Canta Brasil!

Esperar destaque para a música brasileira de um programa denominado The Voice é chover no molhado. Somos colonizados e há muitos, entre nós, que pensam que “gritar” em inglês faz do sujeito um grande cantor. O certo é que há um número considerável de brasileiros que entendem parcamente o que diz – canta – cada candidato; assim, pouco importa se o indivíduo pronuncia parcamente ou porcamente.

Nossa música é sofisticada; muito sofisticada! O suficiente para avaliar qualquer cantor, qualquer tipo em qualquer região vocal e sob diferentes aspectos. Por exemplo: quantos concorrentes do The Voice cantariam bem o “Brasileirinho” (Waldir Azevedo – Pereira da Costa) ou o “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu – Eurico Barreiros)? Sem firulas, sem exageros, pois não há necessidade disso. Precisa ter folego, dicção privilegiada, capacidade de interpretação acima do comum para interpretar tais canções.

Os concorrentes, dizem, gostam de mostrar extensão vocal. Bom, para esses, há ótimas possibilidades: “Na baixa do sapateiro” (Ary Barroso), “Carinhoso” (Pixinguinha – João de Barro) e “Rebento” (Gilberto Gil) são apenas algumas possibilidades. Entre as mais difíceis considero “Rosa-dos-Ventos”(Chico Buarque), “Sabiá” (Tom Jobim – Chico Buarque), “Eu te amo” (Caetano Veloso) e entre muitas canções de Milton Nascimento, gostaria de ver alguém encarando “Saudade dos aviões da Panair”. (Dele, Milton, com Fernando Brant, também conhecida como “Conversando no bar”).

 

Estou comemorando antecipadamente o “dia do samba” (dia 2 próximo) e quero mais samba, mais chorinho, samba-canção, enfim, de mais música brasileira. Em se tratando de samba, por exemplo, os candidatos de concursos vocais – se querem mostrar que realmente cantam – deveriam arriscar um “Cai dentro” (Baden Powell e Paulo César Pinheiro) que, por sinal, só ficou excelente na voz de Elis Regina.

Sinto que esta é uma batalha perdida (apenas uma batalha!). O tempo costuma vencer todos os candidatos que, com suas músicas estrangeiras, caem no esquecimento. Sempre lembraremos Ney Matogrosso, Elza Soares (Hoje lembrada no The Voice pela excelente Cristal), Vicente Celestino, Gal Costa, Maria Bethânia, Nelson Gonçalves, Tom Zé, Maysa e, é claro, João Gilberto. Estou lembrando alguns grandes interpretes brasileiros que, com toda a certeza, em um ou outro momento cantaram música estrangeira. Todavia, gente como Maria Bethânia não será lembrada por “What is new”; esses intérpretes formidáveis (e podem aumentar a lista!) serão lembrados por sussurros afinados cantando Bossa Nova ou pela voz colocada com perfeição na personalíssima cadência do samba.

Há muito tempo um grande cantor, tão grande que foi chamado de “Rei da Voz”, gravou “Canta Brasil”. O nome desse cantor é Francisco Alves. Depois, veio a gravação de Ângela Maria e, bem depois, Gal Costa regravou a mesma canção, que é de Alcyr Pires Vermelho e David Nasser. Vou concluir este post com a letra deste samba exaltação, pois sinto muita falta dessas canções na nossa televisão; quem sabe, em algum programa, o nosso Brasil musical possa ser prioridade!

As selvas te deram nas noites teus ritmos bárbaros E os negros trouxeram de longe reservas de pranto Os brancos falaram de amor em suas canções E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto

 

Brasil, minha voz enternecida Já dourou os teus brasões Na expressão mais comovida Das mais ardentes canções

 

Também, na beleza deste céu Onde o azul é mais azul Na aquarela do Brasil Eu cantei de norte a sul

 

Mas agora o teu cantar Meu Brasil quero escutar Nas preces da sertaneja Nas ondas do rio-mar

 

Oh! Este rio turbilhão Entre selvas e rojão Continente a caminhar No céu, no mar, na terra! Canta Brasil!!

 

Bom final de semana para todos!

Ederaldo e Ademilde, a Rainha!

O ouro afunda no mar

Madeira fica por cima

Ostra nasce no lodo

Gerando pérolas finas… 

O Brasil perdeu de uma só tacada, Chico Anysio, Millôr Fernandes, Jorge Goulart, Ederaldo Gentil e Ademilde Fonseca. Muita gente boa. A Rede Globo prestou merecidas homenagens ao humorista e até resgatou – no calor da hora – o programa A Escolinha do Professor Raimundo para o horário das manhãs. Aqueles que têm boa memória irão recordar que Chico Anysio andou reclamando a falta de espaço que não lhe foi dado, nos últimos anos. Que a emissora aproveite do momento para faturar um pouco mais é inevitável; pelo menos reverencia a memória de um funcionário que deu muita audiência e dinheiro para a família Marinho.

