No Olho do Furacão

Imagem capturada do Jornal + Ruchela, no destaque.

O Jornal Nacional abre uma matéria com as enfermeiras do Hospital da Unicamp, em Campinas, no interior de São Paulo. Gatilho é a palavra da hora para me ligar diretamente ao assunto e vejo, em um grupo de profissionais entrevistadas no jardim da instituição, a silhueta de alguém que pode ser a minha sobrinha. Redobro a atenção e quando a câmera se aproxima vejo que era apenas um corte de cabelo que provocou-me o alerta. Sim, tenho uma sobrinha no olho do furacão chamado COVID.

A pandemia chegou de forma trágica em minha família com o falecimento de um primo. Na mesma Campinas. A morte de Renato Marcos Antunes Batbuta, no final de março deste ano, entristeceu família e parentes e, ao mesmo tempo, impôs a todos nós os cuidados necessários para evitar contaminação. Fechamo-nos em nossas casas, saindo para o estrito necessário, mas minha sobrinha Ruchela Martini de Resende continuou seu trabalho. Ela é enfermeira padrão e o seu trabalho no Hospital da Unicamp vem de longe.

A AIDS foi, provavelmente, a primeira grande tragédia que a jovem enfermeira, mal saída da faculdade, teve que enfrentar. Não sei quantos e é certo que ela não contabilizou os mortos em decorrência da AIDS no hospital onde atua. Um trabalho tenso guardado pela discrição da profissional que pouco, posso afirmar raramente, comentou em rodas familiares os dramas presenciados pelo vírus HIV. Todavia, e é muito estranho escrever isso, foi mais fácil. O contágio pelo HIV envolve comportamentos específicos, contato direto com o portador.

Fico pensando na menina (pra mim, sempre será uma menina) acordando, tomando cuidados antes de sair de casa e, chegando ao trabalho, redobrar cuidados para cuidar de pessoas em estado crítico. O vírus está no ar. Tenso! Há setores inteiros destinados aos infectados pelo COVID e ontem, no jornal da Globo, o destaque foi para uma ação extra das enfermeiras, levando e lendo cartas de parentes aos isolados pela doença.

Evito puxar assunto e discutir com ela os atuais acontecimentos. Em mensagens sintéticas ela me diz da preocupação pela falta de isolamento das pessoas, pelo não uso de máscaras. Hoje pela manhã, o que me levou a escrever este texto foi enviar uma mensagem para Ruchela, comentando e cumprimentando todas as enfermeiras da UNICAMP pela ação. Ela agradeceu e terminou a mensagem com uma frase curta, acompanhada de um emoji em lágrimas: – Está difícil!

Tento segurar a raiva quando leio ou vejo pessoas minimizando essa pandemia. Tento me colocar no lugar de minha sobrinha, e não tenho receio em afirmar que apenas a ideia de entrar em um hospital repleto de gente contaminada me deixa apavorado. Ela e milhares de outros vão, cotidianamente, dentro da normalidade profissional que adotaram. Não cogitam abandonar o posto, as funções. Médicos, enfermeiras, atendentes, pessoal da cozinha, pessoal da limpeza, administradores enlouquecidos para conseguir máquinas e remédios… Quantos estão na mesma situação, diariamente encarando a triste realidade de gente desesperada, muitas derrotadas pelo COVID?

Presencio uma abertura temerária, muita gente indo às ruas por interesses mesquinhos, ignorando os cuidados mínimos necessários perante o vírus. Isto diante de um quadro que agora, ao escrever este texto, dá como oficial 41.828 óbitos e 828.810 casos, e as pessoas não se sensibilizam. Não deve ser difícil, no mínimo, encontrar um conhecido entre os infectados ou mortos. Nem todos têm ou terão um familiar trabalhando diretamente com as vítimas do corona vírus, no entanto, a pergunta vem: será necessário ter no mínimo um morto em cada família para que o Brasil tome os cuidados e faça as ações necessárias?

Envio aqui todo o meu carinho e cuidado para com os profissionais da saúde que enfrentam diariamente os efeitos e consequências da pandemia. Peço todas as orações possíveis pela saúde dessa gente, para que possam continuar cuidando da nossa saúde. Fico rezando e pedindo a Deus por essas enfermeiras que, além do difícil trabalho, ainda entram nos quartos e, com voz calma e terna, certamente segurando a emoção, leem mensagens – talvez as últimas – de familiares para os doentes. Que Deus guarde todos!

Até mais!

Sete Meninas Sobre Dois Meninos

meninasSete meninas, mulheres especiais, escreveram publicamente e/ou enviaram mensagens sobre meu livro, o romance Dois Meninos – Limbo. Estou feliz! Coloquei em ordem alfabética, pra ser justo. A descrição inicial do livro é de Marise De Chirico:

Somos transportados para a São Paulo dos anos de 1990, com sua noite frenética e o assombro do surgimento da AIDS. Infiltrado nesse cotidiano de medo e incertezas, o texto descortina a história de dois meninos, a amizade, a solidariedade e o amor.

Angélica Leytwiller (música)

“O livro é realmente maravilhoso, competente, audacioso e histórico. Forte, intenso e, ao mesmo tempo, de uma sensibilidade comovente…”

Kelly Cristiane Silva (pedagogia)

“Me fez chorar como há muito não chorava lendo algo… Envolvente, sensível, mas com toda
Originalidade do autor.”

Lisa Yoko (artes)

“Tenho certeza que também sua carreira como escritor será muito bem sucedida, Valdo Resende!”

Marise de Chirico (design)

“Fiquei imantada de amor, de tristeza, de alegria… coisa da vida, mesmo!”

Monica Birchler Vanzella Meira (marketing)

“Creio que um grande escritor tem o dom e o poder de recontar as paixões humanas, mesmo aquelas que não viveu. Mas neste romance, meu caro, sua alma está nele.”

Nina Borges do Amaral (letras)

“Do romance de Valdo Resende, fica a triste constatação do preconceito e do descaso de toda uma sociedade em relação aos portadores do vírus HIV, mas também a promessa de um futuro em que as batalhas não mais sejam necessárias…”

Vânia Maria Lourenço Sanches (história)

“João tinha acabado de nascer e foi entregue aos braços de João, o outro… Esses dois meninos voltaram ao meu pensamento quando li “Dois Meninos – Limbo”.

Obrigado, meninas!