Somos dois, somos muitos*

*Fernando Brengel

“O sonho vai sobre o tempo qual veleiro que flutua”

Assim que passem cinco anos, Federico García Lorca

– Como esse menino lê bem!

– Ele é ótimo!

– Já fez alguma montagem?

– Acho que sim. E estuda jornalismo.

dois meninos, mas poderiam ser duas meninas, um menino e uma menina, um transex e um menino ou menina, poderiam ser muitos, todos juntos e misturados, desde que fossem seres repletos de amor à procura daquilo que só o amor é capaz: unir almas que passam a dividir sonhos, construir futuros.

– Ele não vai almoçar?

– Disse que tá enjoado … não quer.

– Tá meio pálido né?

– Um pouco. Vou pegar um sal de frutas.

dois meninos é um retrato bem acabado do que somos, das vísceras e vicissitudes do amor. das entranhas do desejo. da alegria efêmera e da dor que, graças a Deus, não se eterniza. das possibilidades de ser o que somos, da urgência de sairmos das penumbras de nossas vontades e dizer ao mundo: “sou pleno! tenho alguém!”

– Ele não veio. Será que não curtiu a gente?

– Não gostou do texto?

– O cara é genial!

– O que houve?

dois meninos é fúria, línguas, gozos, corpos que se completam, papos-cabeça, sorrisos, questionamentos, trajetórias que se passam na ribalta e no limbo da existência. destinos. sorte… sorte de quem lê dois meninos. de quem agora pode compreender melhor o tempo que ceifava sonhos de uma hora para outra.

– Não veio de novo!

– Gente, ele foi internado!

– O que ele tem?

– Não sei, vou no hospital.

dois meninos resgata as noites longas e os dias curtos, desnuda os contraditórios, expõe as várias faces do comportamento. uma viagem à liberdade respirada no instante em que se redescobria o Brasil, o sexo, a loucura, a cultura. caminhada esta que começa a perder a graça quando a aids dá as caras. im-pla-cá-vel.

– Emílio Ribas.

– Não é possível.

– É o quinto caso no Brasil.

– Quatro homens e uma mulher isolados.

dois meninos é obra de texto primoroso, de construção indireta, como a refletir o contrafluxo da vida. narrativa que deixa claro que só os navegantes mais corajosos são capazes de vencer a maré. prosa inteligente e bem costurada, pura poesia.

– Acabou.

– 22 anos.

– E agora?

– …

dois meninos é valdo resende. dono de imenso talento e incrível habilidade com os meandros do escrever, brinda-nos com descrições capazes de nos fazer flutuar, transportando-nos ao universo de tantos meninos, dos que estão e dos que se foram, em um romance de estreia que não deixa pergunta alguma no ar: sim!, vale a pena pena viver, de preferência, como um menino. uma menina. ou melhor, como gostamos de viver.

FB

nota: os diálogos incidentais foram reconstruídos a partir de fatos presenciados por mim.

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Fernando Brengel foi um dos primeiros leitores de “dois meninos- limbo”. Colaborou com as primeiras e últimas revisões. Escreveu textos carinhosos divulgando o lançamento e este, acima, foi publicado após o evento. O universo das artes foi bastante afetado e principalmente o teatro sofreu as primeiras perdas em decorrência da AIDS. Depois, vieram nomes que chamaram a atenção da mídia. O Hospital Emílio Ribas foi sinônimo de morte e desespero para aqueles que, com sintomas, recebiam diagnóstico positivo. A situação hoje, 2023 é outra, mas muitos problemas continuam. A ideia ao rememorar essas questões surgiu por conta da 27ª Parada do Orgulho LGBT+ DE São Paulo, com o tema QUEREMOS POR INTEIRO, NÃO PELA METADE, que acontecerá no próximo domingo, 11 de junho.

A peleja entre a inocência e a culpa*

*Vânia Maria Lourenço Sanches

João tinha acabado de nascer. Dependia de todos para sua sobrevivência, porque não podia andar, nem comer sozinho, não falava – nada. João era um pedacinho de gente, bochechas rosadas, olhar cativante era, enfim, um bebe feliz. Ainda não precisava fazer escolhas, ainda não precisava fazer nada. Não sabia o que esperar, ou melhor, sabia – a vida. Essa vinha com uma certeza contagiante em cada sorriso, em cada som balbuciado, em cada carinha que derretia a todos que o via com o mais profundo amor. João tinha a vida pela frente, sonhos, projetos, esperança, um mundo para conhecer, uma vida para viver. João era só sorrisos e alegria. João simbolizava o que a vida tem de melhor – o novo, a oportunidade,todas as possibilidades por vir.

