Caminhantes noturnos

foto: Valdo Resende

No início da madrugada, o carro deslizando com velocidade sobre o asfalto, as construções às margens da estrada tornaram-se o que, ultimamente, as pessoas chamam gatilho. Prefiro escrever que acionaram lembranças, despertaram memórias. Tentei em vão visualizar a escola onde lecionei, assim como a empresa em que trabalhou um grande amigo. Já haviam ficado para trás.

Entramos em um trecho em que, seguramente, eu não passava há oito, dez anos. Os versos da canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil tornados realidade: “Tudo ainda é tal e qual, e no entanto nada é igual”. A capital São Paulo, gigante que nunca dorme, é o cenário de milhões e milhões de histórias. Sou um cisco irrelevante, incapaz de acordar a cidade. Mas ali estão as minhas lembranças, testemunhas do que vivi.

Houve um dia em que, após passar em um concurso, saí de Santo André, no ABC, em direção à Rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque. Uma imensa chuva provocara enchente e o trânsito, parado, me impedia atravessar um trecho da Avenida do Estado. Eu não conhecia a cidade e, preocupado em chegar no horário a tempo de realizar a entrevista de admissão, resolvi contornar a enchente tendo como rumo os edifícios centrais, o norte correto dado pela torre do antigo Banespa, hoje sede e propriedade privada.

Próximos de entrar no elevado sobre o Rio Tamanduateí percebi, que a fábrica da Arno não está ali, onde sempre esteve. Quando será que fechou? Ainda existe tal marca? Também, há séculos não careço comprar eletrodomésticos. Ficou para trás a fábrica, também ficou no passado a gravadora de discos que me encantava por saber que Ângela Maria, Elza Soares e Miltinho gravaram discos ali, em qual prédio mesmo? O da esquina, próxima da igreja horrorosa e caça níquel do outro lado da avenida, tão cheia de luzes quanto uma padaria.

Senti vontade de voltar ao Ipiranga, passar pela Avenida Nazaré e chegar ao antigo Instituto de Artes, onde estudei. Mas já descemos do viaduto sobre o rio e evito olhar para o quartel, prestando atenção na Estação do Metrô Pedro II. Sinto-me a caminho de casa. Entramos no trecho da Radial Leste que ligará com o Elevado João Goulart, o Minhocão. Durante quarenta anos passei por essas avenidas e ruas, praças e parques. Estou a caminho de casa.

Meus companheiros de viagem ignoram meus pensamentos, conversam sobre os benefícios do alho, cru, em pedaços. O chá é bom, mas perde um pouco a potência e retarda o efeito curativo. Chá de alho! O motorista segue atento ao tráfego e ignora a entrada para meu antigo lar. É rápido e já passamos em frente ao Teatro Oficina. Meu destino deixa de ser minha casa para ser meu trabalho. O carro faz parte do trajeto que percorri nos últimos anos antes de me aposentar.

Sob o elevado, em um semáforo fechado da Avenida Amaral Gurgel, percebo ainda os resquícios de noites efervescentes da década de 80. Passava por ali em direção ao CPT de Antunes Filho, andava de um lado para o outro para cobrir eventos das boates da região para a revista em que escrevi, onde vi os primeiros shows de sexo explícito, presenciei uma briga tenebrosa no Bar Quadrado, em frente ao Bar Redondo em madrugada como esta, em que atravessamos a cidade rumo ao lar dos nossos hóspedes.

Nosso destino é a Avenida Barão de Limeira, que conheci em relações de trabalho com a Folha de São Paulo. Chegamos ao destino. Despedidas rápidas, pois é tarde e o domingo já está prestes a receber os primeiros raios de sol. O frio é intenso e eu quero voltar para casa, a de agora, no litoral onde a temperatura mesmo fria é sempre mais amena que na Capital.

Estou cansado. A noite foi intensa e todas as lembranças que vieram à tona misturaram-se a flashs de outras histórias, muitas pessoas, vários lugares. Se acionadas com tempo sei que estão todas dentro de mim. Alguns deslizes e falharão as datas corretas, os nomes completos. Um ou outro detalhe se perdeu, talvez com hipnose seja resgatado, mas se foi perdido que fique por lá. Importa o que emergiu, o que está quente, pleno de vida dentro de mim.

Ah, São Paulo! Só um momento, só pequenas lembranças de um ser comum. Quantas outras em seus milhões de habitantes? Outras tantas em viajantes, já distantes. Volto à Caetano para afirmar que o “errante navegante, quem jamais te esqueceria”. São Paulo não é a minha terra. É a maior parte da minha vida!  De tantos outros que, trafegando madrugada adentro por suas ruas e avenidas, se derretem de amor e gratidão, até mesmo pelo emprego perdido por não chegar à tempo por conta de uma enchente.

São Paulo, 09/08/2025. Para meus companheiros de viagem, Patrícia Remondini, André Manzoni e Flávio Monteiro. O título desta crônica refere música d’Os Mutantes (Arnaldo Batista e Rita Lee). Os alhos, ruinzinhos, estavam expostos no supermercado. Não comprei.

A maior!

Semana em que Elis Regina e Nara Leão estão em foco na mídia brasileira. Que ótimo relembrar e homenagear essas artistas extraordinárias. Nas diferentes matérias sobre as duas cantoras invariavelmente recai sobre Elis o adjetivo maior. “A maior!”. Ninguém discorda; nem deve, nem pode. No entanto…

Provavelmente por sermos subdesenvolvidos, nós, brasileiros, tenhamos essa coisa do tamanho das coisas. O maior estádio, a maior usina hidrelétrica, a maior ponte… Esses exemplos arquitetônicos foram utilizados durante a ditadura militar, afinal os caras precisavam de dar motivos de orgulho para a gente do país. Mais ou menos nessa época a própria Elis disse em uma ou outra oportunidade que Maísa era a maior cantora, ou Gal Costa a maior cantora. Para Maria Bethânia reservaram o “a maior intérprete”.

