
A letra de um samba de 1930, autoria de Vicente Paiva e Anibal Cruz tem esses versos na música gravada por Carmen Miranda: “Cantei em São Paulo, cantei no Pará / Tomei chimarrão, comi vatapá…”. Numa tacada são quatro citações de quatro regiões brasileiras que, penso, deveriam estar entre possíveis destinos de todos nós. Longe de um ufanismo fora de hora, a questão mesmo é a beleza e a diversidade ambiental da nossa terra que, infelizmente, valorizamos pouco, conhecemos menos ainda e, talvez por isso, mal cuidamos. Essa introdução se justifica no fato de a Amazônia estar em foco neste momento.
Em Belém, a capital do Pará, se discute na Cúpula da Amazônia os problemas e o futuro da região visada pelo mundo inteiro. Uma mega floresta, imensos recursos hídricos, outro tanto de possibilidades em extração mineral, uma rica fauna… E, da maior importância, a presença dos donos da terra, os povos originários em constante ameaça pela ganância dos ditos civilizados. Há que se cuidar da Amazônia! Para além das nossas fronteiras, toda a Amazônia. E para o desenvolvimento sustentável da região é preciso considerar a estrutura necessária para que seus 50 milhões de habitantes tenham uma vida digna.
Quando penso na Amazônia me vem outras regiões, outros ecossistemas. Penso nos Pampas gaúchos, no Pantanal mato-grossense, na Caatinga nordestina, no Cerrado do centro-oeste e, guardando milhares de quilômetros da nossa costa, a diversa paisagem litorânea da Mata Atlântica, além das nossas belíssimas praias. Tanta riqueza merece pelo menos uma visitinha ao longo da vida. O planeta é maravilhoso e é lícito querer conhecer o deserto do Saara, as montanhas do Himalaia, descer o Danúbio, caminhar pela Muralha da China. Mas, seria possível incluir nos roteiros de futuras férias esse Brasil, rico e diverso? Antes que ele acabe.
Parece exagero afirmar o risco do fim. Mas não é. Uma cidade como São Paulo, para exemplificar, não conta com um único córrego despoluído. Esses mesmos córregos que contribuíram para poluir os principais rios que cortam a capital, o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí. As margens plácidas do Ipiranga, cantadas cotidianamente em nosso hino, ficaram na história. E assim como o riacho histórico, carece cuidar para que no futuro não estejam somente na história nossa fauna e flora. Se o caro leitor acha que estou exagerando solicito ao distinto que enumere quantos pés de pau-brasil já teve oportunidade de ver? Poderia colocar nessa solicitação também alguns outros “pés”: Jequitibá-branco, Ipê, Araucária, Mogno… Já perdemos tanta coisa!
Nossa diversidade sofre por ações de gente ignorante e inconsequente, algo que herdamos de quando o país foi invadido pelos portugueses. O desmatamento desenfreado começou com a exploração do pau-brasil, assim como a monocultura que empobrece a terra teve início com os canaviais do período colonial. A exploração mineral, desde o ouro encontrado em Minas Gerais, segue rumo a outros países que enriquecem seus cofres e, por exemplo, com o ferro, importam o minério para nos vender produtos industrializados. Hoje sofremos o avanço indiscriminado do tal Agro que repete erros já conhecidos. Se as pessoas buscassem o motivo de a China não plantar soja descobriria que o cultivo indiscriminado não paga o prejuízo que temos e teremos por conta da água potável necessária para tal cultivo. Quanto ao desmatamento e às queimadas, o calor vigente responde já sobre as consequências que, a ciência alerta, irão piorar.
Para tudo há conserto, diziam nossos avós. Sai caro! Além do que já foi gasto para despoluir o Tietê, o governo de São Paulo promete investir R$ 5,6 bilhões para despoluir o rio. Essa promessa vem de outros governos e nada nos garante que será cumprida. Assim, deve levar algumas décadas para que paulistanos possam voltar a pescar, navegar e nadar em seus rios. Quanto nos custaria recuperar a Mata Atlântica? E se for necessário recuperar o Cerrado, o Pantanal, a floresta Amazônica? Haja imposto para tanto! E resta saber se haverá vida e saúde para isso.
“Cantei em São Paulo, cantei no Pará / Tomei chimarrão, comi vatapá…” são os versos da canção e sugiro outros mais: nos deliciarmos com as cachaças das montanhas de Minas, o sol de Ipanema e, se a gente fizer tudo direitinho com nosso país, poderemos até caminhar novamente sob a garoa paulistana. Mais, muito mais! Dançar com as prendas do sul e sambar o samba de roda do recôncavo baiano. Comer arroz com pequi em Goiás, arroz de cuxá ouvindo os tambores de crioula do Maranhão, arroz de carreteiro no Pantanal… Arrematar tudo com uma caldeirada de tucunaré com a paçoca de Tocantins. E para que toda essa possível festa tenha razão de ser é necessário que cada região esteja bem cuidada, inteira, nos propiciando o que há de melhor.
Nas próximas férias, que tal programar conhecer ou visitar uma das nossas reservas ambientais? Enquanto as férias não chegam, que tal nos mantermos alertas para agir em prol da diversidade brasileira? Um apoio necessário para que esse país “lindo e trigueiro” continue sendo abençoado por Deus.