João, outro João, tinha acabado de receber a notícia, ia depender de todos para sua sobrevivência, porque não poderia lidar com aquela nova realidade sozinho, talvez não pudesse andar, talvez não pudesse comer, talvez sua comunicação com o mundo ficasse comprometida. Mas, o que mais afetava João era a dor da culpa por suas escolhas, agora não podia fazer mais nada – era fato consumado – o exame positivo, o fantasma tinha virado algoz e dali para adiante ele não sabia o que esperar, ou melhor, sabia – a morte. Essa vinha com uma certeza contundente em cada olhar vazio, em cada palavra não dita, em cada expressão de desespero que apunhalava a todos que o via. João tinha a morte pela frente, encarando, acuando, tirando-lhe a esperança, apagando seus sonhos, interrompendo seus projetos. João era só dor e desespero. João simbolizava o que o ser humano tem de pior – o preconceito, a incompreensão, o fim de todas as possibilidades.

Um dia, por um desses momentos breves da vida, João encontrou João. João, o outro João, estava tão fragilizado que pensou não poder segurar João, que havia acabado de nascer, em seus braços; afinal ele era soro positivo e isso poderia macular aquela “alma pura”, ele se culpava tão ou mais que os outros, ele se punia tão ou mais que os outros que não admitia a possibilidade de qualquer contato com aquele pequeno ser tão limpo das maldades do mundo. Mas João na sua inocência apenas olhava para João e fazia carinhas, fazia barulhinhos, fazia gracinhas e não se importava de ficar no colo de João, porque, para João, eram apenas braços que ainda passavam amor, calor, ele não via a dor, ele não via a culpa, ele não via.

João tinha acabado de nascer e foi entregue aos braços de João, o outro. Por um daqueles momentos breves da vida, esse João teve paz, sentiu que ainda havia esperança, esqueceu-se da culpa e acalentou o João que, em seus braços, adormeceu feliz. Esses dois meninos voltaram ao meu pensamento quando li “Dois Meninos – Limbo”. Fiquei pensando em tantos meninos por aí, pelejando entre a inocência e a culpa.

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*O texto “A peleja entre a inocência e a culpa” foi escrito por Vânia Maria Lourenço Sanches e publicado aqui em 2014. O romance “dois meninos -limbo” havia sido lançado pouco tempo antes. Hoje, 2023, as mudanças e avanços da medicina propiciam maior sobrevida aos portadores do HIV. Todavia, o silêncio é praticamente uma condição para que possam transitar pela vida. Nesse aspecto, o texto aborda uma situação difícil que deve ser combatida. A ideia ao rememorar essas questões surgiu por conta da 27ª Parada do Orgulho LGBT+ DE São Paulo, com o tema QUEREMOS POR INTEIRO, NÃO PELA METADE, que acontecerá no próximo domingo, 11 de junho.

Um limbo longe do fim

Lançamento em São Paulo. Foto: Fátima Borges

Decidi escrever o romance “dois meninos – limbo” no início de 1999. Um imenso embate em como relatar, denunciar, divulgar enfim o que está cotidianamente ao nosso lado, às nossas vistas, nos locais onde vivemos. A AIDS havia chegado no Brasil em 1982 e em 1999 já se contabilizava 155.590 casos. Grande tragédia para quem foi jovem nos anos de 1980, quando o tesão passou a ser risco de vida, como disse Cazuza em versos.

Sentença de morte para todos os infectados, a doença também impunha forte segregação social. Não bastando estar infectados, os indivíduos sofriam pelo preconceito, pelo descaso, pela desinformação de quem temia contágio pelo mero toque de mãos. Os doentes perdiam empregos, amores, família e, para uma sobrevida minimamente digna, assumiam um anonimato.

O livro foi lançado em 2014. Não, não levei quinze anos para escrevê-lo. Quatro ou cinco, com certeza, mais revisões, leituras feitas por amigos e uma reescrita exigida por entrar em vigor o novo acordo ortográfico, em 2009. Pior mesmo foi a peregrinação por editoras. Nenhuma interessada em lançar um novo autor com um romance que tinha a AIDS norteando a prosa. Lançamento feito, o anonimato das personagens recebeu a companhia de muitos outros, entre os que adquiriram o livro, que me brindaram com o silêncio. Bem provável, caso já fosse moda “cancelar” naquele ano, eu teria sido cancelado por um monte de gente.