A febre do “maior” veio depois de diferentes reinados. Nostalgia dos tempos coloniais, sem ter por aqui o charme das nobrezas europeias, inventamos títulos para praia – Quem não conhece “a princesinha do mar”? – criamos reis da voz, rainhas do rádio, rei da juventude, rei do baião, rainha da Jovem Guarda e, entre outros, para ficar bem claro que ainda não dispensamos as titulações nem mesmo em plena pandemia, agradecendo o trabalho de Teresa Cristina, elegendo-a Rainha das Lives. Serei sempre grato à cantora e compositora pelas noites em que nos salvou do desespero.

Afeto e reconhecimento estão entre diferentes sensações que caminham junto e em ordem invariável quando citamos nossas referências, nossas preferências. Se concordamos que Elis Regina é a maior, onde colocamos Nana Caymmi, Mônica Salmaso, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Elza Soares, Maria Bethânia, Alcione, Daniela Mercury? Caramba, ia deixando Dalva de Oliveira de fora, a Gal Costa! A Clara Nunes! Podemos colocar quantas cantoras na tal lista “A maior”?

As cantoras citadas no parágrafo anterior nos legaram (legam, ainda!) registros incríveis de inquestionável qualidade vocal. Todas elas, em um ou outro momento, nos arrebatam com suas interpretações e terão, como disse Elis, “a durabilidade do disco”, o que a gente sabe, graças à tecnologia, que essas vozes deverão estar por muito tempo conosco. Elis e Nara têm histórias peculiares em comum (veja aqui), mas neste texto quero enfatizar outros aspectos.

Nara Leão é páreo – se a gente necessitasse disso – para qualquer artista do mundo quando se coloca a representatividade como parâmetro. Milhares de quilômetros distanciam Nara de Leny Eversong, se pensamos em potência vocal. Sem dúvidas, é possível reconhecer e confirmar que o “fio de voz” de Nara foi mais forte que o de Lenny, ou de qualquer outra cantora. A moça rica de Copacabana norteou a Bossa Nova, subiu o morro e nos legou poesia e protesto, assinou junto com o pessoal da Tropicália e mandou às favas os preconceitos em relação a Jovem Guarda. Não é lero-lero. Comprova-se na discografia!

Elis Regina é páreo – e ela não precisa disso – para qualquer cantora do mundo quando se alia técnica e expressão, potência e domínio vocais. Representou como poucas a época em que viveu, mais ainda, sendo um retrato fiel do brasileiro: o ser batalhador que é arrimo de família, que enfrenta forças adversas para ganhar espaço. Nara, rica, fez o que bem quis e, cá para nós, sorte a dela. Elis, brigou feito fera para fazer o que queria, como queria. Briga com gravadoras, empresários, com o governo, com o universo machista onde transitou, brigas que precisavam levar em conta a necessidade de sustentar os seus.

Legal refletir sobre “a (o) maior” principalmente para uma juventude que, penso eu, confunde o ato de cantar com grito. É só assistir o The Voice” para confirmar a gritaria. É complicado abrir espaço profissional e, nesse país do “a maior” e dos “reis e rainhas de quase tudo”, o jovem já chega por baixo. Esquece a suavidade da Bossa Nova, por exemplo. João Gilberto ganhou o mundo colocando a voz em registro suave, como Nara e, na maturidade, Maria Bethânia. Dóris Monteiro é inesquecível e entre as cantoras atuais, Marisa Monte e Maria Rita sabem dosar potência e suavidade, brindando-nos com momentos deliciosos. Subir a voz é força expressiva. Todo cantor deveria aprender isso com Elis Regina, assim como a professora de suavidade – sem esquecer a precisão da expressão – é Nara Leão. As duas – em polos distintos – representam o que há de melhor em nossa música.

A imprensa usou e abusou da rivalidade entre cantoras. Não voltarei ao assunto (Veja aqui), posto que vejo pouca ou nenhuma novidade sobre a questão. A prática continua. Fora dessa necessidade de audiência, podemos refletir e discutir essa questão da adjetivação dos nossos artistas. São grandes, são maiores. Nunca em detrimento aos pares. São imensos em determinado momento, são fundamentais em outros. O que devemos é conhecer, reconhecer e agradecer quando houver o excelente trabalho de cada cantora, de cada artista. Há lugar para todo mundo.

Nos tempos dos registros físicos – discos em compacto, ou long play, fitas cassete, cds – o espaço era problema e, por isso, escolhi vozes femininas para minha coleção de discos. Uma razoável coleção de cds, indo de Aracy de Almeida à Zizi Possi. Ouço Elis tanto quanto ouço Maria Alcina, Evinha, Tetê Espíndola. Dedico horas à Zezé Motta, Beth Carvalho e também ao Quarteto em Cy. Giane e Inezita Barroso, tanto quanto Clementina de Jesus ocupam lugar especial e por aí vai. De A a Z, deixo rolar à vontade e, para lembrar um verso de Joyce Moreno, gosto de “canções que ninguém escuta”. Tenho muita coisa da Elis Regina, da Nara Leão, da Gal Costa. Quase tudo da Maria Bethânia, e quem me conhece sabe o lugar que Wanderléa tem no meu coração. Todas grandes! Todas são “a maior”!

Salve, Elis Regina! Salve, Nara Leão!

Um salve maior para todas as cantoras do Brasil!

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As fotos que ilustram este post estão em capas de disco de Elis (1977) e Nara (1968).