistindo após tentativas que beiraram aos dois anos, Gilberto conheceu outra moça. Casaram-se, tiveram três filhos que, num piscar de olhos estavam crescidos, adultos e dando-lhes netos. Mesmo ocupado com o trabalho e a família, então numerosa, Gilberto nunca deixou de esticar os olhos para Filomena. Ela permaneceu sozinha, sem que ele entendesse os motivos. Assim como passara para ele, o tempo levou os pais e os amigos da bela vizinha que, tranquilamente solitária, raramente recebendo até mesmo os amigos da juventude.

Foi por conta de uma ameaça de briga com a esposa de Gilberto que Filomena deixou de cumprimentá-lo. A outra, que de boba tinha pouco, percebia os olhares demorados do marido para com a vizinha e convidou a “sirigaita” a tomar sorvete e beber cerveja “na puta que a pariu”. Filomena não gostou do exagero da outra, queixando-se ao rapaz e, castigando-o por ter se casado com uma estúpida, afirmou e cumpriu promessa de nunca mais frequentar o bar. Foi nessa ocasião que Filomena, chateada, com o falatório advindo do acontecimento deixou de falar com toda a vizinhança, Gilberto incluído na decisão.

Após a morte dos pais Filomena dedicou-se a cuidar da imobiliária da família, mas trabalhando apenas pelas manhãs. Era de seu temperamento a regularidade de horários. Saindo às 7 da manhã, voltava por volta das treze horas. Às quinze saia para a academia, ou para o salão de beleza, ou o shopping. Sempre nos mesmos horários. Voltava às dezenove horas. Percebia então os olhares vigilantes de Gilberto, sabedor desses horários. Mas, fingia não ver. Quando era impossível evitá-lo ela respondia com um leve aceno e um esboço de sorriso para, assim, não alimentar algo além.

Gilberto vigiava os dias de Filomena. Lembrava-se que ela um dia lhe dissera que não se casaria por uma única razão. “Estou bem. Gosto só de namorar”. E a razão por não namorar com ele bateu pesado, quando a moça antecedeu o “não bateu!”. Ele guardou um pouco de mágoa, outro tanto de amor-próprio ferido, tudo muito bem equilibrado com um tesão que nunca passou. Olhar a vizinha passou a ser fetiche aliviado em costumeiras sessões de masturbação praticadas no banheiro superior do bar, no exato momento em que ela ia para a praia com os biquinis que estimulavam o ato solitário do rapaz.

Foi por constatar ao longo dos anos a constante vigilância de Gilberto que Filomena, ao passar mal, levantou-se do sofá e saiu até o portão. Não precisou gritar, acenar. Bastou olhar e o outro, percebendo algo errado correu em direção à vizinha que, entregando-se aos braços do homem, pediu: “Acho que é derrame. Por favor, me socorra!”. Era visível o cuidado e o carinho de Gilberto, principalmente para a esposa. Esta resolveu mostrar à vizinhança o tamanho da sua indignação traduzida em palavrões. Ignorando a chuva de impropérios, Gilberto pegou o carro e levou Filomena para o hospital. A pedido da vizinha, ele ainda chamou uma prima que veio cuidar da doente.

Todo o lado esquerdo afetado. Filomena reapareceu com a boca torta ao sorrir. A perna enrijecida, a mão paralisada. Novos hábitos seriam necessários e ela adotou as caminhadas vespertinas, as vestes escuras. Em casa só recebia semanalmente uma faxineira. A prima passou a vir duas vezes por semana. Um dia para a feira, outro para o supermercado. Também essa não falava com a vizinhança e ninguém sabia qual doença tinha sido a causa de tanto. “Orgulhosa, nem a doença melhorou esse jeito. Orgulhosa”. Filomena fingia não ouvir enquanto saia ou voltava dos exercícios que lhe garantiam sobrevida com melhor qualidade.

Caminhando cabisbaixa, raramente levantando o olhar para um cumprimento, Filomena repetiu ao longo do tempo os exercícios cotidianos, quando começou a perceber com frequência indesejada a presença de Gilberto, sentado de frente para o mar em um ponto por onde ela passava. Mesmo mudando horário e itinerário não teve resultado. Lá estava o homem. Em uma tarde, surpreendendo-o, sentou-se ao lado dele, sorrindo levemente e limitando-se a um “Diga!”. Ele contou da viuvez e da certeza de ela não ter percebido, do contrário teria dado as condolências. “Com certeza. E?”. O velho Gilberto reuniu coragem para enunciar um “Quero ficar com você!”. E ela, controlando a dificuldade no falar decorrente da doença sentenciou: “E eu gosto de estar só. De caminhar só. Adeus, Gilberto!”.

Dia seguinte, aliviada, Filomena percebeu o banco vazio. Prosseguiu seu exercício, cabeça baixa para evitar uma queda, mas ainda assim olhando o céu, o mar, ouvindo os pássaros, observando de soslaio as cores das flores e folhagens do jardim. Dizia um breve boa tarde para outros frequentadores da praia. A perna estava cada vez melhor, a mão esquerda já dava sinais do retorno das principais articulações. Em breve ela arriscaria a nadar. Não por vaidade, nem só por necessidade: Tinha um encontro com o mar, com o bronzeado do corpo, com a saúde possível e com a vida que sempre quis.

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