O mundo caminhou e a diversidade assumiu outras cores, dando visibilidade de tal forma que até mudanças na linguagem passaram a ser pauta e objetivo de luta. Inegavelmente há avanços e conquistas, mas que ninguém se engane, os anônimos continuam por aí, excluídos e sem uma vida plena em dignidade. Daí o tema da 27ª Parada do Orgulho LGBT+ de SP: QUEREMOS POR INTEIRO, NÃO PELA METADE. São pouco mais de dois minutos para você, leitor, tomar consciência da questão:

Quem quiser se aprofundar um pouco mais pode ler o Manifesto dos organizadores da Parada do próximo dia 11, clicando neste link.

Nos próximos posts retomarei textos escritos sobre o livro “Dois meninos – limbo”. A ideia é lembrar que questões fundamentais ali relatadas, infelizmente, continuam atuais. Dados de 2019 (atualização dificultada pela pandemia da COVID), a AIDS já causou 32 milhões de mortes no planeta. A absoluta maioria: anônimos.

Querida Rosângela Maschio!

Caríssima,

Estou feliz e grato com suas mensagens. Conhecer sua opinião, suas reações, suas posições em relação ao que escrevo no romance que você me informa estar terminando de ler, me deixa profundamente feliz.

Desde que lancei “dois meninos” ocorreram muitas coisas complicadas na minha vida pessoal (fui acidentado, fiquei um ano de molho, chegou a aposentadoria, veio a demissão da universidade… Além de perdas maiores, como o falecimento de minha mãe).

Nesse tempo também ocorreram atividades que me enriqueceram profissionalmente. Realizei projetos na Baixada Santista, no Vale do Paraíba, tive uma peça de teatro apresentada na maioria dos CEUs – Centros Educacionais Unificados de São Paulo, além de apresentações no Sul e Nordeste do país. Também tive um poema citado em publicação do aniversário de minha cidade natal, lancei uma coletânea de contos… Enfim, a vida seguiu seu curso e, nesses anos após o lançamento do romance, percebo e constato um fato perturbador.

“dois meninos” caiu como uma bomba silenciosa por aí. O lançamento foi concorrido, com duas centenas de pessoas presentes. Eventos posteriores (lançamento no Rio de Janeiro, palestras, feiras e cursos) contribuíram para a modesta carreira do livro (Marta Blanco, editora que merece todo meu respeito, já havia me alertado para o fato de que, no Brasil, romance vende pouco!). O fato é que o livro atingiu centenas de pessoas e eu fiquei aguardando pronunciamentos (risos!).

Todas as formas expressivas manifestam algo que, via de regra, merece discussão, resposta. Pessoas próximas comentaram, algumas indo mais fundo e, infelizmente, a maioria preferiu o silêncio. Um silêncio respeitoso, posto que volta e meia manifestavam admiração pelo escritor. Ninguém é obrigado a dar retorno de livros lidos, compondo críticas ou publicando resenhas. Todavia, um comentário mínimo seria de bom tom…

Uma amiga muito querida, Marise de Chirico, também responsável pela diagramação e projeto gráfico, dias antes de enviarmos o livro para a gráfica me questionou com seriedade: – Você vai manter seu texto na primeira pessoa? Me pareceu absurdo, mas Marise me alertava para possíveis consequências relacionadas a preconceitos e homofobia. Bom, “A vida é luta renhida”, disse Gonçalves Dias, “Viver é lutar”.

A bomba silenciosa teve seus efeitos. Sou grato ao meu romance por ter tirado da minha vida uma quantidade razoável de pessoas. Sou um sujeito de sorte! Dessas reconheço e guardo tal fato como alerta perene. Nossas ações provocam reações e assim é a vida. A questão complicada é o silêncio, mesmo “respeitoso”, pois neste caso me parece companheiro do preconceito, da homofobia.

“dois meninos” tem uma imensa carga autobiográfica mesclada com ficção. E, daquilo que é fictício também assumo a autoria, pois se escrevi é porque penso da forma e posição exposta. Há vários motivos pela maneira com a qual resolvi contar tal história. E Rosângela, vou me permitir, contarei algumas nessa mensagem.

O anonimato das personagens veio por duas razões, e a primeira pode ser referenciada ao momento atual. Quais as histórias dos mais de 550 mil mortos vítimas do Covid? Não são números, são pessoas com sonhos, desejos, vontades, projetos, famílias, amores, amantes, profissões… O anonimato em “dois meninos” nasceu da necessidade de sensibilizar as pessoas para que percebessem vidas humanas vitimadas pela AIDS. A segunda razão vem de uma dúvida cruel; sem autorização do morto, sem ter conversado a respeito, eu poderia nominar, detalhar sua vida?