Ederaldo, Ademilde, Millôr, Chico (como Popó, meu preferido) e Jorge Goulart

Jornais, telejornais e revistas lembraram a obra do genial Millôr Fernandes. Ele está em uma das chamadas de capa da Revista Veja. Em todos os lugares há entrevista de familiares, publicação ou leitura de frases do humorista Millôr e, entre diferentes homenagens, os depoimentos de profissionais, parceiros de longos anos do teatrólogo que, além de textos próprios, deixou excelentes traduções de peças de Wiliam Shakespeare.

Não queria ser o mar

Me bastava a fonte

Muito menos ser a rosa

Simplesmente o espinho

Não queria ser o caminho

Porém o atalho

Muito menos ser a chuva

Apenas o orvalho…

Dos outros três artistas falecidos falaram menos. Bem menos. Jorge Goulart foi um dos reis do rádio, é um dos artistas mais cantados em todo país, compositor e cantor de um mega sucesso: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é…”. Também foi o primeiro a gravar “A voz do morro”. Ederaldo Gentil foi um compositor baiano, falecido neste 30 de março. Em 1975 o Brasil inteiro cantou e, ainda hoje, “O ouro e a madeira” é um dos mais belos sambas de todos os tempos; o autor do samba cujos versos estão aqui, neste post, foi Ederaldo Gentil, que foi também parceiro do célebre Batatinha,.

…Não queria ser o dia

Só a alvorada

Muito menos ser o campo

Me bastava o grão

Não queria ser a vida

Porém o momento

Muito menos ser concerto

Apenas a canção…

Ademilde Fonseca está entre um tipo de intérpretes muito peculiares. Um país do tamanho do nosso possibilita uma voz regionalíssima como a de Elba Ramalho, ou uma voz absolutamente diferenciada como a de Tetê Espindola. Ademilde é aquela da articulação primorosa, com um domínio absurdo sobre a palavra cantada.

Qual teria sido o destino de chorinhos como “Tico-tico no fubá” e “Brasileirinho” sem as palavras cantadas primorosamente por Ademilde Fonseca? Apreciamos demais uma série de músicas instrumentais, entre elas alguns chorinhos admiráveis. Mas, “Tico-tico no fubá” e “Brasileirinho” lembramos fácil graças ao abençoado fôlego de Ademilde. Aposto que a maioria dos que lêem este blog conhece o balanço do ritmo gostoso, eternizado por Ademilde Fonseca.

“O tico-tico tá

Tá outra vez aqui

O tico-tico ta comendo meu fubá

O tico-tico tem, tem que se alimentar

Que vá comer é mais minhoca e não fubá…”

(Alberico Barreiros e Zequinha de Abreu)

“O brasileiro quando é do choro
É entusiasmado quando cai no samba,
Não fica abafado e é um desacato
Quando chega no salão…”

(Waldir Azevedo e Pereira Costa)

Ademilde Fonseca foi a Rainha do Choro. Um ritmo entre os únicos verdadeiramente brasileiros. Sendo Ademilde uma das poucas que canta choro com propriedade, merece todas as homenagens. O cenário da música brasileira está cheio de umas “mocorongas” que balbuciam letras, com ar de enfado, simulando um distanciamento que é falso, estudado.

Uma geração abaixo de Ademilde Fonseca consegue cantar com dignidade essas canções: Wanderléa, Baby do Brasil, Maria Alcina e Gal Costa estão entre as poucas cantoras com competência para cantar chorinhos. Das novíssimas cantoras, será que tem alguma que se habilita? Mas, sem aquele arzinho “mocorongo”, olhando de soslaio e pensando que é “diva”. Bem, o bom de tudo é saber que os versos de Ederaldo permanecerão, assim como Ademilde Fonseca, que será para todo o sempre aquela que deu voz ao choro.

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Até mais!

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Notas:

1) Jorge Goulart faleceu em 17 de março. Chico Anysio faleceu em 23 de março.  Millôr Fernandes e Ademilde Fonseca faleceram em 27 de março. Ederaldo Gentil faleceu no dia 30.

2) “O ouro e a madeira” foi um imenso sucesso na voz do grupo “Nosso Samba”.

3) “A cabeleira do Zezé” de Roberto Faissal e João Roberto Kelly foi originalmente gravada em 1964.

4) Ademilde gravou Tico-tico no fubá em 1942. Brasileirinho foi gravado pela cantora em 1950.