Tendo como ponto de partida um poema – “dois meninos – limbo” é um poema decodificado, transformei fragmentos de versos em capítulos e, assim, me permiti ampliar a metáfora concisa em história detalhada. Um exercício literário que se estendeu naquilo que chamei de “hipertexto”, dando uma opção de leitura ao colocar frases e períodos em negrito que pretendem sintetizar a história. Essas opções formais caminharam com a dificuldade em caracterizar personagens sem nominá-los.

Concluindo maneiras de contar e formas de expor a história, durante o lançamento e ainda hoje recuso a expressão “romance gay”, fundamentalmente por “gay” não se constituir em gênero literário, mas um tema entre tantas outras possibilidades. Usar tal expressão facilitaria acesso a um mercado específico, talvez provocasse reação contrária em outros. De qualquer forma, sempre estive interessado em literatura e, na medida do possível, em ser um Escritor.

Volta e meia me deparo com situações que envolvem a vida privada alheia, com a corriqueira expressão “saia do armário”. E penso que minha resposta deva ser: – Tire meu livro do armário e venha falar a respeito.

É ótimo conversar horas e horas sobre tudo o que nos envolve. Aquele papo de amigo que mergulha fundo, como escreveu Clarice Lispector, buscando “o é da coisa”. Aquele “é” que todos nós temos e que serve de parâmetro, medida, norteamento para todos os seres viventes do planeta. Esse “é” que, de tão conciso, confunde pessoas rasas, que pairarão sempre na superfície incapazes de um mergulho profundo que há, ou deveria haver, em todo ser humano.

Creio que teremos muitas conversas pela frente, cara Rosângela. Espero que sejam presenciais, virtuais, por escrito, em forma de romance, poesia, letra de música, post no twitter, via pombo correio… Por enquanto deixo público meu abraço e minha gratidão a você, e aos que leram e deram retorno sobre esses “dois meninos”.

Um carinhoso abraço!

Valdo Resende

Um café com Marilena Ansaldi

São tantas perdas! E a gente segue, ficando lembranças. Perdemos Marilena Ansaldi nesta última terça-feira, dia 9 de fevereiro. Uma mulher notável, grande artista. Um dia tive a oportunidade de entrevistar a atriz que, quando bailarina, atuou no Teatro Bolshoi, em Moscou. Ela estava atuando em Hamletmachine, onde também operava som e luz: “Um velho desejo, buscar a total unidade do ator em cena, onde o personagem se ilumina”. Disse-me Marilena.

Fui recebido em seu apartamento. Senti a responsabilidade em conversar com a atriz que conheci em “Geni”, o espetáculo baseado na personagem da Ópera do Malandro, de Chico Buarque. O compositor criou músicas belíssimas para o trabalho idealizado pela atriz. Entre essas, Mar e Lua:

…Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

Começamos nossa conversa por “Geni”, quando ela me disse: “Não faço peças, me apaixono por temas, por personagens. A partir dessa paixão, dessa identidade, é que realizo meu trabalho”. Essa declaração, que escrita aqui soa como manifesto, não deixa de sê-lo. A diferença está na maneira absolutamente tranquila em dizer algo que, naquele momento, pareceu-me papo íntimo entre amigos. Foi assim, Marilena Ansaldi tratou-me como um amigo.

No apartamento amplo, elegante, fiquei pouco tempo na sala. “– Você aceita um café? Vamos até a cozinha, vou fazer um café pra você”. E aí a conversa fluiu com a intimidade que um cafezinho permite, ainda mais quando preparado pela dona da casa. E pude ouvir Marilena Ansaldi falando com tato, emoção. Contundente sem deixar de ser calma. Uma personalidade forte.

Falamos sobre nosso país e, revendo o texto que publiquei, parece que a entrevista ocorreu ontem: “No Brasil sempre existiu a ditadura econômica e a ditadura da livre expressão. Os políticos descobriram que dando a liberdade de expressão, pouca, tudo fica como estava” e prosseguiu o assunto do qual extraí algumas citações:

“Contudo, sabemos que uma real modificação só pode ocorrer a partir da ação coletiva”.

“Nossos movimentos políticos são medíocres, mentirosos, tapeiam muito!”

“Se as pessoas fossem mais lúcidas, se lessem mais…Só a partir da consciência é que poderá surgir uma ação direta, efetiva”.

Generosa, Marilena me deu uma tarde de boa conversa. Fiquei impressionado com a lucidez e a tranquilidade de afirmações do tipo, “as coisas irão piorar, muito. Não tem como, é só olhar para o que está aí”. Não se tratava de mero pessimismo, mas de um olhar sensível sobre a realidade.  Falou de facismo, nazismo, não se referindo à existência de organizações, mas a formas de atitudes. O exemplo, na entrevista, era por conta de uma onda de crimes contra homossexuais: “Não é um fato isolado. A violência está tomando forma na comunidade. Os criminosos sabem que não serão punidos, nem procurados”.

Foi em 1987. Tempos difíceis! Luiz Antônio Martinez Correa havia sido brutalmente assassinado. Jânio Quadros fazia coro à homofobia, proibindo bailarinos homossexuais no Ballet da Cidade de São Paulo. “A AIDS é uma peste que recaiu sobre a sexualidade, o ato mais bonito da natureza foi atingido. Justamente quando as pessoas começavam a ver o sexo assim, como a coisa bonita que é”.  

E o que poderíamos pensar para o próximo ano? “Este ano é consequência do que vem atrás. A minha lucidez faz com que eu some. A vida é uma somatização de coisas. Essas estão aí. Podem melhorar um pouquinho ou piorar muito. De alma, pode melhorar; de fato, não.” Parece que foi ontem!

Alguma saída? “Existem seres e seres humanos. Na verdade, a essência do homem, o que chamamos de índole, a sensibilidade é que é o grande mistério. Se a sensibilidade se desenvolve, então teremos um mundo melhor. Se a gente soubesse mais, se fôssemos mais sábios! Esse grande mistério, o bem, o mal…” A atriz revelou um desejo: “o único espaço, seja onde for, em que eu gostaria de estar sempre é o palco.” E, com humor, finalizou: “mesmo que realizando um trabalho para cobrir os prejuízos do anterior”.

Tive a boa sorte de conversar uma tarde com Marilena Ansaldi. Desses momentos que ficaram inesquecíveis pelo todo, marcado por expressões do tipo “vai piorar, é só olhar o que há”, ou “nós permitimos o que há”, que me pareceram fortes, fatalistas, mas ao que a mulher respondia com arte, com delicadeza e sensibilidade. “Só um minuto, vamos tomar um último cafezinho” E aí, falamos sobre as peças que viriam, sobre quando sairia a matéria, sobre viagens e excursões da artista… Após esse momento nos encontramos apenas duas vezes. Nessas ela me tratando com generosidade, amizade. Inesquecível!

No Olho do Furacão

Imagem capturada do Jornal + Ruchela, no destaque.

O Jornal Nacional abre uma matéria com as enfermeiras do Hospital da Unicamp, em Campinas, no interior de São Paulo. Gatilho é a palavra da hora para me ligar diretamente ao assunto e vejo, em um grupo de profissionais entrevistadas no jardim da instituição, a silhueta de alguém que pode ser a minha sobrinha. Redobro a atenção e quando a câmera se aproxima vejo que era apenas um corte de cabelo que provocou-me o alerta. Sim, tenho uma sobrinha no olho do furacão chamado COVID.

A pandemia chegou de forma trágica em minha família com o falecimento de um primo. Na mesma Campinas. A morte de Renato Marcos Antunes Batbuta, no final de março deste ano, entristeceu família e parentes e, ao mesmo tempo, impôs a todos nós os cuidados necessários para evitar contaminação. Fechamo-nos em nossas casas, saindo para o estrito necessário, mas minha sobrinha Ruchela Martini de Resende continuou seu trabalho. Ela é enfermeira padrão e o seu trabalho no Hospital da Unicamp vem de longe.

A AIDS foi, provavelmente, a primeira grande tragédia que a jovem enfermeira, mal saída da faculdade, teve que enfrentar. Não sei quantos e é certo que ela não contabilizou os mortos em decorrência da AIDS no hospital onde atua. Um trabalho tenso guardado pela discrição da profissional que pouco, posso afirmar raramente, comentou em rodas familiares os dramas presenciados pelo vírus HIV. Todavia, e é muito estranho escrever isso, foi mais fácil. O contágio pelo HIV envolve comportamentos específicos, contato direto com o portador.

Fico pensando na menina (pra mim, sempre será uma menina) acordando, tomando cuidados antes de sair de casa e, chegando ao trabalho, redobrar cuidados para cuidar de pessoas em estado crítico. O vírus está no ar. Tenso! Há setores inteiros destinados aos infectados pelo COVID e ontem, no jornal da Globo, o destaque foi para uma ação extra das enfermeiras, levando e lendo cartas de parentes aos isolados pela doença.

Evito puxar assunto e discutir com ela os atuais acontecimentos. Em mensagens sintéticas ela me diz da preocupação pela falta de isolamento das pessoas, pelo não uso de máscaras. Hoje pela manhã, o que me levou a escrever este texto foi enviar uma mensagem para Ruchela, comentando e cumprimentando todas as enfermeiras da UNICAMP pela ação. Ela agradeceu e terminou a mensagem com uma frase curta, acompanhada de um emoji em lágrimas: – Está difícil!

Tento segurar a raiva quando leio ou vejo pessoas minimizando essa pandemia. Tento me colocar no lugar de minha sobrinha, e não tenho receio em afirmar que apenas a ideia de entrar em um hospital repleto de gente contaminada me deixa apavorado. Ela e milhares de outros vão, cotidianamente, dentro da normalidade profissional que adotaram. Não cogitam abandonar o posto, as funções. Médicos, enfermeiras, atendentes, pessoal da cozinha, pessoal da limpeza, administradores enlouquecidos para conseguir máquinas e remédios… Quantos estão na mesma situação, diariamente encarando a triste realidade de gente desesperada, muitas derrotadas pelo COVID?

Presencio uma abertura temerária, muita gente indo às ruas por interesses mesquinhos, ignorando os cuidados mínimos necessários perante o vírus. Isto diante de um quadro que agora, ao escrever este texto, dá como oficial 41.828 óbitos e 828.810 casos, e as pessoas não se sensibilizam. Não deve ser difícil, no mínimo, encontrar um conhecido entre os infectados ou mortos. Nem todos têm ou terão um familiar trabalhando diretamente com as vítimas do corona vírus, no entanto, a pergunta vem: será necessário ter no mínimo um morto em cada família para que o Brasil tome os cuidados e faça as ações necessárias?

Envio aqui todo o meu carinho e cuidado para com os profissionais da saúde que enfrentam diariamente os efeitos e consequências da pandemia. Peço todas as orações possíveis pela saúde dessa gente, para que possam continuar cuidando da nossa saúde. Fico rezando e pedindo a Deus por essas enfermeiras que, além do difícil trabalho, ainda entram nos quartos e, com voz calma e terna, certamente segurando a emoção, leem mensagens – talvez as últimas – de familiares para os doentes. Que Deus guarde todos!

Até mais!

Sete Meninas Sobre Dois Meninos

meninasSete meninas, mulheres especiais, escreveram publicamente e/ou enviaram mensagens sobre meu livro, o romance Dois Meninos – Limbo. Estou feliz! Coloquei em ordem alfabética, pra ser justo. A descrição inicial do livro é de Marise De Chirico:

Somos transportados para a São Paulo dos anos de 1990, com sua noite frenética e o assombro do surgimento da AIDS. Infiltrado nesse cotidiano de medo e incertezas, o texto descortina a história de dois meninos, a amizade, a solidariedade e o amor.

Angélica Leytwiller (música)

“O livro é realmente maravilhoso, competente, audacioso e histórico. Forte, intenso e, ao mesmo tempo, de uma sensibilidade comovente…”

Kelly Cristiane Silva (pedagogia)

“Me fez chorar como há muito não chorava lendo algo… Envolvente, sensível, mas com toda
Originalidade do autor.”

Lisa Yoko (artes)

“Tenho certeza que também sua carreira como escritor será muito bem sucedida, Valdo Resende!”

Marise de Chirico (design)

“Fiquei imantada de amor, de tristeza, de alegria… coisa da vida, mesmo!”

Monica Birchler Vanzella Meira (marketing)

“Creio que um grande escritor tem o dom e o poder de recontar as paixões humanas, mesmo aquelas que não viveu. Mas neste romance, meu caro, sua alma está nele.”

Nina Borges do Amaral (letras)

“Do romance de Valdo Resende, fica a triste constatação do preconceito e do descaso de toda uma sociedade em relação aos portadores do vírus HIV, mas também a promessa de um futuro em que as batalhas não mais sejam necessárias…”

Vânia Maria Lourenço Sanches (história)

“João tinha acabado de nascer e foi entregue aos braços de João, o outro… Esses dois meninos voltaram ao meu pensamento quando li “Dois Meninos – Limbo”.

Obrigado, meninas!